sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O Príncipe Francês que foi espancado na Bahia em 1840


"Francisco Fernando Felipe Luís Maria de Orleans, Príncipe de Joinville, terceiro filho do Rei de França Luís Filipe, casou em 1843 com a Princesa D. Francisca de Bragança, irmã de D. Pedro II, Imperador do Brasil. Como Contra-Almirante em 1840, foi nomeado comandante da divisão da esquadra francesa encarregada de repatriar os restos mortais de Napoleão Bonaparte sepultados em Santa Helena. 

Para cumprir essa missão, deixou a França com as fragatas “Belle-Poule” e “Favorite”, tocando em primeiro lugar no porto de Tenerife, nas Canárias. Fez uma parada no Brasil que havia visitado em 1838, aportando na Bahia, onde o esperava uma aventura bem pouco interessante, segundo conta nas suas “Memórias”. 

Estando a sua esquadrilha fundeada diante da velha cidade do Salvador à espera de vento de feição que a levasse à Ilha de Santa Helena, resolveu o Príncipe francês, para matar o tempo, realizar uma excursão venatória no Rio Paraguaçu, que êle denomina Cachoeira. Fretou pequena lancha a vapor e, em companhia de alguns de seus oficiais, se dirigiu ao Recôncavo, subindo o rio sem encontrar viva alma até grande distância da foz. 

Em certo ponto, deixou a embarcação ancorada e se meteu pelos matos, fazendo, diz êle, grande matança de papagaios, tucanos e outros animais. 

Ao pôr do Sol, meteram-se os caçadores por um caminho que, atravessando vasta clareira, os levou a uma povoação, a qual encontraram absolutamente deserta. Não se via uma pessoa na sua praça e nas suas ruas. As casas de moradia e de comércio se achavam tôdas fechadas. A igreja, aberta e deserta, ainda rescendia ao incenso duma cerimônia religiosa que se deveria ter realizado havia pouco tempo. 

“O povoado assim repentinamente abandonado"— escreve o Príncipe de Joinville — começou a nos intrigar. 

Como se aproximasse a noite, decidiram os franceses regressar a bordo e voltaram tranquilamente para a sua lancha pelo mesmo caminho.

Mas, quando se preparavam para embarcar, foram repentinamente cercados por uma verdadeira multidão, armada de espingardas, chuços, sabres, facões e paus. 

Não puderam o Príncipe e seus oficiais oferecer a menor resistência, pois logo os agarraram, os desarmaram, os separaram uns dos outros, os moeram a pau e os arrastaram para os matos.  A maioria dos atacantes compunha-se de negros e mulatos, que vociferavam e metiam o cacete a torto e a direito, de maneira que os franceses tiveram a impressão nítida de se acharem em poder duma horda de selvagens. 

O Principe tentou fazer-lhes compreender com algumas palavras de mau português, que era o comandante dos navios de guerra franceses na Bahia. Ao mesmo tempo, dizia-lhe que êle e os seus se arrependeriam, se lhe fizessem algum mal e aos seus companheiros. 

O poviléu furioso não lhe deu ouvidos. Arrastou-o a um montículo, onde o encostaram para o fuzilar, aprestando-se meia dúzia de pretos para isso com suas espingardas. 

Joinville foi salvo pelo Tenente Touchard , que conseguiu desembaraçar-se dos que o seguravam e cobriu com o seu o corpo do Príncipe. O tal homem da faixa conseguiu impor ordem àqueles endemoniados e ouvir as explicações dos mal-aventurados caçadores de tucanos e papagaios. 

À excitação sucedeu a calma. Os franceses puderam dizer quem eram e o que andavam fazendo. E o tal homem da faixa mandou que os soltassem, dando-lhe explicações que aclararam.

Os habitantes do vilajero baiano haviam confundindo os franceses com cangaceiros matadores, pois em um agitado período de eleições, o povo do vilajero foi ameaçado de morte por um político local por não terem apoiado a Revolta da Sabinada, ocorrida anos antes.

Narrando o acontecido, o Príncipe de Joinville termina um tanto melancolicamente: “Fomos, sem demora, postos em liberdade, com muitas desculpas, que, porém, não atenuaram os efeitos das pancadas recebidas”. O que nos permite afirmar que Sua Alteza, antes de conduzir o corpo de Napoleão para os Inválidos, foi na verdade, embora por equívoco, surrado na Bahia. 

O lamentável incidente motivou, como era natural, uma troca de notas diplomáticas entre as Chancelarias da França e do Brasil. O Govêrno Imperial deu as satisfações que o caso exigia e mandou proceder a rigoroso inquérito na Vila da Cachoeira, cuja população praticara o feito. 

Três anos mais tarde, esquecendo de todo aquela surra, o Almirante-Príncipe de Joinville casava com D. Francisca, Princesa brasileira, a qual seria, na intimidade da corte de França, a bela e simpática Chicá.  

Fonte: "Segredos e Revelações da História do Brasil" - Gustavo Barroso.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Anarcha: a mulher negra que foi cobaia das primeiras experiências ginecológicas


Até hoje, muitas mulheres sentem-se desconfortáveis ao fazerem certos exames ginecológicos. Casos de abusos cometidos em consultórios ou de violência obstétrica são mais comuns do que imaginamos. E foi justamente a partir de procedimentos médicos violentos que nasceu a ginecologia moderna.

Considerado o pai da ginecologia moderna, James Marion Sims desenvolveu uma série de intervenções cirúrgicas em mulheres escravizadas e notabilizou-se por desenvolver uma técnica cirúrgica para correção de fístulas vesicovaginais e retrovaginais, que são conexões anormais entre a bexiga, a vagina e o reto.

Ele começou a desenvolver seus procedimentos cirúrgicos em 1845 e a sua principal cobaia foi Anarcha Westcott, uma jovem escravizada de 17 anos, que vivia no Alabama.

Anarcha sofria de raquitismo e, por isso, tinha a sua pélvis desfigurada. Em 1849, ela ficou por três dias sofrendo a dor de um parto extremamente difícil em função de sua condição de saúde. O médico James Marion Sims entrou em cena para ajudá-la, mas, na verdade, a jovem se tornaria uma cobaia de seus experimentos ginecológicos.

Sims acreditava que os negros sentiam menos dor, por isso, não hesitou em submeter Anarcha a 30 procedimentos cirúrgicos sem uso de anestesia.

A jovem conseguiu ter o seu filho, porém foi submetida a uma dor extrema para que o médico desenvolvesse a sua técnica. Além disso, enfrentou muitas dores e sangramento na vagina e no reto, após a cirurgia. Isso serviu de deixa para que Sims continuasse a desenvolver as suas técnicas cirúrgicas, torturando Anarcha com uma série de outros procedimentos.

Além de Anarcha, dezenas de outras mulheres escravizadas passaram por suas mãos, todas foram vítimas de cirurgias sem anestesia, muitas delas morreram. E foi graças à dor dessas mulheres, tratadas como meras cobaias, que o médico aperfeiçoou a sua técnica de correção da fístula vesicovaginal.

Depois de torturar diversas mulheres negras, o médico passou a realizar a cirurgia em mulheres brancas, nessas, no entanto, ele passou a usar anestesia.

A jovem conseguiu ter o seu filho, porém foi submetida a uma dor extrema para que o médico desenvolvesse a sua técnica. Além disso, enfrentou muitas dores e sangramento na vagina e no reto, após a cirurgia. Isso serviu de deixa para que Sims continuasse a desenvolver as suas técnicas cirúrgicas, torturando Anarcha com uma série de outros procedimentos.

Além de Anarcha, dezenas de outras mulheres escravizadas passaram por suas mãos, todas foram vítimas de cirurgias sem anestesia, muitas delas morreram. E foi graças à dor dessas mulheres, tratadas como meras cobaias, que o médico aperfeiçoou a sua técnica de correção da fístula vesicovaginal.

Depois de torturar diversas mulheres negras, o médico passou a realizar a cirurgia em mulheres brancas, nessas, no entanto, ele passou a usar anestesia.

A falta de ética de suas técnicas foi ignorada durante longo tempo e ele ganhou o título de pai da ginecologia moderna, sendo homenageado com uma estátua no Central Park, em Nova York. Em 2018, a estátua foi removida e, em seu lugar, foi colocada uma placa informando sobre a crueldade dos experimentos praticados por Sims e apresentando as histórias de Lucy, Betsey e Anarcha, três das mulheres escravizadas que serviram de cobaias para que o médico desenvolvesse as suas técnicas.

Nos relatórios dos experimentos que realizava, James Marion Sims falava que as mulheres escravizadas choravam de dor durante as cirurgias, admitia que elas poderiam morrer na mesa de operação, entretanto, sua ânsia por se tornar o pioneiro dessa técnica ginecológica era muito maior que qualquer princípio ético, levando-o a ignorar a extrema dor que as mulheres sentiam e a continuar os seus procedimentos sob a alegação de que não havia a necessidade de anestesia, já que as mulheres negras eram mais resistentes à dor do que as brancas. Ainda hoje, essa visão equivocada deixa seus lastros. Segundo relatório publicado em 2017 pela Fiocruz, é duas vezes maior a probabilidade de uma mulher negra não receber anestesia ao passar por uma episiotomia durante o parto.

Fonte: iconografiadahistoriaoficial

Texto: Adriana de Paula.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

O Palácio de Santa Cruz


A Imagem 1 é uma arte feita por Pedro Von Erven e mostra como era o Palácio Imperial de Santa Cruz. A arte hiper-realista mostra como era o Palácio de Santa Cruz no passado e foi inspirada em um desenho feito de Jean Baptiste Debret do Mirante do Imperador. Nessa arte, vemos o Palácio ainda com um só lado e a capela Imperial, já que anos depois seria construída um outro anexo, se transformando em um Palácio Imponente.

As outras imagens mostram em  períodos diferentes . 

Eis uma construção que jamais foi valorizada, respeitada e devidamente aproveitada. Hoje no local funciona um Quartel.

Para quem quiser saber mais:

A Fazenda Imperial de Santa Cruz (ou Fazenda de Santa Cruz, Fazenda Real de Santa Cruz, ou Fazenda dos Jesuítas, ou, ainda, Fazenda Nacional de Santa Cruz ) foi uma fazenda fundada por Cristóvão Monteiro em 1556 nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. Sua sede e núcleo principal corresponde hoje ao bairro carioca de Santa Cruz.



Os Padres Jesuítas

Com a chegada dos colonizadores portugueses à baía da Guanabara, em 30 de dezembro de 1556, foi doada a Cristóvão Monteiro, da Capitania de São Vicente, uma sesmaria como recompensa aos serviços prestados durante o combate aos invasores franceses da Guanabara. A sesmaria foi destinada à produção de açúcar e compreendia uma larga área desde a orla marítima da atual Sepetiba até as proximidades de Itacuruçá, com cerca de quatro léguas de largura por 10 léguas de extensão. A sede da fazenda começou a ser construída em 1570. Ao morrer Cristóvão Monteiro, a sua esposa, dona Marquesa Ferreira, doou aos padres da Companhia de Jesus sua parte das terras.

Os religiosos agregaram estas terras a outras sesmarias, constituindo um imenso latifúndio assinalado por uma grande cruz de madeira: a Santa Cruz. Em poucas décadas, a região compreendida entre a barra de Guaratiba, o atual município de Mangaratiba, até Vassouras, no sul do atual Estado do Rio de Janeiro, integrava a poderosa Fazenda de Santa Cruz, o maior complexo agropastoril do Brasil durante o século XVIII, contando com milhares de escravos, cabeças de gado, e diversos tipos de cultivos, como arroz, milho, feijão, batata e mais tarde o café.

Entre as edificações, hoje com valor histórico, contam-se igreja e um convento, ambos ricamente decorados. Uma dessas obras remanescentes é a chamada Ponte do Guandu ou Ponte dos Jesuítas. Na verdade uma represa, foi erguida em 1752, com a finalidade de regular o volume das águas das enchentes do rio Guandu. Atualmente, esse monumento permanece com a sua estrutura original quase inalterada.

Outra das iniciativas dos dirigentes da Fazenda de Santa Cruz, no plano da cultura, foi a fundação de uma Escola de Música, de uma Orquestra e de um Coral, integrados por escravos, que tocavam e cantavam nas missas e nas festividades quer na Fazenda, quer na Capital da Capitania. Considera-se, por essa razão, que Santa Cruz foi o berço da organização instrumental e coral do primeiro Conservatório de Música no Brasil.

Passa pelas terras da Fazenda de Santa Cruz a trilha que no período colonial ligava a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro ao sertão: o Caminho dos Jesuítas, posteriormente denominado Caminho das Minas, e posteriormente ainda, Estrada Real de Santa Cruz. O seu percurso estendia-se até ao porto de Sepetiba, onde se embarcava com destino à cidade de Parati, de onde partia a antiga Estrada Real.

A chegada da Família Real

Diante da expulsão dos Jesuítas dos domínios de Portugal e suas colônias, em 1759 por ação do Marquês de Pombal, o patrimônio da Companhia de Jesus (e a Fazenda de Santa Cruz) reverteu para a Coroa, passando a se subordinar aos vice-reis. Após um período de dificuldades administrativas, sob o governo do Vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza, a Fazenda voltou a conhecer um período de prosperidade.

No início do século XIX, com a chegada da Família Real ao Brasil (1808) e o seu estabelecimento no Rio de Janeiro, a fazenda foi escolhida como local de veraneio. Desse modo, o antigo convento foi adaptado às funções de paço real, o Palácio Real de Santa Cruz, recebendo nova mobília e decorações. Sentindo-se confortável na Real Fazenda de Santa Cruz, o Príncipe Regente prolongava a sua estada por vários meses, despachando, promovendo audiências públicas e recepções a partir da mesma. Nela cresceram e foram educados os príncipes D. Pedro e D. Miguel. Porém, segundo o comerciante inglês John Luccock, que conheceu a fazenda nesta época, o edifício principal estava em bom estado, ainda que o considerasse simples demais para servir de pousada para um monarca, mas a maior parte da propriedade estava em uma condição de abandono.

Em 1812 foi autorizada a entrada de 400 chineses no Brasil, parte deles encaminhada para a plantação experimental de chá, no sítio hoje conhecido como Morro do Chá. Durante quase um século essa atividade foi produtiva e atraiu o interesse de técnicos e visitantes, tal o pioneirismo de sua implantação no Brasil. No entanto, de acordo com o jornalista Patrick Wilcken, no seu livro Império à Deriva (2010), o chá-da-índia cultivado em solo brasileiro não apresentou as mesmas características originais, sendo de qualidade inferior e de gosto amargo, o que acarretou em fracasso econômico ao contrário do café.

Por iniciativa do soberano português a capela musical da fazenda, que sobrevivia em precária condição, foi reativada e reforçada com a designação de dois professores, Quintiliano José de Moura e Inácio Pinheiro da Silva. Em 1810 o grupo já funcionava regularmente com coro e orquestra e em 1814 atuavam ali cinquenta músicos, homens e mulheres, todos escravos. José Maurício Nunes Garcia passou temporadas na fazenda acompanhando o rei e compôs peças para o conjunto. Marcos Portugal e seu irmão Simão Portugal também deixaram obras. Os integrantes frequentemente eram requisitados para apresentações solenes na Capela Real do Rio de Janeiro e no grupo de câmara mantido por D. João no Palácio da Quinta da Boa Vista, além de serem emprestados ou alugados por terceiros para abrilhantar festas privadas, o que é um indicativo da alta qualificação atingida. Spix e Von Martius disseram que a música era executada "com muita perfeição". Esse conjunto permaneceu ativo até o Segundo Reinado. D. Pedro II muitas vezes regeu pessoalmente as apresentações.

Em 1817, arquiteto inglês John Johnson, contratado no governo do Rei D. João VI para fazer a ampliação e reforma do Palácio da Quinta da Boa Vista. Como registrou o pintor austríaco Thomas Ender, o Palácio Real de Santa Cruz também passa por reformas e ampliações, mas o projeto do arquiteto inglês não foi levado em consideração.

D. João VI despediu-se de Santa Cruz em 1821, para retornar à Metrópole Portuguesa. Em sua partida o palácio ainda estava em obras. Maria Graham deixou um testemunho do seu aspecto pouco tempo depois:

"A parte nova foi feita pelo rei D. João VI, mas os trabalhos se interromperam com sua partida. Os apartamentos são belos e mobiliados com conforto. Neste clima, as tapeçarias de parede, quer de papel, quer de seda, estão sujeitas a rápido estrago por causa da umidade e dos insetos. As paredes são, pois, rebocadas com um ótimo barro branco-amarelado rico e grosso, chamado tabatinga, e as cornijas e barras pintadas a fresco. Algumas destas são extremamente belas quanto ao desenho. Geralmente são muito bem executados os arabescos das frisas, compostos de frutas, flores, pássaros e insetos do país. Uma das salas representa um pavilhão, e entre as pilastras abertas, está pintada a paisagem em torno de Santa Cruz, não muito bem, realmente, mas a peça é agradável e alegre. Os artistas empregados eram principalmente mulatos e negros crioulos".

O Primeiro Reinado

Após o regresso de D João VI a Portugal, o Príncipe-Regente D. Pedro continuou constantemente presente em Santa Cruz, passando sua lua de mel com a Imperatriz Leopoldina (1818) nesta fazenda.

No contexto da Independência do Brasil, antes de iniciar a história viagem da Independência, o príncipe-regente deteve-se em Santa Cruz, onde aconteceu uma reunião no dia 15 de agosto de 1822, com a presença de José Bonifácio, para estabelecer as suas bases. 

Ao regressar, antes de seguir até a cidade, comemorou a Independência do Brasil na Fazenda. Durante o Primeiro Reinado, o Palácio Real transformou-se em Palácio Imperial.

O Segundo Reinado

D. Pedro I abdicou do trono, mas os seus filhos continuaram a manter presença constante na Fazenda Imperial de Santa Cruz. Desde cedo, D. Pedro II e as princesas Isabel e Leopoldina promoviam concorridos bailes e saraus no Palácio Imperial.

Santa Cruz, por sua posição político-econômico e sobretudo estratégica (frente para o mar e fundos para os caminhos dos sertões de Minas) foi uma das primeiras localidades do País a se beneficiar com o sistema de entrega em domicílio de cartas pelo correio. Em 22 de novembro de 1842 foi inaugurada a primeira Agência fixa dos Correios do Brasil, primeira também a adotar este serviço.

Dom Pedro II também instalou o primeiro telefone no Palácio Imperial de Santa Cruz, para comunicação com o Paço de São Cristóvão. Em 1861 o curato da fazenda passou para a administração franciscana, em 1878 foi inaugurada a estação de trem e no final de 1881, D. Pedro II inaugurou o Matadouro de Santa Cruz, tido como o mais moderno do mundo à época, que era servido por um ramal da Estrada de Ferro D. Pedro II e abastecia de carne toda a cidade do Rio de Janeiro.

Em 1885 D. Pedro fundou uma escola no local, a Escola Mista da Imperial Fazenda de Santa Cruz, mantida com seus próprios recursos, com aulas de Geografia, Francês, Religião, Leitura, Escrita, Gramática Portuguesa, Aritmética, Sistema Métrico, História do Brasil, Desenho Linear e Figurado, História Natural, Música, Ginástica e Costura, e com ensino profissionalizante para formação de carpinteiros, marceneiros, torneiros, ferreiros, serralheiros, alfaiates, sapateiros, oleiros, relojoeiros e funileiros, sendo destinada aos filhos dos funcionários da Casa Imperial. Contava também com um pavilhão esportivo, biblioteca e museu, adotando padrões progressistas de ensino num ambiente que seguia disposições científicas e higienistas, a fim de assegurar a qualidade da aprendizagem, a salubridade e o conforto.

A República e os tempos atuais

No fim do império grande parte da fazenda já estava ocupada por posseiros, agricultores e empresários, e já tinha vários núcleos de povoamento urbano.[3] Com o passar dos anos, a arquitetura do prédio principal da Fazenda de Santa Cruz passou por uma série de modificações, devido aos novos usos. No período republicano foi incorporada ao patrimônio da União e passou a se chamar Fazenda Nacional de Santa Cruz. Neste período foi acrescentado um novo pavimento à sua sede, onde hoje está estabelecido o Batalhão Escola de Engenharia.

A partir de 1967 o governo do estado decidiu implantar na área da fazenda um distrito industrial, o que significou uma rápida urbanização, sendo abertas rodovias, rede de abastecimento de água, sistema de iluminação e telecomunicações.

Originalmente duas vezes maior que a área da cidade do Rio de Janeiro, hoje vivem dentro dos seus antigos limites mais de 200 mil pessoas, gerando um grande problema de regularização fundiária. A extensa fazenda desde o período colonial foi sendo ocupada por agricultores e pecuaristas, que recebiam aforamentos, arrendamentos e outras autorizações para usufruto e trabalho, mas foram tantas, e concedidas de maneira tão assistemática, que a situação legal da propriedade se tornou muito complexa e confusa, situação complicada pelo fato de que muitos dos registros antigos foram perdidos. Em 2011, dos 225 mil hectares iniciais, restavam 80 mil hectares ainda sem regularização, divididos em 60 mil propriedades, em sua maioria sem título de posse. 

Atualmente a fazenda cobre partes dos bairros de Santa Cruz e Sepetiba, no Rio, e dos municípios de Itaguaí, Seropédica, Paracambi, Japeri, Engenheiro Paulo de Frontin, Mendes, Piraí e Rio Claro.

Texto de Cláudio Prado de Melo.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.

domingo, 3 de julho de 2022

O rapto do Rio Carioca

Por Roberto Anderson


Neste artigo, publicado originalmente no Diário do Rio, o arquiteto Roberto Anderson aborda as transformações que o Rio Carioca sofreu ao longo do tempo, destacando a sua importância como alvo ideal para dar início à grande jornada de recuperação dos nossos rios. “Ele não pode continuar sendo misturado ao esgoto e jogado em alto mar. Os cariocas querem o seu rio de volta”, afirma.

Ao final do artigo, vale conhecer a cartilha “Trilha do Rio Carioca”, organizada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, e o link do artigo “Laranjeiras, berço do Carioca”,  escrito por Nireu Cavalcanti, arquiteto e historiador,  professor e diretor da Escola de Arquitetura e Urbanismo, para a comemoração da 100ª edição do Jornal Folha da Laranjeiras em maio de 1993.

Muito antes de existir o gentílico carioca, existia o rio. E existiam os indígenas que habitavam o lugar e as lendas que envolviam suas águas. A da formosura, emprestada às mulheres que com elas se banhassem, é das mais cativantes. Há controvérsias sobre a origem do nome. Casa do homem branco? Derivado do nome de antiga aldeia Tupinambá? É difícil precisar.

O curso do Carioca também sofreu alterações. Consta que, no passado, ele se abria em dois, uma perna indo em direção ao que hoje é a Glória e outra em direção à praia do Flamengo. Assim, o Catete ficaria numa ilha entre o rio e mar. Depois, suas águas foram desviadas para a linha de cumeada de Santa Teresa. Passavam pela Caixa da Mãe D’Água, desciam pela atual rua Almirante Alexandrino, até alcançar o aqueduto da Lapa e chegar ao largo, que passou a se chamar da Carioca. Lá, num generoso chafariz, os moradores da cidade coletavam água e lavavam suas roupas.

As águas do Carioca ainda foram estendidas até o chafariz do Mestre Valentim, na Praça XV, vindo pela rua do Cano, atual Sete de Setembro, onde também abasteciam os navios. Atualmente esse lindo monumento se encontra seco, intrigando os passantes sobre a sua finalidade. No Largo da Carioca, o antigo chafariz foi substituído por outro, neoclássico, projetado por Grand Jean de Montigny. Mas esse também não resistiu à fúria demolidora do chamado progresso.

Com a necessidade de abastecimento de água para a cidade aumentando, foram buscar água bem mais longe, em Rio D’Ouro, e todo o sistema antigo ficou obsoleto. O reservatório do Carioca, em Santa Teresa, foi sendo desativado, as canaletas por onde a água seguia foram demolidas, o aqueduto virou viaduto para os bondes, e os chafarizes secaram. A água agora vinha diretamente da Baixada Fluminense para as torneiras das casas.

Com o tempo, o leito original do rio, no vale do Cosme Velho e de Laranjeiras, foi canalizado, ficando sob o trânsito intenso das vias daqueles bairros. Os olhos da população não viram as ligações de esgoto que foram sendo conectadas ao rio, e a vida que nele foi morrendo. Hoje, tudo o que não mais queremos passa pelas águas do Carioca. Ele ficou imprestável, feio de se ver, de cheiro ruim de se sentir.

Há alguns anos atrás, uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) foi instalada próxima à sua foz, no Parque do Flamengo. Fazia parte da rendição dos governos à poluição dos nossos rios, tratando o problema lá na ponta, sem interesse em enfrentar a grande tarefa de despolui-los por inteiro, ao longo dos seus cursos. O Carioca, por muito tempo, permaneceu limpo enquanto atravessava a Floresta da Tijuca, poluído ao atravessar a área urbana, e parcialmente despoluído junto à sua foz. Assim, eram minorados os efeitos danosos do seu desague junto à praia.

Mais recentemente, a tal ETE foi desativada e, consequentemente, o rio, inteiramente poluído, provocou uma enorme mancha escura junto à Praia do Flamengo. Como solução, a nova concessionária do serviço de água e esgoto da cidade decidiu assumir, por conta própria, que o rio Carioca é mesmo uma galeria de esgoto, conectando-o à tubulação que segue até o emissário submarino de Ipanema. As águas do Carioca agora se misturam a toda a porcaria produzida por uma boa parte da cidade e vão desaguar anônimas e fétidas na altura das Ilhas Cagarras. O rio Carioca, que nasce límpido na floresta, não chega mais à sua foz. Desaparece no meio do caminho.

Tal decisão absurda não leva em consideração o tombamento do rio Carioca pelo Inepac, em 2019. Esse tombamento foi o primeiro de um rio urbano no Brasil e buscou representar um marco para o início da sua recuperação. Dali para a frente não mais seriam admitidas violências contra o Carioca e um plano para o seu manejo deveria ser proposto. Isso ainda não aconteceu, mas não significa que se possa desconsiderar o tombamento e fazer o que se queira com o pobre rio. Aqui no Rio de Janeiro, sem reação dos governantes, uma bolsa de valores foi fechada, assim como uma universidade, vigas de um viaduto desapareceram, e um rio está sendo raptado.

Nossas cidades precisam aprender a conviver com a natureza em que se inserem. Precisam manter as áreas verdes, acolher os animais silvestres e cuidar dos rios que as atravessam. O problema da poluição dos rios urbanos é gigante e desafiador. Mas é preciso começar a enfrentá-lo por algum ponto inicial. O rio Carioca, que nos deu nossa identidade, é o alvo ideal para dar início à grande jornada de recuperação dos nossos rios. Ele não pode continuar sendo misturado ao esgoto e jogado em alto mar. Concessionária Águas do Rio, vocês têm essa imensa responsabilidade. Os cariocas querem o seu rio de volta.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

Acesse o link abaixo para baixar a Cartilha!
https://parquenacionaldatijuca.rio/files/RioCarioca_fundamental2emedio.pdf

Fontes de Consulta e Pesquisa:

http://urbecarioca.com.br/o-rapto-do-rio-carioca-artigo-de-roberto-anderson/

https://diariodorio.com/roberto-anderson-o-rapto-do-rio-carioca/

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

A Fazenda Imperial de Santa Cruz no Bicentenário da Independência


No dia 26 de maio, uma equipe da Rede Globo de Televisão esteve no Batalhão Villagran Cabrita para captar imagens que comporão uma série especial sobre o Bicentenário da Independência do Brasil para o programa Fantástico.


Durante a gravação, a jornalista Mônica Sanches entrevistou o pesquisador, jornalista e escritor André Luis Mansur, que contextualizou a importância da Fazenda Imperial de Santa Cruz, hoje 1º Batalhão de Engenharia de Combate (Escola), para a Independência do Brasil.


A reportagem especial sobre a Fazenda Imperial de Santa Cruz será exibida em 21 de agosto. A emissora de TV programou quatro reportagens sobre o Bicentenário da Independência. A primeira irá ao ar no Fantástico do dia 14 de agosto.


O local onde hoje está aquartelado o 1º BE Cmb (Es) foi também convento de Jesuítas e posteriormente, Fazenda Imperial de Santa Cruz. Após uma adaptação, passou a ser o Palácio Imperial, utilizado como residência de veraneio da Família Real.


No Palácio houve uma importante reunião da Imperatriz Leopoldina com José Bonifácio de Andrada e Silva para estabelecer as bases para a Independência do Brasil.

Com a chegada da era republicana, a antiga Fazenda passou a incorporar o Patrimônio da União. Nesse período, o local passou a abrigar a 2ª Bateria do 2º Regimento de Artilharia Montada.

Fonte: @becmbes_exercito

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 24 de maio de 2022

O verdadeiro significado da palavra "criado mudo"

 
Dias atrás, alguém perguntou-me por quê aquele movelzinho que fica ao lado da cabeceira da cama chama-se "criado-mudo". Surpreendi-me com a profundidade do questionamento pois, desde criança, ouvia meus pais e os mais velhos usando o termo "criado-mudo" para falar de tal móvel e, nunca tinha ouvido qualquer professor ou outros eruditos falarem sobre a palavra.

É claro que as enciclopédias e dicionários, costumeiramente, citam com detalhes a historicidade das origens dos termos, de modo que, tais compêndios trazem ao presente narrativas que explicam o uso de determinada palavra, nos mostrando sua melhor aplicação, significância e origem.

No Diccionario Brazileiro da Língua Portugueza, de Antônio Joaquim de Macedo Soares, publicado em 1889, o termo surge como sinónimo de "bidé" e "velador", descrito como "móvel de quarto de dormir, colocado ao pé da cama, e sobre o qual se coloca o castiçal com a vela, a caixa de fósforos, o copo de água, etc.; tem (tinha) tampo de mármore , gavetinha, e duas prateleiras com porta onde se guardam urinóis".  

Explicação perfeita da utilidade do móvel, dado que na época não havia energia elétrica e, a maioria das casas, não tinha banheiro em seu interior: A vela, os fósforos e o urinol eram ítens que deviam ficar bem próximos da cama, caso o sono fosse interrompido por sentimento de "fazer as necessidades".

Complementando, a Encyclopaedia Britânica (edição 1911), cita que na Inglaterra os móveis criados-mudos eram chamados "dumbwaiter", tiveram origem no final do século 18 e que, na língua inglesa, essa palavra aparece desde 1749. Portanto, tal enciclopédia nos ajuda a descobrir sua história e utilidade e que, tais móveis existem há, pelo menos, 270 anos. Portanto, não é um móvel cujo nome possa ser associado com a escravidão brasileira, muito menos com pessoas da cor negra.

Antes de traduzir uma palavra estanquemente, é preciso conhecer suas aplicações. A palavra "criado", naquela época, era usada para indicar a existência de crianças que eram adotadas para serem "criadas" por famílias mais abastadas e, portanto, eram chamadas criados; cresciam e eram criadas naquele lar,  executando serviços domésticos de limpeza e ajuda na cozinha, muitas recebiam estudos e eram até registradas com o sobrenome da família. Era muito comum, também, uma família adotar uma ou mais crianças de parentes, devido ao estado de pobreza da outra família, as quais também eram chamadas de "criadas, criados". Também, havia casos em que pessoas adultas, desprovidas de recursos, buscavam ajuda dos mais abastados e também eram recebidos como "criados", esses trabalhavam em serviços mais pesados, cortando lenhas, plantando, tirando leite de vacas, etc. 

No dicionário Oxford, encontramos a tradução do termo inglês "dumbwaiter": "nome dado a uma mesa auxiliar de serviço; pequena mesa portátil", etc. No inglês americano, a palavra dumbwaiter, derivada pela junção de “dumb” (mudo), e "waiter" (mordomo). Ou seja, mordomo mudo, criado mudo.

Não precisa muito esforço mental para entender que o móvel recebeu esse nome por ser comparado a um "criado", pois estava ali aparando todos aqueles itens, sem se cansar. O móvel, por sua vez, trouxe um segundo grande benefício: era "mudo", não reclamava, não replicava, não saía quebrando o silêncio daqueles momentos íntimos da noite. Imaginem um criado boca-aberta, relatando a terceiros: "fulano acordou-me noite passada para levar vela e penico para ele".

(Fotos: pinterest e internet)

Por Paulo Grani.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.

sábado, 30 de abril de 2022

Emilinha Borba - Década de 1950

 
Emília Savana da Silva Borba nasceu no Rio de Janeiro em 1923. Foi uma das intérpretes mais populares da Rádio Nacional e do Brasil no Século XX, fato comprovado através de diversas premiações e do título de “Rainha do Rádio” que conquistou em 1953. 

Ficou marcada também por uma suposta polêmica com a cantora Marlene, considerada sua “rival”. 

Faleceu em 2005 deixando um legado de músicas muito conhecidas no nosso cancioneiro, tais como as marchas “Chiquita Bacana”, “Tomara Que Chova”, “Vai Com Jeito”, a rumba “Escandalosa” e o bolero “Dez Anos”.

Compartilhado de Reinaldo Elias.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.