15.7.17

Nilton Bravo (1937-2005), O Michelangelo dos Botequins


Um dos painéis de Nilton Bravo tombado pela Prefeitura no Bar Sulista, na Praça Coronel Assunção, 357 (Gamboa)

Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai  as técnicas de pintura.

Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas.

Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas – se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo.

Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.

Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):

"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.

Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.

Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.

Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.

Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."

Belmonte de Copacabana, o último painel de Bravo, especialmente encomendado, infelizmente já removido.

"Nilton Bravo", crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67:

Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.

Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.

Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.

Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.

Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.

São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.

Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.

Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:

“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.

Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.

O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.

Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.

Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”

O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”

Painel de Nilton Bravo no Bar Jobi, Leblon.
 Nilton Bravo na Literatura:

A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:

A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.

1.7.17

Exposição 450 Anos de Santa Cruz

.
Exposição no Santa Cruz Shoping em comemoração aos 450 anos de Santa Cruz. Com Quadros, Maquetes e lindos trabalhos em madeira reciclada. Venha conhecer um pouco do acervo do NOPH   Ecomuseu. Participem! A exposição estará na loja 31, ao lado da Casa e Vídeo.

18.6.17

D. Pedro I em Santa Cruz


Aquarela de Debret sobre a Fazenda de Santa Cruz, pintada em 1817 do Morro do Mirante.
Um pouco da rotina do imperador D. Pedro I na Fazenda de Santa Cruz, que daria origem ao bairro carioca de mesmo nome.

Se o príncipe regente D. João se apaixonou por Santa Cruz, transformando a antiga sede da fazenda dos jesuítas em Palácio Real, seus descendentes também seguiram o antigo Caminho dos Jesuítas para se afastar dos problemas da Corte e viver mais à vontade.

O filho, o futuro D. Pedro I do Brasil, e Pedro IV de Portugal, por exemplo, talvez tenha sido mais assíduo ao palácio que seu pai. Na infância passada no velho oeste carioca, Pedro, revelando a vocação de líder militar, organizava exércitos de brincadeira, com regimentos de escravos, meninos como ele, munidos com “armas” feitas de madeira e folhas-de-flandres. Exército pronto, organizava acirradas batalhas pelos campos de Santa Cruz contra o irmão D. Miguel, antecipando a guerra que travariam em Portugal, entre 1832 e 1834, e que faria de D. Pedro um herói naquele país, após ter abdicado do trono do Brasil, em 1831.

Mais tarde, já adulto e imperador do Brasil, D. Pedro iria muito a Santa Cruz seguido de fiéis escudeiros, como Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, seu secretário particular e, segundo as más línguas, “secretário para os negócios ocultos do Brasil e de Portugal” (D. Pedro I, Isabel Lustosa). Na longa viagem pela Estrada Real, provavelmente o príncipe vislumbrava as possibilidades que se abriam, de romper com Portugal e ser responsável pelos destinos da imensa nação que o acolhera.

Exímio cavaleiro, muitas vezes Pedro partia montado em um dos muitos cavalos que mantinha bem tratados na fazenda, dispensando carruagens luxuosas. Cavalgava rápido, tanto que, em algumas vezes, ia e voltava no mesmo dia a Santa Cruz, como na ocasião em que foi à fazenda apenas para dar uma chicotada no marido de sua amante Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos – uma situação tão absurda que beira o cômico.


Mesmo perdendo a marquesa para D. Pedro I, o marido, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, não apenas se submeteu à nova ordem, como se humilhou pedindo um cargo ao Imperador, que o nomeou, em 1824, administrador da feitoria de Periperi, parte da Fazenda de Santa Cruz, e que ficava em numa área coberta hoje pela estrada Rio-São Paulo, na altura de Itaguaí.

Periperi possuía diversas lavouras e um famoso engenho produtor de aguardente. O motivo da desavença entre o administrador e o Imperador foi uma carta injuriosa sobre a marquesa, enviada por Felício ao irmão de Domitila, que a mostrou ao Imperador. Mal acabou de ler, D. Pedro subiu em seu cavalo e atravessou a Estrada Real de madrugada, em meio a uma forte tormenta. Ao chegar à sede da feitoria, entrou gritando, chamando pelo administrador, para espanto dos escravos, que nunca imaginariam a chegada do Imperador do Brasil àquela hora e naquela situação. Quando deparou com Felício, D. Pedro, sem dizer nada, “desferiu rápida e forte ‘rebencada’ na face do perplexo ‘desafeto’ e, considerado ‘cumprido seu dever’, imediatamente regressou à Quinta da Boa Vista, aonde chegou ao amanhecer”. (Santa Cruz, Jesuítica, Real, Imperial – Vol. III, Benedicto Freitas).

Felício não apenas aguentou calado a humilhação, como ainda permaneceu um bom tempo como administrador da feitoria, mas, desta vez, bem mais comportado, pois D. Pedro o ameaçou com uma contundente surra, se não deixasse de ofender a marquesa, esposa de Felício e amante de Pedro.


Ao chegar a Santa Cruz, pode-se dizer que D. Pedro ficava como “pinto no lixo”, ou seja, sentia-se completamente à vontade: “Aqui chegados, consideravam-se no Paraíso: passeios sem fim: a Sepetiba, Itaguaí, Pedra de Guaratiba, no mar, nos rios, nos decantados canais com iates e veleiros neles deslizando, caçadas e rodeios e, à noite, música na Imperial Capela e nos salões do Palácio, onde também se realizavam animadas partidas de bisca, jogo preferido do monarca” (Santa Cruz, Jesuítica, Real, Imperial – Vol. III, Benedicto Freitas).

Em Santa Cruz, D. Pedro, mesmo já imperador, despia-se das sofisticadas e imponentes vestimentas da nobreza, e usava trajes de homem do campo: calça e camisa de algodão, bota quase sempre enlameada e chapéu de palha, como autêntico caipira. Ocorreu muitas vezes de receber ministros de importantes Cortes europeias de chinelos no Palácio, com a maior sem-cerimônia. “Conta o Marquês de Gabriac – embaixador da França no Brasil entre 1820 e 1829 – que, visitando D. Pedro, em Santa Cruz , em 22 de outubro de 1827, encontrara-o em seu salão de despachos jogando bisca com um camarista e o cirurgião do Paço” (Livro D. Pedro I, de Isabel Lustosa).

Para aproveitar bem a vidinha na roça, repleta de ar puro, água limpa, fartos cozidos (seu prato preferido na fazenda) e muito verde, D. Pedro gostava de acordar bem cedo, “quando o galo cantava”, e seguia irremediavelmente a mesma rotina. Fazia a revista dos escravos, fiscalizava o rebanho, os engenhos, as pontes e as obras de drenagem e contenção das águas, ordenava novos plantios, mandava fazer reparos nos prédios da fazenda e ia caçar com espingarda capivaras e outros animais em abundância às margens do rio Guandu, isso bem antes que o “progresso” expulsasse a fauna e a flora para o pouco que restou da Mata Atlântica naquela região.

Obs: a sede da fazenda que aparece na aquarela acima, hoje é o Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita e está muito bem conservado. Fica perto da Estação de Trem. Para quem vê a novela Novo Mundo da Rede Globo de Televisão esse texto serve como uma boa dica para saber mais sobre alguns dos personagens.


Texto de André Luis Mansur Baptista.
Autor do livro "O Velho Oeste Carioca". Volumes I, II e III.   Editora Ibislibris.

Um livro que reúne excelente material de pesquisadores da Zona Oeste do Rio de Janeiro, e apresenta uma visão global da região que se estende desde o Campo dos Afonsos até Sepetiba, percorrida pela antiga Estrada Real de Santa Cruz, citada nos livros de História do Brasil pela invasão de piratas franceses em Guaratiba, em 1710, e as longas temporadas de D. João na antiga fazenda dos jesuítas, no início do século XIX. André Luis Mansur Baptista nasceu em 1969 e formou-se em jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1993. Tem dois livros publicados: Supéravit, o herói brasileiro e Manual do Serrote, ambos de ficção. Mantém o blog Emendas e Sonetos, onde publica excertos sobre curiosidades do Rio de Janeiro.

Por onde eu passo, todo mundo me conhece


Dotado de um talento artístico que se manifestou desde a infância, Mestre Saul é um destaque da região, na pintura e na escultura, e conta aqui um pouquinho de sua caminhada sofrida e vitoriosa.

Ainda garoto, ali pelos 7 ou 8 anos, Saul da Silva Pinheiro fazia música batucando em latas de graxa, desenhava com lascas de carvão e repetia em pensamento um desejo: “Quando crescer eu quero ser artista. Famoso, de valor”. Corria a década de 40, e a infância difícil do menino criado em meio a quatro irmãs, com mãe costureira e separada de um PM atormentado por problemas mentais, não dava indicativos de que o sonho se realizaria. Hoje ele é o Mestre Saul, artista plástico com quadros e esculturas espalhados por todo canto do Brasil — incluindo um busto de Zumbi dos Palmares numa praça de Brasília — mas mantendo forte vínculo com a Zona Oeste do Rio, onde nasceu e voltou a morar depois de “andar por aí”.

A arte sempre foi um dom. E era com facilidade que ele conseguia tirar som de qualquer objeto, captar novos ritmos ou mesmo inventar instrumentos musicais, assim como desenhar, pintar e esculpir. “Na escola, eu me sentava na última fila, pra ninguém me incomodar. E ficava lá, desenhando…”, conta Mestre Saul. A admiração e o amor que tinha pelo pai quase o fizeram seguir a carreira militar, mas a consciência do quanto a brutalidade da profissão teve parte nos problemas psicológicos do PM bastou para matar a ideia, embora seu alvo fossem as bandas militares.

Nos anos 50, Saul estudou pintura com o professor Daniel Diniz da Fonseca em Campo Grande — na União Rural de Belas Artes (Urba) — e mais tarde aprendeu escultura na Escola Nacional de Belas Artes. Sempre cavando a oportunidade: “Eu passava pela Urba e admirava aquele professor de boina, com suas cartolinas nas mãos. Um dia perdi a timidez, entrei e perguntei se podia estudar lá. Ele disse: traz bloco de desenho e lápis amanhã. Foi assim que eu comecei a estudar arte”, lembra Mestre Saul, que anos mais tarde aplicou a mesma estratégia na Escola Nacional de Belas Artes.

Conseguir viver da arte, porém, não foi fácil. Ele encarou todo tipo de trabalho para se sustentar (vendedor, ourives, gráfico), enquanto continuava pintando, esculpindo e tocando os ritmos cubanos que o seduziam. Integrou a orquestra Ivo Fontes e seus Melódicos, tocou com o saxofonista Booker Pittman, viveu a boemia ao lado de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves… Boemia que hoje lembra com nostalgia, mas também com certa amargura: “Eu bebia demais, e olhando para trás vejo que perdi muito por causa disso”.

Mestre Saul trabalhou na Editora Bloch (primeiro na linha de produção da gráfica, depois restaurando negativos de fotos para a Revista Manchete), transferiu-se para a Abril, em São Paulo, e viveu longo período em Embu das Artes, onde exerceu mais intensamente as atividades de pintor e escultor. Voltou ao Rio nos anos 70, teve ateliê próprio, deu aula de arte em muitas escolas e enveredou por outras carreiras como a de cenógrafo e carnavalesco. Sempre fazendo arte.

Quando pergunto quantos quadros e esculturas assinou, o mestre faz um gesto de “impossível saber”, mas garante que foram centenas. Presenteados ou vendidos por quantias muitas vezes simbólicas: “Nunca fui vendedor de arte, tinha prazer de fazer quando a pessoa pedia. Sou muito mais artista do que comerciante”. Aos 76 anos, o veterano artista vive hoje numa modesta casa em Guaratiba, onde continua pintando: prepara uma série de quadros sobre a história de Campo Grande e Santa Cruz, para uma exposição.

E a fama que tanto buscava? “Fui saber agora que sou famoso. Por onde eu passo, todo mundo me conhece. Acho que só agora vi tudo o que já fiz”, filosofa o artista, admirando um retrato que pintou do botânico Freire Alemão. E revela mais um desejo: quem sabe, um dia, reunir em exposição parte de sua obra que está espalhada por aí, em casas, prédios, coleções particulares?

Texto de Tania Neves
emfoco@feuc.br

Fonte: 

14.6.17

Conheça o Era Virtual, um projeto pioneiro de visita virtual aos museus brasileiros



Conheça o Era Virtual, um projeto pioneiro de visitas pela internet com visualização em 360º dos museus brasileiros e seus acervos. Entre nessa viagem surpreendente e conheça  a beleza do nosso rico patrimônio cultural. Para conhecer navegar é preciso. Clique aqui e veja mais: http://www.eravirtual.org/mo_br/

29.5.17

Pedalando pela História de Santa Cruz, RJ

Divulgando mais um evento sobre Santa Cruz nos seus 450 anos. Um bairro com muita história! Apoio Claudinho do Som e Reinaldo Azevedo.  

28.5.17

A Lenda da Pedra da Cruz

Este documento foi um dos primeiros a mostrar a expansão do povoamento da cidade às margens da Baía de Guanabara. E foi nessa orla que aconteceu a nossa história de hoje, resgatando a origem de um local que está quase esquecido dos cariocas.
 
Você já ouvir falar do Engenho da Pedra? Era uma enorme fazenda que abrangia os atuais bairros de Olaria, Ramos, Bonsucesso e parte de Manguinhos, ocupando a maior faixa do Mar de Inhaúma, entre o porto de Maria Angu (Ramos) e a Ponta do Caju. O engenho era favorecido pelos rios Faria e Timbó para navegação e irrigação das lavouras.

O nome "da Pedra" refere-se a uma certa rocha no mar (uma laje), indicada por João Teixeira Albernaz no mapa acima e que era utilizada como referência à localização do engenho. Essa pedra existe ainda hoje, no canal entre o litoral de Ramos e a Ilha do Governador.

Geração após geração, desde meados do século 18, os pescadores da região vêm repassando a lenda da laje, que também ficou conhecida como "Pedra da Cruz". Eles contam que nela havia uma cruz de ferro de um metro de altura, colocada pelos pescadores como marco de um naufrágio que aconteceu no regresso de um casamento realizado na Igreja da Penha.

Um temporal surpreendeu os navegantes nesse terrível canal marítimo. A preamar havia ocultado algumas pedras, submergindo-as, e o barco foi de encontro a elas, afundando. Morreram os noivos e os convidados, salvando-se somente um remador, que narrou a tragédia.

Em 1638, as terras do Engenho da Pedra foram designadas como fazenda e abrigavam também uma capela dedicada a Santo Antônio. Da antiga casa-sede restam algumas ruínas, que foram ocupadas pela Favela da Igrejinha, na elevação onde está a Igreja de N. Sr.ª da Conceição de Ramos.

Notas

1) O círculo vermelho no mapa acima indica a Pedra da Cruz.
2) Mapa aquarelado, com toques a ouro, sobre papel encorpado - 25x37 cm - in Livro de Toda a Costa da Província de Santa Cruz, 1666.

Texto de Celso Serqueira.

7.5.17

Contribuição à história do subúrbio carioca

Bonde Madureira - Irajá. Ano 1937 Foto de Augusto Malta
Dentre os inúmeros viajantes que contribuíram para o conhecimento da região Sudeste do Brasil no início do século XIX, destaca-se o botânico Auguste de Saint-Hilaire, publicando na Europa o resultado de suas pesquisas. Permanecendo nesse país durante os anos de 1816 a 1822, iniciou sua viagem partindo do Rio de Janeiro visitando várias Províncias, colhendo material botânico e zoológico, registrando observações de interesse histórico, geográfico e etnográfico.

Acompanhado do cônsul geral da Rússia no Brasil Sr. George Von  Langsdorff, que em setembro de 1916 havia comprado a fazenda Mandioca em Inhomirim, na Baixada Fluminense, iniciaram a viagem no dia 7 de dezembro do mesmo ano, seguindo numa pequena tropa de muares, “um negro e um mulato que pertenciam ao Sr. Ildefonso”, responsável pela expedição.
 
Prosseguindo pelo “Caminho de Terra” passaram diante do palácio São Cristóvão, cuja visão à direita era a Baia de Guanabara e à esquerda “um vale semeado de colinas e casas de campo”, tendo ao fundo as montanhas da Tijuca cobertas de matas virgens. “Talvez cousa alguma no mundo se compare em beleza aos arredores do Rio de Janeiro” diz Saint-Hilaire, elogiando as florestas “tão velhas como o mundo”, e “que todos os meses do ano estão ornadas de flores vistosas”.
 
Descrevendo a estrada que saía da Capital, o botânico afirma que durante duas léguas “não deixamos de encontrar homens a pé e a cavalo, e negros que conduziam descarregados os cargueiros que pela manhã haviam levado à cidade com provisões”. Em meio à poeira “rebanhos de bois e varas de porcos tocados por mineiros avançavam lentamente”. Nas tabernas o ruído dos escravos era ensurdecedor, misturado aos “homens livres de classe inferior.”
 
INHAÚMA

Depois de caminharem duas léguas os viajantes avistaram a paróquia de São Tiago de Inhaúma, cujo edifício “construído isoladamente sobre uma plataforma, de onde se descortina um panorama muito agradável”. Comentando sobre essa denominação, Saint-Hilaire explica que: “Inhaúma, não passa provavelmente, duma corrupção de inhuma que se dá no Brasil, à ave curiosa que os naturalistas chamam de “palamedea cornuta”... é provável que tal ave, hoje em dia extremamente rara fosse outrora muito comum; mas foi dizimada com o fito de obter-se essa saliência córnea que traz à cabeça e à  qual se atribuem virtudes imaginarias.”
 
Surpreso com a densidade populacional da região, o viajante comenta que a “paróquia de Inhaúma, cujo raio não é maior que meia légua, conta com duzentos fogos (casas) e mil e seiscentos habitantes adultos”, revelando que ninguém ficava bastante afastado da Igreja, incluindo as tabernas às margens do caminho. “Artífices, mercadores, botequineiros, tratam também de se aproximar do local em que se reúnem os proprietários, e é assim que se formam, na maioria, as povoações do interior”.              

Ao se afastarem de Inhaúma, as habitações e as tabernas na beira da estrada iam rareando, encontrando-se menos terrenos cultivados. “Os bosques tornam-se mais comuns, e como uma vez mais nos aproximamos das montanhas, o aspecto da região toma caráter mais grave”.
 
IRAJÁ

Continuando a viagem os caminhantes foram dormir em Irajá, “outra paróquia mais importante”. Ali chegando admiraram-se de ver uma casa toda iluminada por numerosas lanternas de papel, cujo dono era devoto de N. S. da Conceição sua padroeira, antecipando-se à festa que haveria em sua homenagem no dia seguinte. 

No outro dia, ao acordarem pela manhã, foram surpreendidos à porta da casa, com um grupo de “doze ou quinze” índios Coroados, homens e mulheres, que estavam de passagem em direção ao Rio de Janeiro, “para reclamar do Rei uma légua quadrada de terras em que desejavam se estabelecer e da qual pretendiam expulsá-los. Não sei o que foi feito deles, mas é provável que ninguém tenha ligado a menor consideração às suas queixas”.    
 
Após arrumarem a bagagem nos animais, a pequena tropa continuou sua marcha para atravessar o leito do rio Meriti, em busca de Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga (Nova Iguaçu) novamente despertando admiração de Saint Hilaire a flora que compunha as matas à margem do caminho: “depois de Irajá o caminho torna-se menos igual e em alguns lugares corta-se terrenos pantanosos em que florescem várias “Ponteiderias”, belas “Sagittarias” e “Rhexias’ ornadas de lindas flores”. Nas capoeiras um pouco mais úmidas, observei a espécie de “Bignoneácea” que chamam vulgarmente ipê, ... estava então coberta com uma intensidade de belas flores amarelas que a faziam notar de longe”. Ao sair do Rio de Janeiro, o botânico registra o fim das chácaras em volta das casas e o início dos canaviais circulando os engenhos de açúcar, que fumegavam tocados pelo braço escravo, “em número de cinco na paróquia de Inhaúma, e já em Irajá atingem a doze, e onze na de Santo Antônio de Jacutinga, paróquia que vem depois de Irajá, e cujas terras baixas e úmidas convém perfeitamente à cultura da cana-de-açúcar”.
 
UM POUCO DA HISTÓRIA DE INHAÚMA

Segundo Monsenhor Pizarro registrou ainda no período colonial, em Inhaúma se acha a Paroquial Igreja de São Tiago, cujo templo foi fundado por Custódio Coelho e doado em 1684, por Agostinho Pimenta de Morais ao Vigário Geral, Clemente Martins de Matos, para ser Capela Curada do território de Inhaúma. Se desunindo da Freguesia de N. S. da Apresentação de Irajá, seu primeiro pároco foi o padre Francisco Galvão Taborda, desde que essa Igreja entrou na categoria de perpétua em 27 de janeiro de 1743. Reconstruída com paredes de pedra e cal em 1780, pelo vigário Padre Antônio da Fonseca Pinto, seu interior era composto de três altares sendo o maior, ao centro, dedicado ao Santíssimo Seus limites assinalavam a Freguesia de N. S. da Apresentação de Irajá e S. Francisco Xavier do Engenho Velho, havendo duas Capelas filiadas: A 1ª. de Santo Antônio, fundada na fazenda da Pedra antes do ano de 1638. A 2ª. de Santa Ana, nas proximidades da Matriz.
 
“Cinco fábricas de açúcar e algumas olarias subsistem nesse território”, diz monsenhor Pizarro, “cultivado com cana doce, mandioca, milho, feijão, vários legumes, arroz, café, cacau, hortaliça e arvores de espinho frutíferas”. A produção “mais pesada” era conduzida através dos portos da Olaria e das Mangueiras, ou as praias de Maria Angu e de Inhaúma, sendo os gêneros de fácil condução transportados pelo “caminho de terra firme”. Fertilizado por  “dois pequenos riachos” que atravessavam a região, denominados por Farinha e Gombitimbó, ambos mansos em tempo seco mas “temíveis e soberbos em estações chuvosas, em que negam passagem aos viandantes”.
 
Segundo Theodoro Sampaio em uma versão mais consistente, Inhaúma é uma corruptela de “nhan-um”, ave preta (palmidia cornuta), habitante de lugares pantanosos. Vieira Fazenda registra que esta região figura nas cartas de sesmarias cedida aos jesuítas em 1555 por Estácio de Sá: “cem braças ao largo do mar, e mil pela a terra adentro da tapera de Inhaúma. É de concluir-se, pois que Inhaúma teria sido uma aldeia de tupinambás, pelo que se chamara antes “Tapera”.
 
Brasil Gerson nos dá outra versão dizendo que Inhaúma era o mesmo que barro de olaria, afirmando que “durante algum tempo na sua vasta Freguesia predominaram a cana de açúcar e outras lavouras”, dedicando-se também ao fabrico de tijolos e telhas, nas inúmeras cerâmicas que se espalhavam em seu território. As cartas do século XVIII assinalam no litoral dessa região, o nome da grande Freguesia várias vezes repetidas: “Porto de Inhaúma; Saco de Inhaúma; Bonsucesso de Inhaúma; etc.” Onde seis anos depois os jesuítas abriram caminho afastando-se para o interior em busca das regiões secas, e estabelecer lavouras e engenho. 

CRISTÃOS NOVOS

Antes de prosseguirmos contando um pouco da história de Inhaúma, queremos chamar atenção para a ocupação de “cristãos novos” (Judeus convertidos ao catolicismo) nessa região, desde o século XVII. 

Divididas em freguesias por seu caráter religioso, o recôncavo fazia-se presente na economia da capitania, criando na parte ocidental da Baia, as freguesias de Irajá, São João Baptista de Meriti, Jacutinga, Campo Grande e Jacarepaguá. As roças de mandioca para atender os engenhos de farinha, o milho, as hortaliças e as frutas também faziam parte desse celeiro, beneficiado pelo solo humoso, fertilizado pelo leque de rios, que serviam de escoamento da colheita abundante em direção ao Rio de Janeiro. Criação de gado, engenhos de aguardente, olarias e extração de lenha, completavam a atividade dessa gente  que se instalavam na cidade, e tinham como fonte de renda, o campo.

Segundo o padre José de Anchieta, no final do século XVI, 3.850 almas faziam parte dessa população" sendo três mil de índios, setecentos portugueses e uma centena de negros africanos". Durante o século seguinte, a riqueza que se acumulava com uma economia essencialmente agrária, criou a figura do senhor de engenho, "lavradores de partido, e homens brancos que exerciam funções técnicas nos engenhos, como mestre de açúcar, e nas cidades eram artesãos, intermediários na exportação, importadores de bens de consumo e escravos, pertencente aos quadros da burocracia colonial, e os profissionais liberais, como advogados e médicos”, compunham o alvorecer dessa burguesia fluminense. 

Constituindo essa pequena população branca, "os Lucena, os Cardoso e os Barros, tinham seu lugar como proprietários de terras" fazendo parte, durante o século XVIII "do grupo dos "homens bons" e participantes da burocracia colonial", diz Lina Gorenstein. Combinando atividade agrária no campo com a burocrática na cidade, os cristão s novos valiam-se dos familiares para administrar o engenho. Era impossível "dissociar esse grupo urbano, daquele ligado a produção do açúcar: assim, essa incipiente burguesia cristã nova fluminense do início do século, tinha raízes na grande propriedade agrícola monocultora e escravista do açúcar, com o qual se encontrava profundamente relacionada".

A propriedade da terra no recôncavo, foi desde cedo, cedida a cristãos novos, Antonio de Lucena recebeu do governador Salvador Correia de Sá, "uns chãos devolutos", segundo as "cartas de sesmarias do Rio de Janeiro (1595-1606) também a Diogo de Montarroio, Manoel Gomes, Miguel Cardoso e Antonio de Barros, casado com Dona Brites Lucena". O mais antigo engenho de cristãos novos no Rio de Janeiro, do qual existe descrição, segundo Gorenstein, "pertencia a Sebastião de Lucena Montarroio e sua esposa Beatriz de Paredes, em meados do século XVII. Era um engenho de três paus em Maragoí, sob a invocação de N. Sra. do Rosário, coberto de telhas e com moenda".
 
Com a construção de uma capela dedicada a N. Sra. da Apresentação, nos arredores do Rio de Janeiro, era criada em 1647 a freguesia do Irajá, pelo padre Gaspar da Costa, tornando-se paróquia independente no mesmo ano. Ocupada por vários engenhos de açúcar, "Irajá parece ter sido preferida por muitos dos cristãos novos que no Rio de Janeiro se dedicaram a atividades agrícolas, tais como os Paredes e os Ximenes”, diz Vivaldo Coraci.
 
Em São João de Meriti, paróquia também criada em 1647 com a denominação de Trairaponga, tinha por limites ao norte, a freguesia de Jacutinga ao sul a de Irajá, a oeste com Campo Grande e a leste com a baia de Guanabara. A presença  de  cristãos  novos  nessa região, foi  bastante  intensa  durante todo o  século XVII, "Alexandre Soares pereira era dono de um engenho no sitio da Pavuna, em São João de Meriti, engenho herdado de seu pai João Soares Pereira. José Gomes Silva, homem de negócios, contratador, era também senhor de engenho em Meriti, tendo como sócio o Capitão Pereira Galvão". João Correia Ximenes, casado com Brites de Paredes, filha do senhor de engenho Agostinho de Paredes, "era senhor de engenho em Meriti, com escravos, boa fábrica, e sem gados". 

Nesta freguesia João Correia Ximenes ergueu uma capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, antes de 1708, no porto da freguesia. Cerca de 30 senhores de engenhos foram denunciados ou presos nesta paróquia, diz Lina Gorenstein, "vários desses senhores eram aparentados" com proprietários de outros engenhos que se aninhavam nos vales do Meriti, Irajá, Sarapuí, Iguaçu e em Jacarepaguá, aliados com os lavradores "de partido", membros da família, ou "da nação".  Esses lavradores arrendavam terras para o plantio de cana ou mandioca e usavam o engenho do proprietário para moagem, deixando como pagamento parte de sua colheita.
 
O PÁROCO DE INHAÚMA

Vieira Fazenda informa que embora os engenhos de farinha e açúcar já produzissem no início do século XVII, “a fazenda de Inhaúma só se tornou paróquia em 1687,” graças a construção da capela feita por Agostinho Pimenta de Morais, “templo esse levantado nas terras de Custódio Coelho, em louvor a Nossa Senhora da Conceição”. Em seu altar, recebeu a imagem de São Thiago Mayor, vinda da Espanha, cujo primeiro vigário foi o padre Clemente Martins de Matos. Esse sacerdote era judeu.  Formado em Direito Canônico, teve que fugir de Portugal para não cair nas garras do “Santo Ofício” no final do seiscentos, quando eram mais terríveis a caça às comunidades judaicas para serem “julgados” e sacrificados no fogo da Inquisição. “Peregrinou por vários países da Europa até chegar em Roma. Homem de talento, inteligente, dinâmico” e, apesar de não ter “sangue limpo”, padre Clemente soube penitenciar-se diante do poder papal e receber seu aval para exercer o sacerdócio numa colônia bem distante da Europa. Viajando para o Rio de Janeiro foi designado para a Paróquia de Inhaúma “à qual deu muitos benefícios de sua piedade e de sua bolsa”, onde permaneceu por alguns anos sem ser “incomodado”.

ENGENHO DA RAINHA

A moradia do Engenho da Rainha já existia quando D. Carlota Joaquina, esposa de D. João VI a comprou depois de sua chegada em 1808. Segundo Brasil Gerson em sua “História das Ruas do Rio de Janeiro”, essa grande casa pertencia a Freguesia de Inhaúma e apesar de composta de um só pavimento, “dispunha de 15 quartos, e diante delas via-se 2 fileiras de esguias palmeiras, numa pequena elevação até onde chegaria à Rua D. Luísa. O engenho era embaixo, na planície”.

Descendentes do Coronel Joaquim de Souza Pereira Botafogo, último de seus proprietários já no final do Segundo Império, quando Inhaúma havia perdido “fazia muito, a sua velha riqueza agrícola, da qual havia participado também os jesuítas à partir do século XVIII, lembravam-se do resto do fausto Real deixado sob seu teto. Coisa assim como a cama da Rainha, de grossos pés de madeira esculpida; uma carruagem que a trazia do porto de Inhaúma;  fardas de seus soldados e cocheiros, e as iniciais da Casa Real num marco de pedra à sua porta”.

RIOS, CAMINHOS E POVOADOS.

No Dicionário Histórico e Geográfico de Moreira Pinto publicado no final do Império, encontramos detalhes do Rio Inhaúma, que nascia nas vertentes das serras que se formam a Oeste da cidade recebendo o pequeno rio Faria, e despejava suas águas na baia de Guanabara atrás da ponta do Caju chamada de baia de Inhaúma. “Apesar de pouco importante, este rio deve orgulhar-se de ter o seu nome ligado ao herói da guerra do Paraguai, nas batalhas Curupaity e Humaytá, o almirante Joaquim José Ignácio, que possuía uma modesta propriedade junto a sua embocadura”.
       
No mesmo dicionário vemos os limites dessa freguesia: ao Norte limita-se com as Freguesias de São Cristóvão e Engenho Novo; ao Sul com a de Irajá; a Este com a de Jacarepaguá e a Oeste com o mar. “Conta com sete centros populosos: Cascadura, Cupertino, Encantado, Engenho de Dentro, Pilares e Praia Pequena. Possui uma linha de bondes (tração animal), um hospital e duas capelas. A Igreja Matriz conta com a invocação de São Thiago; ao lado dela fica o cemitério em péssimas condições tanto em tamanho como em asseio”.

O livro assinala os “prédios nobres da Freguesia”: As oficinas da Est. de Ferro Central do Brasil; a fábrica de fósforo; a olaria José dos Reis; a fábrica São Lázaro; a Sociedade Particular de Música Progresso do Engenho de Dentro; a Escola Pública dos Operários; o palacete D. Silvana no Encantado; o Hospício de N. Sra. das Dores, em Cascadura.

Faziam parte os seguintes povoados e lugarejos: Apicú, Amparo, Amorim, Arraial dos Bíblias, Amazonas, Braz de Pina, Barreiros, Bomsucesso, Cascadura, Coqueiros, Capão do Bispo, Caneleira, Cardoso, Cupertino, Catete, Engenho de Dentro, Engenho da Pedra, Engenho do Mato,  Engenho da Rainha, Freguesia, Frecheiras, Itaguati, Juramento, Maria Angú, Manguinhos, Madalena, Olaria, Oficinas, Piedade, Pilares, Praia Pequena, Pedra do Juramento, Pedreiras, Ramos, Tabôa, Serra do Urubú, Tererê, Terra Nova, Vendinha, Viana, Venda Grande e Zumbá.
             
Os caminhos mais importantes eram: Estrada da Penha, Estrada da Freguesia, Estrada de Santa Cruz, Estrada das Oficinas, Estrada da Pavuna, Estrada de Todos os Santos. Alguns portos também faziam parte dessa Freguesia: Porto da Pedra, Porto de Inhaúma, Porto do Mocanguê e Porto de Maria Angú. 

Estabelecendo pequenos portos fluviais e nas praias urbanas da baia de Guanabara, durante os primeiros séculos de ocupação intensificou-se o curso de cabotagem com barcos e faluas que transportavam a produção dos engenhos periféricos do “sertão carioca”. À foz e ao longo dos rios Meriti, Irajá e Inhaúma, o intenso movimento de mercadorias e passageiros, misturavam-se com pescadores que iam vender sua mercadoria a população mais afastada do litoral.

Os caminhos de penetração em direção ao Norte deve-se a expansão dos engenhos e roças que se estabeleceram entre São Cristóvão, Inhaúma, Irajá, Pavuna e Santa Cruz. “O caminho de Itaoca que no Bonsucesso de hoje se prolongava até as praias de Inhaúma, Apicú e Maria Angu”, era a continuação dos caminhos de Manguinhos, Inhaúma e Engenho da Pedra, alcançando o Porto Velho de Irajá através da estrada do Quitungo.        

ESTRADA  REAL

Em 1725, o coronel Rodrigo César de Meneses recebeu da Coroa, autorização para abrir um caminho terrestre que ligasse o Rio de Janeiro à São Paulo, aproveitando a trilha já aberta pelos jesuítas desde São Cristóvão ate a fazenda de Santa Cruz, o que suscitou protestos dos Inacianos alegando prejuízos. Entretanto o trabalho continuou e a estrada foi concluída em 1754. Anteriormente também conhecida como estrada das Minas, devido a crença dos primeiros habitantes, que haviam encontrado ouro nas nascentes do rio Guandu, pertencentes aos jesuítas. Com uma extensão de mais de 60 quilômetros, esse caminho longo e sinuoso começava no atual largo da Cancela em São Cristóvão, e terminava nos campos alagados de Santa Cruz. Passando por vários engenhos pertencentes a freguesia de Irajá, era usada para o transporte de produtos da lavoura, e cerca de 500 cabeças  de gado anuais, que os jesuítas enviavam para venda e destinados a manutenção do Colégio no Rio de Janeiro, pertencente à Ordem.
 
Na Carta Topográfica do Rio de Janeiro ”Feita por ordem do Conde da Cunha, por Manoel Vieira Leão” em 1767, vê-se o trecho fluminense dessa estrada que, partindo do centro urbano seguia por Campinho, Engenho dos Afonsos e inúmeros outro engenhos. Passando pela freguesia de Santa Cruz, (assinalado no mapa por eng. D’el Rei, pois os inacianos haviam sido expulsos em 1759), Guarda, sobre o rio Guandú, e Itaguaí, deixando o litoral em busca da Guarda do Pouso Frio, Ribeirão das Lages, Pouso do Vigário (rio Piraí) e a Guarda do Coutinho, entrando no sertão paulista através de  florestas.
 
No mapa de João Jorge Lobo, datado de 1778, essa estrada saía do centro da cidade com o nome de Caminho de Inhaúma, passava pelo engenho do Fr. Miguel em Campo Grande, Santa Cruz, Guarda da Ponte no rio Taquarí, Pouso Frio, Caveiras, São João Marcos, Passa-Vinte, Passa Três e Guarda do Coutinho entrando na Capitania de São Paulo pela região registrada no mapa como sertão. Em outro mapa datado de 1801 “da Capitania do Rio de Janeiro oferecido a D. Antônio Roiz de Aguiar”, a estrada de Santa Cruz inicia-se no Caminho de Terra Firme entre as terras do Eng. Novo e os “Campos de Irajá”, até atravessar a fazenda, assinalado no mapa com o nome de Santa Cruz D’el Rei. 
 
Por essas terras transitou com suas tropas em 1710 o Capitão-de-Fragata francês Jean François du Clerc, comandando todo o corpo de uma esquadra composta de cinco navios de guerra e 1500 homens para atacar o Rio de Janeiro, desembarcados em Guaratiba. Segundo um manuscrito da biblioteca da Ajuda em Portugal referindo-se a essa invasão: “Guaratiba era um porto que fica perto da Vila da Ilha Grande 4 léguas por terra à cidade, a qual não tinha muita resistência por ser pouco capaz de desembarque, e só os moradores que ali se achavam com os seus negros lhe deram algumas cargas de mosquetaria e se retiraram”. 

O Governador do Rio de Janeiro, Coronel Francisco de Castro Morais assinala em seu relatório, que os franceses continuaram por terra “vencendo os embaraços do caminho até alcançarem o engenho dos padres da Companhia”. Em outra versão, os franceses seguiram para a cidade “guiados por negros fugitivos das casas de seus senhores...vindas da Ilha Grande pela Guaratiba, submeteram a ruínas e destruições os Engenhos da Vargem Grande e do Camori”.
 
O CASO DA FREGUESIA

Ainda no período do Império havia um colégio no Caminho dos Pilares (hoje rua Álvaro Miranda), do Prof. Cintra Vidal, que segundo Brasil Gerson, no largo, perto da escola, ficava a Venda dos Pilares, dizendo-se na versão popular que essa “era uma denominação inspirada nuns adornos de pedra que enfeitavam a casa do vendeiro e muito se destacavam”.
   
Os rios assoreados e os portos já desnecessários com a abertura dos caminhos perderam sua importância também com a extinção da produção de farinha, açúcar e aguardente. As engenhocas abandonadas eram presas fáceis do matagal, que invadia seus terreiros num abraço mortal. Em lugar das lavouras apareceram algumas pequenas indústrias como a cerâmica de José Moutinho dos Reis no lugar que ficou conhecido como Olaria.

Em Terra Nova e Pilares onde o trem passava, o casario se agrupava desmembrando-se da grande paróquia, perdendo aos poucos várias localidades de sua jurisdição que alcançava Benfica e São Cristóvão. Partindo daí, “o Caminho de Inhaúma se alarga. A estrada da Freguesia melhora”. Surge a Av. Automóvel Club no início do século XX. “Valorizam-se as terras à beira da tradicional Estrada Velha da Pavuna. A igreja ganha uma bonita praça antes chamada Adolpho Bergamine, depois: 24 de Outubro. Na Rua Padre Januário, em sede própria, funcionou durante muitos anos, o Grêmio Dramático de Inhaúma, animando as tardes domingueiras com espetáculos teatrais que atraíam grande parte da população.”

“Os bondes puxados por uma parelha de burros e dois vagões que faziam o trajeto Madureira-Inhaúma, também alcançavam a Penha através de Irajá”, diz em depoimento oral dona Maria Perez, que durante a década de vinte, fez esse trajeto muitas vezes com sua família para acompanhar enterros no cemitério de Inhaúma, ou participar das festas de outubro na igreja da Penha. No final da década de trinta, esses veículos foram substituídos por tração elétrica, deixando na saudade das pessoas mais velhas da região, a visão bucólica das pequenas cidades do interior, que no passado abrangiam a enorme região de Inhaúma, hoje limitado a um pequeno conjunto de casas aninhadas em torno de sua matriz.     

BIBLIOGRAFIA:

GERSON, Brasil – “O Ouro, o Café e o Rio”. Editora Brasiliana, 1970 – Rio.
SAINT-HILAIRE, Auguste de – “Viagem pela Província do Rio de Janeiro e Minas Gerais” – Ed. Itatiaia1975 - SP. 
GERSON, Brasil – “Histórias das Ruas do Rio” - 5ª. Edição. Lacerda Editores – 2000 - RJ 
VIEIRA FAZENDA, José - “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro”. Rev. do I.H.G.B.- V. 142 – 1940 – RJ.
SILVA, Moacir    - “Kilometro Zero” - 1934 – RJ.
PIZARRO e Araújo, José de Souza Azevedo – “Memórias Históricas do Rio de Janeiro” – I.N.L. – Imprensa Nacional, 1945 – RJ.
COARACY, Vivaldo  - “O Rio de Janeiro  no Século Dezessete”. José Olympio Editora – 1965 – RJ.
FERREIRA da Silva, Lina Gorenstein – “Heréticos e Impuros”. Col. Biblioteca Carioca – 1995 - RJ.
FRAGOSO, Augusto Tasso – “Os Franceses no Rio de Janeiro”. Biblioteca do Exército – 1965 - RJ.
Depoimento oral: D. Maria Perez, moradora em Duque de Caxias.

Nilton Bravo (1937-2005), O Michelangelo dos Botequins

Um dos painéis de Nilton Bravo tombado pela Prefeitura no Bar Sulista, na Praça Coronel Assunção, 357 (Gamboa) Nilton Bravo (1937-2...