quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Maria do Carmo Gerônimo



Maria do Carmo Gerônimo (Carmo de Minas, 5 de março de 1871 — Itajubá, 14 de junho de 2000) foi uma ex-escrava brasileira que teria sido uma das pessoas mais velhas do mundo que se tem registro. Por falta de registro de nascimento e qualquer outro documento civil que comprovasse seu ano de nascimento, não pôde ser incluída no livro Guinness dos recordes.

Segundo documento da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, de Campanha (no sul de Minas Gerais), Maria do Carmo nasceu no dia 5 de março de 1871 e foi batizada 16 dias depois.

Maria do Carmo, nascida em Carmo de Minas, foi escrava até a idade de 17 anos, quando da abolição da escravatura no Brasil. Trabalhou 60 anos como empregada doméstica na família do historiador José Armelim Bernardo Guimarães em Minas Gerais e faleceu após um longo período de problemas de saúde. Maria do Carmo, era filha de Sabrina, escrava de Luiz José Monteiro de Noronha.

Em 1995 foi agraciada com a medalha do centenário de Zumbi dos Palmares e viajou com o então prefeito, César Maia, ao Rio de Janeiro com o objetivo de realizar o sonho de conhecer o mar. Nesta data, Maria do Carmo teria 124 anos.

No dia 5 de outubro de 1997, esteve presente na missa presidida pelo Papa João Paulo II no Rio de Janeiro.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Referências de pesquisa:
Biografia de Maria do Carmo Gerônimo. Consultado em 23 de Junho de 2009.
Survivor of slavery dies in Brazil  BBC (16 de junho de 2000).

Referência da imagem:

Pesquisa de Adinalzir Pereira Lamego

A Joia da Princesinha: 90 anos da Paróquia de Santa Cecília de Braz de Pina



Mais que celebrar uma efeméride, esta obra busca contribuir para a preservação da história e da memória social do subúrbio do Rio de Janeiro, sobretudo de Braz de Pina, que nasceu como um bairro jardim chamado de “princesinha da Leopoldina”. Ao mesmo tempo, visa colaborar com a propagação dos valores de paz e fraternidade a partir do recorte evangelizador católico, tendo como pano de fundo a igreja matriz considerada a “joia” do bairro pela beleza de seu conjunto arquitetônico. Ao leitor, as páginas propõem uma reflexão sobre o seu papel na sociedade, valorizando a mobilização comunitária e deixando um legado para as atuais e futuras gerações.

Uma obra escrita por três amigos e que se encontra a venda na editora. 

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sábado, 1 de agosto de 2020

Pavuna e os portos da região



Você sabia que na Pavuna haviam Portos? Já pensou navegar da Pavuna até o Rio Guandu na Zona Oeste?

Neste texto falaremos da importância do Rio Meriti, do Rio Pavuna e seu trecho que virou canal, de um surpreendente projeto da época dos jesuítas, visando ligar a região até o Rio Guandu, além dos seus importantes portos, estradas e arredores. 

Foram rios preponderantes no desenvolvimento do Arraial de Nossa Senhora do Desterro da Pavuna (atual Pavuna) e da Freguesia de São João Baptista de Trairaponga, posterior São João Baptista do Mirity (atual São João de Meriti) e como um desemboca no outro, falaremos de ambos.


Através destes rios, a região de grande importância no passado, hoje esquecida, era servida por quatorze portos, de engenhos e fazendas localizados entre o Rio Pavuna e o Sarapuí. O principal se localizava onde hoje é a Estação da Pavuna. Haviam também mais três portos no Rio Meriti. Por eles os fazendeiros locais escoavam os produtos dos engenhos e da lavoura para outros mercados, principalmente o do Rio de Janeiro. Produtos como açúcar, aguardente, feijão, mandioca, arroz, milho e etc. Também eram utilizados por tropeiros e viajantes através das importantes estradas que serviam a região em seus dias de glória, sendo local estratégico e importante entreposto comercial. Dessas estradas falaremos mais adiante neste texto.

Tamanha importância de ambos os rios, achou-se necessário que parte do Rio Pavuna fosse melhorado. Então foi construído o CANAL DA PAVUNA, que possibilitava a navegação de embarcações de maior calado. Até então o Rio Pavuna só era navegado por barcaças de fundo chato (conhecidas como fundo de prato), chamadas chalanas.


Dom Pedro I, convencido pelo ministro José Inácio Burles, encarregou das obras o marechal Francisco Cordeiro da Silva Torres de Souza Melo e Alvim, o Visconde de Jurumirim, assessorado pelo major Antônio João Rangel de Vasconcellos, filho da Freguesia de Irajá . A obra iniciou-se em 1827, paralisada em 1829, sendo somente uma parte concluída. A partir daí tomou as rédeas o Comendador Antônio Tavares Guerra (normalmente confundem com o seu irmão, o também poderoso Comendador Luiz Tavares Guerra, financista e negociante de café, residente em Petrópolis), importante fazendeiro e benfeitor local, além do negociante de café Antonio da Silveira Caldeira, pois possuíam trapiches e estabelecimentos comerciais no Arraial da Pavuna, onde hoje é o metrô da Pavuna, onde ficava o principal porto da região (VER IMAGEM EM ANEXO). Iniciaram com recursos próprios, gastando a fortuna de 40 contos de réis, posteriormente ressarcidos pela Junta do Comércio e pelo governo. 

É de se espantar, mas o projeto inicial do Visconde de Jurumirim previa que o CANAL DA PAVUNA ligasse a região ao RIO GUANDU, bem longe, lá nas imediações de Santa Cruz e Itaguaí. Algo surpreendente até para os dias de hoje! Tinham como base um projeto antigo da época dos jesuítas da Fazenda de Santa Cruz. Consegui ter acesso a dois mapas antigos do traçado do surpreendente projeto (VER IMAGENS ANEXAS), sendo uma versão contornando o Macico do Gericinó pelo sul e outra pelo norte, até atingir o Guandu. Com os altos custos da obra, o corpo legislativo chegou a destinar mais de 100 contos de réis para alcançar o objetivo inicial, porém em vão, pois estimou-se gastar mais de 1.200 contos de réis, uma quantia sem precedentes. Entenderam que os custos da obra seriam maiores que os benefícios dela. Gastos e mais gastos fizeram com que o canal servisse somente a região, num percurso de apenas uma légua. Vale frisar que o visionário e antigo projeto dos jesuítas, almejava o transporte dos produtos vindo da Zona Oeste, que na época vinham por terra até o Porto Velho de Irajá (aterrado na foz do Rio Meriti, no atual trevo das Missões da Rodovia Washington Luiz) e as caixarias de pequeno porte através do Porto de Irajá (no Rio Irajá, altura da atual Rua Antenor Navarro de Brás de Pina). Acredite, mas todas as mercadorias da lavoura desde Guaratiba até Irajá eram escoadas por esses portos. O canal transformaria esse transporte 100% aquático. Mas além disso, os jesuítas tinham como outro objetivo escoar as águas dos charcos da região de Santa Cruz, principalmente os charcos de São João Grande e São João Pequeno. A fazenda jesuítica já contava com um importante e inteligente sistema de escoamento e drenagem de charcos e pântanos, através da abertura de diversas valas e canais, alguns com longa distância de vários kilometros, que existem até hoje, sendo conhecidos rios da região. O projeto do Canal da Pavuna seria o mais audacioso de todos, ligando a Zona Oeste a Baía de Guanabara. Os jesuítas foram expulsos pelo Marques de Pombal em 1759 e não se tem notícia do início da abertura do canal. Já o novo projeto do século seguinte, pelas mãos de Dom Pedro I, segundo Milliet de Saint-Adolphe em seu Dicionário Geográfico esclarece "Haverá 10 annos que se começou a abrir um canal entre o Rio Guandu e o Pavuna (...) mas esse trabalho foi interrompido em 1841...".


A necessidade e importância de tal obra, mesmo concluída somente a nível local da região da Pavuna, também se deu pelo fato de que a navegação se tornou dificultosa, atrasando diretamente o desenvolvimento da região, tornando-a também insalubre, aumentando o risco de epidemias. Essa era a realidade de alguns trechos dos Rios Meriti e pricipalmente Pavuna antes da obra. O viajante naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (em Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais), que passou pela região antes da abertura do canal, testifica tal precariedade:

"...depois de ter abandonado a Ilha do Governador, rumou pela foz do rio Meriti. Na parte que subiu o referido rio, o seu curso era apenas sensível. Suas águas eram salobras. Atravessavam terras baixas, pantanosas. Essas terras alagadiças eram inteiramente cobertas de árvores aquáticas. Ninguém pensava em aproveitá-las. Mas, para o futuro, com o crescimento do Rio de Janeiro, a região teria que se desenvolver..." 


Auguste Saint-Hilaire também relata que o Rio Meriti oferecia um meio comodo dos agricultores locais transportarem seus gêneros alimentícios para a cidade. Essa utilidade, bem como a natureza pantanosa dos rios também foi relatada pelo geógrafo francês Louis Claude de Saulces Freycinet (em Voyage autour du monde), que também navegou na região na época.

Abro aqui um parênteses: Não bastasse a natureza razoavelmente pantanosa da região, é importante lembrar que devido a exploração predatória das terras, com a devastação da vegetação local para uso de lenha e posterior utilização das áreas abertas para plantações, principalmente da cana de açúcar, o solo das regiões que hoje compreendem a Baixada Fluminense e algumas partes do atual Subúrbio se tornaram mais frágeis. A firmeza do solo gerada pelas raízes das árvores e pela vegetação local foi perdida. Com as chuvas os detritos do solo eram lançados no fundo dos rios e canais locais, ocasionando assoreamento. Chegadas as chuvas de verão, vinha com elas as inundações, as perdas de plantações e o surgimento de epidemias. Esse era o cenário de grande parte da atual Baixada Fluminense desde o período colonial.

Há muita controvérsia sobre a origem dos nomes de ambos os rios. Em documentos muito antigos, o Dr. Macedo Soares nos diz que Meriti origina-se de "mbiritib", que significa "o rio dos mosquitinhos". Segundo outros historiadores dos séculos anteriores, Pavuna não se origina de uma tribo como corre certa versão, mas sim um nome indígena genérico dado a várias localidades, originado de "upabuna", que significa "lagoa escura" ou "tudo preto" como descreveu Frei Agostinho de Santa Maria no jurássico Santuário Mariano. Por isso, várias localidades do Rio de Janeiro foram chamadas de Pavuna, como a antiga e extinta Lagoa da Pavuna pra bandas do Centro e o Engenho da Pavuna (e outro rio pavuna) na atual Taquara.  

Sobre o Rio Meriti, em documentos também muito antigos, do século XVII, haviam duas designações, o Meriti Salgado e o Meriti Doce. No século XIX essas designações já eram desconhecidas. O Meriti Salgado era o trecho que ia desde a foz do Rio Meriti, na antiga Freguesia de N. S. da Apresentação do Irajá (foz aterrada, onde hoje é o Trevo das Missões, no início da Rod. Washington Luiz), até o trecho que no passado era chamado de Três Barras (altura da atual Ponte Verde, nos fundos do atual bairro de Jardim América, divisa com a Comunidade da Ficap, que fica no início da Pavuna). Nas Três Barras o Rio Pavuna desemboca no Rio Meriti. "Salgado" por que em maré montante e preamar as águas da Baía de Guanabara alcançavam essa região, entrando também pelo Canal da Pavuna e chegava até o trapiche do Comendador Antonio Tavares Guerra. Eu acredito que esse é o motivo das  drásticas inundações que ocorrem até hoje, a cada intervalo de décadas, como no caso do Jardim América e parte da Pavuna, mesmo após a retificação, saneamento e desassoriamento desses rios. Na maré montante, as águas não tem pra onde escoar e transbordam. Inclusive em relatos antigos, há narrativas que a água do Meriti vazava para a boa parte da região do atual Jardim América, na época fundos do Engenho de N. S. da Graça (Engenho do Vigário Geral) que chegou a ser um pântano e ainda hoje, tem um solo muito úmido, que ocasiona infiltrações no térreo de suas construções. Também por isso, que até hoje em algumas épocas, podem ser vistas aves marinhas pegando peixes, tanto nos Rios Acari, dos Cachorros, Meriti e Pavuna. Esta parte do Rio Meriti foi retificada, substituíram os meandros por um canal em linha reta, que desemboca hoje em local distante da foz original. Já o Meriti Doce era a parte que partia das Três Barras até o alto curso, lá pros arredores da Zona Oeste, onde nascia. Esse trecho "doce" também foi todo alterado, retificado em linha reta, e se chama Rio Acari atualmente. O Rio Acari original era um dos muitos pequenos rios que desembocavam no Rio Meriti original.


Já o Rio Pavuna, que nascia dos charcos da serra do Gericinó, na Fazenda do Retiro, era estreito e de péssima navegação no alto curso, porém a partir da região do Engenho do Cabral e do Engenho de São Matheus (ambos na atual Nilópolis) se tornava de dificultosa, mas possível navegação, que ia melhorando onde hoje situa-se o seu trecho que agora é chamado de Rio do Pau, na divisa da atual Anchieta com Nilópolis, no local chamado hoje de Ponte Azul. As mercadorias navegavam por esse trecho, até chegar a um importante centro comercial esquecido pela historiografia, onde hoje é o metrô da Pavuna. Alí ficavam os trapiches do Comendador Antonio Tavares Guerra e a partir dalí, após a conclusão do Canal da Pavuna, a navegação já podia ser feita por embarcações de grande porte, como o vapor União, da companhia Niterohy e Inhomerin. Acredite, mas era um entreposto comercial, repleto de trapiches. 

O Porto da Pavuna não era um local qualquer. Inclusive o imperador Dom Pedro II instalou a original "Bica da Mulata", tamanha sua importância. Em muitas épocas a água da região se tornava salobra, devido a maré e as bicas instaladas em locais importantes da cidade serviam para abastecer a população. A obra de arte foi uma das peças do francês Jean Jacques Pradier, encomendadas da fundição Val D'Osne e que havia uma peça gêmea, que ficou no reservatório do Guandu até os anos 70, depois foi transferida para o Largo do Humaitá e era chamada de "harmônia". A da Pavuna recebeu esse apelido "da mulata" devido a oxidação da peça. Após quase um século, a peça sumiu nas obras do metrô e só foi encontrada em um depósito da prefeitura do Rio por volta dos anos 90, foi quando em 1995 foi cedida ao município de Belford Roxo, onde se encontra até hoje. Em 2002 foi colocada uma réplica na Pavuna, que foi furtada em 2014. Fazendo-se necessário reinstalar outra réplica. Lembrando que Dom Pedro II trouxe 182 esculturas francesas, de diversos moldes, para o Brasil.


Falando em Dom Pedro II, após os meados do século XIX, o CANAL DA PAVUNA já estava bem degradado, assoreado, tomado por vegetação e obstruído em alguns trechos, devido a pouca manutenção empregada. A mão de obra escrava havia sido atingida pela cólera mórbus em 1855. O Engenho de São Matheus (atual Nilópolis), foi o local mais atingido pela peste, que segundo relatório do acadêmico de medicina Luis de Queiros Matoso Maia, teve em 15 dias um total de 338 casos e 121 mortes. Desta forma a região entrou em grande declínio por muitos anos, sem braço para trabalho da lavoura e manutenção dos rios. Até que em 1886 os proprietários rurais locais começam um movimento para reabertura do canal. Nessa ocasião foi realizada uma grande festa na região, recebendo o imortal José do Patrocínio, que apadrinhou a causa. Os grandes proprietários da região compareceram a festa, como o Capitão Salustiano, que abrigou José do Patrocínio em sua fazenda. Este que doou a grande quantia de 30 contos para a construção da igreja local e intercedeu junto a Princesa Isabel, que doou pia batismal e diversos castiçais. As novas obras do CANAL DA PAVUNA foram concluídas e a navegação restabelecida.

Como falado inicialmente, os portos locais tinham como propósito principal escoar os gêneros alimentícios que supriam a corte. Mas também serviam aos tropeiros vindos das Minas Gerais, das imediações de Vassouras e etc, que chegavam através das importantíssimas estradas que serviam a região. Infelizmente esses importantes caminhos, assim como toda a história local, foram totalmente esquecidos.  

Para entender a importância da região, é necessário relembrar essas vias. Foram elas:


- CAMINHO DE TERRA FIRME: De 1750, também chamado de Estrada de Minas ou Caminho Novo do Tinguá, feito pelo Mestre de Campo Estevão Pinto. Esse caminho se tornou uma alternativa ao Caminho Novo do Pilar (de Garcia Rodrigues Paes Leme) e ao Caminho Novo do Inhomirim (de Bernardo Soares de Proença) que eram mais antigos. Ao contrário desses dois, o Caminho de Terra Firme poderia ser percorrido facilmente por montaria a cavalo e carros de boi, enquanto os demais que cortavam a serra do mar, pelas mais penosas picadas, eram percorridos preferencialmente por muares. Além disso, alguns viajantes que iam e viam das Minas Gerais evitavam navegar pelos sinuosos e cansativos rios iguassú, pilar e inhomirim, antes de seguirem pelos dois caminhos mais antigos. O Caminho de Terra Firme também desviava das regiões pantanosas da baixada fluminense e seguia por regiões planas e por ele haviam algumas pontes que evitavam enfrentar rios e riachos. Esse caminho da época do ouro saía do Rio de Janeiro e passava por uma parte da Pavuna, depois seguia pelos engenhos de São Matheus (Nilópolis), da Cachoeira (Mesquita), Maxambomba (Nova Iguaçú), Belém (Japeri), contornava a serra do Tinguá, subindo a serra pelas atuais Paulo de Frontin, Sacra Família do Tinguá e Morro Azul, até se encontrar com o Caminho Novo de Garcia Paes na roça do capitão Marco da Costa, entre Miguel Pereira e Paty do Alferes, de onde seguia para Minas Gerais. Em boa parte desse caminho foram depois assentados os trilhos da E. F. Central do Brasil.

- ESTRADA DA POLÍCIA: Aberta em 1817 pelo intendente de polícia Paulo Fernandes Vianna. Iniciava no Rio Pavuna e foi construída com a intenção de ligar a capital ao sul da província de Minas Gerais e passando pelo vale do paraíba, chegava até Vianna, em Valença. O Barão de Vassouras afirmou que era "única fonte de vida e prosperidade" da região, tamanha sua importância na época do café.

- ESTRADA PRESIDENTE PEDREIRA: De 1850, foi construída pelo presidente da província Luís Pedreira do Couto Ferraz, o Visconde de Bom Retiro. Iniciava-se também na Pavuna e seguia traçado praticamente paralelo as citadas anteriormente, passava por Macacos (Paracambi), Santa Cruz dos Mendes (Mendes), seguia até Ipiabas e finalizava em Santa Isabel do Rio Preto, na divisa com Minas Gerais. Era a única 100% carroçável na época do café.

- ESTRADA DOS FAZENDEIROS: De 1840, ligava o Porto da Pavuna a Dores, em Piraí. 

Essas estradas eram praticamente paralelas, seguindo a mesma direção, porém passando por regiões diferentes. Cada uma teve a sua importância em sua época. Lembrando também que a Pavuna também era servida pela importantíssima Estrada (Velha) da Pavuna, posterior Automóvel Club, essa que costuma ser mais lembrada pela história. Na Pavuna também havia uma barreira fiscal.

Além dessas também haviam estradas mais locais, como:

- Estrada de São Matheus, que partia do Engenho de São Matheus (atual Nilópolis), passava por Thomazinho, pela Estação de São Matheus (já em São João de Meriti) e chegava ao Canal Pavuna. É o trecho das atuais Avenidas Presidente Tancredo Neves e Doutor Arruda Negreiros.

- Estrada do Engenho Novo, que partia da atual Anchieta até o Canal da Pavuna. O trecho inicial permanece com o mesmo nome, o restante foi chamado posteriormente de Estrada Rio do Pau, que é a atual Avenida Crisóstomo Pimentel.

- Estrada da Conceição, que era paralela ao Canal Pavuna, nas imediações da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição da Pavuna, propriedade da família Tavares Guerra. É o trecho da atual Rua Mercúrio, que continua como Avenida Coronel Phidias Thávora, terminando na divisa da Pavuna com o bairro Jardim América, no local chamado favela da Ficap, perto de onde tem uma ponte metálica sobre a ligação do atual Rio Acari com o Pavuna e Meriti. Apesar das inúmeras retificações dos rios, esse local era chamado de Três Barras (ou Três Rios) pois na época era onde se encontravam os Rios Pavuna, Meriti e São João de Meriti, pois por algum tempo o trecho final, desse ponto até a foz, era chamado de Rio São João de Meriti, conforme alguns mapas e documentos antigos. 

Já que estamos falando do Rio Meriti, sem querer fugir do título inicial, não podemos deixar de falar da região onde ficava sua foz original, pois desaguava onde é o atual Trevo das Missões (atual Cordovil) e o trevo da Linha Vermelha no início da Rodovia Washington Luiz. Hoje tudo aterrado, mas na localidade havia a Pedra do Lagarto, a Ilha de Saravatá e o famoso e importante Porto Velho de Irajá, por onde se chegava através da Estrada do Porto Velho, ainda existente e que passa embaixo da Cidade Alta. Porto "de Irajá" pois na época toda essa região do lado sul dos Rios Pavuna e Meriti pertencia a Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá. Foi tudo aterrado para as obras da Rodovia Washington Luiz, Avenida Brasil e etc. A foz do Rio Meriti foi parar após a linha vermelha, em Duque de Caxias. O trecho final original do Rio Meriti (baixo curso) serio o trecho que ficou represado nos fundos das Favelas de Parada de Lucas e Vigário Geral, onde nas margens do rio havia o antiquíssimo Engenho de N. S. da Graça (Engenho do Vigário Geral). Por isso, em frente a esse engenho, já no final do século XIX, estabeleceu-se a Estação denominada de "Velho Engenho", hoje Estação de Vigário Geral. Desse antigo engenho partia a Estrada do Vigário Geral, que era o caminho percorrido pelo mesmo até a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, em Irajá. Essa estrada foi dividida pela construção da Avenida Brasil e seu trecho final hoje se chama Avenida Hanibal Porto. Do outro lado da foz, seguia-se mais um pouco em direção a antiga Praia da Chacrinha em Duque de Caxias, e se chegava ao local da Freguesia de São João Baptista de Trairaponga, que é a origem de São João de Meriti, onde hoje é o Parque Duque, em Duque de Caxias. 

A intenção era falar somente do Pavuna e Meriti, porém com tamanha riqueza de informações não podemos deixar de falar um pouco dos arredores. Lembrando que o Arraial da Pavuna pertencia a Freguesia de Irajá, porém era praticamente um só com a Freguesia de São João Baptista do Meriti. Por isso, essa região foi alvo de uma grande e longa batalha referente as suas terras e fronteiras.

Voltando ao RIO e posterior CANAL DA PAVUNA, servia a quatorze portos locais. Já o RIO MERITI, possuía três portos. Foram utilizados por diversas propriedades locais, que ficavam nas terras das atuais Pavuna, São João de Meriti, Nilópolis e Duque de Caxias.

Nos séculos passados, algumas dessas propriedades eram:

- Engenho do Porto (do porto da freguesia de São João Baptista do Merity), propriedade do tenente Manoel Mis dos Santos. Esse engenho dá nome ao atual bairro Engenho do Porto, que hoje faz parte de Duque de Caxias. Era um dos quatorze portos entre a região dos Rios Pavuna Meriti e Sarapuí. 
- Engenho de N. S. do Desterro da Pavuna, de Inácio Rodrigues da Silva, depois vendido ao Visconde de Bonfim.
- Engenho de N. S. da Ajuda, de Francisco Mis.
- Engenho da Covanca, de Marcelino Costa Barros, que depois foi do Conselheiro Alves Carneiro.
- Engenho do Barbosa, do capitão mór Domingos Viana, depois vendido ao famoso Comendador Telles (atual Vilar dos Teles).
- Engenho Velho, do sargento mór José Dias de Oliveira.
- Engenho da Pedra, do padre José Rodrigues.
- Engenho de São Matheus, nessa época pertencente ao alferes Ambrosio de Souza, vendido ao Barão de Mesquita (atual Nilópolis).
- Engenho de Gericinó, de Dona Maria de Andrade, depois de Idelfonso Caldeira Brant, o Visconde de Gericinó, descendente de D. João III (Duque de Brabante).
- Engenho do Capitão Manoel Cabral de Mello (atual bairro Cabral de Nilópolis).
- Engenho da Água em Gericinó, também do Capitão Manoel Cabral de Mello.
- Engenho de Antonio Rocha Rosa.
- Engenho da Valla, de Catarina Maria Mendonça.
- Engenho de João Pereira Lemos.
- Engenho da Chacará, de Inácio Roiz.
- Engenho do Bananal, do capitão Ayres Pinto, ascendente dos poderosos Teixeira Pinto de São Paulo (atual Engenheiro Belfort).
- Engenho do capitão João Pereira de Lima Gramacho.
- Engenho do mestre de campo Bartolomeu José Bahia.
- Engenho de Pedro Alvares Roiz.
- Engenho do Pau Ferro, de Francisco Pupo Correa.
- Fazenda de N. S. da Conceição da Pavuna, da família Tavares Guerra.
- Engenho do Carrapato, que chegou a ser  também do Comendador Tavares Guerra.

O Rio e Canal da Pavuna, além do Rio Meriti, também serviam a algumas propriedades da Freguesia de Irajá, que ficavam na margem direita de ambos, como os engenhos de Nazareth, do Botafogo, do Máximo, de José Luiz da Motta (avô do conde de Motta Maia) e o de N. S. da Graça (Vigário Geral), entre muitos outros que existiram durante esse período, como o jurássico Engenho de João Velho, do século XVII, que era uma grande propriedade de João Velho Barreto e sua esposa Maria Tourinho Maciel.

Essa relação tem como objetivo ressaltar que a região abrigou propriedades de muitos ilustres e poderosos de sua época!

A localidade teve seu apogeu, sua importância e prosperidade. Contudo, a memória do subúrbio e da baixada são sempre renegadas e desconhecida até dos próprios moradores!

Infelizmente os diversos portos da região desapareceram com o tempo e com as obras de saneamento dos rios, que foram retificados, tendo seus cursos originais alterados.

Essa é a rica história da região! Perdoem o textão!

*Texto e pesquisa de minha autoria: Hugo Delphim.

*Além das fontes já citadas no texto, segue demais fontes de pesquisa: Artigos do Dr. José Vieira Fazenda na Revista do Instituto Histórico, Memórias da Fundação de Iguassú de José Matoso Maia Forte, Os Caminhos Antigos do Território Fluminense de Adriano Novaes e Memórias Históricas de São João de Meriti de Arlindo de Medeiros. Imagens e mapas antigos: Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional e diversos jornais e periódicos dos séculos XIX e XX.

Originalmente postado por paulosilvahistory

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 28 de julho de 2020

A Baía de Guanabara em 1500


Figura 5.1 Baía de Guanabara em 1500 (AMADOR, 1997)

O período compreendido entre 1400 e 1850 foi conhecido como pequena idade do gelo, que correspondeu a uma fase de frio intenso e grandes nevascas que assolaram a Europa e a Ásia. Esse evento climático teria impulsionado portugueses e espanhóis a empreenderam a aventura das grandes navegações em direção às Índias e outros horizontes à procura de especiarias, novas fontes de alimentos e mercados, a fim de impulsionar o mercantilismo, que culminou com o (des) cobrimento da América (1492) e do Brasil (1500).

Esse período mais frio teria correspondência com uma provável redução do nível relativo do mar na ordem de 10 a 30 cm. Em decorrência desse evento climático de escala global, provavelmente a Baía de Guanabara em 1500 apresentasse uma posição de nível do mar ligeiramente mais baixo que a atual, da ordem de 10 a 20 cm.

A superfície total da baía, incluindo as ilhas, com seus 60 km2, era de 528 km2 e, sem incluí-las, era de 468 km2.

Em 1500, o mar batia diretamente em áreas como o Outeiro da Igreja da Glória, a base do Morro da Viúva, os Arcos da Lapa, o Teatro Municipal, o Campo de Santana, o túnel do Pasmado, a base do Outeiro da Penha e a Rodoviária Novo Río.

Com base na taxa de assoreamento geológico ou natural determinada para a baía, que era de 13,4 cm/século, a sua profundidade média em 1500 seria de 9,35 metros. Sendo de 17,60 metros na área externa da baía, de 9,38 m na sua porção intermediária e de 4,16 m na área do fundo da baía.

A Baía de  Guanabara dos povos tupis-guaranis possuia uma nítida subdivisão. O termo niterói (água escondida) se aplicava para as enseadas da porção de entrada da baía, enquanto guanabara (seio do mar) representava a parte interior da baía, ou a baía propriamente dita, na concepção moderna de ambientes costeiros. Por outro lado, paranapuan era o canal largo, situado entre a Ilha de Paranapuan (Governador) e o continente.

A paisagem era majestosa, o mar batia diretamente nós pontões e costões que emolduram a Guanabara. Os manguezais estendiam-se por quase todo o litoral, orlando enseadas e estuários, assegurando a produtividade biológica da baía. Dezenas de lagunas e brejos alinhavam-se na retaguarda de restingas tangenciadas por praias de areias alvas. Pitangueiras, guriris, clúsias, cajueiros, bromélias, orquídeas e cactos enfeitavam os cômoros de restingas e dunas.

Os rios de águas transparentes descreviam meandros, antes de atingirem amplos estuários e enseadas. As ilhas paradisíacas, os morros e as serras eram cobertos por uma exuberante floresta tropical, habitat de uma abundante e variada fauna.

Dezenas de aldeias indígenas orlavam a baía, utilizando de forma harmoniosa a sua riqueza biológica. Os índios, organizados num socialismo primitivo, não acumulavam riquezas e tiravam da natureza apenas o necessário para o sustento. Assim já faziam seus ancestrais que, desde a formação da baía, há cerca de 6000 anos, acompanharam e se adaptaram às transformações ambientais que a natureza sofria.

Com uma grande diversidade de ecossistemas periféricos bastante produtivos, como manguezais, lagunas, brejos e pântanos com elevada produtividade primária e secundária; possuindo no seu entorno acidentado inúmeras reentrâncias e saliências, como estuários, enseadas, sacos, gamboas, pontões e costões rochosos, restingas, praias e ilhas, e ainda sendo fertilizada pela constante troca de água doce (de origem fluvial) e marinha, a produtividade e a diversidade biológica da baía eram elevadíssimas, permitindo a proliferação de uma extensa cadeia de organismos, desde os minúsculos fito e zooplânctons, algas, crustáceos, moluscos e peixes, até os grandes os grandes mamíferos aquáticos, como os golfinhos e as baleias.

Em suas águas e nos ecossistemas periféricos proliferavam imensos cardumes de sardinhas, tainhas, xereletes, cocorocas, corvinas e robalos; enormes colônias de moluscos, como mexilhões, ostras, samanguais, berbigões e sernambis; muitos camarões; e diversos tipos de caranguejos e siris, que lotavam os manguezais e as praias.

Os golfinhos em grandes grupos percorriam a baía até as proximidades da Ilha de Paquetá, atraídos pelos imensos cardumes, principalmente de sardinhas.

Nos meses de inverno, entravam nas águas da baía grupos de 40 a 50 baleias, que utilizavam as águas costeiras mais quentes para parirem seus filhotes. As baleias que visitavam a baía eram principalmente jubarte, espadarte, rorqual e cachalote.

Essa diversidade e riqueza de fontes de proteínas atraiu desde a formação da baía, há mais de 6000 anos, populações de povos coletores, pescadores e caçadores.

Como decorrência da lenta e complexa modelagem da paisagem que se processou durante os tempos geológicos, combinada com mudanças ambientais de clima e nível do mar, foi produzido na Baía da Bacia da Guanabara um diversificado complexo de ecossistemas que incluía a Mata Atlântica, campos de altitude, manguezais, brejos, alagados, pântanos, lagunas, restingas, dunas, praias, rios, estuários, enseadas, sacos, gamboas, ilhas, lajes, coroas, costões e pontões rochosos, falésias e feições ruiniformes.

Em 1500, poucos anos antes do desastre da invasão e da colonização européia, era este o quadro ambiental e humano da Guanabara.

Fonte e crédito de imagem:  Figura 5.1
Amador, Elmo da Silva. Bacia da Baía de Guanabara: características geoambientais, formação e ecossistemas / Elmo da Silva Amador. - Río de Janeiro: Interciência, 2012. páginas 369 a 371.

Pesquisa feita por Adinalzir Pereira Lamego

domingo, 26 de julho de 2020

Thomas Ender, pintor, aquarelista e desenhista


Reprodução - Thomas Ender

O austríaco Thomas Ender deve ser incluído, entre os chamados pintores viajantes, que também veio ao Brasil a partir até  da época do príncipe regente D. João VI até os últimos anos do século XIX. Pintor, aquarelista e desenhista, aos 13 anos, iniciou seus estudos na Academia de Belas Artes de Viena, dedicando-se com pinturas de paisagem e aquarela, recebendo vários prêmios na academia, com destaque para o Grande Prêmio de Pintura, de 1817, na categoria paisagem. O quadro premiado teve o príncipe Metternich, como seu principal patrocinador.

Em 1817, vem ao Brasil na Expedição Científica de História Natural que acompanha a comitiva austríaca, por ocasião do casamento da arquiduquesa Leopoldina com D. Pedro I.

Igreja de Santana e o Chafariz das Lavadeiras no Campo de Santana.

Em sua curta permanência no Brasil, devido a problemas de saúde, pintou panoramas do litoral e cenas urbanas. Apesar de executar mais de 700 obras, entre desenhos e esboços, sobre o Brasil, não publicou seu trabalho, do qual era considerado material. No entanto, algumas de suas criações aparecem em livros de cientistas naturalistas da época. No Rio de Janeiro, esse artista registrou suas obras, dando destaques as igrejas, os edifícios públicos, as praças e seus arredores.

Vista do Rio, de 1817

Retratou a sociedade brasileira da época e a escravidão, enfocando um modo crítico, se interessando especialmente pelas diversas nacionalidades dos escravos. Em 1818, fez parte da comissão para uma viagem científica com afamados integrantes que se dividiram para explorar diferentes regiões. Ender seguiu inicialmente com Spix e Martius, em regiões do Rio de Janeiro e São Paulo e Minas Gerais, pela Estrada Real, registrando paisagens e cidades. No regresso ao Rio de Janeiro, adoeceu gravemente e retorna, levando os desenhos e aquarelas relativos à viagem, que em grande parte se encontram atualmente no Gabinete de Gravuras da Academia de Belas Artes de Viena.


Todo o seu trabalho, revelou ao europeu um Brasil de beleza incomum. Para historiadores, junto com Debret e Rugendas, Thomas Ender fecha a trilogia de desenhistas e pintores que passaram pelo Brasil no início do século XIX e que registraram imagens de um país, que saía da condição de colônia, e experimentando uma nova vida, primeiro como Reino Unido a Portugal e Algarves, e depois, como um país independente.

Fonte e crédito das imagens: Brasiliana Iconográfica

Pesquisa feita por Adinalzir Pereira Lamego

sábado, 25 de julho de 2020

Guido Pokrane, chefe de Botocudos de Cuieté, Minas Gerais



Retrato de Guido Pokrane, chefe dos Botocudos de Cuieté, Minas Gerais. Conhecido como "O Imperador do Rio Doce" 1840. Guido era um cacique botocudo, convertido ao catolicismo em 1824 por ação do colonizador francês Guido Marlière. Filho de um chefe Botocudo, foi recrutado pelos homens de Marlhiére nas margens do Rio doce , ele aceitou ser batizado e passou a trabalhar na catequização de outros índios.

Pokrane atuou como intérprete de Marlière e era seu acompanhante predileto no desbravamento de florestas do interior de Minas Gerais. Quando Guido Marlhiére deixou o serviço de Colonização dos índios, o botocudo Guido Pokrane foi o líder da pacificação dos índios da Região, chefiando a construção de uma povoação na barra do Cuieté, em frente ao novo aldeamento dos naknenukes no Rio Laranjeiras. Pokrane também combateu os índios puris, antigos inimigos dos botocudos. Outros aldeamentos foram criados para os pejuarim-krakmuns no Ribeirão do Travessão. Ficou conhecido como "Imperador do Rio Doce" por seu poder de liderança.

Em 1843 teve a posse de suas terras usurpada por Manuel António de Sousa. Mesmo com a invasão de suas terras, Pockrane não hostilizou os brancos, passando a fornecer-lhes mantimentos e a prestar-lhes ajuda. Guido Pokrane foi assassinado por índios Mek-Mek, rivais dos botocudos em 1850, causando grande comoção entre os colonos europeus e os índios aldeados de Minas Gerais. O chefe botocudo era conhecido pelo exército como "o melhor amigo dos brasileiros".

A região em que estavam suas terras se tornaram, em 1879, uma freguesia paroquial pertencente ao atual município de Vermelho Novo, na paróquia de Ponte Nova em Minas Gerais. 


Originalmente postado na página Brazil Imperial

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A criação de gado e a construção dos canais na antiga Fazenda de Santa Cruz



Por Manoela da Silva Pedroza

"Tem-se notícia de gado nos pastos já em 1610. Em 1614 já nasciam, por ano, mil e quinhentas cabeças. Em 1621 já existia o arraial, sede da fazenda. Nestes anos foi preciso secar os chamados “Campos de Guaratiba” e construir os currais. Para tanto, os padres abriram uma vala larga e profunda com quase 14 quilômetros de extensão, para combater enchentes, drenar os campos, servir de bebedouro ao gado e canal para embarcações: a “Vala dos Padres”, mais tarde conhecida como Canal do Itá. Em seguida, construíram o Canal de São Francisco, com dez quilômetros de extensão, a Vala da Goiaba, a Vala do Cação Vermelho e a Vala do Piloto. Outras valas e pequenos canais foram abertos mais tarde. Os padres envolveram os índios aldeados na construção de diques de terra (o mais extenso sendo a “Taipa Grande”, com sete construíram o Canal de São Francisco, com dez quilômetros de extensão, a Vala da Goiaba, a Vala do Cação Vermelho e a Vala do Piloto. Outras valas e pequenos canais foram abertos mais tarde. Os padres envolveram os índios aldeados na construção de diques de terra (o mais extenso sendo a “Taipa Grande”, com sete quilômetros, e depois a “Taipa do Frutuoso”, com mil e seiscentos metros) e um sistema de comportas e óculos, para prevenir o alagamento dos campos na época de cheia dos rios Itaguaí e Guandu ou, nos tempos de enchente, liberarem a água retida. Os padres mandaram fazer também a abertura do ‘caminho dos jesuítas’, ligando a Fazenda à de São Cristóvão, mais tarde chamado ‘caminho das minas’ e, depois, ‘estrada real de Santa Cruz’. Todas estas obras foram executadas pela mão-de-obra indígena aldeada e já estavam concluídas em 1640, criando vastíssimos campos bastante apropriados para a criação de gado e, portanto, sua toponímia passou a “Fazenda dos Corraes”. 

A partir da segunda metade do século XVII, a Fazenda se concentrou na criação de rebanhos e pastos, e no seu aumento, em quantidade e qualidade. Padre Antônio Forte, reitor do colégio do Rio em meados dos seiscentos, era da opinião de que todo o gado que a Companhia criava na capitania do Rio de Janeiro deveria ser concentrado na Fazenda de Santa Cruz, que as outras fazendas deveriam ser vendidas e que o dinheiro deveria ser aplicado na melhoria desta. Assim o fizeram. Construíram valas e taipas, secaram os campos, construíram cerca de trinta currais, implantaram novas forragens, retiraram ervas daninhas (pelas mãos das crianças escravizadas). Os padres tinham sessenta escravos campeiros e mais tantos outros curraleiros, especializados em juntar, proteger, guardar, ferrar, contar e tratar do gado, dispensando inclusive um tosco atendimento veterinário. Essas atividades mostram o empenho dos jesuítas em realmente montarem um enorme e lucrativo complexo criatório nas terras de Santa Cruz, movido pela população escravizada. 

Deu certo. A Fazenda, já em 1641, provinha 41% da renda deste colégio, através da venda do gado. Em 1659, o reitor dizia que “com os juros, os recursos obtidos com o engenho e o curral de Santa Cruz, o aluguel de casas e a renda doada pelo Rei poder-se ia sustentar dois colégios iguais aos do Rio de Janeiro”, indicando a boa lucratividade daquele empreendimento. No final do século XVII, a Fazenda possuía 17.050 cabeças de gado distribuídas em 47 currais, além de 1800 cavalos e alguns carneiros. Isso representava um terço dos rebanhos de toda capitania. Na primeira metade do século XVIII a criação diminuiu um pouco, e se estabilizou. Em 1711, o padre jesuíta Antonil, passando pelo Rio, registrou que a Fazenda tinha quinze mil cabeças de gado, “um quarto do rebanho de toda capitania”, e que era o único lugar da cidade do Rio de Janeiro que possuía currais”. Em 1711, quando o Rio de Janeiro foi invadido pelos franceses, foi estabelecido que os jesuítas de Santa Cruz pagariam duzentos bois e cem caixas de açúcar, a título de resgate da cidade. E assim o fizeram. Em 1731, ela contava com dezoito currais. Quando os jesuítas foram expulsos, em 1759, a fazenda tinha 8.000 cabeças de gado bovino, 1.200 cavalos, 200 carneiros e alguns burros de trabalho. 

Segundo Freitas, só para o consumo da Fazenda se abatiam mil e quinhentas reses por ano. Todo mês eram distribuídas cinquenta e três reses para os pobres da localidade, até os padres franciscanos recebiam sua cota de carne mensal proveniente da Fazenda. Semanalmente era abatida uma rês, que era dividida, salgada e consumida pelos padres e hóspedes da Residência durante a semana. Em três festas por ano, algumas reses eram distribuídas entre os escravos. Mas os números de reses consumidas internamente e os hábitos de consumo alimentar “nobres” dos padres e seus convivas podem nos enganar a respeito das finalidades comerciais da criação de gado. Uma discussão entre os padres ilustra bem que não se esquecia do que era a prioridade.

Em algum momento da década de 1730, o Reitor do colégio propôs que se fizessem laticínios – queijo e manteiga – com o leite das vacas da Fazenda, para melhor prover os residentes e o colégio, o que iniciaria, portanto, uma atividade paralela na Fazenda. A essa sugestão se opôs veementemente o Padre Pedro Fernandes, administrador à época, alegando que todo o leite deveria ser destinado exclusivamente à alimentação dos novilhos, a fim de que fosse conseguido o grande objetivo da fazenda, que era formar o maior rebanho de gado vacum do continente. A sugestão do Reitor foi abandonada, visto que a venda de gado e carne era, sem dúvida, a maior fonte de renda do Colégio do Rio de Janeiro. 

Era um ponto comum da “economia moral” jesuíta para a gestão de suas fazendas, uma ‘especialização produtiva’ com base em uma avaliação bastante racional das potencialidades de cada sítio (Fazenda de Santa Cruz para criação de gado, Fazenda de Papucaia para produção de farinha de mandioca e fazenda do Colégio para a produção de açúcar). Por isso em Santa Cruz não havia engenhos de açúcar, e sequer se podia desviar o leite dos novilhos para outros fins. 

O gado em pé e a carne verde eram comercializados em circuitos distintos, tanto para o mercado interno quanto para navios estrangeiros, das mais diversas nacionalidades. Para o mercado interno, desde o século XVII o Colégio do Rio mantinha seu próprio açougue, no centro da cidade, que, mesmo ameaçando o monopólio do açougue do Senado da Câmara, garantido pela lei da época, continuou funcionando até a expulsão dos padres. Carne e gado, com autorização expressa do governador, podiam ser vendidos também para as embarcações ancoradas na Ilha Grande. Os jesuítas abasteciam navios vindos do Sul, chamados ‘peruleiros’ que, carregados de prata peruana, paravam no Porto de Sepetiba e faziam compra do gado, efetuando o pagamento em prata. Vendiam para todas as esquadras estrangeiras que lá abarcassem. Fica patente a inserção da produção agropecuária das fazendas jesuítas nos circuitos comerciais mais amplos, num caso típico de quebra de monopólio tanto das rotas quanto dos produtos pelo colonizador português. Assim, os dados sobre a produção agropecuária, seu consumo interno, sua distribuição entre os colégios e sua posterior venda ou remessa para a Europa indicam não somente os princípios da “defesa, a catequese e a subsistência própria”, como alardeavam os padres, mas uma estratégia econômica vigente para toda a Companhia, a busca por lucros e rendas, após saciadas as necessidades de víveres internas da Companhia. 

Segundo dados apresentados por Freitas, a Fazenda rendia trinta mil cruzados anuais (doze contos de réis), que eram entregues ao Reitor do Colégio do Rio de Janeiro todo segundo dia do ano, pelo Administrador, em mãos. O montante era acompanhado de relatório detalhado de sua origem e incluía o rendimento dos arrendamentos e aforamentos de terras e do aluguel de pastos, dados que nos indicam que o rentismo já existia, desde o tempo dos jesuítas, e que também contribuía, efetivamente, para o aumento dos rendimentos da Companhia. Na gestão do Padre Pedro Fernandes, este entregava apenas doze mil cruzados ao Reitor, em compensação, levava in natura o gado que seria consumido pelo Colégio ao longo do ano: quinhentas reses. Presume-se que o dinheiro “das coisas nela vendidas”, sobretudo do gado, era remetido a Lisboa. Com isso, o Colégio do Rio era considerado “o mais desafogado da província do Brasil”, e podia mesmo contribuir para outros colégios e prédios da Companhia.

O enriquecimento possível através de tamanha estrutura produtiva ficava patente nas obras e benfeitorias deixadas pelos jesuítas, em parte utilitárias, em parte elemento de ostentação da riqueza da própria Ordem, para os que passassem pela Fazenda. Em 1751 a Igreja estava plenamente concluída, com vinte e cinco metros de comprimento do corpo central, com todas as paredes internas cobertas de painéis de azulejos e ricos objetos de culto “todos de ouro, prata e pedras preciosas”. Em 1752, foi inaugurada a “Ponte dos Jesuítas”, em pedra de cantaria, que era de fato uma represa, com quatro óculos por onde passavam as águas do Rio Guandu. No momento de sua expulsão, em 1759, os jesuítas estavam construindo um imenso templo, “destinado a ser o maior do continente”, com cripta anexa para jazigo dos padres.

A sede da Fazenda era formada por um bloco principal que unia igreja e convento, o “Convento dos Padres”, e outros pequenos prédios, formando um conjunto arquitetônico amplo e organizado, também reformado em meados do século XVIII. No Convento, com dois pavimentos e claustro central, havia trinta e seis celas individuais e ainda uma hospedaria, podendo alojar cerca de cinquenta pessoas. A residência também tinha por finalidade acolher os missionários das aldeias, estudantes, mestres e irmãos graduados em suas férias anuais, para seu “merecido repouso”. Ela também hospedou bispos, governadores e ministros com todo o conforto possível na época."

Manoela da Silva Pedroza é Historiadora.
Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense, autora da tese "Capítulos para uma história social da propriedade da terra na América Portuguesa. O caso dos aforamentos na Fazenda de Santa Cruz (Capitania do Rio de Janeiro, 1600-1870)".

Fonte do Texto: Trechos extraídos da tese "Capítulos para uma história social da propriedade da terra na América Portuguesa. O caso dos aforamentos na Fazenda de Santa Cruz (Capitania do Rio de Janeiro, 1600-1870)". UFF, Niterói, 2018. Páginas 152 à 156.

Legenda e Fonte da Imagem: Carvalho, Delgado. Chorographia do districto federal. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1926. Retirada da página 152 da tese da autora, Manoela da Silva Pedroza.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quarta-feira, 22 de julho de 2020

O maior acidente natural da história do Brasil ocorreu no Rio de Janeiro



Uma cruz de 10 metros na subida da Serra das Araras (Piraí-RJ), no local conhecido por Ponte Coberta, marca o início de um enorme cemitério construído pela natureza. Lá estão cerca de 1.400 mortos (fora os mais de 300 corpos resgatados) vítimas de soterramento pelo temporal que atingiu a serra em janeiro de 1967. Foi a maior tragédia natural da história do país.

No episódio da Serra das Araras, suas encostas praticamente se dissolveram em um diâmetro de 30 quilômetros. Rios de lama desceram a serra levando abaixo ônibus, caminhões e carros. A maioria dos veículos jamais foi encontrada. Uma ponte foi carregada pela avalanche. A Via Dutra ficou interditada por mais de três meses, nos dois sentidos.


Para se ter uma ideia do que ocorreu na Serra das Araras basta comparar os índices pluviométricos. A tragédia de Teresópolis ocorreu após um volume de chuvas de 140 mm em 24 horas. Na Serra das Araras, em 1967, o volume de chuvas chegou a 275 mm em apenas três horas. Quase o dobro de água em um oitavo do tempo.


Mas o episódio da Serra das Araras parece ter sido apagado da memória do país e, especialmente, da imprensa. O noticiário dos veículos de comunicação enfatiza que a tragédia da Região Serrana do Rio superou o desastre de Caraguatatuba em março de 1967. O caso da Serra das Araras, ocorrido em janeiro daquele mesmo ano foi muito maior e quase não é citado.


O resgate era das tarefas mais difíceis. Com uma corda amarrada a seus corpos, sete homens desciam por crateras cheias de cadáveres, pegavam corpo por corpo e eram puxados para cima. A missão foi dada pela polícia a um grupo de prisioneiros que estava na delegacia de Piraí. Pela ajuda na operação, o grupo ficou conhecido como “os sete homens bons”.

A enxurrada soterrou o ônibus da Viação Única, que precisou ser serrado ao meio para a retirada dos corpos.

Texto originalmente postado na página Geografias Memoráveis

Créditos das imagens: José Vasco / O Globo

Quer saber mais sobre esse acidente? Acesse o link abaixo:

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

Maria do Carmo Gerônimo

Maria do Carmo Gerônimo (Carmo de Minas, 5 de março de 1871 — Itajubá, 14 de junho de 2000) foi uma ex-escrava brasileira que teria sido uma...