sábado, fevereiro 28, 2026

O Canhão, o Trono e a Flor do Império: A metáfora sobre o poder, a arrogância e o imperialismo norte-americano

A Máquina Selvagem é o sistema. É Wall Street e o complexo militar-industrial. É o lobby das armas e o lobby do petróleo. É a engrenagem que produz presidentes como se produz mercadorias — com branding, com packaging, com garantia de satisfação ou seu voto de volta. E desta máquina, como uma aberração botânica, brota a figura do potentado: singular o suficiente para parecer exceção, sistêmico o suficiente para ser produto.

O filósofo Gilles Deleuze diria que a máquina desejante nunca para de produzir. Ela produz capitalismo, produz guerra, produz heróis e vilões com a mesma indiferença manufatureira. O potentado é seu produto mais refinado: aquele que convence a multidão de que é um outsider enquanto opera como insider perfeito.

E o anjo do impossível? Este é o momento mais cruel e mais irônico da metáfora. O anjo — ser de transcendência, mensageiro do sagrado — planta esta orquídea como se fosse uma bênção, uma nova paisagem. A ironia aqui é lapidar: o impossível não é a paz, não é a justiça. O impossível é a própria figura do líder-messiânico que promete fazer grande aquilo que nunca foi pequeno — apenas desigual.

"Você é a dor do dia a dia / Você é a dor da noite a noite / Você é a flor da agonia". Aqui a letra abandona qualquer ambiguidade e se torna diagnóstico. A dor não é metafórica — é estrutural. O imperialismo norte-americano não se manifesta apenas em guerras declaradas ou em ocupações militares. Ele pulsa no preço do barril de petróleo que determina o custo do pão em Lagos, em Caracas, em Bagdá. Ele sussurra nas taxas de juros fixadas em Washington que decidem se um país do sul global pode ou não rolar sua dívida.

O potentado moderno não precisa empunhar o chicote pessoalmente. Ele assina documentos. Ele impõe tarifas. Ele retira tropas ou as envia, dependendo do que o mercado pede. Mas o efeito sobre o corpo social dos países periféricos é o mesmo: "a dor do dia a dia, a dor da noite a noite".

Todos os direitos reservados ao Professor Lima Junior Dias. 

Mossoró, Rio Grande do Norte, 28 de fevereiro de 2026.

Imagem ilustrativa: Modo IA / Nano Banana / Google

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

História das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo

As Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM) foram um dos maiores e mais importantes conglomerados industriais do Brasil e da América Latina, com sede em São Paulo e atuação nacional abrangente desde o final do século XIX até o fim dos anos 1980. O grupo teve origem em 1891, quando o imigrante italiano Francesco Matarazzo iniciou atividades em Sorocaba (SP) com um pequeno comércio de banha, evoluindo posteriormente para a produção industrial e criando sua primeira estrutura fabril voltada a produtos como sabão e velas por volta de 1900. Ao longo das décadas seguintes, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, as IRFM chegaram a agrupar mais de 200 a 350 unidades fabris em setores como alimentos, têxteis, bebidas, metalurgia, papel e produtos químicos, empregando mais de 30 000 trabalhadores em várias cidades brasileiras. Em Marília (SP), por exemplo, uma das unidades do grupo — voltada ao beneficiamento de algodão e arroz — empregava cerca de 400 funcionários entre 1939 e 1975, sempre estrategicamente localizada próxima à ferrovia para facilitar logística e distribuição. 

Em termos de valor econômico, estimativas históricas indicam que o patrimônio de Francesco Matarazzo e dos ativos controlados pelas IRFM ultrapassariam os US$ 20 bilhões em valores atuais, colocando-o entre os empresários mais ricos do mundo em seu tempo e consolidando o grupo como o quarto maior gerador de receita do Brasil na sua era, atrás apenas de grandes entidades estatais e setores como o café exportador. Apesar de seu gigantesco alcance industrial e econômico nas primeiras décadas do século XX, o conglomerado começou a enfrentar dificuldades a partir dos anos 1970 e 1980, marcadas por disputas familiares, desinvestimentos e perdas competitivas, o que o levou a entrar em concordata e eventualmente à dissolução no fim da década de 1980. 

Fontes:

• Exposição resgata memórias das Indústrias Matarazzo – São Paulo para Curiosos (spcuriosos.com.br)

• Documento histórico sobre a Companhia Matarazzo e industrialização – Mackenzie.edu

Repostado do @curiosomundonosso

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Um episódio pouco contado

Em 24 de agosto de 1814, durante a Guerra de 1812, tropas do Império Britânico incendiaram a capital dos Estados Unidos, Washington, D.C., incluindo a então chamada Presidential Mansion, edifício que mais tarde ficaria conhecido como Casa Branca. O ataque ocorreu após a Batalha de Bladensburg, em Maryland, quando forças britânicas derrotaram facilmente a milícia americana e avançaram cerca de 10 quilômetros até o coração político do país. As tropas eram comandadas pelo general Robert Ross e pelo vice-almirante Alexander Cochrane, e incluíam soldados regulares britânicos estacionados em colônias da América do Norte, especialmente no território do Upper Canada, região que hoje corresponde em grande parte ao sul do Canadá (Ontário). Na noite do ataque, prédios públicos estratégicos foram incendiados, como o Capitólio, o Departamento do Tesouro e a residência presidencial, cujas paredes externas de pedra resistiram às chamas, enquanto o interior foi completamente destruído. 

É fundamental entender que o Canadá ainda não existia como país naquele momento: todo o território era colônia britânica, e a ofensiva foi uma retaliação direta à invasão americana de York (atual Toronto) em abril de 1813, quando tropas dos EUA saquearam e incendiaram edifícios governamentais britânicos em solo colonial. Ou seja, embora a decisão e o comando tenham sido da Inglaterra, o ataque partiu de território que hoje é canadense, usando soldados e infraestrutura da região. O incêndio de Washington marcou a única vez na história em que uma potência estrangeira capturou e destruiu a capital dos Estados Unidos, um episódio tão traumático que acelerou negociações de paz, culminando no Tratado de Ghent, assinado em dezembro de 1814.

Fontes de Pesquisa: 

American Battlefield Trust — The Burning of Washington (1814).

National Park Service (U.S. Department of the Interior) — The Burning of Washington.