quarta-feira, setembro 30, 2020

A Fazenda Real de Santa Cruz, ou Fazenda dos Jesuítas



A Fazenda Imperial de Santa Cruz (ou Fazenda de Santa Cruz, Fazenda Real de Santa Cruz, ou Fazenda dos Jesuítas, ou, ainda, Fazenda Nacional de Santa Cruz [1] foi uma fazenda fundada por Cristóvão Monteiro em 1556 nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. Sua sede e núcleo principal corresponde hoje ao bairro carioca de Santa Cruz.

Fazenda dos Jesuítas

Após o Descobrimento do Brasil, com a chegada dos colonizadores portugueses à baía da Guanabara, em 30 de dezembro de 1556 foi doada a Cristóvão Monteiro, da Capitania de São Vicente, uma sesmaria como recompensa aos serviços prestados durante o combate aos invasores franceses da Guanabara. A sesmaria foi destinada à produção de açúcar e compreendia uma larga área desde a orla marítima da atual Sepetiba até as proximidades de Itacuruçá,[2] com cerca de quatro léguas de largura por 10 léguas de extensão.[3] A sede da fazenda começou a ser construída em 1570.[4] Ao morrer Cristóvão Monteiro, a sua esposa, dona Marquesa Ferreira, doou aos padres da Companhia de Jesus sua parte das terras.[5]

Os religiosos agregaram estas terras a outras sesmarias, constituindo um imenso latifúndio assinalado por uma grande cruz de madeira: a Santa Cruz. Em poucas décadas, a região compreendida entre a barra de Guaratiba, o atual município de Mangaratiba, até Vassouras, no sul do atual Estado do Rio de Janeiro, integrava a poderosa Fazenda de Santa Cruz, o maior complexo agropastoril do Brasil durante o século XVIII, contando com milhares de escravos, cabeças de gado, e diversos tipos de cultivos, como arroz, milho, feijão, batata e mais tarde o café.[2]

Entre as edificações, hoje com valor histórico, contam-se igreja e um convento, ambos ricamente decorados. Uma dessas obras remanescentes é a chamada Ponte do Guandu ou Ponte dos Jesuítas. Na verdade uma represa, foi erguida em 1752, com a finalidade de regular o volume das águas das enchentes do rio Guandu. Atualmente, esse monumento permanece com a sua estrutura original quase inalterada.

Outra das iniciativas dos dirigentes da Fazenda de Santa Cruz, no plano da cultura, foi a fundação de uma Escola de Música, de uma Orquestra e de um Coral, integrados por escravos, que tocavam e cantavam nas missas e nas festividades quer na Fazenda, quer na Capital da Capitania. Considera-se, por essa razão, que Santa Cruz foi o berço da organização instrumental e coral do primeiro Conservatório de Música no Brasil.[5]

Passa pelas terras da Fazenda de Santa Cruz a trilha que no período colonial ligava a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro ao sertão: o Caminho dos Jesuítas, posteriormente denominado Caminho das Minas, e posteriormente ainda, Estrada Real de Santa Cruz. O seu percurso estendia-se até ao porto de Sepetiba, onde se embarcava com destino à cidade de Parati, de onde partia a antiga Estrada Real.

Família Real

Diante da expulsão dos Jesuítas dos domínios de Portugal e suas colônias, em 1759 por ação do Marquês de Pombal, o patrimônio da Companhia de Jesus (e a Fazenda de Santa Cruz) reverteu para a Coroa,[5] passando a se subordinar aos Vice-reis.[2] Após um período de dificuldades administrativas, sob o governo do Vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza, a Fazenda voltou a conhecer um período de prosperidade.

No início do século XIX, com a chegada da Família Real ao Brasil (1808) e o seu estabelecimento no Rio de Janeiro, a fazenda foi escolhida como local de veraneio. Desse modo, o antigo convento foi adaptado às funções de paço real, o Palácio Real de Santa Cruz, recebendo nova mobília e decorações. Sentindo-se confortável na Real Fazenda de Santa Cruz, o Príncipe Regente prolongava a sua estada por vários meses, despachando, promovendo audiências públicas e recepções a partir da mesma. Nela cresceram e foram educados os príncipes D. Pedro e D. Miguel.[5] Porém, segundo o comerciante inglês John Luccock, que conheceu a fazenda nesta época, o edifício principal estava em bom estado, ainda que o considerasse simples demais para servir de pousada para um monarca, mas a maior parte da propriedade estava em uma condição de abandono.[6]

Em 1812 foi autorizada a entrada de 400 chineses no Brasil, parte deles encaminhada para a plantação experimental de chá, no sítio hoje conhecido como Morro do Chá.[7] Durante quase um século essa atividade foi produtiva e atraiu o interesse de técnicos e visitantes, tal o pioneirismo de sua implantação no Brasil. No entanto, de acordo com o jornalista Patrick Wilcken, no seu livro Império à Deriva (2010), o chá-da-índia cultivado em solo brasileiro não apresentou as mesmas características originais, sendo de qualidade inferior e de gosto amargo, o que acarretou em fracasso econômico ao contrário do café.

Por iniciativa do soberano português a capela musical da fazenda, que sobrevivia em precária condição, foi reativada e reforçada com a designação de dois professores, Quintiliano José de Moura e Inácio Pinheiro da Silva. Em 1810 o grupo já funcionava regularmente com coro e orquestra e em 1814 atuavam ali cinquenta músicos, homens e mulheres, todos escravos. José Maurício Nunes Garcia passou temporadas na fazenda acompanhando o rei e compôs peças para o conjunto. Marcos Portugal e seu irmão Simão Portugal também deixaram obras. Os integrantes frequentemente eram requisitados para apresentações solenes na Capela Real do Rio de Janeiro e no grupo de câmara mantido por D. João no Palácio da Quinta da Boa Vista, além de serem emprestados ou alugados por terceiros para abrilhantar festas privadas, o que é um indicativo da alta qualificação atingida. Spix e Von Martius disseram que a música era executada "com muita perfeição". Esse conjunto permaneceu ativo até o Segundo Reinado. D. Pedro II muitas vezes regeu pessoalmente as apresentações.[6]

Em 1817, arquiteto inglês John Johnson, contratado no governo do Rei D. João VI para fazer a ampliação e reforma do Palácio da Quinta da Boa Vista. Como registrou o pintor austríaco Thomas Ender, o Palácio Real de Santa Cruz também passa por reformas e ampliações, mas o projeto do arquiteto inglês não foi levado em consideração. [8]

D. João VI despediu-se de Santa Cruz em 1821, para retornar à Metrópole Portuguesa. Em sua partida o palácio ainda estava em obras. Maria Graham deixou um testemunho do seu aspecto pouco tempo depois:

"A parte nova foi feita pelo rei D. João VI, mas os trabalhos se interromperam com sua partida. Os apartamentos são belos e mobiliados com conforto. Neste clima, as tapeçarias de parede, quer de papel, quer de seda, estão sujeitas a rápido estrago por causa da umidade e dos insetos. As paredes são, pois, rebocadas com um ótimo barro branco-amarelado rico e grosso, chamado tabatinga, e as cornijas e barras pintadas a fresco. Algumas destas são extremamente belas quanto ao desenho. Geralmente são muito bem executados os arabescos das frisas, compostos de frutas, flores, pássaros e insetos do país. Uma das salas representa um pavilhão, e entre as pilastras abertas, está pintada a paisagem em torno de Santa Cruz, não muito bem, realmente, mas a peça é agradável e alegre. Os artistas empregados eram principalmente mulatos e negros crioulos".[6]

Primeiro Reinado

Após o regresso de D João VI a Portugal, o Príncipe-Regente D. Pedro continuou constantemente presente em Santa Cruz, passando sua lua de mel com a Imperatriz Leopoldina (1818) nesta fazenda.[5]

No contexto da Independência do Brasil, antes de iniciar a história viagem da Independência, o príncipe-regente deteve-se em Santa Cruz, onde aconteceu uma reunião no dia 15 de agosto de 1822, com a presença de José Bonifácio, para estabelecer as suas bases. Ao regressar, antes de seguir até a cidade, comemorou a Independência do Brasil na Fazenda. Durante o Primeiro Reinado, o Palácio Real transformou-se em Palácio Imperial.

Segundo Reinado

D. Pedro I abdicou do trono, mas os seus filhos continuaram a manter presença constante na Fazenda Imperial de Santa Cruz. Desde cedo, D. Pedro II e as princesas promoviam concorridos bailes e saraus no Palácio Imperial.

Santa Cruz, por sua posição político-econômico e sobretudo estratégica (frente para o mar e fundos para os caminhos dos sertões de Minas) foi uma das primeiras localidades do País a se beneficiar com o sistema de entrega em domicílio de cartas pelo correio. Em 22 de novembro de 1842 foi inaugurada a primeira Agência fixa dos Correios do Brasil, primeira também a adotar este serviço.

Dom Pedro II também instalou o primeiro telefone no Palácio Imperial de Santa Cruz, para comunicação com o Paço de São Cristóvão.[5] Em 1861 o curato da fazenda passou para a administração franciscana,[2] em 1878 foi inaugurada a estação de trem e no final de 1881, D. Pedro II inaugurou o Matadouro de Santa Cruz, tido como o mais moderno do mundo à época, que era servido por um ramal da estrada de ferro e abastecia de carne toda a cidade do Rio de Janeiro.

Em 1885 D. Pedro fundou uma escola no local, a Escola Mista da Imperial Fazenda de Santa Cruz, mantida com seus próprios recursos, com aulas de Geografia, Francês, Religião, Leitura, Escrita, Gramática Portuguesa, Aritmética, Sistema Métrico, História do Brasil, Desenho Linear e Figurado, História Natural, Música, Ginástica e Costura, e com ensino profissionalizante para formação de carpinteiros, marceneiros, torneiros, ferreiros, serralheiros, alfaiates, sapateiros, oleiros, relojoeiros e funileiros, sendo destinada aos filhos dos funcionários da Casa Imperial. Contava também com um pavilhão esportivo, biblioteca e museu, adotando padrões progressistas de ensino num ambiente que seguia disposições científicas e higienistas, a fim de assegurar a qualidade da aprendizagem, a salubridade e o conforto.[9]

República e tempos atuais

No fim do império grande parte da fazenda já estava ocupada por posseiros, agricultores e empresários, e já tinha vários núcleos de povoamento urbano.[3] Com o passar dos anos, a arquitetura do prédio principal da Fazenda de Santa Cruz passou por uma série de modificações, devido aos novos usos. No período republicano foi incorporada ao patrimônio da União e passou a se chamar Fazenda Nacional de Santa Cruz.[10] Neste período foi acrescentado um novo pavimento à sua sede, onde hoje está estabelecido o Batalhão Escola de Engenharia.

A partir de 1967 o governo do estado decidiu implantar na área da fazenda um distrito industrial, o que significou uma rápida urbanização, sendo abertas rodovias, rede de abastecimento de água, sistema de iluminação e telecomunicações.[11]

Originalmente duas vezes maior que a área da cidade do Rio de Janeiro, hoje vivem dentro dos seus antigos limites mais de 200 mil pessoas, gerando um grande problema de regularização fundiária.[10] A extensa fazenda desde o período colonial foi sendo ocupada por agricultores e pecuaristas, que recebiam aforamentos, arrendamentos e outras autorizações para usufruto e trabalho, mas foram tantas, e concedidas de maneira tão assistemática, que a situação legal da propriedade se tornou muito complexa e confusa, situação complicada pelo fato de que muitos dos registros antigos foram perdidos.[3] Em 2011, dos 225 mil hectares iniciais, restavam 80 mil hectares ainda sem regularização, divididos em 60 mil propriedades, em sua maioria sem título de posse. Atualmente a fazenda cobre partes dos bairros de Santa Cruz e Sepetiba, no Rio, e dos municípios de Itaguaí, Seropédica, Paracambi, Japeri, Engenheiro Paulo de Frontin, Mendes, Piraí e Rio Claro.[10]

Referências

1.↑ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del0893.htm

2.↑ a b c d Pereira, Júlio César Medeiros da Silva. "Práticas de saúde, doenças e sociabilidade escrava na Imperial Fazenda de Santa Cruz, da segunda metade do século XIX" . In: Histórica — Revista do Arquivo Público do Estado de São Paulo, 2009 (35)

3.↑ a b c Pedroza, Manoela & Sobral, Henrique. "Algumas possibilidades de acumulação fora do mercado da elite imperial brasileira no século XIX (Fazenda Imperial de Santa Cruz, Rio de Janeiro, 1808-1840)" . In: História e Economia: Revista Interdisciplinar, 2015; 14 (1):67-86

4.↑ Mendes, Wilson. "Santa Cruz, sede de verão do governo imperial, guarda bens e luta para preservar a sua memória" . Extra Globo, 03/03/12

5.↑ a b c d e f Lucena, Felipe. "História da Fazenda de Santa Cruz" . Diário do Rio, 24/03/2018

6.↑ a b c Cardoso, André. A Música na Corte de D. João VI. Martins Fontes, 2008, pp. 119-124

7.↑ Guariglia, Ana Maria. "Mostra traz arte e imigração na China". Folha de São Paulo, 26/11/1997

8.↑ «Antigo Santa Cruz» . www.facebook.com. Consultado em 5 de setembro de 2018

9.↑ Beaklini, Adriana Valentim & Bonato, Nailda Marinho da Costa. "A Escola Mixta da Imperial Fazenda de Santa Cruz: uma proposta de ensino profissional do imperador D. Pedro II" . In: Anais do IX Seminário nacional de Estudos e Pesquisas — História, Sociedade e Educação no Brasil. Universidade Federal da Paraíba, 31/07-03/08/2012

10.↑ a b c "Incra busca regularizar 60 mil casas em antiga fazenda imperial" . Terra Notícias, 16/05/2011

11.↑ Silva, Catia Antonia da & Suiama, Sergio Gardenghi. Baía de Sepetiba - Riscos à natureza e aos coletivos humanos na metrópole do Rio de Janeiro. Letra Capital, 2018

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Imagens: Wikipédia - A enciclopédia livre

Originalmente postado em linkfang

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segunda-feira, setembro 28, 2020

História do Túnel Rebouças



Por mais que algumas pessoas queiram negar isso, a integração e a mistura fazem parte da cultura do Rio de Janeiro. Algumas construções colaboram muito para isso. O Túnel Rebouças,  que liga a Zona Norte a Zona Sul da Cidade Maravilhosa, é um desses símbolos. 

Antes da construção do Rebouças, era uma viagem atravessar da Zona Sul para a Zona Norte. O Túnel Rio Comprido-Laranjeiras, inaugurado no século XIX, e o Túnel Santa Bárbara, em 1965, eram as duas opções que existiam.


“Eram duas cidades distintas. Os cariocas que queriam sair da Tijuca em direção à Zona Sul, por exemplo, tinham duas alternativas: pegar o Santa Bárbara; ou o Alto da Boa Vista, cair no Itanhangá, e dali partir em direção à Avenida Niemeyer. Era tudo muito demorado” explicou Paulo Cezar Ribeiro, professor do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, em entrevista ao Jornal Extra em 2007.


O Rebouças começou a ser construído em 1962. A idealização se deu durante o governo Carlos Lacerda em uma época de grandes mudanças urbanísticas na cidade e de incentivo ao uso de automóveis, em detrimento do sistema de transporte coletivo.


Entretanto, o Túnel só foi inaugurado, oficialmente, em 1967, na gestão de Negrão de Lima, com apenas uma galeria. Nessa época, a ligação Rio Comprido-Lagoa, como era conhecido o Túnel, era utilizada por apenas seis mil veículos por dia. Em 1969, a segunda parte da obra foi concluída.

Da inauguração até 1994, o Rebouças foi administrado pela Fundação DER/RJ. A partir de 1995, a administração do Túnel passou a ser feita pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Em 2007, devido às fortes chuvas na cidade do Rio de Janeiro, um deslizamento de terra fechou a entrada da galeria no sentido Laranjeiras-Lagoa, causando sérios transtornos ao trânsito na cidade. No momento do acidente não havia veículos no local.

Vinte anos antes, em 1987, um deslizamento de 14 toneladas de terra e pedras também bloqueou o acesso ao túnel na entrada da Lagoa. O motivo foi o uma infiltração provocada por chuvas.



O nome do Túnel é uma homenagem aos engenheiros: André e Antônio Rebouças. Eles eram filhos de uma escrava alforriada e um alfaiate. Negos, em um período que ainda havia escravidão no Brasil estão entre os maiores engenheiros do Brasil durante o 2º Império , entre várias obras importantes para o país, está a solução do problema de abastecimento de água no Rio de Janeiro.

“Hoje é impossível imaginar o Rio de Janeiro sem o Túnel. Projetado para um volume de 76 mil veículos/dia, com duas faixas de rolamento e acostamento, possui 2.040 metros de galeria contínua da Lagoa até o Cosme Velho e mais 772 metros na galeria do Cosme Velho até o Rio Comprido, totalizando 2.840 metros. Atualmente o volume diário é de 190 mil veículos/dia, em três faixas de rolamento sem acostamento” informa o site de curiosidades Migalhas Quentes.

Texto de Felipe Lucena

* Felipe Lucena é jornalista, roteirista, redator, escritor, cronista. Filho de nordestinos, nasceu e foi criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em Curicica. Sempre foi (e pretende continuar sendo) um assíduo frequentador das mais diversas regiões da Cidade do Rio de Janeiro.

Fonte: diariodoRio

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quarta-feira, setembro 23, 2020

Quarentena de escravizados



 Vista da Ponta de Humaitá, em Monte Serrat, uma das regiões que abrigaram escravizados em quarentena. Crédito da imagem: Portal da Copa (victoria.camara) (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0).

Entre 9 de dezembro de 1802 e 20 de novembro de 1828 entraram na Baía de Todos-os-Santos 207 navios negreiros chegados da costa africana. Noventa e um deles, após visitados pelos funcionários da Câmara de Salvador, foram encaminhados para quarentena por trazerem pessoas escravizadas doentes.

Qualquer embarcação configurava um pequeno universo concentrado de doenças. Era comum ficarem meses em alto mar enfrentando intempéries, sem água ou comida frescas. Sua população era composta de alguns marinheiros trabalhando pesado, poucos passageiros e a maioria de africanos escravizados e acorrentados a ferros nos porões dos tumbeiros.

Tão logo uma embarcação chegava ao porto, os órgãos responsáveis deveriam analisar a carga, para cobrar os impostos, e a tripulação para conferir as condições de saúde, evitando, assim, a entrada de doentes na cidade. De todos os navios, aqueles chegados da África eram os mais perigosos à saúde de cidades e vilas portuárias, um reflexo da própria natureza de seu comércio. Pessoas presas fazendo suas necessidades em um espaço exíguo, sem ventilação e úmido. Estas condições foram destacadas por Luís dos Santos Vilhena no final do século XVIII como promotoras desse perigo sanitário. Um verdadeiro inferno Atlântico!

Em Salvador, segundo maior porto negreiro das Américas, não seria diferente. Em pelo menos 4.238 viagens chegaram a seu porto 1.214.036 africanos escravizados em mais de 300 anos do comércio de gente. Após ancorar na Baía de Todos-os-Santos as embarcações eram visitadas pelo professor de medicina e cirurgia, o cirurgião da Câmara e algum vereador. Os responsáveis pelo exame e diagnóstico das condições sanitárias, quando identificavam moléstias contagiosas nas embarcações, faziam o pedido de cumprimento de quarentena dos doentes. Diferente do que conhecemos hoje com a pandemia da Covid-19, e seguindo uma lógica de comércio, aqueles que não apresentavam sintomas eram desembarcados e vendidos o mais rápido possível.

A palavra "quarentena", derivada de quadraginata e, também, do termo italiano quaranta, remete ao período de 40 dias em que os doentes ficavam resguardados em navios ou lazaretos para o controle de infecções contagiosas. Segundo o padre Raphael Bluteau, primeiro dicionarista da língua portuguesa, no século XVIII, aqueles “separados da mais gente, fazem quarentena em suspeitas de peste, ou porque realmente estão infectados deste mal”. No fim daquele século, Luís dos Santos Vilhena registrou, também, a existência da vintena, período de 20 dias de reclusão dos adoentados antes do desembarque.

Durante o período de quarentena, quando necessário, o médico e o cirurgião faziam novas visitas às embarcações, retirando os sadios e mantendo os que permaneciam adoentados. Foi o que aconteceu com a embarcação Nossa Senhora do Rosário e São Gonçalo que ao chegar ao porto da Bahia, em 15 de fevereiro de 1724, vinda do Calabar, seguiu para quarentena após a primeira visita. Depois de uma nova visita constatou-se que as doenças manifestadas na embarcação não eram contagiosas e, assim, a tripulação junto com os 315 africanos escravizados puderem desembarcar na cidade.

Como se vê, as condições da medicina nem sempre eram precisas num primeiro momento, requerendo uma nova análise como se verifica no caso do navio Nossa Senhora da Piedade, chegado à Bahia em 26 de fevereiro de 1732. De acordo com o registro feito em ata pelo médico do Senado da Câmara de Salvador, João Álvares de Vasconcelos, e pelo cirurgião Francisco da Costa Franco, a embarcação chegou ao porto com muitos doentes cuja enfermidade não se conseguiu identificar na primeira visita. No entanto, fizeram o pedido de quarentena e em 26 de março realizaram uma nova vistoria, quando constataram que os africanos sofriam de escorbuto, doença causada por falta de Vitamina C e há séculos já conhecida como "mal de Luanda".

Como vimos, quando os funcionários da Câmara Municipal constatavam a existência de doenças nos navios, iniciava-se a quarentena ou vintena fora dos limites da urbe. Conforme registrou Vilhena, dava-se preferência pela Ilha dos Frades ou a ponta de Monte Serrat, na Cidade Baixa. Porém outros espaços da cidade e, até mesmo a embarcação, poderiam ser usados. Voltemos ao período de 1802 a 1829. Das 91 quarentenas registradas nesse tempo, 88% delas ocorreu em Monte Serrat (80). Dez delas ocorreram em sete locais: sítios de Itapagipe, do Garcia, do Rio Vermelho, da Jiquitaia, do rio de São Pedro, do Senhor do Bomfim e nos armazéns do Ramalho. Uma delas realizou-se “no próprio brigue” mas não sabemos para onde ele foi mandado. Outras duas embarcações serviram de espaço de quarentena, a Câmara mandou-as para o Monte Serrat.

Escorbuto, bexigas, sarnas, boubas, magreza (desnutrição), diarreia, infecções nos olhos ou cegueira passageira, jatos e catapora são algumas das principais doenças encontradas. Alguns navios, como a sumaca Nossa Senhora da Abadia (ou Correio de São Tomé), de propriedade do padre Bernardo de Mello Brandão, chegou a Salvador, em 1808, com 173 africanos dos 239 embarcados na África. As doenças acometeram a embarcações em alto mar, deixando pelo caminho 66 corpos ao longo de 38 dias de viagem, entre a ilha do Príncipe e a Bahia. Dos sobreviventes 32 estavam com bexigas e tiveram que fazer quarentena até 25 de março, data da primeira visita. Todos já estavam curados e puderam ser desembarcados. Oito meses depois chegava o brigue Avoador com 573 africanos vivos, 13 deles "marasmados e escorbutados".

Mas o regramento sobre as condições de saúde das embarcações não parava por aí. Quando chegava um navio de longa viagem, toda a comida a bordo, chamada de “torna-viagem”, deveria ser jogado ao mar evitando contaminações em terra. Foi o que se mandou fazer com o bergantim Santíssimo Sacramento cuja "farinha e carne, que se encontrava podre" manda-se lançar ao mar. Ele tinha chegado a Salvador em setembro de 1803, vindo de Angola com escala em Pernambuco. Chegaram vivos 135 africanos dos 161 embarcados na costa africana e foi considerado "isento" de enfermidades pela visita da Câmara.

Por Cândido Domingues, Centro de Humanidades/Nova de Lisboa

Programa de Pós-Graduação em História/UFBA, Universidade do Estado da Bahia - Campus IV 

Por Mariana Dourado - PPGH-UNEB, Campus II

Para saber mais:

Avanete Pereira Sousa, Poder político local e vida cotidiana: a Câmara Municipal de Salvador no século XVIII, Vitória da Conquista/BA, Edições UESB 2013.

Carlos Alberto Cunha Miranda, A Arte de Curar nos Tempos da Colônia: Limites e Espaços de Cura, Recife, Editora da UFPE, 2017.

Mariana Dourado da Silva, “A necessidade que há na cidade de Salvador de cirurgiões 1750-1751”, In. Anais do VII Colóquio de História das Doenças, UFES, Vitória-ES, 24-24 de outubro de 2019, inédito.

Fontes:

Raphael Bluteau, Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico... Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1728, vol. 7, p. 17. http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/edicao/1

Luís dos Santos Vilhena, A Bahia no Século XVIII, vol. 1, Salvador, Editora Itapuã, 1969 [1802], p. 156.

ATAS da Câmara de Salvador (1731-1750), Salvador, Câmara Municipal/Fundação Gregório de Mattos, 1994, p. 28-29, (Documentos Históricos do Arquivo Municipal, 9.)

Arquivo Histórico Municipal de Salvador (AHMS), Visitas da Provedoria da Saúde (1802-1829).

Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Colonial-Provincial, Portarias, n.º 461 (1722-24). 

Originalmente postado em Salvador Escravista.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sexta-feira, setembro 18, 2020

Mais do que praias, Sepetiba foi uma terra de muitas lutas


Fonte: Imprensa Popular, 14/08/1952, p. 8.

Sepetiba tornou-se um grande balneário lá pelos anos 20, muito antes da Barra da Tijuca e São Conrado. Muito contribuía para isso a relativa proximidade em relação à estação de trem de Santa Cruz, lugar que junto com Campo Grande, já era bastante povoado. Além de ônibus, havia também linhas de bonde que ligava as estações de trem da zona rural com as suas praias.

Mas o que pouca gente sabe é que lá para os anos 50, Sepetiba tornou-se palco de um intenso conflito de terras. Vamos contar um pouquinho dessa história então.

No dia 18 de abril de 1952, o prefeito da capital federal era obrigado, em meio a tantos despachos, a receber em seu gabinete uma “gente modesta, digna de todo apoio da municipalidade”. Era uma comissão que representava lavradores e pescadores da Fazenda Piaí, “antiga Fazenda Real”, que trabalhavam “ali há muitos anos”. Sua principal reivindicação era a desapropriação daquelas terras. Na verdade, desde 1947, era de amplo conhecimento a situação dessa área, onde “dezenas de agricultores e pescadores” estavam “sendo expulsos de uma terra onde os seus pais nasceram e onde já possuem netos” - ao menos é o que dizia o udenista Breno da Silveira, numa das sessões da Câmara Municipal em 1947.

Em 1953, voltava às páginas dos jornais as tentativas de “tubarões da O.S.A”(uma cia. imobiliária) e do Banco Lopes (de propriedade dos irmãos Lopes) em “roubar as terras de lavradores”. Esses irmãos Lopes, segundo aquele mesmo vereador, seriam também “antigos banqueiros do bicho”.

O argumento que os lavradores usavam para legitimar sua posse era em muito semelhante ao dos lavradores de Jacarepaguá na década de 40. Afirmavam que as 8 léguas quadradas da fazenda eram imprestáveis antes da sua chegada, “verdadeiros brejos”, que foram saneados por eles “há 20 anos”, transformando “em lavouras que abastecem em grande parte o mercado do DF”. O mato tinha dado lugar a plantações de laranjas, eucaliptos, fruta-do-conde, coqueiro-anão etc. Além de terem chegado antes dos “tubarões” e tomado posse das terras em condições tão inóspitas, os lavradores alegavam que suas atividades eram realizadas em prol do bem-estar de toda a cidade. Dessa forma, os lavradores se apropriavam da imagem de uma zona rural abandonada e decadente para respaldar suas pretensões frente à “cobiça” da Cia. Imobiliária. Um dos lavradores dizia ao repórter do jornal Imprensa Popular: “ - Veja o senhor que ninguém fez nada pela gente e agora que estas terras melhoraram todos ficam de ‘olho grande’ em cima delas”.

Do mesmo modo, o jornal reafirmava - dizendo, para isso, basear-se em depoimentos dos lavradores – sua certeza na existência de um padrão de ação (ou de ataque) dos pretensos proprietários para desestabilizar o sistema de vida das famílias de lavradores: “Os métodos de que se serve a empresa [a O.S.A.], em nada diferem dos usados por tantas outras: intimidação, violências, invasão de terras, aos quais os camponeses vêm resistindo heroicamente.”

Fonte: A Noite, 12/12/1955, p.3.

Depoimentos como o de Benedito, lavrador na área “há cerca de 10 anos”, só reforçava isso: numa sexta-feira de 1955, teria sido vítima de um “despejo sumário” de uma pequena área “que ocupou” na Fazenda Piaí. Dois oficiais de justiça acompanhados de vários praças da PM o despejaram. Sem ter tido “tempo de apanhar nada, saiu com a roupa do corpo”. “Tentou suicídio” - declarou – mas “foi impedido pelos vizinhos”. Procurou um vereador, o pessedista Osmar Resende, para contar tudo. Poucos meses antes, os “grileiros” teriam “espancado” uma lavradora e, não satisfeitos, obrigaram-na a assinar um documento no qual declarava ser “simples intrusa” daquela terra. Em fins de 1956, os irmãos Lopes teriam preparado uma “lista negra” com o nome de alguns lavradores. E para mostrar que não era uma simples intimidação, teriam “tomado” a casa de um ancião.

“Sepetiba em pé de guerra” – Fonte: Última Hora, 18/08/1953, p.6.

“Heróico” ou não, o certo é que a O.S.A. e outros “tubarões” eram obrigados a lidar com vários esforços de alguns lavradores para não deixarem as terras. Às medidas judiciais somavam-se iniciativas de cunho político, como pedidos de audiência com vereadores e autoridades da prefeitura. Foi exatamente isso que fizeram, quando junto com lavradores de Pedra de Guaratiba, foram ter uma audiência com o prefeito. Ou quando foram à Câmara Municipal em novembro de 1955 para pressionarem os líderes das bancadas a assinarem um projeto de desapropriação da área. Um ano depois, eles “estudavam” a possibilidade de fazer uma “visita a diversas autoridades” de modo a agilizar o trâmite do processo que moviam contra os pretensos proprietários através do Instituto Nacional de Imigração e Colonização.

Por Leonardo Soares dos Santos, Historiador e professor da UFF.

Fonte: Jornalzo

Texto sugerido pelo pesquisador Flávio Brandão

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quarta-feira, setembro 16, 2020

Dom Jerônimo Fruku, um príncipe de Daomé na Bahia



"Por volta de 1750, desembarcou na Bahia um escravo a quem seu novo dono deu o nome de Jerônimo. Para seu senhor, este Jerônimo era apenas um escravo como os outros, ainda que talvez mais altivo, difícil ou capiongo. Já os fons (africanos provenientes do golfo da Guiné) que amargavam o cativeiro em Salvador o olhavam com respeito e veneração, pois o rapazola era um príncipe daomeano chamado Fruku, filho (ou neto) do grande rei Agaja. E muitos se curvavam à sua passagem, sempre que isso não chamasse a atenção dos brancos. Convinha que se mantivesse em segredo a sua identidade.


Fruku havia sido vendido pelo rei Tegbesu, que desejara exilar para o outro lado do oceano quem considerava um forte competidor político. Mas os fons da Bahia não podiam esquecer que ali tinham um descendente do leopardo, pois de um leopardo (assim afirmavam as tradições) provinham os Agassuvis, a família real do estado fon do Daomé. Seria mais do que uma impiedade, um crime contra os deuses, permitir que um Agassuvi sofresse as humilhações e as violências a que estavam sujeitos os escravos. Juntando os seus tostões, os patrícios de Fruku não devem, portanto, ter demorado em comprar-lhe a liberdade. Liberto, Jerônimo deixou-se ficar em Salvador, já que não podia, sob pena de ser reescravizado, retornar ao Daomé.

Não se sabe de que vivia em Salvador. Talvez de trabalho alugado como a maioria dos demais libertos. Não é impossível, porém, a idéia de que pudesse receber uma espécie de tributo dos fons, que se cotizariam para sustentá-lo e ajudá-lo, assim, a suportar os rigores do degredo.

Os daomeanos não o perderam de vista. Ou porque o rei Tegbesu procurasse saber por onde andava seu desafeto, ou porque dele dessem notícias os fons que trabalhavam nos navios que iam buscar escravos em Ajudá, ou porque o próprio Fruku as enviasse aos seus partidários. É provável que os barcos negreiros funcionassem como correio, já que as tripulações eram formadas em grande parte por africanos.


Em 1774, com a morte de Tegbesu, subiu ao trono Kpengla, que havia sido companheiro de infância de Fruku. O novo rei apressou-se em mandar buscar no Brasil o amigo, o que se fez sem qualquer dificuldade, pois se sabia exatamente onde ele se encontrava. Fruku regressou à terra com um novo nome, dom Jerônimo, a que se ligou a alcunha de “o Brasileiro”. E, como era fluente em português e sabia como tratar os brancos, passou a exercer uma das mais importantes funções públicas do reino: cuidar das transações com os estrangeiros no porto de Ajudá.

Os 24 anos em Salvador o haviam abrasileirado, abaianado. Buscou, por isso, unir-se aos comerciantes portugueses e brasileiros que operavam naquele embarcadouro e aos ex-escravos que haviam retornado do Brasil. Com o apoio deles e de boa parte do povo, concorreu à sucessão de Kpengla, quando este faleceu em 1789. Esteve perto de vencer a disputa, mas perdeu-a para Agonglo. E desapareceu da história. Talvez tenha sido novamente vendido, por preço ínfimo, já que estava velho, e para outro destino que não o Brasil. Talvez tenha ficado para sempre em cárcere privado. Talvez lhe tenham dado a morte, sem que a isso o houvessem condenado. Não era permitido a ninguém, nem mesmo ao rei, derramar sangue de um Agassuvi, mas sabemos de princesas vencidas que foram amarradas a árvores e lá deixadas a morrer de sede e fome e de um príncipe que foi lançado ao mar, costurado numa rede.


A história de Fruku ou dom Jerônimo, “o Brasileiro”, é uma das muitas sobre como a escravização foi utilizada como exílio político pelos povos africanos. E sobre o sonho de alguns africanos desterrados de refazer no Brasil o reino perdido ou de sonhar com o retorno à África para reaver as posições que lhes tinham sido tiradas. Nem todos vieram como escravos. Alguns foram exilados como homens livres e, no Brasil, sobreviveram no recato e na modéstia das pequenas roças que receberam ou como soldados rasos nas tropas portuguesas.

Alguns realizaram o sonho do retorno. Outros tiveram de contentar-se a receber em segredo, no Brasil, a homenagem de seus súditos, ou a disfarçar nos maracatus, nas congadas, nos reisados, que continuavam reis ao se fingirem de reis". 

Fonte: "Exilado no Brasil como escravo, Fruku era venerado em segredo".

Texto de Alberto da Costa e Silva. . Aventuras na História, Edição 005, Janeiro de 2004.


Pesquisa - Adinalzir Pereira Lamego

sábado, setembro 12, 2020

Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Marapicu


Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Marapicu
Bairro Marapicu - Nova Iguaçu - Estrada Geral - Variante do Caminho Velho

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Marapicu, foi construída a partir do final do ano de 1736. É descrita historicamente como: “situada no alto de uma colina circundada pela estrada de Madureira e se constitui num marco importante na paisagem, visível à distância”. Historiadores, por vezes, descrevem a data de fundação da freguesia, que foi em 1728, com a construção da igreja, mas, não encontramos registros para se confirmar, portanto, se concretiza a que está afixada na área externa da sacristia, ano de 1737.

Atualmente, a “Igreja de Marapicu” como é popularmente conhecida, está comprimida em uma reduzida área, devido às constantes e irregulares invasões imobiliárias ao longo dos anos. O acesso é feito por um curto, mas belo caminho calçado de pedras, tipo “pé de moleque”, feito por cativos e tem aos fundos um cemitério, que foi desmembrado do território da igreja.

De fachada simples, com frontão triangular com torre acoplada ao corpo principal, arrematada por uma pirâmide que abriga o sino do ano de 1850. Destaca-se no interior a pia batismal em pedra de lioz.

A construção da igreja do Marapicu, foi em terras do capitão Manuel Pereira Ramos e sua esposa a senhora Helena de Andrade Sotto Maior, que no ano de 1752, receberam autorização do bispo do Rio de Janeiro para que fosse construída uma “tribuna de honra”. Feito tal tribuna, logo após ampliação e reforma em 1853. No final do século XX teve o interior descaracterizado com o desaparecimento dos altares laterais.

Há notícias da venda da talha e do altar-mor. Leigos sobre a importância de preservação patrimonial, fiéis da comunidade, descaracterizam o piso original de todo o interior desse belíssimo templo. Sem referência arquitetônica ou artística , a ambientação do adro é preservado, mas, com inclusão de agricultura familiar.

Pia batismal da Igreja do Marapicu

Ali bem próximo à igreja de Nossa Senhora da Conceição do Marapicu, em local histórico pertencente ao Morgadício de Marapicu, localiza-se a Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, em completa ruína, aguardando por anos, reparos dos órgãos públicos que abandonaram  o projeto de restauração.

Poucos historiadores incluem a Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, como única capela da Matriz de Marapicu, de data imprecisa, possivelmente do século XVIII. Totalmente depredada, não há mais nada no interior da histórica capela, integrada a um terreno de escola estadual. Para seu acesso, solicita-se aos zeladores da escola para se poder visitá-la. Sem referência artística.

Capela de Nossa Senhora de Guadalupe

Referência Bibliográfica:
VIEIRA, João Felix. De Iguaçu ao Sabarabuçu. Capelas: A conexão da fé entre velhos e novos caminhos. Edição do Autor, Rio de Janeiro, 2015.

Pesquisa de Adinalzir Pereira Lamego

Quer saber mais sobre a Freguesia de Marapicu? Clique aqui 

sexta-feira, setembro 11, 2020

A Maçonaria em Paraty - Professor Diuner Mello



Diuner Mello escreve histórias que estuda e pesquisa. E aquelas que ouve. Sócio fundador do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, ele é um Cidadão de Ouro, título que recebeu da rede DLIS pela pesquisa sobre o Caminho do Ouro-Estrada Real. Em Paraty, muita gente pede a opinião dele sobre diversas manifestações culturais. Ninguém sossega enquanto Diuner não dá o seu aval.

O pesquisador tem 67 anos. Aos 12, foi estudar num colégio interno no Rio de Janeiro. Seus amigos não entendiam bem de onde ele vinha. "Fica perto de Angra dos Reis", esclarecia. Um dia, voltou e nunca mais foi embora. Decidiu conhecer a cidade onde nasceu e que é um pouco o retrato do Brasil.

"Paraty tem ciclos de riqueza e de decadência como todas as outras. Com a descoberta do ouro, sofreu uma revolução e uma reorganização cultural. Não por causa do ouro, que ia para Portugal, mas pelo comércio que se instalou aqui". A libertação dos escravos, outro episódio marcante, tirou a mão de obra dos engenhos, veio a decadência. "Paradoxalmente, a cidade sofria quase que nenhuma influência", ele analisa.

Diuner sabe o que é lenda e o que é mito. Conta, por exemplo, que as brigas das bandas são um fato, que as mulheres ergueram uma igreja só pra elas, a de Nossa Senhora das Dores. "Paraty é assim: quando não é noite de ceia, é hospício". Palavra de quem conhece.

Fonte: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/18935






Calçada pé de moleque e os símbolos maçônicos. 2015


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quarta-feira, setembro 09, 2020

Cemitério de Irajá e sua história



O atual cemitério de Irajá, foi inaugurado em 22 de outubro de 1895, e sua posição não é a que conhecemos atualmente, ele ficava na lateral à direita da velha e icônica igreja, os limites do cemitério foram sendo ampliado posteriormente.

Um mês depois de sua abertura oficial, a irmandade doou mais terrenos para a sua expansão e em troca disso, o governo local ficou responsável pela construção de um muro para cercar o mais novo cemitério.

Vamos ver na integra a reportagem:

“Directoria de Obras e Viação
De ordem do senhor director geral faço público para conhecimento dos interessados que no 21 decorrente, ao meio dia, nesta seção , a rua do General Câmara, 312, receberão propostas que serão lidas em presença de proponentes, para a construção de um muro de tijolos sobre alicerces de alvenaria de pedra, fechando o perímetro do cemitério cedido pela irmandade.

As propostas devem ser entregues em carta fechada com indicação do preço de unidades escripto por extenso e em algarismos o da residência do proponente.
Para garantia de assinatura e execução do contrato farão os proponentes na directoria de fazenda municipal.”


Reparem! Antes das licitações dos dias atuais, para a construção de alguma coisa na cidade, o governo municipal arrecadava dinheiro através de campanhas de arrecadação com toda a sociedade. Foi assim, inclusive que a obra do Cristo Redentor foi possível.

Segundo outras fontes, o cemitério foi ampliado logo nos primeiros meses da sua criação devido à alta mortalidade existente na região, o que explodiu no início do século XX como as epidemias de varíola e febre amarela.

Fonte: Diário de Notícias, Ano: 1895, BN
Texto: Paulo Jorge - Historiador
Diagramação: Cleydson Garcia
Fotógrafo: Desconhecido

Originalmente postado em IHGBI Oficial

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

No caminho da Independência havia Santa Cruz



Aos 7 de Setembro bradou Dom Pedro nossa Independência na represa do Ipiranga, lá na terra dos bandeirantes. E Dona Leopoldina no dia 2 de Setembro assinou com sapiência nossa Liberdade na Quinta, naquele palácio vibrante.


Mas naquele caminho, por aquele antigo peabiru dos nossos nativos. Havia um belo palácio, era o Paço de Santa Cruz. Onde a Coroa Imperial até hoje lá reluz. E a Resistência aqui se fez com os Quilombos nos Cativos. (Salve os quilombos das Cabeceiras do Guandu!)


Santa Cruz era uma linda fazenda que ia até Vassouras. Produzia tudo, lindos pomares, variedades de lavouras. Mas os Jesuítas foram expulsos por Pombal. E a região virou propriedade estatal. Dom João veio para cá e se encantou pelo Palácio. Transformar em fazenda Real foi fácil. Após a Independência o Paço se transformou em Imperial. E na República um lindo laranjal. Ervas Medicinais, Açougue, estação terminal. Os Jesuítas construíram até ponte e Hospital. Prosperidade a Santa Cruz, o Império levou. E o seu nome na História do Brasil colocou.

Escrito por Arthur Gabriel.

Referências Bibliográficas:
MANSUR, André Luiz; Fragmentos do Rio Antigo.
MANSUR, André Luiz; O Velho Oeste II e III.


Originalmente postado em Projeto Guarupiá.

Postado aqui pelo autor deste blog.

sábado, setembro 05, 2020

Irajá em 1956 - o santo no meio do inferno



Vocês já se perguntaram como era o bairro onde você mora em um determinado ano ou época? Entender o bairro atualmente é olhar para trás e entender todos os problemas mal resolvidos do passado.

Antes de entrar e comentar sobre esse ano para ser esquecido pelo bairro, ler um pouco como foi o início do bairro que até os anos 60, era considerado ainda um pedaço do campo no meio da cidade grande.

De uma forma bem resumida, o bairro pertencia a Freguesia de Irajá. Considerada a maior Sesmaria do velho rio, as terras  englobavam boa parte do atual subúrbio da Leopoldina até bairros da zona oeste. As terras foram concedidas a seu pioneiro, Antônio de França que criou o Engenho de Nossa Senhora da Ajuda. As atividades predominantes do velho engenho eram criação de gado, lavouras e cana-de açúcar.

Com o progresso e a expansão para o interior da antiga zona rural da cidade, as terras da freguesia se tornavam bairro e deixavam de ser chácaras e fazendas. De freguesia rural, Irajá se transformou numa freguesia suburbana devido a sua proximidade do centro da cidade. Com a chegada dos trens e bondes, que serviram o novo bairro, a expansão foi rápida, tanto é que em 1920, ao lado da freguesia de Inhaúma, 1\4 da população moravam nessas áreas.

É importante entender que o processo de expansão da cidade favoreceu a classe média alta e os poderosos, já que seguimos o modelo francês de cidade, onde ricos, poderosos e classes altas ficavam mais perto do centro e trabalhadores entre outros, eram sistematicamente afastados para as periferias e zonas mais afastadas. O modelo americano é considerado mais justo, se assim posso dizer, pois os ricos foram em direção as periferias e a classe trabalhadora ficou próxima ao centro econômico.

Mas falar de subúrbio é falar de altos e baixos. A criação dos bairros passou por tantas fases, em sua grande maioria com problemas sociais e estruturais graves que quase nunca são solucionados.

Os anos 50 representou um momento grave do bairro, várias reportagens do bairro mostravam os problemas latentes e que assolavam a localidade. Ainda considerado como zona rural, Irajá enfrentava enormes dificuldades e será isso que iremos ver a partir de agora. O texto foi escrito em cima de reportagens do jornal  A NOITE  do anos de 1956, onde peguei 4 reportagens para mostrar as dificuldades encontradas naquele ano.

A IGREJA E O CEMITÉRIO

O que seria pior para o bairro, “macumbeiros” ou assaltantes? Ambos eram problemas que assolavam seus moradores. O jornal destacou o abandono da igreja da velha freguesia e isso foi objeto de análise das reportagens.

O templo de Irajá, que já tivera dias melhores e tinha sido até ponto turístico estava vivendo um momento delicado. Muitos artistas visitavam o monumento para admirar tudo que ali estava.

A mais de 14 anos, a igreja está sob o comando do padre Luiz Garrido, que lutava sozinho para manter o local. Vivendo apenas de doação, as ricas famílias e pessoas com condições não ajudavam em nada a irmandade. Precisando de obras de manutenção, o padre e a irmandade estavam desesperados sem saber o que fazer, campanhas aconteciam mais não sensibilizavam os poderosos do Irajá e isso fazia com que não apenas a igreja, mas o cemitério sofresse com problemas sérios.

O problema financeiro era grave, mais o pior disso tudo era a profanação de um lugar religioso. Os “macumbeiros” e “feiticeiros”  que cercam o Irajá não respeitam nem a morada final. Ali, mesmo durante o dia, fazem seus trabalhos deixando um verdadeiro rastro de sujeita por todo lado. A praça de frente a igreja virou um cemitério de animais sacrificados, é galinha, porco, cabra, etc., Representações de satanás espalhados por todos os lados, até o cruzeiro foi tomado. Se ficassem nessa esfera, dava ainda para dar um jeito, porém os praticantes dessa religião invadiam terrenos alheios  e o cemitério e ali faziam festivais de danças e luxurias.


PROBLEMAS COM A LUZ  E A ÁGUA

Ao saltar da estação de trem, os leitores percebem o problema logo de cara, a alguns passos mais a frente: A falta de luz! O trecho entre as ruas Monsenhor Felix e Automóvel Clube, as casas são bem arrumadas, lojas magníficas e calçamento com bom nível, mas quando chegamos às ruas arteriais que encontramos os problemas. É mato, valas e buracos para todos os lados. Na estrada do Fundão, onde encontramos ainda grandes propriedades produtoras, moradores morrem de sede e no escuro, pois nem água e luz chegam ali e um detalhe chama bastante atenção. Na rua passam canos que levam água para os bairros ao lado e instalações elétricas passam bem perto também, ou seja, não há motivo nenhum para faltar esses dois bens. A água é um problema muito sério. São três quilômetros de estradas e nada de água e luz, a única coisa que ilumina as ruas são lampiões de querosene que os próprios moradores  colocavam.


EM DIA DE FEIRA...

A antiga feira de Irajá ficava na rua da estação, conhecida por vender frutas e leguminosas fresquinhas, de uns anos para cá, também ficou conhecida como “feira dos ladrões”. Uma chuva de malandros frequentam o local, fixando-se no bar Progresso de Irajá. Fantasiados para manter um padrão social local para não levantar suspeitas, parecem uma quadrilha de tão organizados, escolhem suas vitimas e assaltam , correndo pela linha do trem, o policiamento local (quando há) não consegue alcançar. Cavalos criados a solta no bairro são usados para os assaltos em dia de semana. Em bandos, entram na Automóvel clube e fazem uma limpa quem passa por ali , jogando os cavalos para cima dos carros, onde o motorista é obrigado a parar para não atropelar o pobre cavalo , mas acaba sendo roubado.

O TREM

Após voltas por Irajá, convidamos o nosso leitor a fazer uma viagem até o centro do Rio com a velha Maria Fumaça. À entrada da estação não informa os horários dos trens, está mal conservada e suja e não oferece o conforto necessário para uma boa viagem. A única coisa que vimos no guichê foi horários escritos “trens para cima e trens para baixo”, para uma pessoa com pouco conhecimento, como adivinhar para onde está indo? Descobrimos que o último trem passa ali as 23:22 , se perder esse, só as 04 horas da manhã.



CONCLUSÃO

Mesmo cercado por macumbeiros, ladrões e com sérios problemas estruturais, o bairro é um dos mais prósperos do subúrbio da Rio D’Ouro. Se resolver todos esses problemas, Irajá será um dos melhores bairros para se viver.

BIBLIOGRAFIA

1 - Livreto Rio Bairros - 2ª Edição - Robson Leite - Produção Autônoma

2 - Diálogos Suburbanos - 1ª Edição - Joaquim Justino, Rafael Matoso e Tereza Ghilhon - Editora Morula

3 - Evolução Urbana do Rio de Janeiro - 4ª Edição - Maurício de Abreu - Instituto Pereira Passos

4 - Freguesias do Rio Antigo - 1ª Edição - Noronha Santos - O Cruzeiro

5 - Jornal A Noite

6 - Jornal Diário Carioca

7 - Jornal do Brasil

Texto de Paulo Silva

Originalmente postado em Rio de Janeiro e nossas histórias

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sexta-feira, setembro 04, 2020

Memória do Fogo: dois anos do incêndio ao Museu Nacional



"D. Pedro II remexia-se inquieto na Colônia Espiritual em que se encontrava. Sabia que momentos importantes estavam por acontecer. Na velocidade do pensamento logo chega em frente à fachada do seu museu, antes casa. Espíritos amigos ali já se encontravam para a missão que logo começaria.

Espíritos da ciência e da fé vieram ao seu auxílio. Logo o fogo implacável começou. D Pedro respira fundo, ora a Jesus pedindo forças, arregaça as mangas e começa o trabalho. Ele entra na construção monumental, onde tantas vezes nos últimos 200 anos ele veio ao seu socorro. Mas dessa vez as trevas iriam vencer, mas ele não deixaria que sua obra virasse pó. Olhou nos móveis, os cômodos que outrora serviram seu corpo físico e de sua família à época, de sua vivência terrestre. Afastou qualquer pensamento e tristeza e pôs-se a trabalhar. 

Partiu para sala dos insetos e ordenou que todos partissem agora. Soltou as borboletas presas dos seus murais para que alçassem voo rumo ao infinito num gracioso balé. Grilos, besouros, formigas, todos incólumes às chamas, seguiram seus caminhos rumo à liberdade. A esperança ainda olhou para seu tutor querendo ficar. Mas seu doce olhar a impeliu a voar junto dos seus.


Indo para sala dos fósseis ordenou para que seus grandes amigos partissem para o céu de cada um. Ossos ganharam vestimenta espiritual e felizes partiram entre labaredas para sua derradeira morada. D Pedro olha o trono de madeira recebido há muito de presente pelo reino de Daomé. Pensou que um outro rei, nascido há mais de dois mil anos sentaria ali, porque era tão simples no seu viver quanto o singelo presente. Sente nesse momento as mãos do Doce Nazareno em seus ombros. Jesus diz confiante a Pedro, "Vamos amigo! Temos ainda muito por fazer". 

Pedro observa o mestre pessoalmente a libertar Luzia. Aquele crânio toma a forma da mulher valente que viveu há milênios atrás.Volta para sua Minas, Luzia. Reencontra os seus e segue seus caminhos. Embevecida pelo olhar de Jesus, Luzia parte confiante. E todos vão sendo encaminhados, as múmias para seu amado Egito, negros e índios resgatando sua caminhada. O prédio todo sendo consumido pelas chamas e todos partindo para seus céus misturados às labaredas, fumaça e à luz do pai criador. Sobrou Bendego, o Meteorito. Pedro lhe fala quase em súplica:

Você é forte amigo! Aguenta as chamas. Fica para simbolizar com suas 5 toneladas as consciências pesadas dos governantes deste país.

Bendego aceita sua missão humildemente e fica para lembrar o descaso, a indiferença, a arrogância daqueles que vivem na ignorância das leis do Pai Criador. Jesus olha Pedro com amor dos mais fraternos e diz: - Descanse, irmão, sua missão está cumprida..."

Autor desconhecido

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quarta-feira, setembro 02, 2020

Deodoro - Anos 40



A história de Deodoro como conhecemos hoje, começa em 1907, quando o Banco do Brasil desapropriou a Fazenda de Sapopemba, cujo proprietário era o Conde Sebastião de Pinho.

Nesta fase, houve um apagamento da memória desta parte da baixada de Irajá.


A fazenda foi repassada ao ministério de guerra, logo em seguida os militares instalaram seus quartéis no lugar. A casa sede, engenho e a olaria foram demolidos para ampliar as instalações do exército.

Sobreposição de imagem do Google feita por Roberto de Souza Campello

A estação de Sapopemba, inaugurada em 1858, foi reformada e o seu nome foi trocado pelo Presidente Hermes da Fonseca, para homenagear o 1° presidente republicano, que também era seu tio: Manuel Deodoro da Fonseca.

Nos anos 40, a industrialização aumenta a população do bairro. Ainda assim, a paisagem continuava bucólica. Na década seguinte, a "Avenida das Bandeiras", atual Av. Brasil, corta o bairro no meio e foram feitas obras de terraplanagem.

Em 1958, houve um fato que chocou e apavorou dos moradores na época!

De madrugada, um paiol de granadas do exército explodiu, e o tremor foi sentido em diversos bairros do Rio. Algumas pessoas tiveram ataques cardíacos e quem estava próximo foram atingidos pelos materiais que caíram do céu. As pessoas foram evacuadas do bairro e saíram das suas casas com pijamas, para a casa dos amigos e parentes mais distantes.

Texto: Cleydson Garcia.
🎨 Colorização: Cleydson Garcia.


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

Veja também: O Engenho Sapopemba e as origens do bairro de Deodoro