quinta-feira, 16 de setembro de 2021

A Leica e os Judeus



A Leica é a câmera pioneira de 35 mm.  É um produto alemão - preciso, minimalista e totalmente eficiente.

Por trás de sua aceitação mundial como ferramenta criativa estava uma empresa familiar e de orientação social que, durante a era nazista, agiu com graça, generosidade e modéstia incomuns.  E. Leitz Inc., designer e fabricante do produto fotográfico mais famoso da Alemanha, salvou seus judeus.

E Ernst Leitz II, o patriarca protestante de olhos de aço que chefiava a empresa de capital fechado enquanto o Holocausto se aproximava pela Europa, agiu de forma a ganhar o título de "o Schindler da indústria fotográfica".

Assim que Adolf Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha em 1933, Ernst Leitz II começou a receber ligações frenéticas de associados judeus, pedindo sua ajuda para tirá-los e suas famílias do país.  Como cristãos, Leitz e sua família eram imunes às leis de Nuremberg da Alemanha nazista, que restringiam o movimento de judeus e limitavam suas atividades profissionais.

Para ajudar seus trabalhadores e colegas judeus, Leitz discretamente estabeleceu o que ficou conhecido entre os historiadores do Holocausto como "o Trem da Liberdade Leica", um meio secreto de permitir que os judeus deixassem a Alemanha sob o disfarce de funcionários da Leitz designados para o exterior.

Funcionários, varejistas, parentes e até amigos de parentes foram "designados" para os escritórios de vendas da Leitz na França, Grã-Bretanha, Hong Kong e nos Estados Unidos. As atividades de Leitz se intensificaram após a Kristallnacht de novembro de 1938, durante a qual sinagogas e lojas judaicas foram queimadas  em toda a Alemanha.

Em pouco tempo, os "funcionários" alemães estavam desembarcando do transatlântico Bremen em um píer de Nova York e se dirigindo ao escritório da Leitz Inc. em Manhattan, onde os executivos rapidamente encontraram para eles empregos na indústria fotográfica.

Cada recém-chegado trazia em seu pescoço o símbolo da liberdade - uma nova câmera Leica.

Os refugiados receberam um estipêndio até que pudessem encontrar trabalho.  Dessa migração vieram designers, técnicos de reparo, vendedores, profissionais de marketing e redatores da imprensa fotográfica.

Mantendo a história em segredo O "Trem da Liberdade Leica" atingiu seu auge em 1938 e no início de 1939, levando grupos de refugiados a Nova York a cada poucas semanas.  Então, com a invasão da Polônia em 1º de setembro de 1939, a Alemanha fechou suas fronteiras.

Naquela época, centenas de judeus ameaçados de extinção haviam escapado para a América, graças aos esforços dos Leitzes.  Como Ernst Leitz II e sua equipe conseguiram se safar?

Leitz, Inc. era uma marca reconhecida internacionalmente que refletia crédito no recém-ressurgido Reich. A empresa produziu câmeras, telêmetros e outros sistemas ópticos para os militares alemães.  Além disso, o governo nazista precisava desesperadamente de moeda forte do exterior, e o maior mercado único de Leitz para produtos ópticos eram os Estados Unidos. Mesmo assim, membros da família Leitz e da empresa sofreram por suas boas obras.  Um alto executivo, Alfred Turk, foi preso por trabalhar para ajudar judeus e libertado somente após o pagamento de um grande suborno.

A filha de Leitz, Elsie Kuhn-Leitz, foi presa pela Gestapo depois de ser pega na fronteira, ajudando mulheres judias a cruzar para a Suíça.  Ela acabou sendo libertada, mas suportou um tratamento duro durante o interrogatório.  Ela também foi suspeita ao tentar melhorar as condições de vida de 700 a 800 trabalhadores escravos ucranianos, todos mulheres, que haviam sido designados para trabalhar na fábrica durante os anos 1940.

(Após a guerra, Kuhn-Leitz recebeu inúmeras homenagens por seus esforços humanitários, entre eles o Officier d'honneur des Palms Academic da França em 1965 e a Medalha Aristide Briand da Academia Europeia nos anos 1970).

Por que ninguém contou essa história até agora? De acordo com o falecido Norman Lipton, escritor e editor freelance, a família Leitz não queria publicidade para seus esforços heróicos. Somente depois que o último membro da família Leitz morreu, o "Trem da Liberdade Leica" finalmente veio à luz.

Agora é o assunto de um livro, "The Greatest Invention of the Leitz Família: The Leica Freedom Train", de Frank Dabba Smith, um rabino nascido na Califórnia que atualmente mora na Inglaterra.

Obrigado por ler o texto acima e se você se sentir inclinado, como eu, a repassá-lo a outras pessoas, faça-o.  Leva apenas alguns minutos.

As memórias dos justos devem viver.

Guisheft News via Carrie Kaufman

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

SOS Guaratiba: um patrimônio cultural ameaçado



Guaratiba foi o nome dado por seus primeiros habitantes, os tupinambás, à região onde abundavam as garças: guará – ave aquática pernalta – e tiba – reunião de muitas coisas.

Depois vieram os homens brancos. Mais precisamente, em 1579, Manoel Velloso Espinha, que, tendo lutado bravamente lado a lado de Estácio da Sá contra os Tamoios, recebeu como recompensa a sesmaria situada ao Norte da atual Restinga de Marambaia, ao longo da costa, com duas léguas de comprimento e mais outras em direção ao sertão, somada à região hoje chamada Barra de Guaratiba.

Essa extensão de terras constitui a Freguesia de Guaratiba que, com a morte de seu proprietário, foi partilhada, tendo como divisa o Rio Piraquê, entre seus dois filhos: Jerônimo Velloso Cubas ficou com a parte Norte e Manoel Espinha Filho com a parte Leste.

Jerônimo não teve herdeiros e, por lei, teve de doar sua parte à província Carmelitana Fluminense, congregação religiosa de frades da Ordem do Carmo, que ali construiu igreja, noviciato e um engenho de açúcar. A região prosperou e nela surgiu a Fazenda da Pedra, região hoje denominada Pedra de Guaratiba.


Igreja Nossa Senhora do Desterro

É na Pedra de Guaratiba que se encontra a singela igrejinha de Nossa Senhora do Desterro, construída à beira mar, em 1628, em terras cedidas por Jerônimo Vellozo Cubas e sua esposa, Beatriz Álvares (ou Alves) Gago.

Já no século XIX, sua fachada foi alterada ao ser revestida de azulejos e, no século XX, sofreu inúmeras vezes reformas, tendo sido tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938.

Além dela, Guaratiba possui a Igreja de São Salvador do Mundo, construída em 1856, a Capela de Nossa Senhora da Saúde, que data de 1750, recentemente restaurada por iniciativa da comunidade local liderada pelo Sr. Ilton Alves de Jesus.

Vista a importância histórica e cultural da região, uma das principais preocupações da ONG “Centro de Estudos Pesquisas e Ações de Guaratiba” (CEPAG) consiste na preservação de seus marcos, referências de sua formação, completamente relegados ao descaso pelas instâncias competentes, a saber:

Marco da Fazenda  Imperial de Santa Cruz

– O Marco da Fazenda Imperial de Santa Cruz (1826), situado na APA da Brisa, cujo pedido de tombamento já foi encaminhado para Prefeitura do Rio e o processo encontra-se “parado” na Fundação Parques e Jardins;

– O Marco das Sesmarias na Ilha de Guaraqueçaba (1629) e os marcos que delimitavam o perímetro do Distrito Federal: em Guaratiba há cinco deles preservados nos quilômetros originais, mas todos os demais foram retirados para fazer guarda-corpo na orla da Barra de Guaratiba.




Além dos marcos especificamente, necessitam de cuidados de preservação: as Pontes da Estrada da Grota Funda que, construídas em 1870, constituíram a 1ª licitação pública para construção na área de Guaratiba, e a Ponte da Restinga de Marambaia – que data do período da 2ª Guerra Mundial e foi inaugurada com a presença do então Presidente Dutra.

Uma das pontes da Estrada da Grota Funda


Ponte da Restinga de Marambaia

Abandonadas também estão as quatro bicas, construídas nas décadas de 50/60, que representam a política do Triângulo Carioca: a primeira na Ilha de Guaratiba, a segunda na Estrada da Barra de Guaratiba, a terceira no Bairro do Mato Alto e a quarta no Largo do Alarcão, em Pedra de Guaratiba.

Fazenda de Marambaia

Por fim, a Fazenda de Marambaia – onde ocorria a seleção de escravos a serem  encaminhados para as fazendas do Alto do Piraí – que, hoje, que pertence à Polícia Militar.

Vale lembrar, para que não reste dúvida sobre a importância histórica e cultural de Guaratiba, que ali também se encontra um dos mais importantes sítios arqueológicos do país: o Sambaqui Zé Espinho.


A região de Guaratiba traz a história do Rio no seu território, ainda conservado pelos cariocas de nascimento e coração que lá habitam!  

Urge, portanto, investimento público na política de preservação cultural desta importante região que explica a nossa história.

Compartilhado de:

https://www.soniarabello.com.br/sos-guaratiba-um-patrimonio-cultural-ameacado/

Outras fontes:

http://brevescafe.net/quilombodamarambaia.html

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 7 de setembro de 2021

O que significou a Independência do Brasil? Por que a mesma não veio acompanhada da queda da família real portuguesa, da abolição da escravatura ou de uma maior autonomia econômica nacional?

 

Para alguns teóricos marxistas brasileiros, representados aqui por Florestan Fernandes, o processo que tornou o Brasil um país independente faz parte de um contexto mais amplo, de transição gradual de uma sociedade colonial, onde as relações de poder eram comandadas de fora para dentro, para uma dinâmica de sociedade de classes, onde as elites nacionais passam a desempenhar seus domínios.


Com base nessa interpretação, que não é consenso na historiografia ou nos estudos sociológicos brasileiros, é possível entender as razões pelas quais as classes que se articularam em torno da Independência não estavam interessadas na libertação negra no país, por exemplo.

Ao longo dos anos, o 7 de setembro foi ressignificado pelos movimentos populares. Desde 1995, a manifestação do Grito dos Excluídos questiona as mazelas sociais.


“A principal razão para a escolha do dia 7 de setembro para a realização do Grito dos Excluídos e Excluídas é fazer um contraponto ao Grito da Independência. Além de questionar os padrões de independência do povo brasileiro, a manifestação busca uma reflexão sobre um Brasil que deve ser mais justo e com oportunidades para todos os cidadãos.”

Apesar das mobilizações fascistas que estão ocorrendo hoje, os movimentos sociais confirmaram suas presenças nas ruas clamando pelo Fora Bolsonaro.

Referências:

1. FERNANDES, F. A Revolução Burguesa no Brasil. Editora Zahar, 2008;

2. PAIVA, C. A. Florestan, o obscuro, e o liberalismo monárquico. Estud. av. 11 (30). Ago 1997. https://doi.org/10.1590/S0103-40141997000200020

3. https://spbancarios.com.br/

Compartilhado de @historiaguardada

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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A Fazenda do Peri Peri e os bofetões de Dom Pedro I - Seropédica /Japeri / Itaguaí - RJ


Ruínas da Fazenda do Peri Peri no início do século XX.
Acervo pessoal de Hugo Delphim.

A Fazenda do Peri Peri, também chamada Feitoria Imperial do Peri Peri, era uma das três feitorias (subsedes) da Fazenda Imperial de Santa Cruz. Sendo as outras, as feitorias de Santarém e do Bom Jardim, que já tiveram suas histórias publicadas aqui na página.

A Feitoria do Peri Peri foi frequentada pela família imperial, em especial Dom Pedro I e se localizava na antiga Freguesia de N. S. da Conceição do Bananal (atual Jardim Maracanã), estabelecida onde hoje é a divisa do município de Seropédica com Japeri. Toda esta região fazia parde de "Itaguahy" e se localizava em terras da Fazenda Imperial de Santa Cruz. 

Na época que a Fazenda de Santa Cruz ainda pertencia aos jesuítas, isto é, até meados do século XVIII, houve no posterior Peri Peri um quilombo, chamado Quilombo do Valão da Areia, que foi aniquilado após a expulsão dos jesuítas. Nas proximidades se estabeleceu uma fábrica de farinha, de propriedade do poderoso Ignácio de Andrade Souto Maior Rondon, o comandante geral das milícias do litoral. Nesta mesma região, surgiu depois, por volta de 1860, o Quilombo do Garcia, apelidado jocosamente assim, por ter sido criado pelo escravizado Fernandes e outros companheiros que lutavam contra os desmandos e mau tratos de José Ignácio Garcia, então superintendente da Fazenda de Santa Cruz. A administração de Garcia foi um desastre em todos os sentidos, desde os maus tratos aos escravos, falta de manutenção nas benfeitorias da fazenda, desvio de verbas, além de outra medidas arbitrárias, como proibição da venda de produtos da roça própria dos escravos, que só podiam vender para Garcia, por preços irrisórios, pois o mesmo possuía uma taverna na região. Ele era a personificação da corrupção e algumas fontes afirmam que foi assassinado.


Recorte de mapa de 1848, onde aparece a Feitoria do Peri Peri ao norte da Freguesia do Bananal. Note os vizinhos Engenho do Campo Alegre, Engenho do Morgado do Marapicu, Francisco Belém e etc. Fonte: Biblioteca Nacional.

A feitoria também foi chamada de Piripiry, Peripery, Piri piri, Peri-Peri e de tantas outras formas parecidas. A origem do nome é o tupi "piri", que significa junco, planta que nasce em terrenos aladadiços, também chamada táboa. Em alguns mapas antigos a feitoria é assinalada ao norte da Freguesia do Bananal e em outros ao sul. Isso se deve por compreender uma grande área. Analisando registros antigos, tudo indica que a Feitoria do Peri Peri se localizava onde hoje é o Jardim Maracanã e seu limites iam desde o Valão da Areia (fundos do DCMUN Paracambi), Jardim Marajoara, em Japeri, até o Incra, em Seropédica. Registros também dão como vizinhos os Engenhos do Campo Alegre (atual bairro Campo Alegre) e do Morgado de Marapicu, ambos em Nova Iguaçu. Próximo a feitoria passava a importante Estrada do Mato Grosso.

Foi nesse local esquecido pela história, que no início do século XIX, Dom Pedro I teve seus primeiros encontros com sua amante, Domitila de Castro, a futura Marquesa de Santos. Depois os encontros ocorreram na Fazenda de Santa Cruz, e com o tempo, mais descaradamente em São Cristóvão.

Pouco antes das aventuras com o imperador, Domitila havia sofrido, em 1819, um atentado a facadas de seu primeiro marido, o alferes do regimento de cavalaria de Minas, Felicio Pinto Coelho de Mendonça, por suspeita de traição, com D. Francisco de Lorena, colega de farda. Após 1822, ao enveredar no relacionamento com o imperador, deu entrada no pedido de divórcio, que costumava ser bem demorado. Foi em 1824 e em menos de 48 horas tomou-se a justificação preparatória e menos de uma semana depois, já havia sentença contra Felicio Pinto Coelho de Mendonça. Por motivos inexplicáveis, seu ex-marido deixa o processo correr a revelia, em favor de Domitila, que consegue o divórcio rapidamente. Curiosamente, na mesma semana, Felicio Coelho recebe o cargo de administrador da Feitoria do Peri Peri. Tudo indica que se tratava de um "cala boca". Este cargo lhe dava uma renda de 20$000 mensais! O reverendo José Caetano de Aguiar, vigário colado que deu a sentença favorável, depois chegou a senador do império. Domitila deu a luz a uma filha de Dom Pedro I, a futura Duquesa de Goiás, apenas dois dias após a sentença do divórcio. Enquanto se proclamava sua boa conduta no processo, talvez já estivesse a sentir as primeiras dores do parto da filha de seu amante imperial. Sem entrar no mérito da traição, o divórcio foi justo, pois Felicio Coelho era um "traste".


Imagem de satélite da localização da Feitoria do Peri Peri. 
Pesquisa de Hugo Delphim.

Nos anos seguintes Felicio Coelho tenta, através de uma carta, a intercessão de Domitila junto ao imperador, a fim de ser nomeado sargento-mór da Freguesia do Pilar e Serro. Não tendo sido atendido, escreveu outra carta a difamando. A carta chega as mãos do seu imperial amante. Foi quando num ato impulsivo, numa noite chuvosa, Dom Pedro I cavalga por incríveis 12 léguas que separam São Cristovão da Feitoria do Peri Peri, para então esbofetear seu antecessor, obrigando também a assinar um documento onde se compromete a não difamar mais a Domitila, sob pena de levar uma surra completa. Após a agressão, o imperador tratou de retornar debaixo de chuva para São Cristovão. Nada menos que 162 kilometros (ida e volta) em menos de 24 horas! Parece lenda? Mas não é. Diversas fontes antigas confirmam esse ocorrido.

Após a administração de Felicio Coelho, a Feitoria do Peri Peri passa a ser, ora arrendada por períodos estabelecidos em contratos, trocando de arrendatários por diversas vezes, e ora administrada. Segue um anúncio de 1832:


Ruínas da Fazenda do Peri Peri no início do século XX. 
Acervo pessoal de Hugo Delphim.

"Sua Ex. o Tutor de S. magestade Imperial, e de suas Augustas Irmães, tem-me authorizado para annunciar, que as Feitorias de Santarem, Bom Jardim, e Peripiry annexas á Fazenda Nacional e Imperial de Santa Cruz, sob minha Superintendencia vão a ser arrendadas: por tanto todas as pessoas que pertenderem taes arrendamentos, pódem dirigir-se ao Escriptorio da mesma Fazenda, ou á Secretaria da Casa Imperial para verem as condições. Rio de Janeiro 13 de Novembro de 1832. Francisco Manoel de Moraes." (Diário do Rio de Janeiro)

Após o primeiro contrato, o arrendatário é despejado, conforme registro de 1835:

"S. Ex. informa ainda que os arrendatários das feitorias de Bom-Jardim e de Santarém vão cumprindo os seus engajamentos, e que pela razão contraria fôra despejado judicialmente o arrendatario de Peripery; que se trata de liquidar as contas apresentadas com notavel exageração pelo administrador..." (Annaes do Parlamento Brasileiro)

Talvez o despejado era o Coronel Ornellas, que em 1835 foi o arrendatário. Mas a notícia não cita o nome. Ainda em 1835, a feitoria é anunciada novamente:

"Arrenda-se a quem maiores vantagens offerecer, a Fazenda denominada Peripery, em terras de Santa Cruz, com escravatura, boiada, engenho de cana, etcs. Quem quizer ver as condições. dirija-se á Secretaria da Casa Imperial, todos os dias uteis, das 10 horas da manhã às 2 da tarde." (Jornal do Commercio).


Recorte de mapa do início do século XIX, onde aparece a Feitoria do Peri Peri vizinha a Ignácio de Andrade Souto Maior Rondon, Barão (depois Marquês) de Itanhaém e Morgado de Marapicu. Nesta época ainda não havia sido criada a Freguesia do Bananal. Fonte: Biblioteca Nacional.

Após o arrendamento do Coronel Ornellas, a feitoria é arrendada para o Padre Francisco Moreira Corrêa da Silva em 1836. Não se sabe o motivo, mas ainda no mesmo ano a feitoria é novamente arrendada, conforme outra notícia:

"Arrendamentos - Diz-se que a Feitoria do Piri-Piri com 72 escravos, pertencente á Fazenda de Santa Cruz, fôra arrendada pelo filho do Sr. Marquês de Itanhaem por 1:200$000 réis. Só os jornaes dos escravos sáem a 46 réis por dia!!! A caridade bem ordenada principia por casa." (Jornal O Sete d'Abril)

O Marquês de Itanhaem foi um grande fazendeiro de Marapicu, localidade vizinha. A notícia em tom de protesto sugere que havia algo errado no contrato de arrendamento, que foi feito a seu filho, pois nesta época, após a prisão de José Bonifácio, o Marquês de Itanhaém era o tutor de Dom Pedro de Alcântara, então com 8 anos, e suas irmãs. Ele que tinha o poder de decisão, arrendou para seu próprio filho.

Na fim da década seguinte, até 1849, a feitoria do Peri Peri foi administrada por Ladisláo José dos Reis e a partir de 1850, por Ignacio Rodrigues Pinheiro da Silva. Em 1862 a Feitoria do Peri Peri estava arrendada para Manoel Antonio de Araujo. Nesta época ocorre um fato curioso no local, que foi utilizado para falsificação de notas falsas:

"Partirão ante-hontem para Itaguahy, onde vão ser julgados, varios individuos indiciados no crime de falsificação de moeda-papel, que havião estabelecido sua fabrica na fazenda do Piripiri. Entre elles ha um tenente da guarda nacional (...) Entre os compromettidos no crime de tentariva de moeda falsa, descoberto na fazenda do Piripiri foi comprehendido Manoel Antonio de Araujo que foi também condemnado em galés por 10 annos, na Ilha de Fernando..." (Correio Mercantil)


Recorte de mapa do início do século XIX, onde aparece a Feitoria do Peri Peri vizinha a Ignácio de Andrade Souto Maior Rondon, Barão (depois Marquês) de Itanhaém e Morgado de Marapicu. Nesta época ainda não havia sido criada a Freguesia do Bananal. Fonte: Biblioteca Nacional.

Sobre esse mesmo fato, segue outro relato:

"...o Chefe de Policia recebeu denuncia de que alguns indivíduos tratavam de montar, na fazenda de Periperi, na freguezia do Bananal, termo de Itaguahy, uma fabrica de notas falsas, estando já compradas as respectivas machinas e abertas as competentes chapas. Era verdadeira a denuncia; para lá se dirigiram as autoridades, encontrando a fabrica em franco fnccionamento, sendo presos os hespanhoes Pedro Martinez e Manoel Garcia Noboa e os brasileiros Antonio Dias da Silva, conhecido por "Pazão", Manoel Antonio de Araujo, arrendatario da fazenda, Antonio da Silva Rangel, Manoel Antonio Pereira Junior, José Alvares, Francisco Antonio de Mendonça, Manoel Pinto Ferreira Vianna e Jeronmo Pires da Silva." (Vida Policial)

Infelizmente não se tem a localização exata da sede da Feitoria do Peri Peri e dela não restou pedra sobre pedra!

Em anexo segue recorte de mapas da primeira metade do século XIX onde localizam as terras da feitoria. As imagens das ruínas são do início do século XX, últimos vestígios que testemunharam a existência desse local cheio de história!

Texto e pesquisa de Hugo Delphim, publicados na Página O belo e histórico Rio de Janeiro.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O NOPH e a rica história de Santa Cruz



Foi lá pelo início dos anos 2000, quando comecei a fazer minhas pesquisas para o livro "O  Velho Oeste Carioca", que conheci este importante centro de estudos da Zona Oeste do Rio de Janeiro, o NOPH, Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz, bairro que abriga um importante patrimônio daHistória do Brasil em monumentos tombados ou protegidos por diversas instâncias do Patrimônio Histórico. Fundado em 3 de agosto (por coincidência dia do meu aniversário) de 1983, o NOPH funcionou, no início, em salas na matriz de Nossa Senhora da Conceição, no centro do bairro, mas já há muitos anos está no Centro Cultural Dr. Antônio Nicolau Jorge, dentro do imponente Palacete Princesa Isabel.

A construção foi sede do Matadouro de Santa Cruz, inaugurado em 30 de dezembro de 1881, com a presença do imperador D. Pedro II. Depois teria outras funções, como o Colégio Princesa Isabel, e sofreria um incêndio em 1985, quando perdeu parte da estrutura original e muitos documentos. Após uma longa reforma, o palacete, que é administrado pela Secretaria Municipal de Educação, abriga a Biblioteca do NOPH, a Biblioteca de Santa Cruz, exposições permanentes, aulas de música e vários espaços para eventos. O principal objetivo do NOPH, que é uma associação civil sem fins lucrativos, como está em seus estatutos, é estimular a pesquisa sobre a História de Santa Cruz e da Zona Oeste, além de promover eventos culturais em seu espaço. Entre os muitos patrimônios históricos de Santa Cruz, temos a Ponte dos Jesuítas, o Matadouro, o Batalhão Villagran Cabrita, a Casa Ser Cidadão (onde morou o senador Júlio Cesário de Melo), a Casa do Sal, o Hangar do Zeppelin, entre tantos outros, além da História Social incluída nos projetos de habitação social de comunidades como Antares, Cesarão e Rolas.

Fonte:

MANSUR, André. "Crônicas Históricas da Zona Oeste Carioca" - 1ª edição - Rio de Janeiro: edição do autor, 2021.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

Opinião do autor do blog:

O livro "Crônicas Históricas da Zona Oeste Carioca", de André Luís Mansur, traz um conteúdo importantíssimo para todos aqueles que queiram conhecer uma parte da rica  e muitas vezes desconhecida história da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A clareza dos relatos do autor tornam a leitura agradável e de fácil compreensão para alunos e professores de todos os níveis de ensino.

Por fim, conta ainda com uma importante bibliografia contendo livros e páginas da internet para quem quiser conhecer mais sobre a história dos bairros cariocas.

É uma leitura que vale a pena conhecer!

Para quem quiser comprar é só mandar um zap para o autor: 21 999197723

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Querem nos calar, mas não vão conseguir. Parabéns a todos os historiadores nesta data!



Somos inoportunos, sabemos que somos, mas, o inoportuno historiador insiste: rancoroso por buscar, fielmente, e tentar mostrar a evidência histórica que incomoda... ao retirar a aparência simples das coisas da vida...

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

“Desmundo”, o filme que mostra o Brasil do século XVI

 Por Joelza Ester Domingues

Simone Spoladore em Desmundo, de Alain Fresnot, 2003.

Baseado no livro homônimo de Ana Miranda, o filme “Desmundo” narra a história das órfãs portuguesas que, em 1570, foram enviadas ao Brasil para se casarem  com os colonizadores. Sob o apoio da Igreja, o Estado português pretendia que os colonos tivessem casamentos  “brancos e cristãos”  reduzindo, assim, o nascimento de crianças mestiças oriundas das relações com índias e negras. O filme inicia com um fragmento da carta enviada pelo padre Manoel da Nóbrega ao rei D. João, em 1552. Nela vemos o excerto na íntegra:

A personagem Oribela (Simone Spoladore), de 16 anos, é uma das órfãs portuguesa enviadas ao Brasil para o casamento forçado. Obrigada a casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), é levada para seu engenho de açúcar onde é violentada pelo marido. Tenta fugir, embarcar para um navio e voltar a Portugal, mas é recapturada por Francisco que a acorrenta em um pequeno galpão. Ali ela só conta com a ajuda de uma índia que lhe leva comida e aplica plantas medicinais em seus ferimentos.

Quando ela sai de seu cativeiro, continua determinada em fugir, até que numa noite, ela se disfarça de homem e segue para a vila, pedindo ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um cristão-novo que morava na região. Mantêm-se escondida  no estabelecimento do cristão-novo até ser descoberta pelo marido. Novamente capturada, Oribela retorna à casa de Francisco. Passado algum tempo, Oribela dá à luz a uma criança, deixando-se em dúvida quem seria seu pai.

O drama vivido pela personagem faz compreender o título do filme: a colônia, longe de ser o paraíso imaginado pelos primeiros colonizadores e nem mesmo uma reprodução do Reino, transformou-se num “desmundo”, isto é, um “não-mundo”, termo aportuguesado do latim.

A mulher no Brasil colonial


Oribela (Simone Spoladore) pede ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um cristão-novo que morava na região. O relacionamento entre eles forma um triângulo de trágicas consequências.

No filme “Desmundo”, além de Oribela, dona Branca (Berta Zemel), dona Brites (Beatriz Segall) e outras personagens femininas  traduzem a condição da mulher no Brasil colonial.

Segundo os costumes da época, quando uma jovem perdia o pai, ficava sob a tutela do Estado português que se tornava responsável pelo seu futuro. Enviar órfãs para desposar colonos era uma prática comum e foi adotada em outras colônias, como, por exemplo, em Goa, na Índia, como forma de preservar a “pureza” da elite branca de origem portuguesa.

A mulher vivia, então, submetida às leis do Estado e da Igreja sob o fundamento de que o homem era superior e, portanto, cabia a ele exercer a autoridade. A mulher devia submissão total ao homem seja ele o pai, o marido, o irmão ou um tio. Sua educação era voltada exclusivamente para os afazeres domésticos. Aprendia a cozinhar, fiar, tecer, bordar. O aprendizado da leitura e da escrita, quando ocorria, limitava-se ao mínimo restringindo-se ao funcionamento do futuro lar: ler, escrever, contar para redigir uma receita, um bilhete, uma lista de produtos etc.

Casava-se menina ainda, com 12 anos completos ou até mais cedo. O matrimônio era decidido pelo pai e este ficava muito apreensivo quando a menina de 14 ou 15 anos ainda não se casara, ou pior, se sequer conseguira marido para ela. O noivo era, em geral, um homem bem mais velho, de trinta, sessenta até setenta anos. O ato sexual não se destinava ao prazer (especialmente para a mulher), mas à procriação de filhos. A relação sexual era marcada pela violência, quase um estupro, como bem mostra o filme.


Personagem não identificada no filme, a menina com síndrome de Down mora na propriedade de Francisco de Albuquerque junto com sua mãe.

O filme insinua uma relação incestuosa entre mãe e filho, pelos diálogos entre dona Branca e Francisco de Albuquerque e pela presença da menina excepcional sem que haja referência ao seu pai. Pode-se supor que a criança fosse filha de Francisco de Albuquerque, gerada de uma relação com a própria mãe.

Sociedade colonial

Chamados de “brasis”, os índios são escravizados pelos colonos. Os jesuítas reclamam da falta de batismo dos nativos. Em suas visitas frequentes à casa de Francisco, o padre acusa que, na fazenda dele, existem mais de dez brasis sem receber catequese. Ao final, o padre leva alguns meninos índios  para torná-los cristãos, deixando-se no ar a suspeita de que, na verdade, pretendia usá-los como mãos de obra escrava.


Dona Branca (Berta Zemel) em Desmundo.

O cristão-novo, judeu convertido ao catolicismo, é um elemento dúbio no filme. Apesar de sua presença necessária, é visto com desconfiança pelos demais colonos e, as vezes, até com repulsa.

O filme “Desmundo” faz uma reconstituição rigorosa do Brasil do século  XVI no vestuário, mobiliário, costumes e inclusive na língua. Alain Fresnot manteve o plurilinguismo do romance de Ana Miranda. Inteiramente falado em  galego-português, a forma arcaica da língua portuguesa, que todo elenco teve que aprender. O filme traz legendas em português contemporâneo para facilitar a compreensão do público. Para essa tarefa, o diretor contou com o auxílio e a supervisão de Helder Ferreira e Heitor Megale, renomados escritores e professores de Linguística da USP.

Interessante observar que as falas em tupi, dos indígenas, e em nagô, dos escravos não tem tradução. Talvez Fresnot desejou manter a plateia com a mesma sensação de estupefação de Oribela diante do desconhecido universo linguístico do Brasil da época. Isso permite ao espectador imaginar a pluralidade de linguagens existente na colônia e a dificuldade de comunicação entre os diversos grupos sociais.

Explorando os temas abordados pelo filme Desmundo:

O filme “Desmundo” é um rico recurso pedagógico que permite trabalhar temas específicos e polêmicos da História Colonial brasileira, bem como em uma abordagem interdisciplinar, já que envolve outros temas que poderão ser trabalhados em outras disciplinas.

Entre os temas que podem ser extraídos do filme “Desmundo” estão:

A religiosidade no Brasil colonial. 

A situação da mulher na sociedade portuguesa do século XV. 

O conceito de matrimônio. 

O cotidiano no Brasil colonial: costumes, habitações, condições de higiene. 

Conflitos entre a Igreja e os colonos na questão indígena. 

Relações comerciais na colônia. 

Relações sociais na colônia: colonos, índios, padres, cristãos-novos. 

A família patriarcal.

Sugestão de questões:

1 - Situe a época e o local em que se passa a história narrada no filme. 

2 - Descreva os principais cenários do filme: a vila, o engenho de Francisco de Albuquerque e a Mata Atlântica. 

3 - Quais são as línguas faladas no filme? 

4 - Como os indígenas eram chamados pelos colonizadores? 

5 - Como o padre caracteriza o índio em seu discurso durante o casamento? 

6 - Como ocorria a catequização dos indígenas? 

7 - Por que Ximeno Dias é visto com desconfiança e inferioridade por Francisco Albuquerque? Por que ele tem que esconder suas crenças? 

8 - Que elementos do filme expressam o patriarcalismo da sociedade colonial brasileira? 

9 - Como a mulher é retratada no filme? 

10 - O filme mostra uma sociedade marcada pela subordinação e violência em todas as relações sociais. Cite três exemplos de subordinação e violência. [Entre maridos/homens e esposas/mulheres; entre senhores e escravos; entre católicos e cristãos-novos.] 

11 - A palavra “desmundo” não existe na língua portuguesa. No entanto, ela faz sentido do ponto de vista da personagem Oribela. Por que?

Fontes consultadas:

Desmundo. Direção de Alain Fresnot. Brasil, 2003, 100 min. Filme completo aqui. 

NÓBREGA, Manoel da. (1517-1570). Cartas do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1988. 

“Desmundo”, de Alain Fresnot, entrevista com a profª. Drª. Márcia Eckert Miranda, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, edição 216, 23 abr 2007. 

FONTES, Mariana Cunha; FEITOZA, Tatiana Aparecida. “Desmundo” uma análise da América por trás do filme. Revista IHGP, v. 7, n.2, 2020. 

ZORZO, Solange Salete Toccolini. A voz ex-cêntrica da personagem Oribela em “Desmundo”. Revista Policromias, dez 2017, p. 111-122. 

_________. “Desmundo”: as relações dialógicas entre o romance de Ana Miranda e o filme de Alain Fresnot. 

NEVES, Fátima Maria. O filme “Desmundo”, a História e a Educação, a História e a Educação. ANPUH, XXIV Simpósio Nacional de História, 2007. 

GREGIO, Gustavo Batista. Igreja e família: a submissão da mulher no filme “Desmundo” a submissão da mulher no filme “Desmundo” (Universidade Estadual de Maringá). VI SIES, Simpósio Internacional em Educação Sexual. 

_________; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. A construção histórica do gênero feminino na narrativa fílmica de ‘Desmundo”. História Debates e Tendências. Passo Fundo, v. 21, n.2, mai/jun 2021, p. 67-86.

https://ensinarhistoria.com.br/desmundo-o-brasil-do-sec-xvi/  Em 15/08/2021.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego