13.8.18

Os primórdios da Zona Oeste do Rio de Janeiro



A zona oeste do Rio de Janeiro, chamada de “sertão carioca” pelo escritor e pesquisador Magalhães Corrêa no livro de mesmo nome sobre Jacarepaguá, foi desde o início uma terra de latifúndios, de senhores e senhoras de engenhos e fazendas, cujos limites na maioria das vezes imprecisos davam origem a conflitos e processos judiciais que podiam se arrastar por anos. Com o tempo, essas grandes porções de terra trabalhadas por muita mão de obra escrava foram sendo fragmentadas, principalmente devido ao declínio da produção dos engenhos e das lavouras, dando origem a fazendas e propriedades menores e daí a bairros e localidades que muitas vezes mantiveram os nomes dos engenhos e fazendas que lhes deram origem. Para Adolfo Morales de los Rios Filho, sertão era “a terra que ficava ao longe”. E esclarece mais: “O sertão começava no limite suburbano das cidades e vilas, nos lugares por onde passavam afastados rios, nas florestas espessas, nos vales cercados por altaneiras montanhas; principiava no desconhecido que tanto se desejava conhecer”. (O Rio de Janeiro Imperial, de Adolfo Morales de los Rios Filho).

A região, na verdade, só passou a se integrar de fato à cidade do Rio de Janeiro com os limites de hoje a partir do Ato Adicional de 1834, que criava o Município Neutro ou da Corte, e que na prática separava a capital da província do Rio de Janeiro (antes, as freguesias mais distantes eram chamadas de freguesias “de fora”). Santa Cruz, por exemplo, freguesia desde o ano anterior, se desligava do Termo (correspondente aos limites do atuais municípios) de Itaguaí para receber o batismo de “terra carioca”. Com a proclamação da República, a região se tornou a zona rural do Distrito Federal, até que, em 1960, com a transferência da capital para Brasília, ela passou a ser a zona oeste do Estado da Guanabara e em 1975, com a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, passou a ser a zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. As freguesias e paróquias tinham os mesmos limites e abrangiam respectivamente as jurisdições administrativas e religiosas das regiões (lembrando que até a chegada da República a Igreja Católica era ligada oficialmente ao Estado).

O surgimento da estrada de ferro, no final do século 19, fez com que a concentração populacional e comercial se verificasse próximo às estações de trem. Além disso, a construção de novas estradas, muitas delas atravessando montanhas que só eram percorridas por trilhas e caminhos complicados, integrou mais ainda a região ao restante da cidade. A história da zona oeste começa, assim, por Guaratiba, onde, em 1567, dois anos após a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o capitão-mor Cristóvão Monteiro recebia suas primeiras sesmarias devido aos serviços prestados na luta contra tamoios e franceses pela conquista da cidade. Como se irá perceber, esta é uma história de poucas famílias, quase sempre com algum tipo de relacionamento entre si. Não poderia ser diferente. Naquela época, em que o próprio Brasil ainda era uma terra desconhecida na sua maior parte e ainda se lutava contra os índios e os mistérios da mata, não eram muitos os que se dispunham a vir da Europa para se aventurar pelos sertões.

Texto de André Luis Mansur, jornalista e escritor- Escreve todas segundas-feiras para a página Santa Paciência.

Mapa- O Sertão Carioca. Magalhães Corrêa (“O Sertão Carioca”, 1936)
Pesquisa de imagem- Guaraci Rosa

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

3.8.18

A Fazenda de José Maria Rôllas e a origem dessa comunidade carioca



Conforme a imagem, segue a reportagem do Jornal do Brasil de 07/05/1967.

Mais de 300 já invadiram uma fazenda arruinada em Santa Cruz

Mais de 300 pessoas, entre lavradores, desempregados, flagelados, trabalhadores pobres e uma minoria que possui algum recurso financeiro, já invadiram a fazenda de propriedade do português José Maria Rôlas, em Santa Cruz, organizando loteamentos e lavouras por conta própria. Algumas famílias farão colheitas dentro dos próximos 50 dias.

Segundo alguns moradores da região, a fazenda do Sr. José Maria Rôlas está em estado de semi-abandono há mais de 10 anos, não havendo nela nenhuma espécie de cultivo, nem demarcações de limites. Isso e o boato de que as terras pertencem à União foram os principais motivos da invasão.

Invasões

Os primeiros invasores surgiram há mais de seis meses, segundo o vigia da fazenda, Sr. Nabor João Braga, contratado pelo Sr. José Maria Rôlas há pouco mais de uma semana, quando o processo de invasão se intensificou mais.

Nos últimos dias mais de 50 pessoas surgiram na fazenda, organizando loteamentos por conta própria e iniciando a construção de barracos, fincando ao longo das faixas escolhidas, varas ligadas entre si, por fios de barbantes ou arames como ponto de demarcação.

O vigia da Fazenda disse ao JORNAL DO BRASIL que vem tentando convencer os invasores a abandonar as terras, sem que obtenha resultados, mesmo quando adverte que a Polícia poderá interferir a favor do proprietário. A casa da fazenda, que há anos não é habitada, está em ruínas.

Segundo se soube, o Sr. José Maria Rôlas obteve as terras em Santa Cruz em maio de 1928 do diretor de Patrimônio Nacional, por aforamento. A extinta SUPRA, entretanto por concessão da própria União, obteve há alguns anos direitos sobre as terras, tendo o senhor José Maria Rôlas iniciado o processo na 2ª Vara da Fazenda Federal, recorrendo contra a medida.

A existência de tal processo em andamento com a extinção da SUPRA e sua substituição pelo IBRA, teria originado o boato de que as terras não tem dono e, consequentemente, provocado a invasão. Um antigo morador de Santa Cruz afirmou que nessa invasão estaria o próprio Sr. Rôlas. O mesmo revelou que ele teria aderido à causa porque queria com isso fazer com que o IBRA desapropriasse suas terras, independente do processo existente na 2ª Vara da Fazenda Federal.

O vigia Nabor João Braga desmentiu indiretamente a hipótese, ao revelar que tem ordens do proprietário das terras para inclusive derrubar barracos e usar da violência, caso haja resistência por parte dos invasores.

Por outro lado, o Sr Antonio Coelho, ex-vigia do da fazenda do senhor José Maria Rôlas, revelou “ter aderido à causa dos invasores por chegar a conclusão de que é injusto o proprietário não cultivá-las ou conservá-las, apenas para usufruir de sua valorização”.

O ex-vigia que foi contratado logo que surgiram, há seis meses os primeiros invasores, continua morando num dos cômodos da casa grande da fazenda, porque segundo declarou, “não recebeu na íntegra os vencimentos a que teria direito.

Aceitei ser vigia mediante a promessa de que receberia mensalmente um salário e meio, além de um jipe para percorrer as terras e impedir com mais segurança sua invasão. Mas o Sr. José Maria Rôlas só me pagou NCr$ 90,00 e me deu o veículo. Entrei com recurso na Justiça e só sairei daqui quando receber o que tenho direito.

Entre os invasores está o lavrador Manuel Dutra de Sousa que há seis meses foi para lá, demarcou de modo rude um trecho das terras, plantou lavouras de milho, feijão, organizou hortas e em breve fará a sua primeira colheita.

Cheguei aqui por acaso, sem nenhuma outra intenção senão a de encontrar, entre a vegetação aqui existente, um arbusto cujas folhas fervidas servem como medicamento contra febre e outros males.

Quando procurava o arbusto, o Sr. Manuel Dutra se encontrou com diversas famílias que roçavam uma capoeira, e, ao perguntar porque trabalhavam ali, recebeu a resposta que, “pertencendo a União, aquelas terras podiam ser cultivadas por qualquer um”. (continua)


Pesquisa e Texto: Antigo Santa Cruz

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

1.8.18

Reflexões sobre a Santa Cruz de ontem e de hoje



O bairro de Santa Cruz encontra-se localizado no extremo oeste da Cidade do Rio de Janeiro, faz fronteira com os municípios de Itaguaí e Seropédica e pertence a jurisdição da 19ª Região Administrativa, que inclui também as regiões de Paciência e Sepetiba. Outrora foi uma das mais prósperas fazendas jesuíticas sendo até mesmo denominada a "Joia da Coroa", servindo como residência opcional de férias da família real brasileira durante todo o século XIX. Em termos culturais, Santa Cruz é um bairro importante, sob o ponto de vista histórico, possuindo ainda vários monumentos históricos representativos de sua fase áurea.

Com uma área territorial de 163,73 Km2, com 1406 logradouros e 2.456.509 metros quadrados de área construída, Santa Cruz foi aos poucos adquirindo características de cidade, um comércio bem desenvolvido, com várias agências bancárias e inúmeras e diversificadas lojas, um sistema educacional que atende de forma satisfatória à demanda, com 97 escolas municipais, alguns colégios, estaduais, dezenas de colégios e escolas da rede particular de ensino e a sua primeira instituição de ensino universitário, a Faculdade Machado de Assis, que oferece cursos de Letras, Matemática, Ciências Contábeis, Administração e Turismo. Há também unidades universitárias da Faculdade da Cidade (UniverCidade) e da Universidade Estácio de Sá, entre outras.

Embora não funcione plenamente para a população, o Hospital Estadual Dom Pedro II foi planejado para servir como hospital de referência para o tratamento de queimaduras. Na região existem postos municipais de saúde e diversas clínicas particulares.

Na área de segurança, além de duas grandes unidades militares da Forças Armadas (Base Aérea de Santa Cruz e Batalhão Escola de Engenharia) a região conta com uma Delegacia Policial, um Destacamento do Corpo de Bombeiros, um Batalhão da Policia Militar e diversos destacamentos da PM instalados em conjuntos periféricos. O Fórum de Santa Cruz funciona com diversas varas  jurídicas. Devido ao rápido crescimento urbano, o sistema viário vai exigindo urgentes providências, como a construção de uma rodoviária, novos viadutos sobre a estrada de ferro e ampliação dos logradouros que fazem a interligação da avenida das Américas com a avenida Brasil.

O transporte ferroviário, apesar de sua precariedade, ainda é bastante utilizado pela população, mas já existem algumas linhas de ônibus que ligam Santa Cruz ao centro do Rio de Janeiro, como também aos municípios de Itaguaí, Seropédica, Mangaratiba e Angra dos Reis.

Sob o ponto de vista eclesiástico, Santa Cruz possui as paróquias de Nossa Senhora da Conceição, a maior e mais imponente e que reúne a população residente no centro do bairro, dos Jesuítas, de Paciência, Sepetiba, Palmares, Areia Branca, Nossa Senhora da Glória (Curral Falso) e diversas capelas espalhadas pelos conjuntos residenciais e localidades vizinhas. Tem crescido bastante o número de templos evangélicos na região, que também possui centros espíritas e igrejas de outros credos.

A Biblioteca Municipal de Santa Cruz é um dos espaços destinados à prática do lazer cultural. Existem bibliotecas particulares, clubes desportivos, 67 praças e 4 largos, fazendo um total de 184.572 de área destinada aos parques e jardins, o que é muito pouco para uma população de quase 314 mil habitantes, segundo dados do IBGE do Censo Nacional de 2000.

No segundo Governo do Prefeito César Maia, o bairro passou por uma grande transformação urbanística a partir do Programa Rio Cidade Santa Cruz. Além das obras de embelezamento foram realizadas intervenções na rede de esgoto da parte central e no sistema de iluminação e sinalização. Em 2004 foi inaugurada a Cidade das Crianças Leonel Brizola, que funciona como Parque Temático da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, destinado, em especial, às crianças e adolescentes.

Também já se encontram em pleno funcionamento em Santa Cruz, a Vila Olímpica e a Lona Cultural Sandra de Sá, duas novas opções para a prática do lazer cultural pela população. Há também um posto de atendimento e informações turísticas, localizado na entrada da Avenida Padre Guilherme Decaminada, no final da Avenida Brasil e uma exposição permanente de textos, documentos e objetos históricos produzidos em três dimensões, na Rua Felipe Cardoso, a principal do bairro, dentro do Programa "Uma Rua conta a sua História”.

Santa Cruz é atualmente um bairro em franco crescimento. Possui um comércio bem desenvolvido, várias agências bancárias e inúmeras e diversificadas lojas, um sistema educacional que atende satisfatoriamente à demanda, o Hospital Estadual Dom Pedro II que foi planejado para servir como hospital de referência para tratamento de queimaduras.

Foram instalados, especialmente nas proximidades da Avenida João XXIII, vários empreendimentos industriais de peso, especialmente a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), que modificou a paisagem e dinamizou a economia do bairro. Também está programada para entrar em funcionamento até o fim de 2013, uma grande fábrica da Rolls-Royce Energy, fabricante de turbo-geradores de energia para plataformas marítimas.

Santa Cruz também se caracteriza como um bairro proletário, com diversos problemas de transporte, falta de saneamento adequado em certos pontos, comunidades carentes e sérios problemas ambientais. Com o aumento da população, a violência no bairro só tem aumentado. A ação da polícia se concentra no combate ao tráfico de entorpecentes nas favelas do entorno, bem como na ação de milicianos, que são os responsáveis pelo controle do transporte alternativo, exploração de serviços ilegais de eletricidade, gás e televisão a cabo.

Bibliografia:

FREITAS, Benedicto. Santa Cruz, Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, Volume I, Era Jesuítica 1567-1759. Asa Artes Gráficas, Rio de Janeiro/ 1985.

FREITAS, Benedicto. Santa Cruz, Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, Volume II, Vice-Reís e Reinado 1760-1821. Asa Artes Gráficas, Rio de Janeiro, 1987.

FREITAS, Benedicto. Santa Cruz, Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, Volume IIl,
Impérío 1822-1889. Folha Carioca Editora, Rio de Janeiro, 1987.

FROES, José Nazareth de Souza. A História de uma Freguesia do Arcebispado do Rio de Janeiro revista e documentada. Impresso pela COPIARTE. Rio de Janeiro, 2006.
MANSUR, André Luís. O Velho Oeste Carioca: História da ocupação da Zona Oeste do Rio de Janeiro (de Deodoro a Sepetiba), do século XVI ao XXI. Editora Ibis Libris: Rio de Janeiro, 2008.


Pesquisa de Adinalzir Pereira Lamego

26.7.18

Estrada do Aterrado de Itaguaí (atual Avenida João XXIII)



Uma das vias mais históricas do Brasil, remontando à época colonial, quando foi aberta em 1714 o famoso “Caminho Novo de Nossa Senhora Piedade de Lorena”, em São Paulo, com destino ao Rio de Janeiro. O que provocou uma forte oposição dos Padres da Companhia de Jesus com essa passagem pelas terras de Santa Cruz, que fazia parte da sua então conhecida fazenda.

Por esse Aterrado passaram várias celebridades da época: sábios, cientistas e naturalistas com destino ao interior do país, capitães-mores, altas autoridades civis, eclesiásticas e militares, toda a dinastia dos Bragança em nossa terra, milhares de viajantes, tropeiros, contrabandistas de ouro e diamantes.

Na famosa Jornada da Independência de 1822, D. Pedro I passou por ela indo para São Paulo como Príncipe Regente e ao receber ordem de Portugal para voltar, proclamou a Independência, regressando para o Rio de Janeiro como soberano absoluto desta grande nação.

Atualmente o Aterrado de Itaguaí, denomina-se Estrada João XXIII, em homenagem ao grande Papa do século XX.

Imagem de Autoria desconhecida.

Fontes de consulta utilizadas:

Jornal Quarteirão 102 - NOPH / Ecomuseu de Santa Cruz.
Barreiros, Eduardo Canabrava. Itinerário da Independência. Coleção Documentos Brasileiros.
Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1972.

Pesquisa e postagem de Adinalzir Pereira Lamego

22.7.18

Nicolau Sevcenko volta ao Rio de Janeiro de 1904 durante a Revolta da Vacina



Historiador elucida os principais fatores do “último motim urbano clássico do Rio de Janeiro” e trata dos custos sociais da “ditadura sanitária” de Oswaldo Cruz.

Ao trazer a imagem de um Rio de Janeiro conflagrado, em que as autoridades perderam o controle sobre a segurança e têm de recorrer às Forças Armadas para intervir nas comunidades cariocas, seria bastante provável que o leitor pensasse no atual caos urbano que afeta a Cidade Maravilhosa. Não se trata disso, mas da viagem até 1904 conduzida pelo historiador Nicolau Sevcenko e sua prosa inebriante, para demonstrar em A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes, lançamento da Editora Unesp, que alguns problemas de hoje têm raízes profundas.

“A Revolta da Vacina, ocorrida num momento decisivo de transformação da sociedade brasileira, nos fornece uma visão particularmente esclarecedora de alguns elementos estruturais que preponderaram em nosso passado recente – repercutindo até mesmo nos dias atuais”, escreve. “A constituição de uma sociedade predominantemente urbanizada e de forte teor burguês no início da fase republicana, resultado do enquadramento do Brasil nos termos da nova ordem econômica mundial, foi acompanhada de (...) um sacrifício cruciante dos grupos populares.” 

Ao longo dos quatro capítulos do livro, o leitor é levado a entender essa passagem da história brasileira, em que o discurso oficial convergia para a saúde pública, mas o que se tramava nas entrelinhas era a ditadura urbanística do então prefeito Pereira Passos e da ditadura sanitária de Osvaldo Cruz, ambos empurrando os pobres para as franjas da cidade, fenômeno de alto custo social e humano. “Optei por iniciar esta reflexão diretamente com uma descrição pormenorizada do cotidiano da revolta, a agitação dos participantes e o fragor dos confrontos entre as partes envolvidas” para “expor em seguida as causas mais profundas da insurreição e o seu significado particular no contexto de mudanças que envolviam e metamorfoseavam a sociedade brasileira”. E, por último, “apreciar no episódio dramático dessa revolta algumas características fundamentais da estrutura social da Primeira República (1889-1930)”.

“Espero que não se estranhe o tom emotivo que eventualmente reponta em alguns momentos deste trabalho: ele é autêntico e intencional”, adverte o autor. “Nem eu saberia tratar de outro modo a dor de seres humanos palpitantes, cheios de vida, angústias e esperanças.”

Este volume conta com posfácio do autor à edição de 2010 e fotos do alagoano Augusto Malta – fotógrafo oficial responsável por registrar a evolução da gigantesca reforma urbana do Rio de Janeiro proposta pelo prefeito Pereira Passos –, de Marc Ferrez e de periódicos.

Sobre o autor – Nicolau Sevcenko (1952-2014) foi professor titular da Universidade de São Paulo e é autor de diversas obras nas áreas de História Moderna e Contemporânea.

Título: A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes
Autor: Nicolau Sevcenko
Número de páginas: 134
Formato: 12 x 21 cm
Preço: R$ 28,00
ISBN: 978-85-393-0720-3

Fonte: Assessoria de Imprensa da Fundação Editora da Unesp

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

15.7.18

Engenheiro Oscar Brito ou Viaduto dos Cabritos? Conheça aqui toda a verdade



Ao contrário do que muita gente pensa, o nome do viaduto dos Cabritos – obra recentemente inaugurada pelo Governo do Estado na Avenida Brasil, no encontro com a antiga Rio – São Paulo, não é apelido popular, já o foi, mas em 21 de janeiro de 1965 passou a ter essa denominação oficial pelo decreto nº 723. 

O apelido apareceu quando de uma visita do Sr. Carlos Lacerda à obra, na sua fase de construção, ocasião em que comentou com o engenheiro a pouca serventia de um viaduto naquele local e lamentou, também, a verba que ali estava sendo aplicada, em detrimento de outras obras mais urgentes. Foi quando avistou, então, vários cabritos passando sobre o viaduto ainda em concretagem, momento em que afirmou que, pelo menos, ele já estava sendo usado. Seria um viaduto para cabritos – concluiu. 

Agora, o DER concluiu ao Governador Negrão de Lima a troca de nome, considerado muito singelo para a obra, dando-lhe o nome de Engenheiro Manuel dos Santos Dias, antigo funcionário do Estado, que ocupou importantes cargos de direção na administração pública e que é cunhado do Presidente Castelo Branco.

Observem que o texto acima foi transcrito do jornal O Globo, maio de 1966.


Agora observem os relatos abaixo:

Segundo relato do pesquisador Leu Lima. "O nome do viaduto nunca foi Engenheiro Oscar Brito. Segundo ele havia na região algumas fazendas de gado caprino e estes perambulavam pelo local causando vários acidentes de trânsito. Fato esse que continuou acontecendo durante o período das obras de construção do mesmo. Várias pessoas passavam e viam os cabritos subindo e se abrigando do sol nas peças de concreto que chegaram a ficar abandonadas ali por muitos anos. Contudo, mesmo assim, a mortandade dos caprinos ainda continuou acontecendo e esse foi o motivo do batismo popular do viaduto de concreto armado que foi construído naquele no lugar."

Na verdade era pra ser chamado de "Viaduto das Ovelhas". Diz Leu Lima sorrindo... "Justamente porque no princípio dos anos 1970 quando ainda havia a Fazenda Indiana, que era cortada pela Av. Brasil, os vaqueiros fechavam a via para levar gado para outras pastagens. Certo dia, o vaqueiro, sei o nome dele, deparou com uma viatura da PM onde, em seu interior, havia dois policiais mortos. Apavorado ele pegou o rádio da viatura e pediu socorro, explicando a situação. Quando foi indagado sobre o local da ocorrência, falou que era próximo a um viaduto que tinha ovelhas. No dia seguinte as manchetes dos jornais publicaram os assassinatos no Viaduto dos Cabritos. Porque soava melhor."

Deca Serejo, também pesquisadora da região diz: "Sobre a obra de construção do Viaduto dos Cabritos. Encontrei registros com fotos, sem data no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Mas acredito que sejam do ano de 1965 e o projeto de autoria do engenheiro Alim Pedro."
  
Podemos concluir que existem situações na cidade em que é preciso consultar os registros oficiais para saber qual é o nome que vale no papel. Mas, conforme afirmam tanto o Instituto Pereira Passos (IPP) quanto o Arquivo Geral da Cidade, não há qualquer logradouro público chamado Engenheiro Oscar Brito. Seria ele então, um personagem fictício? Sendo ou não, o nome dele acabou sendo imortalizado numa placa ao lado do viaduto, provando que até mesmo as nossas autoridades podem se confundir. Ainda mais em época de mudanças de governo. O que pode ter sido o caso.
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Texto e mais fotos postados originalmente nos links da página do Rio Decoração Tour:
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/posts/498340133928559
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/photos/a.237634916665750.1073741837.126361801126396/498378447258061/?type=3&theater
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/posts/499761023786470
https://www.facebook.com/riodecoracaotour/photos/a.126639877765255.1073741826.126361801126396/499975047098401/?type=3&theater

Imagens de Joaquim Silva e Deca Serejo

Pesquisa e texto de Adinalzir Pereira Lamego

10.7.18

A Estrada Real de Santa Cruz, o caminho da riqueza

Por André Luis Mansur (*)


Até a chegada da estrada de ferro na região que seria conhecida como zona oeste, no final do século 19, o único caminho para se chegar até lá era pela Estrada Real de Santa Cruz, chamada anteriormente de Caminho dos Jesuítas, já que foram os padres da Companhia de Jesus que abriram parte dela quando montaram sua importante fazenda, em Santa Cruz. A Estrada Real, segundo o escritor Lima Barreto, era mais importante para a economia nacional do que a elegantíssima e sofisticada Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), centro econômico e social do centro da cidade no século 20. A afirmação faz sentido se entendermos que aquela era a estrada dos tropeiros, comerciantes, mineradores e donos de engenhos e plantações de café, primeiro ponto para se chegar a São Paulo, Minas e às riquezas do interior do Brasil.

Foi por ela que D. Pedro I cavalgou para proclamar a independência, tendo descansado na Fazenda de Santa Cruz durante a ida, no dia 14 de agosto de 1822, conforme escreve Octávio Tarquínio de Sousa em “A vida de D.Pedro I – (vol. 2)”: “Partindo da Quinta da Boa Vista, foi D. Pedro pernoitar em Santa Cruz e aí se achava quando lhe anunciaram a presença de João Carlos Oeynhausen, vindo para a Corte, de sua ordem. O presidente da Junta de São Paulo, a quem faria mais tarde Marquês de Aracati e seu ministro, pediu-lhe em vão uma audiência: que se apresentasse sem demora à Princesa Real D. Leopoldina e ao ministro José Bonifácio, tal foi o recado transmitido pelo gentil-homem Canto e Melo”. D. Pedro seguiu viagem e ainda passaria pela Fazenda de São João Marcos, em Itaguaí. Na ida, levou 12 dias para chegar a Minas e na volta, depois de proclamar a independência em São Paulo, foi direto para a Corte, fazendo o trajeto em cinco dias.


Antes das melhorias feitas na estrada durante o período em que D. João VI, encantado com as paisagens mais afastadas do burburinho da Corte, passou a residir longas temporadas na sede da fazenda, transformada em Palácio Real, era penoso trafegar por ela. Para exemplificar, basta citar trechos dos diários de naturalistas europeus, que começaram a visitar o Brasil após a chegada da Corte portuguesa, em 1808. No livro “Viagem pelo Brasil”, os naturalistas austríacos Johann Baptist von Spix e Carl von Martius falam do início de uma viagem pela estrada, no dia 8 de dezembro de 1817: “Apenas havíamos enveredado pelo atalho que sai na estrada larga de Santa Cruz, quando uma parte dos nossos cargueiros se deitou no chão, outra parte se espalhou por entre casas e chácaras, e também algumas das mulas se destacaram das caixas que levavam, e procuraram ganhar o campo. Aumentou a confusão, quando o sr. Dürming, cônsul real da Prússia em Antuérpia, e que se achava então no Rio de Janeiro e agora nos acompanhava, foi lançado fora do animal assustado, e teve de ser carregado de volta à cidade, com o braço fortemente magoado. Este espetáculo de selvajaria (sic) desenfreada costuma dar-se na saída de todas as tropas, até que os animais se acostumem ao peso da carga e se habituem a marchar em fila. Somente o nosso compatriota, o sr. Von Eschwege, que aqui já tem feito muitas viagens por terra, se mostrou impassível; nós, novatos na experiência, ficamos atarantados de ansiedade e apreensão”.

Em 1917 começou a funcionar o sistema de diligências ligando Santa Cruz ao centro da cidade. Diligências estas que não eram atacadas por índios, como nos filmes americanos de faroeste, e tinham os seguintes horários, conforme conta Noronha Santos, em “Meios de transporte no Rio de Janeiro (vol.1)”: “Partiam do Centro às quatro horas da madrugada, para chegarem à fazenda real às nove e meia. Voltavam às cinco e meia da tarde e chegavam à cidade às dez e meia da noite”. Como se vê, a viagem a Santa Cruz era, de fato, longa e penosa, o que só mudou com a chegada do trem, primeiro em Campo Grande (1878) e depois em Santa Cruz (1882), que encurtou bastante o tempo do percurso e pôde integrar de forma muito mais eficiente a região ao centro da cidade.

Hoje, o trajeto da Estrada Real de Santa Cruz ainda se mantém em sua maior parte, com poucas alterações, em vias como a Avenida Santa Cruz (que percorre boa parte dos bairros da zona oeste), dom Helder Câmara (antiga Suburbana), Cesário de Melo (em Campo Grande), estrada Intendente Magalhães (em Campinho) e estrada Rio-São Paulo. Adolfo Morales de los Rios Filho fala sobre o termo “estrada real”, que muitos julgam ter este nome por ter sido frequentada por D. João VI e a nobreza. No livro “O Rio de Janeiro Imperial”, ele explica que “estrada real”, na verdade, é o “caminho mais seguido, mais franco e, portanto, o que apresenta menos riscos de dificuldades”.

André Luis Mansur é jornalista e escritor (*)

Pesquisa de imagens - Guaraci Rosa
Texto originariamente postado na página do Facebook Santa Paciência
https://www.facebook.com/GuaraciRosaHistoriador/posts/1962215480469782

Postado por Adinalzir Pereira Lamego

Os primórdios da Zona Oeste do Rio de Janeiro

A zona oeste do Rio de Janeiro, chamada de “sertão carioca” pelo escritor e pesquisador Magalhães Corrêa no livro de mesmo nome sobre J...