22.7.18

Nicolau Sevcenko volta ao Rio de Janeiro de 1904 durante a Revolta da Vacina



Historiador elucida os principais fatores do “último motim urbano clássico do Rio de Janeiro” e trata dos custos sociais da “ditadura sanitária” de Oswaldo Cruz.

Ao trazer a imagem de um Rio de Janeiro conflagrado, em que as autoridades perderam o controle sobre a segurança e têm de recorrer às Forças Armadas para intervir nas comunidades cariocas, seria bastante provável que o leitor pensasse no atual caos urbano que afeta a Cidade Maravilhosa. Não se trata disso, mas da viagem até 1904 conduzida pelo historiador Nicolau Sevcenko e sua prosa inebriante, para demonstrar em A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes, lançamento da Editora Unesp, que alguns problemas de hoje têm raízes profundas.

“A Revolta da Vacina, ocorrida num momento decisivo de transformação da sociedade brasileira, nos fornece uma visão particularmente esclarecedora de alguns elementos estruturais que preponderaram em nosso passado recente – repercutindo até mesmo nos dias atuais”, escreve. “A constituição de uma sociedade predominantemente urbanizada e de forte teor burguês no início da fase republicana, resultado do enquadramento do Brasil nos termos da nova ordem econômica mundial, foi acompanhada de (...) um sacrifício cruciante dos grupos populares.” 

Ao longo dos quatro capítulos do livro, o leitor é levado a entender essa passagem da história brasileira, em que o discurso oficial convergia para a saúde pública, mas o que se tramava nas entrelinhas era a ditadura urbanística do então prefeito Pereira Passos e da ditadura sanitária de Osvaldo Cruz, ambos empurrando os pobres para as franjas da cidade, fenômeno de alto custo social e humano. “Optei por iniciar esta reflexão diretamente com uma descrição pormenorizada do cotidiano da revolta, a agitação dos participantes e o fragor dos confrontos entre as partes envolvidas” para “expor em seguida as causas mais profundas da insurreição e o seu significado particular no contexto de mudanças que envolviam e metamorfoseavam a sociedade brasileira”. E, por último, “apreciar no episódio dramático dessa revolta algumas características fundamentais da estrutura social da Primeira República (1889-1930)”.

“Espero que não se estranhe o tom emotivo que eventualmente reponta em alguns momentos deste trabalho: ele é autêntico e intencional”, adverte o autor. “Nem eu saberia tratar de outro modo a dor de seres humanos palpitantes, cheios de vida, angústias e esperanças.”

Este volume conta com posfácio do autor à edição de 2010 e fotos do alagoano Augusto Malta – fotógrafo oficial responsável por registrar a evolução da gigantesca reforma urbana do Rio de Janeiro proposta pelo prefeito Pereira Passos –, de Marc Ferrez e de periódicos.

Sobre o autor – Nicolau Sevcenko (1952-2014) foi professor titular da Universidade de São Paulo e é autor de diversas obras nas áreas de História Moderna e Contemporânea.

Título: A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes
Autor: Nicolau Sevcenko
Número de páginas: 134
Formato: 12 x 21 cm
Preço: R$ 28,00
ISBN: 978-85-393-0720-3

Fonte: Assessoria de Imprensa da Fundação Editora da Unesp

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

15.7.18

Engenheiro Oscar Brito ou Viaduto dos Cabritos? Conheça aqui toda a verdade



Ao contrário do que muita gente pensa, o nome do viaduto dos Cabritos – obra recentemente inaugurada pelo Governo do Estado na Avenida Brasil, no encontro com a antiga Rio – São Paulo, não é apelido popular, já o foi, mas em 21 de janeiro de 1965 passou a ter essa denominação oficial pelo decreto nº 723. 

O apelido apareceu quando de uma visita do Sr. Carlos Lacerda à obra, na sua fase de construção, ocasião em que comentou com o engenheiro a pouca serventia de um viaduto naquele local e lamentou, também, a verba que ali estava sendo aplicada, em detrimento de outras obras mais urgentes. Foi quando avistou, então, vários cabritos passando sobre o viaduto ainda em concretagem, momento em que afirmou que, pelo menos, ele já estava sendo usado. Seria um viaduto para cabritos – concluiu. 

Agora, o DER concluiu ao Governador Negrão de Lima a troca de nome, considerado muito singelo para a obra, dando-lhe o nome de Engenheiro Manuel dos Santos Dias, antigo funcionário do Estado, que ocupou importantes cargos de direção na administração pública e que é cunhado do Presidente Castelo Branco.

Observem que o texto acima foi transcrito do jornal O Globo, maio de 1966.


Agora observem os relatos abaixo:

Segundo relato do pesquisador Leu Lima. "O nome do viaduto nunca foi Engenheiro Oscar Brito. Segundo ele havia na região algumas fazendas de gado caprino e estes perambulavam pelo local causando vários acidentes de trânsito. Fato esse que continuou acontecendo durante o período das obras de construção do mesmo. Várias pessoas passavam e viam os cabritos subindo e se abrigando do sol nas peças de concreto que chegaram a ficar abandonadas ali por muitos anos. Contudo, mesmo assim, a mortandade dos caprinos ainda continuou acontecendo e esse foi o motivo do batismo popular do viaduto de concreto armado que foi construído naquele no lugar."

Na verdade era pra ser chamado de "Viaduto das Ovelhas". Diz Leu Lima sorrindo... "Justamente porque no princípio dos anos 1970 quando ainda havia a Fazenda Indiana, que era cortada pela Av. Brasil, os vaqueiros fechavam a via para levar gado para outras pastagens. Certo dia, o vaqueiro, sei o nome dele, deparou com uma viatura da PM onde, em seu interior, havia dois policiais mortos. Apavorado ele pegou o rádio da viatura e pediu socorro, explicando a situação. Quando foi indagado sobre o local da ocorrência, falou que era próximo a um viaduto que tinha ovelhas. No dia seguinte as manchetes dos jornais publicaram os assassinatos no Viaduto dos Cabritos. Porque soava melhor."

Deca Serejo, também pesquisadora da região diz: "Sobre a obra de construção do Viaduto dos Cabritos. Encontrei registros com fotos, sem data no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Mas acredito que sejam do ano de 1965 e o projeto de autoria do engenheiro Alim Pedro."
  
Podemos concluir que existem situações na cidade em que é preciso consultar os registros oficiais para saber qual é o nome que vale no papel. Mas, conforme afirmam tanto o Instituto Pereira Passos (IPP) quanto o Arquivo Geral da Cidade, não há qualquer logradouro público chamado Engenheiro Oscar Brito. Seria ele então, um personagem fictício? Sendo ou não, o nome dele acabou sendo imortalizado numa placa ao lado do viaduto, provando que até mesmo as nossas autoridades podem se confundir. Ainda mais em época de mudanças de governo. O que pode ter sido o caso.
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Texto e mais fotos postados originalmente nos links da página do Rio Decoração Tour:
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/posts/498340133928559
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/photos/a.237634916665750.1073741837.126361801126396/498378447258061/?type=3&theater
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/posts/499761023786470
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/photos/a.126639877765255.1073741826.126361801126396/499975047098401/?type=3&theater

Imagens de Joaquim Silva e Deca Serejo

Pesquisa e texto de Adinalzir Pereira Lamego

10.7.18

A Estrada Real de Santa Cruz, o caminho da riqueza

Por André Luis Mansur (*)


Até a chegada da estrada de ferro na região que seria conhecida como zona oeste, no final do século 19, o único caminho para se chegar até lá era pela Estrada Real de Santa Cruz, chamada anteriormente de Caminho dos Jesuítas, já que foram os padres da Companhia de Jesus que abriram parte dela quando montaram sua importante fazenda, em Santa Cruz. A Estrada Real, segundo o escritor Lima Barreto, era mais importante para a economia nacional do que a elegantíssima e sofisticada Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), centro econômico e social do centro da cidade no século 20. A afirmação faz sentido se entendermos que aquela era a estrada dos tropeiros, comerciantes, mineradores e donos de engenhos e plantações de café, primeiro ponto para se chegar a São Paulo, Minas e às riquezas do interior do Brasil.

Foi por ela que D. Pedro I cavalgou para proclamar a independência, tendo descansado na Fazenda de Santa Cruz durante a ida, no dia 14 de agosto de 1822, conforme escreve Octávio Tarquínio de Sousa em “A vida de D.Pedro I – (vol. 2)”: “Partindo da Quinta da Boa Vista, foi D. Pedro pernoitar em Santa Cruz e aí se achava quando lhe anunciaram a presença de João Carlos Oeynhausen, vindo para a Corte, de sua ordem. O presidente da Junta de São Paulo, a quem faria mais tarde Marquês de Aracati e seu ministro, pediu-lhe em vão uma audiência: que se apresentasse sem demora à Princesa Real D. Leopoldina e ao ministro José Bonifácio, tal foi o recado transmitido pelo gentil-homem Canto e Melo”. D. Pedro seguiu viagem e ainda passaria pela Fazenda de São João Marcos, em Itaguaí. Na ida, levou 12 dias para chegar a Minas e na volta, depois de proclamar a independência em São Paulo, foi direto para a Corte, fazendo o trajeto em cinco dias.


Antes das melhorias feitas na estrada durante o período em que D. João VI, encantado com as paisagens mais afastadas do burburinho da Corte, passou a residir longas temporadas na sede da fazenda, transformada em Palácio Real, era penoso trafegar por ela. Para exemplificar, basta citar trechos dos diários de naturalistas europeus, que começaram a visitar o Brasil após a chegada da Corte portuguesa, em 1808. No livro “Viagem pelo Brasil”, os naturalistas austríacos Johann Baptist von Spix e Carl von Martius falam do início de uma viagem pela estrada, no dia 8 de dezembro de 1817: “Apenas havíamos enveredado pelo atalho que sai na estrada larga de Santa Cruz, quando uma parte dos nossos cargueiros se deitou no chão, outra parte se espalhou por entre casas e chácaras, e também algumas das mulas se destacaram das caixas que levavam, e procuraram ganhar o campo. Aumentou a confusão, quando o sr. Dürming, cônsul real da Prússia em Antuérpia, e que se achava então no Rio de Janeiro e agora nos acompanhava, foi lançado fora do animal assustado, e teve de ser carregado de volta à cidade, com o braço fortemente magoado. Este espetáculo de selvajaria (sic) desenfreada costuma dar-se na saída de todas as tropas, até que os animais se acostumem ao peso da carga e se habituem a marchar em fila. Somente o nosso compatriota, o sr. Von Eschwege, que aqui já tem feito muitas viagens por terra, se mostrou impassível; nós, novatos na experiência, ficamos atarantados de ansiedade e apreensão”.

Em 1917 começou a funcionar o sistema de diligências ligando Santa Cruz ao centro da cidade. Diligências estas que não eram atacadas por índios, como nos filmes americanos de faroeste, e tinham os seguintes horários, conforme conta Noronha Santos, em “Meios de transporte no Rio de Janeiro (vol.1)”: “Partiam do Centro às quatro horas da madrugada, para chegarem à fazenda real às nove e meia. Voltavam às cinco e meia da tarde e chegavam à cidade às dez e meia da noite”. Como se vê, a viagem a Santa Cruz era, de fato, longa e penosa, o que só mudou com a chegada do trem, primeiro em Campo Grande (1878) e depois em Santa Cruz (1882), que encurtou bastante o tempo do percurso e pôde integrar de forma muito mais eficiente a região ao centro da cidade.

Hoje, o trajeto da Estrada Real de Santa Cruz ainda se mantém em sua maior parte, com poucas alterações, em vias como a Avenida Santa Cruz (que percorre boa parte dos bairros da zona oeste), dom Helder Câmara (antiga Suburbana), Cesário de Melo (em Campo Grande), estrada Intendente Magalhães (em Campinho) e estrada Rio-São Paulo. Adolfo Morales de los Rios Filho fala sobre o termo “estrada real”, que muitos julgam ter este nome por ter sido frequentada por D. João VI e a nobreza. No livro “O Rio de Janeiro Imperial”, ele explica que “estrada real”, na verdade, é o “caminho mais seguido, mais franco e, portanto, o que apresenta menos riscos de dificuldades”.

André Luis Mansur é jornalista e escritor (*)

Pesquisa de imagens - Guaraci Rosa
Texto originariamente postado na página do Facebook Santa Paciência
https://www.facebook.com/GuaraciRosaHistoriador/posts/1962215480469782

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

8.7.18

Se um dia a Fábrica Bangu fechar, eu prefiro morrer antes



A frase acima foi dita pelo Dr Silveirinha.

Bangu viveu uma espécie de monarquia de 1923 até 1991. Tudo começou quando o Dr Manoel Guilherme da Silveira Filho assumiu a Companhia Progresso Industrial do Brasil, cujo nome fantasia era Fábrica Bangu em 1923.

Desde então Bangu nunca mais seria o mesmo. Com a brilhante administração do Sr Manoel, Bangu entrou na rota do crescimento e desenvolvimento.

A Fábrica foi fundada em 1889 e caiu nas mãos da família Silveira em 1923, quando o pai de Dr Silveirinha assumiu a gestão da companhia.

Embora uma excelente administração do pai de Dr Silveirinha, foi só nas mãos de Dr Silveirinha que a Fábrica começou a se engajar nas questões sociais e trabalhistas de forma significativa.

Somente em 1931, Guilherme da Silveira Filho (Dr Silveirinha.) começou a trabalhar na Fábrica, e em 1940, ele chegou ao cargo de diretor superintendente da companhia.

Na gestão de Dr Silveirinha a Fábrica chegou a ter mais de seis mil funcionários, foram construídos mais de mil casas, obras de infraestrutura no bairro, creches, escolas, escolas técnicas, ambulatório de medicina e cirurgia, a sede aquática do Bangu, além do estádio do Bangu e a quadra da Unidos de Bangu. Dr Silveirinha criou creche para os filhos dos funcionários antes mesmo de existir a lei, e foi penalizado pelo sindicato patronal, por colocar o salário dos funcionários acima do teto permitido por lei. Remédios eram distribuídos de forma gratuita para todos os funcionários.

Dr Silveirinha apoiava financeiramente, e de outras formas todas as instituições da região, como Casino Bangu, Mocidade Independente, Unidos de Padre Miguel, igrejas, o Clube do Trabalhador, etc, etc, etc. Ele ajudava com doações de material de construção, tecidos da Fábrica, transporte com ônibus gratuito. Isso só para citar algumas coisas.

Discursava defendendo os trabalhadores, como a aposentadoria integral. Era tido como uma referência neste sentido, na luta a favor do proletariado. Era destaque nos meios de comunicações por levantar essa bandeira, já na década de 40, os discursos iam contra ele mesmo, visto que ele era parte interessada, sendo o padrão de mais de seis mil operários.

Curioso que o discurso e as atitudes de Dr Silveirinha pareciam de político em período eleitoral, só que ele agia assim o ano todo, e não era político. Este negócio que político faz em período eleitoral, de parar em qualquer lugar e conversar, entrar na casa do pobre tomar café e bater um papo, andar a pé ou de bicicleta. Existem vários relatos de pessoas que paravam ele na rua, contavam sua dificuldade e ele tirava dinheiro do bolso na hora e dava.

Várias pessoas que são adultas hoje me relataram que às vezes quando ele via alguma criança na rua brincando ou andando, ele dava alguns trocados, isso era muito corriqueiro, de vez em quando se formava fila em frente a Fábrica, era Dr Silveirinha distribuindo trocados às crianças filhos dos funcionários, e até para adultos. Tudo isso era parte de sua rotina.

Não é à toa que achei jornais antigos, onde o Sr. Aristóteles Montenegro fundador da Unidos de Bangu, o chamava de São Silveirinha. Para onde você se virar até hoje existe algo construído por Dr Silveirinha em Bangu.

Fico pensando o que fazia ele a pensar assim, visto que já nasceu herdeiro da Fábrica e nunca conheceu a pobreza na pele, ele agia como se já tivesse sido pobre um dia, e conhecia as dificuldades do proletariado.

Nunca é demais lembrar, que ele foi o único presidente da Fábrica a morar em Bangu, eu acredito que isso tenha sido fundamental para ele pensar deste jeito. Imagine que ele poderia morar em uma mansão em qualquer ponto da cidade, mas morando em Bangu e conversando com os moradores, ele via com os próprios olhos as necessidades da região e do povo que nela habitavam.

Nas décadas de 40, 50 e 60, a Fábrica foi um marco na vida social carioca e banguense, com desfiles de moda no Copacabana Palace, Goldem Room e os concursos para escolha da Miss Elegante Bangu, título conquistado por jovens da alta sociedade, como Teresa de Souza Campos, Glorinha Sued e Lurdes Catão. O prestígio da grife Bangu era tão grande que atrizes famosas - como Ginger Rogers, Brigitte Bardot, e a Miss Brasil e segundo lugar no Miss Universo Martha Rocha, entre outras - chegaram a posar como modelos de seus lançamentos. Na época, a Fábrica também recebeu a visita de personalidades ilustres, como os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, e alguns monarcas e autoridades, da Europa e outros continentes.

Eram comuns grandes políticos em Bangu, todo mundo queria pegar um pouco da popularidade e do prestígio de Dr Silveirinha.
Quando Dr Silveirinha se tornou patrono da Unidos de Bangu à escola logo ganhou a melhor quadra de escola de samba do Brasil, a única coberta até então.

Em 1960 nos jornais podemos constatar a visita do Governador do Estado da Guanabara Carlos Lacerda que almoçou na quadra da Unidos de Bangu com Dr Silveirinha, neste almoço Carlos Lacerda disse que renunciaria ao mandato de governador se Dr Silveirinha se candidatasse a governador da Guanabara, com tal popularidade, que ultrapassava a fronteira de Bangu, sua vitória era praticamente certa. Se tivesse entrado para a política Dr Silveirinha seria forte candidato a presidente da república, por sua popularidade.

Dr Silveirinha foi presidente do Bangu Atlético Clube de 1937 até 1949, ninguém queria que ele saísse, mas foi preciso sair para se dedicar a Fábrica de forma integral, os dirigentes do clube se reuniram e mudaram o estatuto do clube, e Dr Silveirinha virou patrono do clube, segundo ele mesmo, ele tinha mais poder que o presidente, pois podia alterar qualquer decisão do presidente e dissolver qualquer diretoria. O mesmo que acontece nas monarquias de verdade. Mas ele disse que nunca se meteu na administração do clube depois que saiu.

O respeito por Dr Silveirinha era tão grande, que Seu Zizinho (Pai do Castor de Andrade) antes de se candidatar a presidente do Bangu, pediu permissão a Dr Silveirinha, e isso nem era necessário. Em tempo, Seu Zizinho fez uma administração impecável no Bangu, eu o considero o segundo maior presidente da história do clube. Mas pouco se fala em sua administração que culminou em ser um dos quatro melhores times do Campeonato Carioca, em toda sua administração nos anos 60, sendo quatro finais seguidas, que culminou no título Carioca de 1966.

É importante destacar, que depois que Dr Silveirinha colocou a logomarca da Fábrica Bangu na camisa do Bangu, algo inédito no mundo até então, o Bangu começou a viajar pelo mundo todo, tanto que até o final dos anos 50 era talvez o clube com mais partidas internacionais do Brasil e talvez das Américas, foram tantas partidas, que o Bangu ganhou muitos títulos internacionais e até hoje desbanca vários times da série A, B, C e D do Brasileirão, hoje o clube deve figurar entre os 15 clubes com mais partidas internacionais do Brasil. Considerando que no Brasileirão série A e B tem 40 clubes atualmente, é algo bem significativo. Ainda em 1949 Dr Silveirinha contratou a peso de ouro o jogador Zizinho, o melhor jogador do mundo eleito pela FIFA na Copa do Mundo de 1950. Era uma estratégia inédita no mundo, Zizinho com a logomarca da Fábrica Bangu no peito jogando nos gramados dos cinco continentes, divulgando a Fábrica Bangu.

A brincadeira de dizer que Bangu era uma monarquia é porque a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, praticamente não fazia obras no bairro, era tudo por conta da Fábrica, em alguns jornais antigos existiam reclamações de moradores de outros bairros dizendo que algumas coisas funcionavam em Bangu e em outros bairros não. O mais curioso é que a resposta da prefeitura no jornal era que em Bangu quem fazia a gestão do bairro era a Fábrica Bangu e não a prefeitura do Rio de Janeiro.

Depois de seu auge, a Fábrica começou a perder competitividade e entrou em declínio, principalmente nos anos 80, o mercado já não era mais o mesmo, e Dr Silveirinha já sentia o peso da idade com seus mais de 80 anos. E muitos o aconselhavam a vender a Fábrica. E ele dizia, “Se um dia a Fábrica Bangu fechar, eu prefiro morrer antes.”.

A profecia se cumpriu, Dr Silveirinha se manteve “dono” da Fábrica, e morador de Bangu até seu falecimento no ano de 1989. Curiosamente no ano do centenário da companhia.

Depois de sua morte, alguns familiares e acionistas queriam vender a Fábrica, nesta disputa, a esposa do Dr Silveirinha, Dona Maria Alice Castello Branco Coimbra, e sua filha Alice Maria da Silveira, foram completamente contra a venda da companhia. O que gerou um atrito familiar que só foi apaziguado alguns anos depois.

Desde 1923 nas mãos da família Silveira, a Fábrica foi vendida para o grupo Dona Isabel Tecidos, do empresário Ricardo Haddad, no dia 16 de janeiro de 1991. Atolada em dívidas com o Banco do Brasil e o BNDES, a Fábrica era um desafio para o novo presidente.

Por fim com a venda da companhia, Dona Maria Alice Castello Branco Coimbra, e Alice Maria da Silveira, decidiram sair de Bangu.

Imagine você que tem amor a suas coisas, sua casa, seu automóvel! Existia uma parte sentimental da família de Dr Silveirinha pela Fábrica.

E assim foi o fim da família Silveira na gestão da Fábrica Bangu, uma era que durou 68 anos de glórias. Curiosamente 10 anos a mais que o reinado de Dom Pedro ll no Brasil.

Pela parte áurea, e sua resistência até o fim. Por tudo isso, considero Dr Silveirinha um dos grandes homens da história do Brasil, e o maior banguense de todos os tempos. Seu legado continua em Bangu até hoje.

Em minha opinião, a principal avenida de Bangu, a “Avenida Cônego Vasconcelos” deveria se chamar “Avenida Dr Silveirinha”, escrito desta forma mesmo (Além de ser a avenida principal, era a rua que Dr Silveirinha morava). O maior banguense de todos os tempos, o homem que mudou Bangu. Mas é apenas minha humilde opinião.

É importante lembrar que a Avenida Cônego Vasconcelos, teve seu primeiro nome de Rua Estevão, e depois mudou para Rua Ferrer, e atualmente é Avenida Cônego Vasconcelos.

Na foto acima vemos Dr Silveirinha e sua esposa Maria Alice.

Texto e mais fotos postados originalmente na página do Acervo Bangu.
https://www.facebook.com/AcervoBanguRJ/posts/2087180618219159

Fotos gentilmente cedidas por Alice Maria da Silveira (Família Silveirinha)

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

3.7.18

O que é a Casa da Memória Paciente?

Por Isra Toledo Tov (*)


No dia 11 de novembro de 2017, nasceu a CASA DA MEMÓRIA PACIENTE (CAMEMPA), tendo na sua diretoria, como Coordenador Geral, Isra Toledo Tov, professor, pesquisador, escritor e memorialista, Adinalzir Pereira Lamego, professor e historiador, Guaraci de Oliveira Rosa, professor, professor e historiador, Aline Jane Vieira Souza, professora, e Keila Vieira Gomes, historiadora e geógrafa, com o objetivo precípuo de aprofundar pesquisas e estudos sobre a história de Paciência (envolvendo todo o território de seus dois antigos engenhos de cana-de-açúcar, a saber: Engenho da Mata da Paciência e Engenho de Santo Antônio dos Palmares).

Temos desenvolvido diversas ações na comunidade (Projeto Cultural A BANCA DÁ POESIA e Preparatório ao ENEM, como exemplos), além de divulgarmos por duas redes sociais (Facebook e WhatsApp) a história do bairro, sem deixar de lado Cosmos, Inhoaíba, Santa Margarida e Manguariba (que faziam parte originalmente do território matense).

A título de comparação apenas, o NOPH (Núcleo de Orientação e Pesquisas Históricas), de Santa Cruz, existe desde 1983, contando mais de três décadas de dedicação ao estudo e à divulgação da história santacruzense, com total apoio da comunidade santacruzense. Ele é o nosso espelho! Pretende-se que a CAMEMPA (Casa da Memória Paciente) possa significar para as comunidades matenses (Cosmos, Inhoaíba, Manguariba, Paciência e Santa Margarida) o que o NOPH tem significado, ao longo dos anos, para Santa Cruz!

A história do nosso bairro foi profundamente pesquisada pelo grupo de professores/as da CASA DA MEMÓRIA PACIENTE (CAMEMPA). Produzimos e distribuímos em todos os nossos eventos uma cópia da CRONOLOGIA PACIENTE, que é o resultado de anos de levantamento historiográfico. Queremos ampliar esse resgate da história de Paciência, adquirindo mais dados sobre o nosso rico passado local.

Para que a CASA DA MEMÓRIA PACIENTE (CAMEMPA) possa atuar mais concretamente no nosso bairro, precisamos de recursos financeiros. Assim, cada membro ou sócio/a da CAMEMPA colabora, mensalmente, com apenas R$20,oo (vinte reais) para a manutenção de projetos (A Banca Dá Poesia, Curso Preparatório ao ENEM etc.).

Criamos quatro tipos de apoio, patrocínio ou colaboração para que o comércio e as empresas locais possam contribuir para o fortalecimento da CAMEMPA:
Colaboração BRONZE – A cada três meses, o/a comerciante ou empresário/a contribui com R$60,oo (sessenta reais);
Colaboração PRATA – A cada quatro meses, o/a comerciante ou empresário/a contribui com R$80,oo (oitenta reais);
Colaboração OURO – A cada seis meses, o/a comerciante ou empresário/a contribui com R$120,oo (cento e vinte reais);
Colaboração VIP – A cada doze meses, o/a comerciante ou empresário/a contribui com R$240,oo (duzentos e quarenta reais).

Se você (ou sua loja, seu pequeno negócio, ou sua empresa) quiser colaborar, basta entrar em contato conosco, pelo email (isratov@yahoo.com.br).

Muitíssimo obrigado!

Isra Toledo Tov (*)
(Coordenador Geral da CASA DA MEMÓRIA PACIENTE)
Telefone / WhatsApp: 99944 5954

2018 – 221 anos da Mata da Paciência
“A memória é a casa do ser” (Isra Toledo Tov)

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

29.6.18

Para quem gosta ou morou em Campo Grande


Praça Raul Boaventura - Campo Grande - RJ - Anos 1960-1970.
Arquivo de Adinalzir Pereira. Colorização de Reinaldo Elias.

Tenho lido muitos comentários a respeito de um bairro aprazível em sua história e revoltante em seu presente. Curioso é que eu tenho amigos no face dos mais longínquos lugares e a enxurrada de comentário é maior do que todos os demais reunidos. O que estaria acontecendo? Seria exagero dos comentaristas ou uma verdade e realidade difíceis de serem aceitas.

Infelizmente é o retrato da realidade que se estende sendo o retrato da própria vida. Uma vida que tinha seus dias preenchidos por um bucólico romantismo, porém, que preenchida por uma sequência de inesquecíveis momentos.

Como esquecer a passagem pela linha férrea próxima à velha estação marcada de cada lado pela presença de um Mercado São Domingos de cada lado. Ali juntinha a Rua Ferreira Borges com sua velha delegacia, onde os presos eram bêbados que incomodavam as pessoas na rua, quando tinha algo mais sério até o Sr. Roberto açougueiro dos bons ia com a turma, parecendo mais uma guarda comunitária.

Rodoviária! Que rodoviária que nada, ali era o depósito das carrocinhas da limpeza pública hoje, Comlurb. Na calçada saía o velho 345 Campo Grande-Comari, via INPS, um pouco antes era uma parada e contorno dos bondes. Ao lado na Ferreira Borges, saía a velha e antiga linha Méier Campo Grande, um turismo pelo Rio de Janeiro. E a 786 Campo Grande – Marechal Hermes, bem próximas do Colégio Batista de Campo Grande.
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Saindo da passagem pela linha férrea, que deu lugar ao túnel que vive emporcalhado e mal cheiroso, subia-se a Coronel Agostinho, hoje calçadão de Campo Grande, que por ineficiência das autoridades virou um lugar propício para punguistas e assaltantes. Ali estava a Sapataria Santa Teresinha, onde peguei meu primeiro uniforme completo do Colégio Raja Gabaglia, via caixa escolar e vizinha da Casa Eunice, uma tradição do bairro. Seguindo lá estava uma lojinha pequena à esquerda de quem sobe, onde comprava todos os artigos para que minha mãe pudesse costurar, era simplesmente o tudo. A loja passou para o lado direito de quem sobe e transformou-se na grande Silbene, hoje uma simples lembrança na mente de quem a conheceu. Ao lado, o mercado popular municipal, onde os agricultores do rio da Prata, da Ilha de Guaratiba, da serrinha do Mendanha e regiões próximas traziam seus produtos para vender. Era triste, quando chovia, caminhar algumas vezes por atoleiro entre as barracas. Bem juntinha vinha uma mostra do que é um bairro ter tradição: Whirts chaveiro, Máximo Tamancaria, Sebastião Moreira e o Rápido Campo Grande que juntamente, com o bigode de fogo, davam vida nova aos velhos calçados. Próximo deles estava a famosa Casas da Banha, cujo velho Chacrinha e um casal de porquinhos tornaram-na famosa. Na esquina do Beco do Seridó surgiu a Magal, hoje Superlar, inaugurada com um show de Roberto Carlos, que obrigou todo o comércio a fechar, pois, não cabia todo mundo na velha Coronel Agostinho.

Seguia-se, e chegávamos a Sorveteria Campo Grande, na Cesário de Melo onde hoje está a modernidade, um mini Shopping de produtos de informática. O sabor que se imaginasse lá estava, até que os primeiros sinais de violência aportassem por aqui e desse um ponto final a estas delícias. Em frente a sorveteria estavam unidas e juntas por uma folha de papel, Papelaria IV Centenário e Gráfica Campo Grande e junto a elas a velha Escola Venezuela, cuja matrícula número 01, era de um conhecido personagem do bairro, que ficou famoso como “Melhoral”. Dois passinhos e estávamos na Matriz de Nossa Senhora do Desterro, toda imponente sobre uma elevação de terreno e vista de todos os pontos do bairro, com seu sino pontual às seis horas da tarde. Muito dessa pontualidade, graças à família Arzua. Passava-se pelo velho distrito de Obras, depois Coletoria Pública, DEC, CRE e finalmente estava diante da maior representação cultural de toda Zona Oeste, talvez de boa parte do Rio de Janeiro: Colégio Belisário dos Santos hoje, um estacionamento popular. Ali se formaram verdadeiros homens, lustres autoridades, grandes personalidades políticas, militares, eclesiásticas e gente do povo que tiveram aula de civismo, patriotismo, respeito, educação, honestidade e formação para a vida. Tenho um orgulho que deixo como tesouro para os meus filhos, ter sido professor e coordenador por quatorze anos desta maravilha da cultura nacional.

 Campo Grande visto do alto da torre da Igreja de N. S. do Desterro

Continuávamos Rua Augusto Vasconcelos abaixo e logo na esquina estava o café da manhã, sempre saboroso do Senhor Joaquim, que o filho hoje tem um serviço de alto-falante chamado Avaré. Ou o do Senhor Motta, cuja filha Emília, minha aluna no Belisário tornou-se uma grande mestra de Geografia. Próximo o velho BEG, depois BANERJ e finalmente ITAÚ. Na outra ponta do Beco do Seridó, lá estavam duas partes da história de Campo Grande: o restaurante com seu eterno cheirinho de comida caseira e a Academia Dynear Plaza onde muitos deram seus primeiros acordes de violão, órgão, piano e outros. A partir dali conhecemos grandes músicos como, por exemplo, minha ex-aluna Maria Lúcia Barros, filha do saudoso amigo professor João Gualberto Barros, que é a cravista número 1 do mundo, uma honra para nosso bairro. Aliás, falar de cultura musical por aqui é chover no molhado, pois, começando por Adelino Moreira, passa por Adilson Ramos, pela turma do Silvery Boys onde estavam Zezinho e seu irmão, Altamir, Sidney do Renato e seus Blue Caps, André Luis músico das onze, craque de bola e mestre de física, Weber Werneck, os irmãos Assad, Zeca do Trombone, Ney músico, arranjador e produtor e tantos outros que precisaríamos falar só de música num outro texto, para citar-se o Parece que Bebe, O Sereno, O Filhos da Pauta, o Embaixo do Viaduto e tantos outros que marcavam o carnaval de famílias e de alegria que se fazia por aqui, onde destaques como a mulinha de seu Whirts e os blocos de sujos externos pelas pessoas mais limpas internamente.

Fechávamos este pequeno circuito que era usado pelos desfiles de blocos, pelos desfiles cívicos e algumas vezes por procissões religiosas, com a chegada à Praça Raul Boaventura, justa homenagem a um membro de uma família que prestou grandes serviços ao nosso Bairro-Cidade. Ali estava em sua acanhada, porém, eficiente loja, o posto do Correio Brasileiro, vizinho de uma das mais antigas lojas, onde se comprava o long-play desejado, a casa DUX, dos Vitari. Em frente a Estação Ferroviária, onde passaram trens a vapor, elétrico, para Campo Grande, para Santa Cruz, para o Matadouro, o especial da Aeronáutica, a litorina especial para a Central do Brasil por pouco tempo, o parador, o direto, o especial para o Maracanã pouquíssimas vezes e outros que ficaram pelo tempo.

Ali bem próximo entrávamos na Rua Viúva Dantas, aliás, aqui se faz um parêntese, muitos dos personagens que dão nomes as ruas de Campo ,Grande são parentes. Nesta rua está mais um pouquinho da história de nosso cantinho glamoroso. Tavares, Ultralar, Dib´s, CINQ só para começar. Ali esteve, está e continuará por muitos anos a referência em análises clínicas, o Laboratório Tinoco. Tive a honra de conviver com o patriarca e dar aulas aos três que mantiveram a marca famosa, nos padrões criados pelo velho Tinoco.

Banco Itaú? A pouco, pois, ali funcionava uma das mais tradicionais agremiações esportivas do Estado e Clube Social da linha familiar. Ali surgiu Zeny de Azevedo, o popular Algodão, que foi deca-campeão pelo Flamengo e bicampeão Mundial, emprestando hoje seu nome ao ginásio poliesportivo do Centro Esportivo Miécimo da Silva, homenagem para lá de justa. O Clube dos Aliados de grandes bailes, grandes festas e momentos importantes de nossa região, deu lugar a uma agência do Banco Itaú e hoje resplandece em uma grande área da Estrada do Mendanha. Juntamente com o Luso Brasileiro, do qual tive a honra de ser primeiro diretor e depois vice-presidente, onde conheci figuras ímpares da sociedade campograndense como o Sr. José Valgode (sapataria Dá no pé dá no preço), através de quem fui para a diretoria, Prof. Avany Magalhães, um exemplo para mim e uma aula de vida, como foi meu eterno mestre, diretor e ídolo Dr. Helton Alvares Veloso de Castro e está sendo até este momento o mestre Alcir Pimenta, os comerciantes locais Roberto Santos, Nelson dos Bananais, Ribeiro, Artur da gráfica, Chianca, administradores com relevantes serviços como Nilson, Paulinho e Robertinho (Cedae), médicos renomados Dr. Villa e Dr. Malaquias, engenheiros de destaque Dr. Sady e Dr. Agilson Baroni. Ali conheci o que era capacidade de jovens como foi a Ala jovem do clube e uma dupla que vi fazendo sucesso e ajudando por demais o clube em sua ascensão, quando as finanças e consequentemente a arrecadação eram fundamentais: Fernando Valgode e Claudio Chianca A estes espaços principalmente culturais juntava-se a Associação 10 de maio, dando ao Bairro um toque de lazer e cultura, por onde se destacaram Mestre Saul, Oswaldo Machado, Nancília Pereira, Waldir Onofre, Neris Cavalcanti e tantos outros escritores, pintores, artesões, poetas e poetisas, entalhadores e artistas de diversas áreas.

Nossa história é maior, nosso bairro era uma estrela que brilhava forte numa constelação de pequenos brilhos pela cidade. Que bairro do Rio de Janeiro ou que outras cidades que não são capitais tinham ao mesmo tempo três deputados estaduais (Jair Costa, Dílson Alvarenga e Miécimo da Silva) dois Federais (Alcir Pimenta e Daniel Silva) e que diferente da política atual, fizeram seus patrimônios simples, muito mais por suas profissões, professor, médico etc. do que propriamente pelo cargo político exercido. Fizeram graças ao seu próprio trabalho. Transitamos de uma fase meio colonial para a de um bairro com cara de cidade. Em qualquer setor profissional nosso bairro conta com figuras de relevância até mesmo no cenário nacional, como dirigentes, comandantes e responsáveis diretos que nos enchem de orgulho como Doracil Corval, comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. A este se juntam vários outros, muito bem retratados no livro Personalidades da Zona Oeste, brilhante trabalho da escritora Nancília Pereira.

Nosso rincão tem espaço de alegrias e realizações, porém, aos poucos vai nos deixando triste com as modificações que se apresentam, principalmente no comportamento das pessoas e na mudança de hábitos da sociedade como um todo. Orgulhamo-nos de termos Colégio Nossa Senhora do Rosário, Colégio Afonso Celso, porém, sentimos falta de algumas irmãs que por lá passaram, do casal Sreder Bastos, do Monteiro Lobato no calçadão, com as três senhoras que o dirigiam e em educação estava um passo adiante. Temos a alegria de contarmos com o Golfinho Amigo, porém, não temos mais Afonsinho e o espaço Júnior do Belisário (Heltinho). Temos boas churrascarias sem no entanto, podermos almoçar no restaurante do Pepe, temos telefones celulares, porém, a velha Cetel  em frente a padaria do misto de padeiro e músico senhor Marques, nos atendia melhor que as operadoras fixas atuais. Temos clínicas com especialidades e equipamentos, porém, as velhas do Carmo, Joari, Urgil, Santa Lúcia, Campo Grande e o velho Rocha Faria atendiam muito melhor.

A infância e a adolescência nos permitiam escrever linhas da história da vida que borracha nenhuma do tempo apagará; brincávamos na rua de amarelinha, hoje amarelamos de medo; rolava um polícia-polícia ladrão entre as ruas e os colegas de rua. Hoje polícia – ladrão – traficante – milícia - o outro  não é de brincadeira, é a vera. Dessa forma, isto é, a vera, só bola de gude colorida ou não, que usávamos para zep, triângulo ou roda. Hoje, usam dentro do coquetel molotov. Lembro-me que vinhamos do Campo Grande Atlético clube, outro orgulho nosso, pois, chegou a ser Campeão da Taça de Prata, indo para a 1ª divisão onde estavam Cruzeiro, Internacional, Corinthians, Santos e outros grandes do Rio de Janeiro, pela madrugada, após o baile e cantávamos pela rua as músicas que acabávamos de ouvir. Hoje, na saída dos bailes o único som é bala cantando.

Passa um filme pelas nossas mentes com a Administração Regional ainda na Cesário de Melo, hoje um prédio mal conservado longe do Centro; do velho Sara onde hoje é a agência do Bradesco em frente ao Beco do Seridó, hoje também longe do centro e apesar da estrutura humana bem montada, não consegue exercer o papel que deveria.

As casas de famílias vão dando lugar a lojas e salas comerciais, as famílias como se num estalar de dedos desaparecem, indo para pontos distantes de nosso bairro (eu me penitencio, pois, fui um dos que fez isso) e aos poucos vai se descaracterizando o mais charmoso dos bairros do Rio de Janeiro, cuja a avassaladora especulação imobiliária, juntou-se a uma proliferação de conjuntos habitacionais, a uma insegurança pela falta de controle fruto de um crescimento sem planejamento e hoje um bairro família, transformou-se num bairro popular. Mantém sua história, porém, em papéis guardados, algumas mentes, e em construções que teimam em resistir ao tempo. Já é hora de criarmos uma casa de cultura, não necessariamente um museu, para que possamos preservar essa história, que sem exageros, contada em sua íntegra é mais bonita do que a de muitas cidades.

Aos meus irmãos campo-grandenses fiz um relato muito resumido e com certeza, omiti fatos, casos e personagens, porém, não foi por esquecimento, mas sim, para que tornasse possível de ser lido, sem que cansássemos apesar da beleza da história. Um abraço a todos.

Texto de Arnaldo Menezes.

Postado por Adinalzir Pereira Lamego.

26.6.18

História de Manguariba

Por Adinalzir Pereira Lamego (*)


O local onde hoje está situada a comunidade de Manguariba, foi nos seus primórdios parte das terras dos índios Tamoios. Depois que os índios foram expulsos e exterminados pelos portugueses suas terras passaram a fazer parte do Engenho de Santo Antônio dos Palmares pertencente à Fazenda da Mata da Paciência, cujos proprietários eram o português João Francisco da Silva e Sousa (1770-1815) e sua esposa Mariana Eugênia Carneiro da Costa (1773-1840).

Maria Graham (1785-1842), escritora e pintora inglesa, que esteve no Brasil. Descreve uma visita feita a fazenda e ao engenho no seu Diário, no dia 22 de agosto de 1823.

“Convidados a sentar em torno da “máquina de espremer que é movido por um motor a vapor... uma das primeiras, se não exatamente a primeira instalada no Brasil”. D. Mariana registra detalhes da produção do engenho: “Há aqui 200 escravos e outros tantos bois em pleno emprego. A máquina a vapor, além dos rolos compressores no engenho, move diversas serras, de modo que ela tem a vantagem de ter a sua madeira aparelhada quase sem despesa.

Naquele momento de admiração dos convidados, por ver a máquina esmagando a cana sem tração animal, d. Mariana pediu que um grupo de escravas que abasteciam a moenda cantassem: “e elas começaram com algumas de suas selvagens canções africanas. E ali, ritmados pelo ruído compassado dos cilindros libertando o vapor , cantaram também os hinos à Virgem, “com tom e ritmo regular com algumas vozes doces, a saudação angélica e outras canções.” O convite para o almoço veio em seguida e ao se despedirem: o pedido para voltarem, “coisa que nós, sem nenhuma repugnância, prometemos fazer”.

Era um sábado quando retornaram da fazenda Santa Cruz, e mais uma vez foram recebidos por d. Mariana no Mato da Paciência. Visitaram os jardins, as hortas, os pomares e um “lindo campo para onde se levaram cadeiras para que pudéssemos sentar e gozar a frescura da tarde. Dominando este campo há um morro íngreme com os lotes de café dos negros ocupando o terreno da floresta”.

No “Diário do Rio de Janeiro” de maio de 1840, fomos encontrar um necrólogo publicado logo após a sua morte, elogiando “seu gênio ativo e criador para o bem da indústria e prosperidade do seu País. No ano de 1815 foi ela que mandou vir para o seu engenho do Mato da Paciência, a primeira máquina de vapor que o Brasil teve, e que ainda serve perfeitamente, cuja encomenda fizera por intermédio de seu irmão, o conde de Vila Nova de São José”.

Em seguida o “Diário” descreve os melhoramentos realizados na fazenda que herdara de seu esposo, e adquirido outra denominada: “Santo Antônio dos Palmares, cujo engenho, por sua construção elegante e proporções, fará emulações a qualquer gênio varonil, e será um monumento de honra e de glória para sua fundadora, bem como de justa saudades para quantos a conheceram”.

Na época do Brasil colonial e também na Monarquia, o engenho ainda produzia aguardente, melado e açúcar, cuja produção escoava por via fluvial, seguindo em direção à localidade hoje conhecida como Sagrado Coração até chegar aos bairros dos Jesuítas, Santa Cruz e Sepetiba. Na imagem acima o engenho aparece assinalado na Planta da Imperial Fazenda de Santa Cruz no ano de 1848.  É só aumentar para visualizar.

Deve ter sido uma fábrica bastante produtiva, pelas dimensões das ruínas existentes até hoje no local. O canal, atualmente sem utilização prática, era conduzido ao Rio Guandu-Mirim e dali seguia para o Porto de Sepetiba, de onde, se presume, levava a carga de açúcar e aguardente para o Rio de Janeiro e outros portos.

 Foto de Adinalzir Pereira. Em 08/09/2017.

Com a chegada da República, as terras do engenho, tornaram-se foreiras após o ciclo do café. A partir dos anos 1930 aos anos 1960 com a chegada de imigrantes portugueses veio a riqueza dos laranjais. Depois foi a época da criação de gado, onde o destaque foi o surgimento da Fazenda Nova Índia, de propriedade do Dr. Luiz Carlos de Adriano Franco, admirador das belas artes e também colaborador do NOPH, além de vários outros criadores.

A partir da década de 1960 com a decadência dos laranjais e consequentemente também de algumas fazendas de gado. Começaram a ser construídos na região vários conjuntos habitacionais. O Conjunto Manguariba foi um deles. Hoje em parte de seu terreno está sendo implantado o complexo logístico da WT Goodman.

Ainda falta descobrir o real significado da palavra Manguariba. Já consultei inúmeras vezes o Google e vários dicionários etimológicos. Inclusive da Língua Tupi, mas nenhum deles apresenta uma definição correta. Suponho, por analogia com outros sufixos de origem Tupi, que Manguariba poderia significar “lugar onde habitam (ou habitavam) determinadas espécies de rãs comestíveis.

Segundo pesquisas que fiz sobre a região há cerca de vinte anos. Toda a área onde hoje se encontram os conjuntos de Jardim Palmares, Manguariba, Sagrado Coração, Jesuítas e arredores, era “habitat” de várias espécies de rãs nos seus terrenos alagadiços. Daí ser possível afirmar que Manguariba seria “terra onde habitam ou habitavam rãs”.

Jornal do NOPH Ano de 1988.

Veja esse excelente documentário idealizado e roteirizado por Isra Toledo Tov, com direção de Márcio Melo, da Melo Drone, realizado na área do Engenho da Mata da Paciência e do Engenho de Santo Antônio dos Palmares. Em novembro de 2017. Clique no link ao lado para assistir. https://www.youtube.com/watch?v=KCV0NerJSbM

E aqui 71 fotos de aves belíssimas que pousam e fazem seus ninhos nas terras da antiga Fazenda Nova Índia. Veja abaixo na página de Ery Decottiginies.
https://www.flickr.com/photos/144462078@N06/sets/72157680506346911/

Abaixo alguns dados recolhidos por estudantes do CIEP Jornalista Octávio Malta na Associação de Moradores de Manguariba. Durante  uma pesquisa feita no ano de 1993.

No Conjunto foram construídas 6000 casas, com capacidade para alojar cerca de 24000 pessoas.

Em 29 de agosto de 1983 começaram a chegar os primeiros moradores. Eram cerca de 90 famílias de funcionários da Telerj que vieram para o local. Foram os próprios caminhões da Companhia que fizeram o transporte dessas pessoas.

Ainda moravam no local alguns antigos empregados da fazenda Nova Índia. Próximo a rua 19 morava a Dona Nair. Próximo a Escola Municipal Gandhi morava o Sr. Manoel. Próximo ao Mercado Azulzinho morava o Sr. Caduci. Próximo a rua 39 morava o Sr. Roberto.

Nessa época o “valão” era estreito, tanto que as crianças passavam de um lado para o outro sem nenhum perigo. No começo do conjunto o Escola Municipal funcionava num barracão, as ruas não eram asfaltadas.

Os policiais andavam a cavalo e o comandante do Posto Policial Comunitário era o Sargento Bandeira, que era o terror dos vagabundos de Manguariba, com ele não havia diálogo e quando acionava o camburão prefixo 070, quem tivesse sem documento e dando bobeira, ia logo direto para a caçapa. Nessa época o traficante de drogas que aterrorizava a região era o Sérgio Zoiudo e seu bando.

Não havia linha de ônibus. A primeira linha que começou a circular era a 845 Campo Grande-Manguariba. Porém esse tipo de transporte não entrava no conjunto. Havia também um Colégio particular denominado Fada Sininho. O Posto de Saúde começou a funcionar com apenas um consultório, depois passando a ter dez consultórios. No início tinha somente um médico clínico, depois passou a ter várias especialidades.

No ano de 1984, a Igreja Católica realizou a sua 1ª missa na sede da Associação de Moradores, pois a capela de Bom Jesus ainda estava em obras. Em 01 de dezembro de 1985 foi realizado o 1º batizado na comunidade. Na Escola Leila Mell, no ano de 1986, foi realizada a 1ª cerimônia de primeira comunhão. No ano de 1988 foi realizado a primeira cerimônia de casamento. Enquanto que no ano de 1992 foi inaugurado o prédio da capela em Manguariba.

Nessa época a comunidade de Manguariba teve várias visitas famosas, entre elas: Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Beto sem braço e muitos outros. Muitos moradores ainda lembram de quando a Fazenda Nova Índia chegou a ser utilizada como cenário de uma novela da Globo.

Alguns moradores falavam das antigas colunas do Engenho e da curiosidade de saber o que teria sido. Outros se recordam da enorme criação de gado nelore e de uma planta abundante no local chamada manguá. Muito usada como correia para açoitar animais e para debulhar cereais como: feijao, soja, trigo, aveia, etc. Outros lembram casa do caseiro da fazenda, onde moravam o Sr. Geraldo, sua esposa Dona Regina e seus filhos Moisés, Sandra e Luciana. Falavam também de um filhote grande de leão que havia no local. Citam também muitas lembranças de quando a Fazenda começou a criar búfalos e cavalos.

Segundo o Sr. Leu Lima: "Antes de se tornar um conjunto habitacional, uma parte das terras de Manguariba pertenciam ao Sr. Paulo Albino. Capinei muito essas terras. Nos anos 1950/1960, o sitio foi dividido em grandes lotes que era cultivado pelo método de "Terço". De cada 3 caixas de frutas e legumes recolhidos, uma era do proprietário das terras. O cultivo era de aipim, batata, giló, quiabo, etc."

Podemos dizer que ainda falta muita coisa para concluir essa história de Manguariba. Essa foi apenas uma pequena contribuição para divulgar o conhecimento da história local da Mata da Paciência e de todas as suas comunidades. História essa que queiramos ou não, sempre vai ficar guardada na memória. Sendo construída no dia a dia de nossas vidas. Afinal sabemos que não existem heróis. Todos fazemos parte dessa história.

Fontes de consulta utilizadas:

Jornal do NOPH 21, Agosto de 1985, pág. 09. Biblioteca do NOPH Ecomuseu, Rio de Janeiro. Consulta feita em 22/06/2018.
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Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena. Clóvis Chiaradia, Editora Limiar, São Paulo. Agosto de 2008.
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Vocabulário Tupi-Guarani Português. Silveira Bueno, Brasilivros Editora e Distribuidora Ltda. São Paulo, 5ª edição. 1987.
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Associação de Moradores do Conjunto Manguariba, Rio de Janeiro. Consulta feita no ano de 1993.
Trabalho de pesquisa feito por alunos do CIEP Brizolão 336 Jornalista Octávio Malta: Meire Lúcia, Nadja, Neiva, Raquel, Walace, Selma e Sônia. Conjunto Campinho, Rio de Janeiro. Ano de 1993.
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Blog: www.rioeduca.net/blogViews.php?id=1087 Acesso em 25/06/2018.

Postado por Adinalzir Pereira Lamego - Professor e Historiador (*)

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