19.6.18

Largo do Matadouro, atual Praça da Bandeira, em 1911


O local tinha esse nome por abrigar o Matadouro Imperial de São Cristóvão, inaugurado ali em 1853. O matadouro existia no lugar onde hoje está a Escola Nacional de Circo, e funcionou durante quase trinta anos quando, graças à velocidade de ligação proporcionada pela linha férrea entre áreas antes consideradas distantes. Depois o matadouro da cidade foi transferido mais uma vez, agora para bem longe, em Santa Cruz, eliminando de vez o incômodo do mau cheiro e dos urubus que essa atividade trazia para a cidade que se expandia rapidamente. Acima vemos uma imagem mostrando um ângulo do Largo, com a imagem do matadouro. Se quiser ver mais imagens clique no link abaixo.

Imagem: Instituto Moreira Sales

Fonte:
Postado por Adinalzir Pereira Lamego 

18.6.18

Longe, longe demais


Por Flávio Brandão (*)

Esta história se passou no começo dos anos 1960 e conta a história do genioso Silvério, sua esposa, e como eles chegaram ao lugar mais distante do Rio de Janeiro.

Silvério era um homem honesto e trabalhador, de seus vinte e poucos anos, bem casado, há um ano, e que amava sua esposa, já grávida, de seu primogênito. Ambos eram moradores de Copacabana, na zona sul carioca,

O mesmo possuía um botequim, na rua Domingos Ferreira, em um ponto muito movimentado, aonde ele podia conversar, com seus conterrâneos do nordeste, enquanto ele ganhava uma boa féria diária, o suficiente, para levar uma vida sem apertos, com Noêmia, sua mulher.

Apesar de ter um bom coração, Silvério tinha um grave defeito. Era genioso, que só ele.

O casal era feliz, pois, sua esposa, era uma companheira dedicada, e muito paciente, com o marrento, mas ao mesmo tempo, apaixonado marido.

Mas, a família de Silvério, incluindo os pais, irmãos, tios, primos e primas, não tinham a mesma paciência, com o Silvério, que, com todos implicava. e todos se afastaram, por brigas banais entre si.

Já perto dos nove meses, de gestação de sua companheira, Silvério tomou uma destemperada decisão, dizendo: - Mulher, vamos arrumar as malas, que estamos partindo hoje! Já vendi o bar e desfiz o aluguel de nosso apartamento! Não aguento mais meus parentes, e quero me mudar, para bem longe deles!!

Sem querer contestar o marido, Noêmia, ajudou a juntar os seus pertences, colocaram tudo na sua Rural Willys, anos 60 e foram embora..
Uma hora depois, enjoada da viagem devido ao seu estado, e já na Avenida Brasil, a esposa perguntou: - Amor, para aonde vamos? E a resposta foi surpreendente: - Ainda não sei, mas de uma coisa tenho certeza. É para o lugar mais longe dos meus parentes, possível! No final do Rio de Janeiro!

- Mas aonde? Replicou Noêmia. E a resposta foi mais inusitada ainda! Ainda não sei..Mas ouvir falar de um lugar chamado Campo Grande, que é na Zona Rural do Rio, aonde ainda podemos respirar um pouco de ar puro.

Ao chegar em Campo Grande, Silvério resolveu confirmar com um transeunte, perguntando: - Moço, aqui é o final do Rio de Janeiro? Após a resposta negativa, o transeunte resolveu orientar: O senhor pode seguir reto pela avenida, e vai dar no último bairro daqui, que é Santa Cruz.

Então, tome viagem novamente, com o determinado Silvério e sua esposa, já quase botando os bofes para fora, devido ao sacolejo da viagem.

Chegando em Santa Cruz, o casal, perguntou a uma senhorinha, que transitava na calçada; - Senhora, aqui é o final do Rio de Janeiro? Decepcionada, com a resposta, Noêmia, que não aguentava mais teve que ouvir: - Não, meus filhos.. O final do Rio de Janeiro, é Sepetiba.

Sem nunca ter pisado os pés em Sepetiba, e guiado por informações, foram pela Estrada de Sepetiba, e ao seu final avistaram um acolhedor Coreto.

Viraram a esquerda, e se depararam, com uma linda praia, de águas calmas, aonde as famílias se bronzeavam,outros pescavam, enquanto alguns passavam uma lama em seus braços e pernas, para aproveitar suas propriedades curativas...

Uma comunhão de pensamentos ocorreu, quando ambos, disseram ao mesmo tempo: - É aqui! Paixão a primeira vista!

Rapidamente, correram ao primeiro corretor que encontraram e fecharam negócio, comprando uma bela casa, perto da praia. E logo após, tiveram que procurar as pressas, uma parteira para cuidar do nascimento de seu filho.

A criança, nasceu com saúde, e o casal, ali foi feliz.

Silvério e Noêmia, estão vivos até hoje, octogenários, e curtindo seus bisnetos, neste aprazível e apaixonante lugar, longe, longe demais...

Flávio Brandão é escritor e pesquisador e escreve às quartas-feiras na página Santa Paciência (*)
Postado por Adinalzir Pereira Lamego

16.6.18

A Expedição Langsdorff e a vinda de Rugendas ao Brasil


Autor
Equipe Brasiliana Iconográfica

A expedição Langsdorff foi uma das mais importantes incursões científicas realizadas no Brasil no século XIX. E foi graças a esse projeto que o pintor alemão Johann Moritz Rugendas veio ao Brasil.

A viagem foi idealizada e chefiada pelo médico e naturalista Georg Heinrich von Langsdorff, estabelecido no país desde 1813 como cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro. Langsdorff era membro-correspondente da Academia Imperial de Ciências de São Petersburgo e tinha integrado uma viagem de circunavegação promovida pelo governo russo, ocasião em que aportou no litoral de Santa Catarina. Por ter vivido em Lisboa, tinha domínio do idioma português.

No Brasil, Langsdorff transformou sua propriedade, a Fazenda Mandioca, num importante polo de encontro entre cientistas e artistas europeus. Situada ao fundo da Baía de Guanabara (hoje município de Magé, no Rio de Janeiro), a fazenda tinha localização estratégica para quem pretendia viajar ao interior do país. Langsdorff disponibilizava para as pesquisas de seus hóspedes uma grande biblioteca científica, um herbário, jardim botânico e coleções zoológicas e minerais.

A ideia de fazer uma viagem científica exploratória ao interior do Brasil foi defendida com entusiasmo por Langsdorff junto ao governo russo, que concordou em financiar o projeto. Para acompanhá-lo, Langsdorff contratou um artista, o alemão Johann Moritz Rugendas, além de cientistas como o botânico Ludwig Riedel, o astrônomo Néster Rubtsov e o zoólogo e linguista Édouard Ménétries. Este grupo percorreu o interior de Minas Gerais entre 1824 e 1825, numa primeira etapa da viagem.

No entanto, desentendimentos entre Langsdorff e Rugendas levaram o artista a desligar-se da expedição. Para a segunda etapa da viagem, Rugendas foi substituído pelos artistas franceses Hercule Florence e Aimé-Adrien Taunay (filho de Nicolas-Antoine Taunay). Transitaram vias fluviais entre Porto Feliz – às margens do Tietê em São Paulo – e  Cuiabá e, de lá, até Belém do Pará. Nesta etapa, a expedição contou ainda com a presença de Wilhelmine von Langsdorff, esposa de Langsdorff e única mulher a viajar com o grupo.

Foram percorridos, entre 1825 e 1829, cerca de 17 mil quilômetros. Dois incidentes marcaram fortemente a segunda parte da viagem: Adrien Taunay morreu afogado ao tentar atravessar o Rio Guaporé́ e Langsdorff, vítima de doenças tropicais, perdeu a memória.

Grande parte do material produzido durante a expedição foi reunido por Hercule Florence e enviado para a Rússia: manuscritos, desenhos, aquarelas, mapas, espécies minerais, herbários, animais empalhados, registros de línguas indígenas e correspondências. Também fazem parte deste acervo os diários de Langsdorff, que revelam detalhes sobre os costumes e a língua de tribos como os Apiacás, Mundurucus e Guanás, estes, registrados por Florence.

A Viagem Pitoresca através do Brasil

 Rugendas, então com 19 anos, aceitou engajar-se no projeto de Langsdorff, provavelmente inspirado pelos relatos de viagem de Spix e Martius e pela obra de Thomas Ender, integrantes da Missão Austríaca. Durante os dois anos em que aguardou o início da expedição, adiado pelo processo de independência do Brasil, o artista registrou paisagens, fauna e flora dos arredores do Rio de Janeiro, cenas urbanas e personagens locais. Rugendas é autor de um dos conjuntos iconográficos mais importantes sobre o Brasil do início da década de 1820.

Não se sabe ao certo o itinerário cumprido pelo artista após desligar-se da expedição em 1824. De Minas Gerais, provavelmente passou pela Bahia e Pernambuco antes de retornar à Europa. Levou consigo grande parte de seus desenhos e anotações, que apresentou a Alexander von Humboldt, o maior cientista europeu da época, quando chegou a Paris. Humboldt sugeriu que o artista publicasse um livro de viagens, conseguindo que o projeto fosse levado a cabo pela importante casa editora Engelmann.

As litografias baseadas em desenhos que Rugendas produziu no Brasil foram publicadas em Voyage Pittoresque dans le Brésil [Viagem Pitoresca através do Brasil] entre 1827 e 1835. O livro é, até hoje, um dos mais conhecidos de viagem ao Brasil do século XIX. A publicação, com edições em alemão e francês, fez sucesso na época, inclusive em terras nacionais, embora hoje se possa perceber a representação europeizada dos negros escravizados e índios.

Ainda incentivado por Humboldt, Rugendas empreendeu nova viagem à América, que durou 15 anos. Viajou pelo México, Chile, Peru, Bolívia, Argentina e Uruguai, passando novamente pelo Rio de Janeiro em 1846. Pintou retratos para a família imperial, foi condecorado por dom Pedro II com a Ordem do Cruzeiro do Sul, e participou das Exposições Gerais de Belas Artes a convite de Felix-Émile Taunay, com quem tinha estabelecido uma amizade na primeira vez em que esteve no Brasil. Rugendas voltou para a Europa no ano seguinte, em 1847.

Fonte de consulta de texto e imagens:
http://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/20193/a-expedicao-langsdorff-e-a-vinda-de-rugendas-ao-brasil
Postado por Adinalzir Pereira Lamego

15.6.18

Jubileu de ouro do bairro-cidade de Campo Grande


Por Carlos Eduardo de Souza (*)
(Professor de História e escritor)

Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, destaca-se pela sua grande extensão, por sua influência na região e por ser o mais populoso do município. Porém, no mês de junho de 2018, o bairro completa um jubileu de ouro de um fato muito importante e curioso: o título de bairro-cidade. Segundo a Lei n° 1627, de 14 de junho de 1968, sendo um projeto do deputado Frederico Trotta, sob a gestão do então governador da Guanabara, Negrão de Lima, dizia-se no Art. 1° - “É reconhecida como “Cidade” a localidade de Campo Grande, passando a denominar-se Cidade de Campo Grande”.  Assim, há 50 anos, o bairro de Campo Grande, ou a localidade, era reconhecido como “Cidade honorária”.
     
Devido a isso e a outros fatos, surgiram alguns movimentos em prol da emancipação, com, a princípio, o propósito de combater os problemas e realizar uma melhor administração. Mas, mesmo possuindo um título de bairro-cidade, ou de cidade honorária, Campo Grande continua sendo oficialmente um bairro, com uma estrutura de uma cidade, é verdade, influenciando bairros próximos e atraindo população desses e até de municípios, principalmente por ser, entre outros atributos, um polo comercial da região.

Afinal, Campo Grande pode ser considerado um sub centro regional, com um suporte que supera muitas cidades, já que não é qualquer bairro que possui três shoppings e uma população de aproximadamente 350 mil habitantes. É realmente um bairro-cidade.

(*) Carlos Eduardo de Souza é professor e pesquisador da história de Campo Grande.

Texto e imagem extraídos do blog http://memoriascampogrande.blogspot.com/
Postado por Adinalzir Pereira Lamego

14.6.18

A Academia Paciente de Letras


Por Isra Toledo Tov (*)
(Memorialista e pesquisador da história da Mata da Paciência)

Mariano Odelot, em abril de 1975, acordou certa manhã decidido a fundar uma academia de letras em Paciência, bairro pobre da periferia carioca, contando à época com pouco mais de 45 mil habitantes. Pegou papel e caneta e listou todas as poetisas, todos os poetas, todas as escritoras e todos os escritores que viviam no rincão periférico paciente.

Conseguiu juntar uma poetisa, um poeta, uma jornalista (que escrevia artigos e crônicas num jornal do comércio de Campo Grande) e sua própria insigne pessoa e marcaram uma reunião deliberativa para o meado de abril. Preparou um bosquejo de ata de reunião, com uma pauta bem simples. Item 1: escolha do nome da academia, sugeria-se Academia Paciente de Letras; item 2: um/a presidente/a deveria ser eleito/a nessa primeira reunião; item 3: um local fixo para reuniões e palestras deveria ser encontrado ou construído; item 4: uma personalidade nacional ou internacional deveria ser homenageada no primeiro ano de existência da academia; item 5: um ciclo de palestras já deveria ser agendado para o primeiro mês de existência da nobre academia.

A reunião deliberativa ocorreu, de fato, no armazém das Nove Portas, na rua Serrolândia, no Jardim Sete de Abril, um modestíssimo estabelecimento pertencente a um português, o Seu José. Na parte externa, com uma mesa de madeira cedida pelo dono do local, mais quatro rústicas cadeiras, montou-se a sede provisória da APL (Academia Paciente de Letras). Mariano se vestiu cerimoniosamente para a ocasião, pois considerava de máxima relevância para a cultura local, paciente, a fundação de uma inspiradora academia de letras.

Logo no início dos trabalhos da tertúlia, verificou-se que nenhum deles, nem a poetisa, nem o poeta jamais tinham publicado um livro sequer! Tudo o que tinham eram textos e poemas dispersos, em folhas de caderno, no máximo um ou dois fragmentos datilografados. O jornalista, porém, sabiamente ponderou que a literatura oral, ágrafa, era tão importante quanto a escrita, e o fato de não haver livros publicados entre eles não lhes tirava o orgulho e a honra de serem literatos. Eram grandes e sedentos leitores, inveterados, já que liam de prosa a poesia, sem descanso, diuturnamente. Sempre andavam pelas ruas do bairro com livros sobre os braços, e até mesmo a vizinhança percebia nisso uma certa mescla de distinção com leve demência.

Ao fim de duas horas de reunião, deliberou-se que, todas as últimas sextas-feiras de cada mês, reunir-se-iam às 17 horas, no mesmo lugar, no armazém do Seu Zé das Nove Portas, na rua Serrolândia, esquina com rua Carapicuíba. Uma pessoa ficaria encarregada de trazer, numa garrafa térmica, um chá de camomila, ou de hortelã, ou de outra erva qualquer, para que a conversa e os debates literários pudessem fluir com maior vazão.

O primeiro item da pauta de reunião foi decidido facilmente, e a plêiade deliberou que o nome Academia Paciente de Letras (APL) caía muito bem para o grupo. O segundo item foi igualmente resolvido com agilidade: optou-se pela rotatividade automática da presidência da APL, sem votos, começando a escolha pela ordem alfabética do primeiro nome de cada membro. Assim, Mariano – que deu a ideia da rotatividade – só assumiria a presidência do colegiado no quarto ano de sua existência, já que a primeira presidenta seria a poetisa Amália. O segundo presidente, no segundo ano da APL, seria o poeta Fúlvio. A terceira presidenta, Gretchen, assumiria no terceiro ano de constituição da APL.

O terceiro item da pauta – a construção de um local fixo para reuniões e eventos – ficou para a reunião seguinte. O quarto item – que grande personalidade deveria ser escolhida como homenageada do ano – consumiu mais tempo do que se supunha. Mariano propôs Lima Barreto, pois venerava sua obra, "Os bruzundangas". Amália apostava todas as suas fichas em Luís Vaz de Camões. Fúlvio bateu pé por "Dom Quixote", o cavaleiro da triste figura, mas o grupo deixou claro que precisava ser alguém de carne e osso, não uma personagem célebre. Gretchen, mais ousada, sugeriu Johann Wolfgang von Goethe, o maior nome da literatura alemã, autor de "Fausto" e "Werther". O grupo silenciou, refletiu profundamente e aceitou o arroubo da jovem jornalista. No primeiro ano de fundação da Academia Paciente de Letras, o escritor homenageado seria Goethe, o gênio alemão nascido em Frankfurt, em 1749, e falecido em Weimar, em 1832, do alto de seus 82 anos burgueses bem vividos.

Decidiram iniciar, imediatamente, a leitura de "Werther", seu primeiro trabalho de sucesso instantâneo em toda a Europa, em 1774. Foi uma delícia para os quatro corações da APL a leitura do diário angustiante do jovem rapaz apaixonado pela distante Charlotte. Terminada a leitura do romance, partiram para a obra mais densa do intelectual alemão, o "Fausto", publicamente postumamente, em 1832. Os debates eram acalorados, a cada encontro da tertúlia paciente, e sempre havia pessoas convidadas, de fora da APL, de outros bairros; até mesmo da Zona Sul veio um dia uma moça que fazia mestrado em literatura alemã.

O quinto item da pauta – a escolha de um tema para um círculo de palestras – foi facilmente acertado: optou-se por uma série de palestras acerca da vida e da obra de Lima Barreto, o homenageado do ano pela APL. Desta vez, o primeiro palestrante a falar, dentro de quinze dias, seria o último a assumir a presidência da instituição, Mariano Odelot! Apresentou, com brilhantismo, a obra "Os bruzundangas" (publicada em 1922), comparou o mundo da obra satírica com o Brasil de então, e foi bastante elogiado pelos colegas da APL e convidados. O pobre do Seu José do Nove Portas era obrigado a trazer cadeiras de sua própria residência para acomodar o grupo literário que tanto crescia. Ainda bem que o encontro só ocorria na última sexta-feira de cada mês, minha Santa Eugênia!

O símbolo oficial da instituição literária paciente era bastante semelhante ao da Academia Brasileira de Letras: o lema “AD IMMORTALITATEM” (“Rumo à imortalidade”, em latim), no centro, e dois galhos ao lado. Diferentemente, porém, do símbolo da ABL, o galho da esquerda era de cana-de-açúcar e o da direita era de café, dois produtos responsáveis pela riqueza do bairro no século XIX. E, no alto e no topo do símbolo, uma laranja, representando a riqueza paciente até o início dos anos de 1950.

Amália passou, anos depois, para um concurso público nacional e foi trabalhar em Rondônia. Fúlvio mudou-se para Belford Roxo, a contragosto, após namorico com a filha de um policial militar... Engravidou a pobre donzela, foi casado à força, na Baixada Fluminense, e toca hoje um bar longínquo por lá, vendendo cervejas e organizando pequenos saraus. Gretchen estudou, profundamente, a língua alemã, no Instituto Goethe, na rua do Passeio, no centro do Rio, conheceu um alemão e vive hoje com ele no interior da Baviera, no Sul da Alemanha. Mariano Odelot, desolado, não conseguiu manter as tertúlias mensais na calçada do Seu Zé das Nove Portas, já que não conseguia juntar membros tão valorosos quanto os três que se perderam no mundo. Até hoje diz existir ainda a APL, mas ela não tem endereço, não realiza reuniões, nem encontros, nem seminários, nem debates, nem nada. A Academia Paciente de Letras é apenas uma lembrança remota de Mariano, mas nunca deixará de existir, ainda que só possua um único membro paciente.

Mata da Paciência, 1º de agosto de 2015.

(*) Isra Toledo Tov é professor e escritor - Escreve semanalmente na Santa Paciência.
 
Texto e imagem extraídas da página do Facebook "Santa Paciência"
Postado por Adinalzir Pereira Lamego

13.6.18

Como eram feitas as telhas coloniais


Telhas de barro para cobertura de edificações existem desde os tempos mais remotos. Foram encontradas na China do período neolítico, datando de mais ou menos 10.000 a.C. e, no Oriente Médio, pouco tempo depois. O seu uso se espalhou pela Ásia e Europa em larga escala. Tanto os gregos como os romanos as usavam, o que foi facilitado após o invento da argamassa por esses últimos, quando puderam ser cimentadas sobre muros e beirais também.

Com a descoberta da América, a tecnologia da fabricação de telhas foi trazida para o novo continente. No século XVII, seu uso tornou-se quase obrigatório nas grandes cidades, por oferecer baixo risco de incêndios, fato fundamentado nas devastadoras conflagrações de Londres, em 1666, e de Boston, em 1679.

Telhas de barro eram, também, preferidas pela sua durabilidade, fácil manutenção e falta de condutibilidade térmica. Nos Estados Unidos, houve um declínio na sua fabricação, em meados do século XIX, pelo surgimento de outros materiais de custo mais barato e, às vezes, mais leves. Foi o caso do cobre, lata, ferro, ferro galvanizado e zinco. Popularizou-se, também, o uso de telhas feitas com placas de ardósia. Entretanto, com o aperfeiçoamento de sua fabricação e automação industrial, o produto passou a custar menos, coincidindo com o furor da construção, na América do Norte, de vilas em estilo italiano, onde se utilizavam telhas de barro, voltando a se tornar populares no começo do século XX.

No Brasil Colonial, os escravos eram encarregados da fabricação das telhas. Geralmente, por ser um trabalho menos pesado, ficava a cargo das escravas e dos escravos idosos e/ou doentes. A técnica adotada era a de moldar a argila na face anterior de suas coxas, produzindo o formato necessário das, assim ditas, telhas coloniais. Obviamente, elas não ficavam uniformes, pois havia coxas magras, roliças, finas, largas, longas, curtas e deformadas. Por isso, as telhas já secas e queimadas eram de diversos tamanhos com diâmetro e espessura variados. Consequentemente, depois de prontos, os telhados eram irregulares e desalinhados, levando a um aspecto de terem sido mal feitos. Estes eram descritos como telhados “feitos nas coxas”.

Daí, vem até os dias de hoje a expressão idiomática, denotando algo feito sem capricho ou, ainda, uma atitude de descaso.

A partir do século XVI em diante toda essa tecnologia de fabricação de telhas passou a ser bastante utilizada também pelos colonos portugueses e pelos padres jesuítas nas regiões de Santa Cruz e arredores da zona oeste carioca.  

Atualmente, com os moldes padronizados e a industrialização, as telhas coloniais ficaram todas iguais, resultando em coberturas bonitas e uniformes, não podendo se afirmar que foram “feitas nas coxas”, mas, há de se convir, os telhados, verdadeiramente coloniais, ofereciam um charme todo especial àquelas casas dos tempos coloniais.

Algumas considerações:

Na realidade essa afirmação faz parte de uma lenda que foi se consolidando. Vamos supor que depois que se fizesse  uma massa de argila, se utilizasse um grande número de escravos para fazer as telhas nas coxas. Como isso leva um bom tempo ate a argila endurecer. Eles ficariam nas olarias sentados ou deitados esperando a argila secar? Claro que não! Na verdade haviam formas de madeira que eram usadas na maioria das olarias. Mas grande parte delas se perderam já que devem ter sido usadas como lenha, depois que as telhas coloniais saíram de uso. Essa historia é bem semelhante com  a do óleo de baleia que afirmam que era  usado na construção junto com a cal e areia. Hoje sabemos que o uso do óleo não procedia. Mas isso é uma outra historia e um outro texto.

Em 1841 surgiram as telhas de encaixe, que eram fabricadas de forma mecânica, o que fez  revolucionar o seu uso, uma vez que proporcionavam encaixes perfeitos e telhados mais uniformes. Essa invenção foi obra dos irmãos Gilardon d’Altkirche, franceses, da Alsácia. Antes essas telhas eram feitas nas coxas dos escravos por serem mais práticas e a sua mão de obra mais barata e disponível.

Este texto foi extraído do blog:

12.6.18

Nair de Teffé: Bela, Culta e Avançada


A República do Brasil nunca mais teve uma primeira-dama como Nair de Teffé! Caricaturista, pintora, atriz, cantora, pianista, escritora e poliglota (falava seis línguas), Nair exerceu atividades tidas como pouco convencionais para uma representante feminina da elite brasileira no início do século XX. Como se costuma dizer: uma mulher à frente de seu tempo. E que tempo! Estamos nos referindo à Primeira República, também conhecida como República Velha (1889-1930). Época conturbada em todos os sentidos, apesar de ser designada como a belle époque brasileira. Rebeliões nos estados, Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata, Guerra do Contestado, embates nas escolhas dos candidatos a presidente... Na verdade, era uma belle époque restrita a alguns centros urbanos desenvolvidos, entre os quais a capital, Rio de Janeiro e a cidade de Belém, no Estado do Pará, esta última em função da economia da borracha. No momento em que a Europa estava às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Brasil ainda era um país que buscava uma identidade como nação e dava os primeiros passos em direção a um processo de industrialização.

Em 1912, a maior parte da população brasileira, aproximadamente 24 milhões de habitantes, ainda vivia na zona rural dependente da economia primária de exportação ou de atividades de subsistência. Era a época do domínio dos coronéis (grandes fazendeiros), tanto a nível social como na política. Contudo, nas cidades mais importantes, como o Rio de Janeiro, as classes populares começavam a ter uma maior notoriedade, sobretudo por meio de suas manifestações culturais. Inicialmente ignoradas pelas elites sociais, os novos ritmos musicais, como o samba, o maxixe, modas de viola, entre outros, rompiam os limites das periferias, dos morros e ganhavam maior aceitação, até mesmo dentro da residência presidencial. Para que isso ocorresse, algumas iniciativas foram importantes e sem dúvida uma das mais lembradas foi a da primeira-dama Nair de Teffé, esposa do presidente e militar, Marechal Hermes da Fonseca, que governou o Brasil entre 1910 e 1914.

De origem aristocrática, Nair de Teffé nasceu no Rio de Janeiro (algumas fontes citam Petrópolis) em 1886, filha do almirante Antonio Luís Hoonholtz, Barão de Teffé e neta do Conde Von Hoonholtz. Uma curiosidade, foi a primeira mulher com o nome Nair registrada no Brasil! Nair foi enviada ainda criança para estudar na Europa, acompanhando o pai que era diplomata.

Estudou em escolas católicas da França, como nos conventos de Assunption, Fideles Compagnie de Jésus, Saint Ursuline e na conhecida escola Vivaudy, localizada na Riviera Francesa e onde haviam apenas 30 alunas, entre as quais filhas de reis e príncipes (na foto acima, Nair de Teffé em sua primeira comunhão, no ano de 1895). Segundo depoimento da própria Nair de Teffé ao jornal O Estado de S. Paulo em 1979, a aptidão para a caricatura foi descoberta aos nove anos, quando estudava no convento Saint Ursuline, ainda na França. Nair fez uma charge da freira professora, que tinha um nariz comprido e que a jovem considerava bom para desenhar. Após ser descoberta pela madre superiora, e como acontecia em uma boa escola católica, Nair foi colocada de castigo em um quarto escuro durante oito horas! Mas isso não intimidou a jovem estudante, que aperfeiçoou a sua arte e se tornou a primeira caricaturista mulher do Brasil (e possivelmente, do mundo).

Os pais de Nair de Teffé só vieram a descobrir a respeito do talento da filha como caricaturista, quando da visita de uma amiga da família, conhecida como Madame Carrier. Obrigada a permanecer na sala com a convidada por quase duas horas, Nair se viu obrigada a conversar sobre cozinha, algo que a mesma detestava. Segundo o próprio depoimento de Nair:
- Foi terrível porque a unica coisa que eu gosto da cozinha é a comida.

Após a visita ter ido embora, Nair correu ao quarto para fazer uma  caricatura da nobre senhora e mostrou a mesma aos pais, que não apreciaram muito a indisciplina. Como castigo ficou sem a sobremesa no jantar!

Após o retorno ao Brasil, em 1905, Nair de Teffé desenvolveu o seu lado artístico. Além do talento para o desenho, Nair de Teffé era apaixonada pelo teatro e chegou a ser reconhecida como uma atriz de talento. Também apreciava a musica popular, gostava de tocar violão, um instrumento visto pela elite carioca como "coisa do populacho" e para contrariar ainda mais a sociedade da época, frequentava o Bar do Jeremias, reduto dos boêmios e intelectuais. Para se ter uma ideia do preconceito que existia contra o violão, carregar o instrumento na rua poderia render até uma prisão por "vadiagem".

Em 1910, aos 24 anos de idade, Nair ficou conhecida na imprensa como caricaturista e colaborava em publicações famosas como Gazeta de Notícias, Careta, Fon-Fon!, O Malho, Gazeta de Petrópolis, Vida Doméstica, Le Rire, Fantasio e Excelsior, sendo estas três últimas francesas. Suas caricaturas eram apreciadas pelos traços modernos e por retratar de forma irônica as figuras de seu tempo.

Para não chamar tanto a atenção, ela assinava os desenhos com o nome de Rian, Nair ao contrário. Mas isso logo foi percebido. Em função de possuir habilidades que eram pouco recomendadas para uma mulher do seu meio social, Nair de Teffé enfrentava algumas dificuldades. De acordo com o seu próprio depoimento prestado na citada entrevista de 1979:
- Nas recepções eu era recebida com muita desconfiança pelos homens e com medo pelas mulheres, que por muitas vezes se escondiam atrás dos finos leques. Nair dizia se divertir com a situação e continuava agindo com irreverência:
- Às vezes meus pais me aconselhavam a deixar a caricatura com medo de que fosse odiada. Isso nunca me intimidou.

E Nair tinha razão! Nada disso foi empecilho para que ela atraísse a atenção da figura mais importante do país, o Presidente da República, que também era militar: Marechal Hermes da Fonseca. Em 1910, Hermes derrotou o candidato civil à presidência, o baiano Rui Barbosa, discretamente apoiado pelos republicanos paulistas naquela que ficou conhecida como a Campanha Civilista (o civil Rui contra o militar Hermes). A eleição do militar contou com o apoio de Pinheiro Machado, importante líder dos republicanos gaúchos, cuja capacidade de articulação no Congresso Nacional era enorme. A ideia daqueles que apoiaram Hermes era o de apresenta-lo, não como um militar, mas como uma alternativa às demais oligarquias dominantes. Sobrinho do primeiro presidente e líder do golpe republicano de 1889, Marechal Deodoro da Fonseca, pesou sobre o governo de Hermes a dura repressão aos marinheiros da Armada, que se amotinaram contra a imposição dos castigos físicos, resquícios dos tempos da escravidão, na conhecida Revolta da Chibata.

Mas, voltemos ao casal em questão! Nair de Teffé tinha 27 anos e Hermes mais do dobro de sua idade, 57anos no início de 1913. Os dois já tinham se encontrado anteriormente, ainda quando o Marechal Hermes era casado, pois era comum as duas famílias passarem as férias de verão em Petrópolis, sendo que Hermes e o Barão de Teffé costumavam cavalgar juntos. Mas foi poucos meses depois de ficar viúvo de Orsina da Fonseca é que ocorreu a aproximação definitiva.

Em janeiro de 1913, como narrou depois a própria Nair, o pai avisou a ela da chegada do "trem dos maridos" a Petrópolis. O nome curioso desse trem se devia ao fato de que muitos homens chegavam para encontrar as esposas e outros em busca de uma namorada. Pois o presidente desembarcaria exatamente desse trem! O mesmo pretendia passar um tempo na cidade como forma de esquecer o desgosto pela perda recente da esposa. Nair e seu pai participaram da recepção a Hermes da Fonseca. Nair descreveu o encontro:
- Quando o Marechal desembarcou, achei-o abatido, triste. Quando me viu, notei que seus olhos ficaram diferentes. Apertou a minha mão e olhou-me com viva ternura.

No dia 18 de janeiro, o próprio presidente telefonou para o pai de Nair marcando uma cavalgada para o dia 20, dia de São Sebastião. Hermes da Fonseca apareceu acompanhado de seu filho Euclides, de um ajudante de ordens e de seu cocheiro. O Barão de Teffé veio junto com a filha. Em um determinado momento, Nair se distanciou do grupo e sofreu uma queda. Foi nesse instante que o Presidente acelerou a cavalgada e veio em direção a Nair para socorre-la. Aproveitando a ocasião em que estavam distantes dos demais, Hermes perguntou:
- Machucou-se Mademoiselle?
Ao que Nair respondeu:
- Não!

Foi aí que o Marechal partiu para a investida:
- Antes que cheguem os outros, eu quero lhe falar uma coisa depressa. Tive um sonho, mas acho quase impossível a sua realização. Não devo dizer-lhe...
Nair insistiu para que prosseguisse. Hermes olhando para o chão e encabulado disparou:
- Estou encantado com a beleza de Mademoiselle. Queria fazê-la minha esposa!

Há apenas seis meses o Marechal ficara viúvo e a tradição da época recomendava que o luto fosse guardado por, pelo menos, um ano. Nair pediu seis meses para pensar, mas a resposta veio oito dias depois, com um telefonema dela:
- Eu aceito...

O anuncio oficial foi dado vários meses depois, no dia 17 de setembro de 1913, ainda no período de luto do Presidente. O casamento ocorreu em Petrópolis, no Palácio Rio Negro, em 8 de dezembro do mesmo ano. Na foto acima vemos a noiva Nair e o noivo Hermes após a cerimônia religiosa. O matrimônio teve uma boa cobertura da imprensa e das revistas da época.
 
A cerimônia foi concorrida e se tornou, até hoje, ímpar na história da república brasileira. Hermes da Fonseca tornou-se o único presidente a casar-se (embora em segundas núpcias) durante o exercício de seu mandato. Nas revistas onde Nair de Teffé publicara as suas caricaturas, o casamento recebeu destaque, como na conhecida Fon Fon! Na mesma foto acima, da esquerda para a direita e em primeiro plano, o Cardeal Arcoverde, Nair e Hermes. No alto da escada, ao centro, em uniforme militar, o Barão de Teffé, o pai da noiva.

O acontecimento atraiu a atenção da população local, que se aglomerou na porta do Palácio Rio Negro, para tentar acompanhar de longe o casório.

A revista A Ilustração Brasileira fez uma foto de capa dos noivos. Nenhum dos filhos do Marechal Hermes compareceu ao casamento.

Apesar de ter o compromisso do marido de poder continuar a desenhar caricaturas, ao que parece, Nair não exerceu a atividade durante o restante do mandato do Presidente Hermes (na foto acima, podemos ver a noiva Nair).

A primeira-dama Nair de Teffé transformou o estilo do Palácio do Catete (residência presidencial no Rio de Janeiro), que até então era frequentado por homens sérios e sisudos. Nair promovia saraus e encontros regados a música popular. A introdução do violão nesses eventos foi por sua iniciativa. O Marechal Hermes era amigo e admirador do poeta e compositor Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), autor de clássicos como Luar do Sertão e Flor Amorosa. Segundo Nair, Hermes solicitou a ela que o convidasse para um desses saraus. Foi em uma noite do dia 26 de outubro de 1914, quando o Presidente Hermes ofereceu uma recepção aos chefes das missões diplomáticas estrangeiras e integrantes da alta sociedade da época. As modinhas interpretadas por Catulo fizeram o violão tomar parte definitiva dos concertos juntamente com o violino, o violoncelo e o piano. Catulo pediu para que Nair interpretasse uma música composta por Chiquinha Gonzaga (1847-1935) intitulada Corta Jaca, com partitura para piano e violão. Nair convidou também vários amigos para o recital de apresentação do Corta Jaca. Pronto! O evento foi considerado um escândalo e rendeu críticas até mesmo no Senado da República, por parte de uma das maiores figuras da política naquele momento: Rui Barbosa.

Rui teria dito em seu discurso de 7 de novembro de 1914:
- Mas o Corta Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o Corta Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria.

Como vimos, Rui Barbosa foi adversário político de Hermes da Fonseca e também já havia sido alvo das caricaturas de Nair. Mas agora, a própria primeira-dama tornava-se alvo dos outros caricaturistas.
Além de enfrentar as críticas de Rui e da oposição, o Marechal Hermes da Fonseca carregava a fama de pé frio e azarado. Momentos depois de uma audiência com o Presidente Afonso Pena, em 1909, na qual entregou o cargo de Ministro da Guerra em protesto contra a indicação de um candidato governista a presidente, Pena sentiu-se mal e veio a falecer. Em visita a Portugal, em pleno banquete oferecido ao rei Dom Manuel II, veio a notícia dada às pressas de que a monarquia portuguesa estava sendo deposta. Em 1912, o Presidente Hermes da Fonseca mandou depositar um empréstimo para o governo brasileiro em um banco russo, que depois foi tomado pela Revolução Bolchevique de 1917! Tudo isso valeu ao Presidente uma série de anedotas e gozações, inclusive na forma de marchinhas, como esta:
Ai Filomena, se eu fosse como tu, tirava a urucubaca da cabeça do Dudu.

Não pensem que o Presidente Hermes esqueceu-se de sua primeira esposa, Dona Orsina. Conta uma anedota, que toda semana, Hermes da Fonseca ia ao cemitério depositar flores nos vasos do túmulo da falecida. Eram seis vasos, um para cada letra do nome da primeira esposa. Um belo dia, Hermes teria ido ao cemitério e encontrou apenas quatro vasos, dispostos na seguinte ordem: NAIR. Um irado Marechal Hermes mandou chamar o jardineiro e deu-lhe uma enorme bronca. Na semana seguinte, o presidente voltou ao cemitério e encontrou os vasos de volta, mas com as letras na seguinte ordem: RI ASNO!

Nair de Teffé suportou com grande dignidade o último ano do mandato do Presidente Hermes (na imagem acima, uma caricatura feita por Nair do marido Hermes da Fonseca).

Com o término do mesmo, Nair viajou novamente para a Europa, inclusive para tratar de um problema no quadril, depois de sofrer uma queda quando corria para subir na carruagem onde estava o marido (mais uma "urucabaca" creditada ao Marechal Hermes da Fonseca). Tal acidente a teria deixado com uma perna mais curta que a outra.

De volta ao Brasil em 1921, Nair de Teffé ainda teve que enfrentar os problemas políticos que envolveram o agora ex-presidente Hermes no conflito entre os militares e o presidente eleito Arthur Bernardes, os quais desembocaram na Revolta Tenentista de 1922. O velho Marechal, que era presidente do Clube Militar, chegou a ser preso durante seis meses e depois de libertado, retirou-se definitivamente para Petrópolis, onde faleceu em 1923. Nair sentiu muito a morte do marido e jamais voltou a se casar. Pelo que se sabe, Nair amava de fato o esposo e esteve ao seu lado até a morte. Em defesa do marido, Nair de Teffé escreveu, muitos anos mais tarde, um livro intitulado A Verdade sobre a Revolução de 22.

Com 37 anos, Nair de Teffé, muito lentamente, foi retomando a vida social, sem abandonar as suas opiniões avançadas. Em uma entrevista dada em 1924, declarou:
- Por que permitir ainda que os homens continuem a atrapalhar a vida econômica do sexo frágil... disputando-lhes os empregos e os cargos ao alcance de suas forças e capacidades?

Nair criou em Petrópolis a Academia Petropolitana de Letras e também entrou para a Academia Fluminense de Letras em 1929. Após a morte dos pais em 1930, a ex-primeira-dama do Brasil deixou Petrópolis e foi residir no Rio de Janeiro. Contudo, a herança familiar foi sendo corroída, inclusive no "jogo-do-bixo", que Nair apreciava. Mesmo assim, conseguiu, através de um empréstimo da Caixa Econômica Federal, erguer um prédio em Copacabana, que abrigou o Cine Rian. No entanto, encontrou dificuldades para administrar a sala e enfrentando problemas financeiros, vendeu a mesma em 1946. Conta-se que o vício no jogo levou-a a perder uma ilha localizada em Angra dos Reis, que lhe havia sido deixada pelo marido. Com o pouco que lhe restou, comprou uma casa em Niterói, onde passou a viver reclusa com três filhos adotados: Carmem Lúcia, Tânia e Paulo Roberto.

Em 1959, Nair de Teffé voltou a desenhar caricaturas, inclusive de personagens contemporâneos, como Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. Nem mesmo Fidel Castro escapou das linhas soltas e ágeis de uma já septuagenária Nair de Teffé.

A essa altura, a ex-primeira dama pagava aluguel para morar e quase foi despejada em 1970. A pensão deixada por Hermes da Fonseca não era mais suficiente para as suas despesas. Nesse mesmo ano, por decisão do presidente Emílio Médici, ela conseguiu receber a pensão integral do ex-marido. Muitos explicam nesse fato os elogios feitos por ela ao general ditador.

Em 1979, Nair de Teffé veio a São Paulo para uma derradeira homenagem no II Salão do Humor e Quadrinhos do Mackenzie, promovido pelo Diretório da Faculdade de Engenharia, no Paço das Artes. No ano de 1981, no exato dia em que completava 95 anos, Nair de Teffé faleceu.

Enfim, como dissemos na introdução desta postagem, até hoje, a República Brasileira ficou devendo uma outra primeira-dama tão inovadora como Nair de Teffé. Será que sua história não merece um filme ou uma minissérie em referência aos problemas que as mulheres de hoje ainda enfrentam? Fica aqui a sugestão...

Fontes:

Crédito para o texto: consultas aos jornais O Estado de S. Paulo, edições de 3 de junho de 1971 e 26.10.1967; Folha de S. Paulo (várias edições) e Coleção Nosso Século, pags. 28 e 29.
Blog: http://histormundi.blogspot.com/2016/07/nair-de-teffe-bela-culta-e-avancada.html

Crédito das imagens:
Fotos de Nair de Teffé de perfil e do casamento:
http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,o-casamento-do-presidente-com-a-cartunista,9444,0.htm
Caricaturas de Nair feitas na década de 1950 e do marido Hermes:
http://www.museuhistoriconacional.com.br/

Largo do Matadouro, atual Praça da Bandeira, em 1911

O local tinha esse nome por abrigar o Matadouro Imperial de São Cristóvão, inaugurado ali em 1853. O matadouro existia no lugar onde h...