sábado, 14 de setembro de 2019

A formação do bairro de Santa Cruz


Nessa matéria especial da Record TV, o Professor Lúcio Brandão conta um pouco da formação do bairro de Santa Cruz.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Islã Proibido - A Revolta dos Malês na Bahia



Rebelião liderada por negros muçulmanos marcou a reação á intransigência religiosa das autoridades brasileiras.

Desde os tempos coloniais até a Proclamação da República em 1889, o Brasil tinha uma, e apenas uma, religião oficial: o catolicismo. Reuniões religiosas, especialmente envolvendo negros, eram consideradas caso de policia. De acordo com o perfil das autoridades, a repressão era maior ou menor. Acreditava-se que encontros religiosos pudessem fomentar a organização dos escravos – e a ordem era proibir reuniões públicas. Em 1805, dom Jõao de Saldanha da Gama Melo e Torres Guedes de Brito, o conde da Ponte, tomou posse como governador da capitania da Bahia. Durante sua gestão, havia o toque de recolher ás ave-marias. Qualquer negro pego nas ruas sem um passe era condenado a 150 chibatadas. Também tratou de destruir quilombos e a reprimir os batuques animistas e práticas islâmicas.

‘’O conde da Ponte usou mão de ferro no combate a tudo quanto era manifestação negra, religiosa ou lúdica. Foi sucedido pelo conde dos Arcos, que liberou o batuque porque achava que descomprimia a ‘’panela de pressão’’, diz o historiador João José dos Reis, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que escreveu Rebelião Escrava no Brasil – A História do Levante dos Malês em 1835. ‘’A repressão a religião escrava não era política coerente, nem da parte dos senhores nem das autoridades; entre ambos os grupos haviam os defensores do porrete e da negociação. embora muitas vezes mudassem de lado’’. Entre a sístole a diástole repressiva. os maiores perseguidos eramo os animistas, seus batuques e terreiros- curiosamente, a religião se perpetuaria na Bahia justamente por meio do sincretismo com os santos da igreja católica.

A relação entre poder e fé estava registrada na letra da lei. A primeira Constituição Brasileira, logo em seu artigo 5º, cravava: ‘’ A religião católica apostolica romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do templo’’.

‘’Religões ou practicas religiosas que não fossem o catolicismo oficial eram automaticamente colocadas fora da lei’’, diz o historiador José Antônio Teofilo Cairus, da universidade do estado de Santa Catarina ( Udesc). Foi o que ocorreu com os muçulmanos em Salvador em 1835. A Revolta dos Malês, a maior de negros urbanos no Brasil, teve inicio por causa da intransigencia religiosa. – A resposta foi uma tentativa de tomada do poder e da criação de um governo negro na Bahia.

Mesquita Derrubada

Menos de dois meses antes do levante, em novembro de 1834, os malês (palavra derivada do imale, muçulmano em iorubá) se reuniram numa mesquita domestica erguida na propriedade de Abraham Crabtree, no distrito de Vitória. Naquele dia, celebraram o Lailat al- Miraj, que festeja a acenção do profeta Muhammad ao céu. De origem inglesa. Crabtree havia permitido que dois de seus escravos, James e Diogo, construíssem uma palhoça no quintal de sua casa – portanto, respeitando o ‘’culto privado’’ constitucional.  Quando o inspetor de quarterão André Antônio Marques, antigo desafeto dos malês, interrompeu o evento e dispersou os convidados, mal podia imaginar que, em vez restaurar a ordem, estava prestes a deflagrar uma guerra. No dia seguinte, o juiz da freguesia de Vitória recomendou a Abraham que derrubasse a palhoça que servia de casa de oração aos negros islâmicos.

‘’Toda religião que não fosse crstã era vista como suspeita e disconfiança por senhores de escravos e chefes de policia. Por essa rasão, os muçulmanos se viam obrigados a professar sua fé em segredo’’, diz a historiadora Luciana da Cruz Brito, da Universidade de São Paulo (USP). Nas casas dos africanos libertos, os malês se reuniam, a portas fechadas, para fazer orações, ler passagens do Alcorão e celebrar festas do calendario muçulmano. Como sabiam ler e escrever em árabe, transmitiam esse conhecimento aos novos devotos. ‘’Os adeptos do Islam dedicavam as sextas-feiras, dia sagrado para os muçulmanos, á prece e á meditação. Nesse dia, usavam roupas brancas, costume islâmico que se generalisou na Bahia’’, observa o antropologo Caesar Sobreira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (URFPE). Na hora das refeições, os malês só consumiam alimentos preparados por mãos muçulmanas, não ingeriam carne de porco, proíbida pela religião, e jejuavam no mês sagrado do Ramadan, um dos pilares do Islam, pois acredita-se que nele foi revelado à Muhammad o Alcorão.

A religião foi determinante na escolha do dia 25 de Janeiro para o inicio do Levante. Para os católicos, a data é dedicada a Nossa Senhora da Guia e faz parte da festa do Senhor do Bonfim, umas das mais tradicionais de Salvador. Mas, para os muçulmanos é dia de comemorar Lailt al- Qadr, uma das festas que precedem o fim do Ramadã, e que pode ser traduzida como ‘’Noite do Decreto’’. Para se proteger do inimigo no dia do levante, os guerreiros islâmicos confeccionaram para si amuletos, com trechos do Alcorão escritos em árabe, como ‘’Ajude-nos contra aqueles que rejeitam a fé!’’.

Rápida e Mortal

Entre 1807 e 1830, a Bahia foi sacudida por incontaveis revoltas e conspirações escravas. Pelo menos 30, segundo os especialistas. Na rebelião de Maio de 1807, tida como a primeira de caráter religioso no país, os amotinados islâmicos pretendiam recolher as imagens da igrejas e queimá-las em praça pública. Noutra, em fevereiro de 1814, os rebeldes atearam fogo em 150 casas e mataram mais de 150 brancos, numa das mais violentas rebeliões de que se tem noticia no Brasil. Numa terceira, em dezembro de 1822, o levante terminou com a mais brutal punição imposta a escravos rebeldes: 52 deles foram executados. Mas, por que, então, a revolta de 1835 se destaca sobre as demais?

Reis atenta para o fato de que a Revolta dos Malês durou menos tempo que as outras. (certas rebeliões de 4 dias a 6 anos), vitimou um numero reduzido de adversários (segundo o chefe de policia Gonçalves Martins, 9 pessoas foram mortas pelos rebeldes) e quase não causou danos materiais (não houve casas ou plantações incendiadas, por exemplo). Mas ela ocorreu numa importante capital (e não na região do engenhos, o Reconcavo Baiano), o número de envolvidos foi alto (cerca de 600 insurgentes) e as baixas entre os rebeldes (mais de 70) chamam a atenção.

‘’Foi a revolta que mais documentos produziu, entre interrogatórios dos réus, depoimento das testemunhas e sentenças dos juizes, o que lhe conferiu maior visibilidade historiografica’’, justifica Reis.

Apesar de ter durado poucas horas e de não ter vingado como esperado, a revolta dos malês é um marcante exemplo da resistencia da população escravizada no Brasil. Segundo Luciana, o que faz dessa revolta um exemplo único foi seu sofisticado projeto politico e capacidade de articulação de seus líderes, que conseguiram arregimentar a população africana, tanto a liberta quanto a escravizada, em torno de um plano de instaurar uma nova ordem. Esses lideres, em reuniões secretas, transmitiam seu conhecimento (ler e escrever em árabe por exemplo) aos mais jovens. Ou seja, mais que uma rebelião religiosa, o que estava em jogo era um modelo politico no qual buscava-se vingar dos opressores. Imagine-se um malê, para quem até a prática da sua fé era tratada como ato subversivo.

Medo do Haiti

Na Salvador de 1835, cuja população era estimada em 65 mil habitantes, quatro em cada 10 moradores eram escravos. Ao contrario da maioria da revoltas e conspirações anteriores, a dos malês foi protagonizada por escravos urbanos, que não cortavam cana em engenhos, nem passavam a noite em senzalas. Pelo contrario. Desfrutavam de relativa liberdade e podiam até trabalhar fora. Os ‘’negros de ganho’’ exerciam os mais variados oficios: de barbeiro a artesão, de alfaiate a vendedor. Com o que ganhavam, pagavam uma (cota) diária ao senhor. Com o que sobrava, arcavam com as proprias despesas com roupa, comida e moradia. Alguns economizavam para comprar a alforria. O sonho de liberdade custava em torno de 500 mil reis e levava 10 anos para se tornar realidade. Os poucos que conseguiam prosperar se tornavam homens de negocio. Alguns desses, depois de libertos compravam seus proprios escravos.

Embora tenha fracassado, a Revolta dos Malês, para alguns historiadores, cumpriu importante papel na proibição do trafico negreiro para o Brasil, 15 anos depois. ‘’Mesmo antes do levante, autoridades ja defendiam que o comercio de africanos deveria terminar, por que trazia para o Brasil individuos que ameaçavam o sistema escravista. Havia o medo de que ocorresse o aqui uma revolta na dimenssão daquela que colocou fim á escravidão no Haiti’’, afirma Luciana. Apesar do perigo iminente de revolta, o tradico ainda era visto como fundamental para a agricultura exportadora, sobretudo a partir da década de 1830. ‘’Uma combinação entre pressão inglesa e o medo da revolta africana convenceu a elite politica a terminar definitivamente como o trafico em 1850, por meio de uma rígida legislação’’, afirma Reis.

Guerreiros do Profeta

Quanto ao seu lugar de origem, os negros africanos podiam ser divididos em ‘’bandos’’, oriundos da Africa Centro-Ocidental, que compreende Angola e Moçambique, e ‘’sudaneses’’, provenientes da Africa-Ocidental, que engloba Nigéria Benin. Se os os povos da Africa Centro-Ocidental, como congos, cabindas, e banguelas, entre outros, se dedicavam á agricultura e ao pastoreio, as nações da Africa-Ocidental, como iorubás, haussás e tapas, só para citar algumas, exerciam atividades belicosas, eram arqueiros e cavaleiros. Entre os rebeldes que saíram ás ruas na madrugada do dia 25 de Janeiro, muitos ocupavam posição de liderança militar e travaram batalhas em seus países de origem. Não por acaso, o governador da captania da Bahia, João de Saldanha da Gama, o conde da Ponde, alertou, ainda em 1808, que a maioria dos africanos então importados representava ‘’um alto risco á paz escravocrata’’.

Ao longo da primeira metade do século 19, muitos dos negros traficados para a Bahia eram soldados capturados durante as Jihads. Diversos reinos da Africa-Ocidental viviam em guerra no Califado de Sokoto, um Estado muçulmano fundado em 1809 pelo xeique Usuman das Fodio, do grupo étinico Fulani, e que ocupou um vasto território situado no norte da atual Nigéria.

Inimigos em sua terra natal, esses prisioneiros de guerra tornaram-se aliados em solo baiano.

‘’Como os muçulmanos pertenciam a diferentes etnias, o Islam proporcionou a eles um sentimento de fraternidade. Tornou-se, por tanto, um elemento civilizatório que transformou heterogeneidade étnica em homogeneidade religiosa. Daí, cumprir os pilares da religião islâmica era importante para consolidação dessa nova comunidade multiétnica’’, afirma Sobreira.

O que Eles Queriam?

Ainda hoje, pelo menos duas perguntas continuam sem respostas. A primeira delas: o que pretendiam os lideres do levante? Libertar prisioneiros, tomar o poder ou instalar um Estado muçulmano na Bahia? Dificil saber. Segundo Reis, nenhum dos depoimentos ouvidos no autos ou dos documentos apreendidos pela policia deixou claro o objetivo dos revoltosos.. ‘’Há pálidos indícios de que os rebeldes pretendiam matar os brancos, pardos e criolos (negros nascidos no Brasil) e escravizar os mulatos’’, especula. Não se pode afirmar que o levante dos malês tenha sido uma revolta estritamente religiosa. Ao contrario do que ocorrera na rebelião de 1807, quando os revoltosos planejaram atacar igrejas e queimar imagens, nada foi declarado pelos rebeldes sobre perseguição religiosa aos derrotadas. ‘’Não foi em oposição ao cristianismo que o levante malê ocorreu, Foi em oposição à opressão’’, afirma.

Passado 180 anos, outra questão continua a intrigar os historiadores: O que teria acontecido se, em vez de fracassar, o levante dos malês tivesse vingando? ‘’Não temos detalhes do que pretendiam se fossem vitoriosos. Certo era que a Bahia malê seria uma nação controlada pelos africanos, tendo á frente os muçulmanos’’, cogita Reis. O historiador José Antônio Teofilo Cairus defende a tese de que, desde o inicio, a revolta dos malês estava fadada ao fracasso. O contingente de revoltosos era pequeno. E os amotinados não tinham armas nem munição em número suficiente para fazer frente ás forças do governo. ‘’Mesmo que tivessem conseguido tomar o poder ou, quem sabe, até insuflar os escravos rurais, que viviam na região dos engenhos, os líderes africanos seriam esmagados por tropas do governo em questão de dias’’, acredita Cairus. ‘’Eles não tinham escapatoria’’. Antes do fim do dia, 73 rebeldes já tinham tombado mortos e mais de 500 feitos prisioneiros.

Vingança Branca

‘’A vitória vem de Allah! A vitória está proxima! Boas-novas para os crentes!’’. Diferentemente do que prometia o texto em árabe encontrado dentre de um amuleto malê confiscado pela policia no dia da revolta, a tão esperada vitória não chegou. Os corpos dos 73 rebeldes mortos no campo de batalha foram jogados em valas comuns de um cemiterio local. Os mais de 500 insurgentes presos foram interrogados, julgados e sentenciados. As penas variavam de açoites para os escravos, á deportação para os libertos. 4 deles – Jorge, Pedro, Gonçalo e Joaquim, todos (soldados rasos) da rebelião – receberam a pena maxima. A execução, em praça pública foi marcada para o dia 14 de Maio. Dispostas a dar um castigo exemplar aos rebeldes, ás autoridades mandaram construir forcas novas no Campo da Polvora, em Salvador. Mas se esqueceram de um detalhe: contratar um carrasco para cumprir a tarefa. Na falta de um, os condenados tiveram que ser executados por um pelotão de fuzilamento improvisado com soldados municipais.

As penas de açoite também foram executadas com pompa. O horrendo espetáculo visava intimidar revoltosas em potencial. As vitimas eram despidas, amarradas a um tronco e, sob a vigilancia de guardas armados, açoitadas nas costas e nadegas. Alguns rebeldes foram condenados a 250 chibatadas – em geral 50 por dia. Outros como Licutan, encarcerado no dia do levante, mil, pelo menos um deles Narciso, não aguentou o castigo e morreu durante a execução de 1200 chibatadas. Para evitar que isso voltasse a acontecer, um médico era chamado ás preças para avaliar o estado de saúde do sentenciado. Dependendo de suas condições, o castigo podia ser temporariamente suspenso. As chibatadas, porém, não encerravam o castigo. Muitos escravos foram obrigados a usar gargalheiras de ferro em torno do pescoço ou correntes nos pés por dias, meses ou anos a fio.

Até os africanos que não participaram do levante foram submetidos a rigoroso controle e perseguição policial. A partir de então, todo escravo encontrado perambulando pelas ruas de Salvador depois das 8 da noite deveria trazer um ‘’passe’’, devidamente assinado pelo senhor, indicando a hora em que saíra de casa e a hora que deveria voltar. Quem não respeitasse o ‘’toque de recolher’’ estaría condenado a levar 50 chibatadas.

Um decreto assinado pelo chefe de policia, Gonçalves Martins ia além: autorizava a qualquer cidadão a dar voz de prisão a escravos que estivessem reunidos em numero de 4 ou mais. Reunir gente em casa por exemplo, estava terminantemente proibído aos negros. A mais absurda das medidas, porém, era a que obrigava aos senhores a ‘’converter’’ seus escravos ao catolicismo. Se não o fizessem no prazo máximo de 6 meses, seríam multados em 50 mil reis para cada ‘’escravo pagão’’.

O Abadá vai a Guerra

No tão esperado dia do levante, rebeldes sairam ás ruas vestidos de abadá – uma especie de camisolão folgado na cor branca. Por este motivo, as autoridades policiais costumavam se referir á bata islâmica como ‘’vestimenta de guerra’’ nos autos de devassa. Em tempos de paz, os malês procuravam usar os abadás em casa, em momentos de oração e outros ritos sagrados. Mas a indumentaria malê não estaria completa sem uma carapuça, algo semelhante a um turbante branco, cobrindo a cabeça. ‘’Hoje em dia, o uso do abadá tornou-se caracteristico do carnaval da Bahia’’, recorda Sobreria. ‘’Já o gorro com faixa branca virou item obrigatório entre os componentes do bloco Filhos de Gandhy’’, diz. Mas a influencia do povo malê na cultura brasileira vai além, muito além do turbante do abadá.

Segundo Reis, esse parentesco pode ser notado na cultura,  no vocabulário e até na culinária. Difundido no interior do Sergipe e de Alagoas, a dança do parafuso seria, na opinião de alguns historiadores, uma dança malê. Reza a tradição que, na calada da noite os escravos se disfarçavam de assombração para fugir dos capitães do mato. No vocabulário, Reis sita o exemplo ‘’mandinga’’. ‘’Dissionarizado como feitiço, o termo vem da bolsa de mandinga, amuleto muçulmano que os negros mandingos introduziaram no Brasil’’, detalha. Na culinária baiana, outra tradição Islamica atravessou o Atlântico. Trata-se do arroz de haussá. Como o nome ja diz e herança de um dos grupos étnicos mais islamizados da Africa-Ocidental. Prato favorito do escritor Jorge Amado, é feito sem sal, óleo ou tempero e cozido com bastante água.

No aspecto religioso não poderia ser diferente, na mitologia iorubá, Obatalá é o nome dado ao deus supremo, ‘’aquele que fecunda’’, abaixo apenas de Olorum, o criador do universo. No sincretismo religioso brasileiro, ganhou o nome de Oxalá ou Orixalá, orixá associado a figura de Jesus Cristo. Segundo Reis, as aproximações rituais e simbolicas são muitas. ‘’A cor branca do abadá e o uso da água pelos muçulmanos em cerimônias públicas e rituais privados são indicios desse parentesco’’, exemplifica. Cairus aponta outra hipótese para a origem etmológica do nome ‘’oxalá’’: a expressão árabe in sha Allah’’, em tradução livre ‘’se Deus quiser’’. ‘’São várias as Áfricas que conviveram na Bahia. Uma dessas Áfricas é Islamica’’, assegura o historiador.

Texto de André Bernardo.

Fonte: Revista Aventuras na História

Edição 141 – Abril 2015


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 10 de setembro de 2019

A paisagem carioca e suas muitas histórias


Panorama. Litografia do suíço Phillippe Benoist: visão do Centro em 1813.

A Biblioteca Nacional vai reunir em exposição inédita acervo de mapas, gravuras e fotos raras que contam todo o passado urbanístico e arquitetônico do Rio e as várias tentativas de organização do espaço urbano.

Após chegar ao Rio com a missão artística francesa, em 1815, o arquiteto parisiense Grandjean de Montigny traçou um plano urbanístico para o Centro da cidade, com passeios verdes e um eixo monumental ligando a Praça Quinze a uma área que batizou de Leopoldina, a poucos metros do Largo da Carioca. Todos os detalhes do projeto, com textos em francês escritos a bico de pena e desenhos feitos com aquarela, estão guardados pela Biblioteca Nacional há cerca de 200 anos. E vão poder ser vistos numa exposição inédita, de documentos raros, que começa a ser preparada pela instituição e que tem a ambição de contar, no ano que vem, a história da paisagem carioca.

Mapas e itens de iconografia mostrarão a evolução da cidade, dos tempos coloniais ao século XX, já que o acervo da biblioteca, com 9 milhões de itens, abrange os mais de 400 anos de Rio de Janeiro. A seleção do material ainda está no início, já que a exposição será montada para o Congresso Mundial de Arquitetos, em julho de 2020, mas a instituição adiantou ao GLOBO algumas dessas preciosidades.

- A Biblioteca Nacional é guardiã de um grande acervo da história do Rio, desde a sua criação até hoje, e, pela primeira vez, vai mostrar a evolução arquitetônica da cidade. São imagens —gravuras, mapas e fotos - raras e poucas vezes vistas pelo público - diz a presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo. Pelo percurso já elaborado para a exposição, a visita terá como ponto de partida a cidade de caráter barroco, que nasceu sem planejamento. Não havia grandes avenidas, as ruas não tinham traçados retos. “A cidade vai nascendo torta, serpenteando os morros, buscando espaços existentes. Era uma cidade de cortiços, insalubre, cheia de lagoas pestilentas”, destaca o plano da biblioteca. Dessa época, há uma perspectiva da “Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, de 1765, do artista e escritor inglês James Forbes, que desenhou o litoral do Centro com suas casinhas, torres de igrejas e os morros do Castelo e do Mosteiro de São Bento, tendo a cadeia de montanhas do Rio atrás, a partir de uma visão da Baía de Guanabara pontuada por embarcações à vela.

- O acervo da Biblioteca Nacional tem o registro de todas as fases da formação da cidade. Desde o século XVII, com a cartografia - ressalta o arquiteto - chefe do Núcleo de Arquitetura da Biblioteca Nacional, Luiz Antonio Lopes de Souza, que teve a ideia da exposição e mergulha hoje nesse acervo sobre o Rio. - Vamos contar uma história que vai aflorar desse material.

A viagem pelo passado também seguirá por nomes fundamentais do século XVIII, como o do Marquês do Lavradio, que ordenou a mudança do comércio de escravos das ruas para o Valongo, e de Mestre Valentim. Arquiteto mulato, o mais importante de sua época, ele projetou, entre outras obras, o chafariz da Praça Quinze e o Passeio Público, o primeiro parque do país.

Do começo do século XIX, outra joia da Biblioteca se destacará: o desenho a lápis “Visão da Igreja da Glória”, do pintor austríaco Thomas Ender, que chegou ao país em 1817 na companhia da Expedição Científica de História Natural para o casamento da arquiduquesa Leopoldina com Dom Pedro I. Ainda do “baú” do século XIX, tem uma planta do engenheiro militar João da Rocha Fragoso da área comercial do Rio em 1836 que espanta pelo detalhismo: ele desenhou todas as fachadas de edifícios, prédios públicos e igrejas.

A questão urbanística do Rio deu um salto com a chegada da Corte, em 1808, que obrigou a cidade a se organizar, melhorar a iluminação e construir prédios com mais qualidade. Iconografias dessa época mostram a Praça do Comércio, hoje Casa França-Brasil, de Grandjean de Montigny, responsável por disseminar a arquitetura neoclássica no Brasil.

GRANDES TRANSFORMAÇÕES

Já no século XX, a exposição vai abranger grandes transformações da cidade, como as obras do prefeito Pereira Passos e o desmonte do Morro do Castelo. O plano do arquiteto francês Alfred Agache, que pensou o Rio sob uma concepção moderna em 1930, também terá espaço, assim como a destruição do Palácio Monroe na década de 1970. Helena Severo afirma que a mostra vai contemplar diferentes visões de cidade, mesmo aquelas que nunca saíram do papel, como a de Agache:

- A exposição vai revelar as várias tentativas de ordenamento da malha urbana, sendo o próprio prédio da Biblioteca parte deste esforço, com a reforma de Pereira Passos - afirma a presidente da instituição, citando o prédio construído a partir de 1910 na então Avenida Central, com projeto do engenheiro militar Francisco de Souza Aguiar.

Texto de Ludmilla de Lima.


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"Impuros" e "Nocivos": A famosa queima de livros na Alemanha nazista



Com a subida de Adolf Hitler ao poder, campanhas para "purificação da cultura alemã" se fortaleceram - e conseguiram ganhar espaço

Era 30 de janeiro de 1933, quando Adolf Hitler subiu ao poder. Alguns meses depois, integrantes do Partido Nazista protagonizaram a primeira queima de livros escritos por intelectuais não alemães, judeus e pessoas contrárias às medidas de extrema direita a irromper no horizonte.

Seriam algumas das práticas comuns no regime liderado por Hitler, que se iniciou com a queima de livros considerados "impuros" e "nocivos" e, já em fins da Segunda Guerra Mundial, queimou pessoas sob a mesma condição.

A queima de livros em praça pública fazia parte dos planos do Ministério da Propaganda, Joseph Goebbels. A equipe de Goebbels, com cartazes, filmes, agitações nas ruas e exposições de "arte degenerada", procurava convencer a população sobre a necessidade de extermínio de movimentos culturais contrários às concepções dos nacional-socialistas. Essas ações propagandísticas foram organizadas de 10 de maio a 21 de junho de 1933.

A noite da grande fogueira

Na noite de 10 de maio, inúmeros livros foram queimados no mesmo dia em vários pontos da Alemanha, mas o episódio na praça central de Berlim deixou maiores registros. A ação orquestrada por Goebbels contou com a presença de policiais, bombeiros, autoridades públicas e professores universitários. Curiosamente, a queima foi protagonizada por estudantes universitários, integrantes da Liga dos Estudantes Alemães Nacional-Socialistas criada em 1926.


Trajando os notórios uniformes marrons com emblema da suástica, os estudantes invadiram a biblioteca, onde hoje fica a Faculdade de Direito da Universidade de Humboldt, e roubaram mais de 20 mil livros escritos por "degenerados" e levando-os à praça pública de Opernplatz (hoje Bebelplatz), no centro de Berlim.

Milhares de pessoas assistiram o evento com inegável aprovação, enquanto Goebbels discursava ao lado da fogueira sobre a pretensa "reeducação" da Alemanha. Em meio às cinzas de obras queimadas que voavam pelo ar, uma multidão se aglomerava encantada com a possibilidade de purificar sua nação.

Os autores degenerados

Entre os livros queimados naquela noite, estavam obras dos judeus Sigmund Freud, Karl Marx, Albert Einstein e Walter Benjamin, do filósofo Friedrich Nietszche, do romancista Thomas Mann e do dramaturgo Bertolt Brecht, assim como livros escritos por intelectuais da República de Weimar.

Tais livros seriam contrários aos ideais do “espírito germânico”, pregando a decadência moral e cultural e "falsificando a História". A maior parte da lista negra era composta por obras de Ciências Humanas.

Deveriam ser banidos principalmente livros de história, filosofia, sociologia e ciências políticas que desafiassem a ideologia do regime ou abrissem espaço para um debate, assim como obras de literatura que promovessem reflexões sobre o sistema.

Embora o episódio tenha marcado o auge da perseguição aos intelectuais, a opinião pública ofereceu pouca resistência. Editoras reagiram com oportunismo, universidades não se manifestaram e países estrangeiros acompanharam o ocorrido de forma distanciada. A responsabilidade pelo ocorrido foi passada aos "estudantes fanáticos", em uma tentativa de minimizar a situação.

Entre os poucos intelectuais que reconheceram o perigo da situação estavam Thomas Mann, Nobel de Literatura de 1929, e Ricarda Huch, da Academia Prussiana de Artes. Em abril de 1933, após retirar-se da Academia, Huch criticou os atos do regime nazista: "A centralização, a opressão, os métodos brutais, a difamação dos que pensam diferente, os autoelogios, tudo isso não combina com meu modo de pensar", justificou.

Praça atual: o memorial da queima

Quem visita a praça de Bebelplatz hoje em dia, encontra uma lembrança do ato perpetrado contra a diversidade. No chão da praça, é possível entrever por um painel de vidro uma sala branca subterrânea contendo prateleiras vazias com espaço para 20 mil livros.

Também compõe o memorial uma frase do poeta judeu Heinrich Heine, escrita mais de cem anos antes do nazismo: "Aquilo foi somente um prelúdio; onde se queimam livros, ao final queimam-se também pessoas".

Texto de Joseane Pereira. Publicado em 09/09/2019.
Com imagens reproduzidas da fonte original.


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domingo, 8 de setembro de 2019

Rio de Janeiro, cidade partida



O mapa revela a cidade do Rio de Janeiro partida. Onde podemos ver o lado "Maravilha" e o lado do "Descaso". Apesar da enorme diferença na visibilidade, o que é conhecido como Cidade Maravilhosa corresponde a uma pequena parcela do território do Rio de Janeiro, acessível a poucos cariocas.

Fonte: Costa, Hugo, 2019.
Compartilhado de Isra Toledo Tov.

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terça-feira, 3 de setembro de 2019

Fazenda da Taquara. Jacarepaguá. Rio de Janeiro



A Fazenda da Taquara, popularmente conhecida como Fazenda da Baronesa, localizada na Estrada Rodrigues Caldas, reúne um importante acervo arquitetônico que remonta ao período colonial da nossa história. A Capela de Nossa Senhora dos Remédios e Exaltação da Santa Cruz, construída em 1738, e a casa sede da fazenda, edificada em meados do século XVIII, são dois importantes bens históricos edificados nessas terras. 

Essa propriedade, então chamada Engenho de Dentro, foi passada por Antônio Teles de Menezes para o seu filho, Francisco Teles Barreto de Menezes, no ano de 1757. Após a morte de Francisco Teles Barreto de Menezes, em 1806, a propriedade ficou para sua filha mais velha, Ana Inocência Teles de Menezes, que construiu um canal de captação de água do Rio Grande para mover as moendas do engenho. Dona Inocência faleceu em 1836, deixando o engenho para sua sobrinha Ana Maria Teles Barreto de Menezes e para Francisco Pinto da Fonseca, que, em 1837, casaram-se e passaram a residir na casa sede da Fazenda da Taquara. Francisco Pinto da Fonseca e Dona Ana Maria tiveram dois filhos: Maria Rosa e Francisco Pinto da Fonseca Telles, que ficou com as terras do engenho após a morte do pai.

Francisco Pinto da Fonseca Telles foi tenente da 7ª Companhia do Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional. Por seus serviços prestados na Guerra do Paraguai, foi nomeado Comendador da Ordem da Rosa. Também foi um grande benfeitor de Jacarepaguá. Doou terrenos para o encanamento dos rios Fortaleza, Ciganos e Olho d`Água, realizou arruamentos e cooperou para a implantação das linhas de bondes na região. Em 21 de outubro de 1882, o Imperador D. Pedro II lhe outorgou o título de Barão da Taquara. Em 3 de maio de 1881, na Capela da Santa Cruz, o Monsenhor Vigário Antônio Marques de Oliveira celebrou o casamento do Barão da Taquara com Leopoldina Francisca de Andrade.  

D. Pedro II se hospedou durante dois meses, de novembro a dezembro de 1843, na Fazenda da Taquara. O objetivo era cuidar da saúde da princesa Dona Januária, já que a região, conhecida nessa época como Sertão Carioca, era considerada um local propício para tratamentos de doenças em decorrência do seu ar puro. 

Além do tombamento da casa e da capela pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – pelo Decreto-Lei no. 25, de 30 de novembro de 1937, três iniciativas do poder público visam garantir a integridade desse patrimônio paisagístico e cultural do município. Uma é o Projeto de Lei Nº 1907/2004, que tomba a área que restou da Fazenda da Taquara, com 83.175 m2. A segunda é o Decreto Municipal 21.209/01 que cria a Área de Proteção Ambiental da Fazenda Baronesa. Por fim, a terceira é o Projeto de Lei Nº 1236/2008, que “Tomba a área da Fazenda da Taquara, e dá outras providências”. 

A Fazenda da Taquara foi reconhecida, pelo Projeto de Lei Nº 464/2009, como uma das sete maravilhas do bairro de Jacarepaguá, sendo classificada na quarta colocação. Recentemente, a prefeitura da cidade manifestou a vontade de transformar a fazenda em um bosque.

Apesar de ter sido desmembrada em várias glebas nos anos seguintes, a sede da Fazenda e a capela da Santa Cruz ainda pertencem aos descendentes do Barão da Taquara, que preservam essas construções de forma exemplar.

Fonte: Blog Luciana Araujo e Valdeir da Costa, autores do livro "Desvendando a Barra da Tijuca e Jacarepaguá".

Originalmente postado em Instituto Histórico e Geográfico Itaborahyense

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sábado, 31 de agosto de 2019

Camorim palavra tupi que significa "mata com muitos mosquitos"



Camorim é um nome derivado da palavra tupi camury, que significa “mata com muitos mosquitos”. Ao longo do século XVII, a região foi objeto de disputa entre a família Sá e a Ordem Beneditina. Em 1597, a coroa portuguesa confirmou a doação de terras entre a restinga da Tijuca e Guaratiba, realizada três anos antes por Salvador Correia de Sá a seus dois filhos, Gonçalo e Martim de Sá.

Gonçalo ficou com a sesmaria à esquerda da Lagoa de Camorim, onde construiu o Engenho do Camorim. Na área então denominada Pirapitingui, que em tupi significa “peixe de escamas brancas”, e atualmente corresponde ao bairro do Camorim, Gonçalo mandou construir, em 1625, uma capela em homenagem a São Gonçalo do Amarante. Na época, essa era uma fórmula eficiente de conseguir prestígio junto à comunidade.

Martim de Sá ficou com a propriedade situada à direita da Lagoa do Camorim e encomendou a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Cabeça no Engenho D’Água, na localidade hoje conhecida como Gardênia Azul, que era sua principal propriedade. Seu neto, Martim Correia de Sá e Benevides Velasco, iniciou a dinastia dos viscondes de Asseca, cujos descendentes tentaram, em vão, anular o testamento que havia concedido a propriedade das terras aos religiosos.

No Rio desde 1589, os beneditinos se instalaram na zona oeste da cidade em 1670. Ali montaram uma estrutura de grande prosperidade, com fazendas dedicadas à criação de gado, cultivo de cana-de-açúcar e de mandioca, onde havia até mesmo o beneficiamento da farinha. Ao longo do século XIX, passaram a arrendar parte de suas terras, que foram definitivamente colocadas à venda em 1891.

Originalmente postado em Instituto Histórico e Geográfico Itaborahyense

Fonte: Portal MultiRio - Educação, Cidadania, Cultura e Informação

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

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Nessa matéria especial da Record TV, o Professor Lúcio Brandão conta um pouco da formação do bairro de Santa Cruz.