terça-feira, janeiro 27, 2026

Os bairros do Rio que eram grandes engenhos - parte 2 - Jacarepaguá

A história da ocupação das terras desta baixada começou ainda no primeiro século da colonização Portuguesa, quando foram doadas glebas aos vencedores da guerra contra os franceses que haviam invadido a as terras circundantes à Baía de Guanabara. A partir de então, o local era tido como sertão, onde posteriormente existiram primordialmente fazendas e engenhos até quase o final do século 19.

Na planície de Jacarepaguá, já nos primórdios da colonização Portuguesa, ainda século 16 e início do século 17 os parentes de Estácio de Sá e Mem de Sá já possuíam enormes glebas de terras, então chamadas de sesmarias, onde posteriormente mantiveram grandes fazendas e engenhos.

Salvador Correa de Sá, que foi o terceiro governante do Rio de Janeiro, após Estácio de Sá e Mem de Sá, governando entre 1568 e 1571 e tendo um segundo governo entre 1577 e 1598, recebeu a metade da Ilha do Governador e muitos outros grandes latifúndios, e doou aos seus filhos, Martin e Gonçalo terras que iam da Tijuca até Jacarepaguá e Guaratiba.

Gonçalo e Martim de Sá se tornaram os dois maiores latifundiários do Rio de Janeiro ao receberem toda a terra situada entre a restinga da Tijuca e Guaratiba na região conhecida como Baixada de Jacarepaguá.  Martim ficou com a área leste da lagoa de Camorim, onde foram construídos engenhos que correspondem hoje às localidades de Itanhangá, Anil, Freguesia, Taquara, Cidade de Deus, Gardênia Azul e Barra da Tijuca. Martin teve seu engenho na região no local chamado Engenho d´Agua (provavelmente no local hoje chamado de Anil, daí o nome da Estrada do Engenho d´Agua.

A parte de Gonçalo de Sá estava situada a oeste de Camorim, até as terras dos padres da Companhia de Jesus, em Guaratiba, e incluía o que hoje se conhece por Vargem Grande, Vargem Pequena e Recreio dos Bandeirantes. Englobava os campos e morros por onde passa a atual Estrada dos Bandeirantes (antes chamada estrada do Camorim) até a restinga da Marambaia ou nesga de areia que entra pelo mar. O engenho de Gonçalo ficava no Camorim onde também ergueu em 1625 uma capela para S. Gonçalo Amarante, do qual era devoto. As terras de Gonçalo passaram posteriormente para sua filha, Dona Vitória que era casada com um espanhol, Governador do Paraguai. Após a sua morte, em 1667, sem herdeiros, doou suas terras ao Mosteiro de São Bento. . Seus domínios se transformaram rapidamente em povoações.

Na passagem do século XVII para o século XVIII, a Baixada de Jacarepaguá ficou conhecida como a “Planície dos Onze Engenhos”, dada sua intensiva produção açucareira, que incluía três propriedades dos beneditinos – em Camorim, Vargem Grande e Vargem Pequena –, a Fazenda da Taquara, a Fazenda do Engenho D’Água, o Engenho de Fora, o Engenho Novo (posteriormente Colônia Juliano Moreira), a Fazenda Rio Grande (depois Condomínio Passaredo), o Engenho da Serra (região da Serra dos Três Rios), o Engenho Velho da Taquara (atual Boiúna) e a Fazenda da Restinga (que deu origem à parte mais antiga da Barra da Tijuca). A partir do século XIX, a cultura do café, mais atraente no mercado internacional, viria a substituir aquela atividade. Nas imediações ficavam as estradas do Gabinal, do Capão (atual Tenente Coronel Muniz de Aragão) e da Banca da Velha (hoje Edgar Werneck). A era das grandes fazendas e engenhos na Baixada de Jacarepaguá durou até o final do Ciclo da Cana de Açúcar, aproximadamente até a metade do Reinado de D. Pedro II.

A Fazenda da Taquara remonta um dois mais antigos engenhos de Jacarepaguá.  Essa região era uma sesmaria que pertencia a Salvador Correia de Sá (o velho). Os seus limites iam da atual rua Edgard Werneck passando pelo largo do Tanque e projetando-se até a vertente Oriental do Maciço da Pedra Branca. No século XVII por compra, torna-se a fazenda da Taquara. Passou então esta propriedade aos descendentes primôgenitos até chegar a Francisco Telles de Barreto de Menezes, bisavô do Barão da Taquara. A casa grande da fazenda foi reconstruida  em 1738 e existe até hoje, ao seu lado existe a Capela da Exaltação da Santa Cruz, sendo uma das mais antigas de Jacarepaguá. 

Havia uma ligação entre a família Telles de Menezes e Orleans de Bragança. O Barão da Taquara era afilhado de D. Pedro II, tendo servido também na 7 Cia do Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional, O imperador, atendendo a relevantes serviços prestados na guerra do Paraguai, nomeou-o Comendador da Ordem da Rosa e Barão da Taquara. O comendador faleceu em 1865, sucedendo na propriedade seu filho Francisco Pinto  da Fonseca Telles aos 26 anos.

O engenho da Taquara é tombado pelo IPHAN desde 30 julho de 1938 pelo então presidente Getúlio Vargas. A pedido do neto dos Barões da Taquara, Francisco Jose Telles Rudge, foi criada a APA ( Área de Proteção Ambiental) em 2002, com cerca de quase 100.000m² com objetivo de proteger todo entorno da casa grande e anexos do séc. XVII a XIX.    O local é uma propriedade privada e não é aberta ao público para visitação.

No entorno da Fazenda da Taquara habita uma grande fauna e frondosa  árvores circulares em memória da “Yacare Upa Gua” - lagoa rasa dos jacarés, Jacarepaguá. Dos antigos engenhos da Cidade do Rio de Janeiro, Camorim ( Gonçalo de Sá), De fora ( Mato Alto), Da Serra ( Pau-Ferro), Engenho Novo ( N.Sra dos Remédios - Colônia), D'Água ( Visconde de Asseca)-Cidade de Deus, o engenho da Taquara foi o mais importante.

O território da Colônia Juliano Moreira originou-se a partir de um dos mais antigos engenhos de cana de açúcar de Jacarepaguá, integrando inicialmente as terras do Engenho da Taquara. Foi então desmembrado em 1664 e denominado Fazenda Nossa Senhora dos Remédios. Nos anos de 1660 iniciou-se a construção do engenho e da capela de Nossa Senhora dos Remédios.. Já em 1778 recebeu o nome de Engenho Novo da Taquara. 

Devido à superlotação da Seção Pinel do Hospital Nacional de Alienados, foram criadas as Colônias de Alienados da Ilha do Governador (São Bento e Conde de Mesquita), em 1890. Em 1909, João Augusto Rodrigues Caldas, diretor das Colônias da Ilha do Governador, verificou a necessidade de transferi-las para um local mais amplo, pois o número de doentes já atingia a casa do 300. Este número aumentou gradativamente com a transferência de doentes do Hospital Nacional de Alienados, a fim de poder dar a eles melhor tratamento. Em 1912, a fazenda do Engenho Novo em Jacarepaguá foi desapropriada para utilidade pública. Juliano Moreira e Rodrigues Caldas encontraram, nesta fazenda, o local apropriado para a colônia agrícola, por ser uma área ampla, com matas virgens, rios e cachoeiras. Em 1921, as obras e as novas construções foram iniciadas, mas só em 1923 é que os 15 pavilhões estavam em condições de habitação. Sendo assim, a Colônia de Alienados de Jacarepaguá foi inaugurada em 29 de março de 1924, e todos os pacientes das Colônias da Ilha do Governador foram para ela transferidos. Em 1935, a Colônia de Alienados de Jacarepaguá mudou seu nome para Colônia Juliano Moreira (CJM), em homenagem ao médico Juliano Moreira, que havia falecido em 1933 e abrigava aqueles classificados como anormais ou indesejáveis, tais quais doentes psiquiátricos, alcoólatras e desviantes das mais diversas espécies. Por muito tempo a CJM foi referência nacional em atenção à Saúde Mental. Entre as décadas de 1920 e 1980 a instituição funcionou como destino final para pacientes considerados irrecuperáveis. Na década de 1960 chegou a abrigar cerca de 5.000 pessoas. Entretanto, no início da década de 1980, após longo processo de deterioração, a instituição iniciou uma transformação do seu modelo assistencial, em consonância com a Reforma Psiquiátrica, que vinha acontecendo em diversos países. Foram abolidos os eletrochoques, as lobotomias e os abusos de neurolépticos. Novas internações de longa permanência deixaram de ser aceitas e a assistência a novos pacientes em crise passou a ser realizada pelo Hospital Jurandyr Manfredini, especialmente criado para este fim. Em 1996, a Colônia Juliano Moreira (CJM) foi municipalizada, tendo seu nome alterado para Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira.

Atualmente, estão concentradas no Núcleo Histórico Rodrigues Caldas as construções mais antigas da Colônia Juliano Moreira, reminiscências da época do engenho: a sede, a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, algumas ruínas de outras construções, além do conjunto de canaletas e o sistema de aqueduto, tombados pelos órgãos públicos de patrimônio.

REFERÊNCIAS

http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/587-a-origem-dos-bairros-da-baixada-de-jacarepagua

https://www.riodejaneiroaqui.com/pt/barra-da-tijuca-historia

http://nophrj.blogspot.com/2011/11/fazenda-da-taquara.html

Oliveira, Victor Luiz Alvares A ZONA OESTE COLONIAL E OS MAPAS DE POPULAÇÃO DE 1797 : : algumas considerações sobre lavradores partidistas e produção agrária de Jacarepaguá, Campo Grande e Guaratiba no século XVIII REVISTA DO ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO n.10, 2016, p.233-258

Andrade, Inês El-Jaick Andrade Ruínas do Antigo Engenho Novo no Núcleo Histórico Rodrigues Caldas da Colônia Juliano Moreira: pesquisa histórica e iconográfica rhaa 13

Texto de autoria de Danielle Ricco publicado no site: 

viajandopelahistoriadoriodejaneiro.com/post/os-bairros-do-rio-que-eram-grandes-engenhos-jacarepaguá-parte-2 

terça-feira, janeiro 13, 2026

Caju, São João Batista e mais: como cemitérios do Rio contam a história da cidade

Dos campos-santos criados para indigentes e escravizados aos grandes panteões nacionais, os cemitérios cariocas revelam a história do Rio de Janeiro — onde religião católica, caridade, memória urbana e gestão pública sempre caminharam juntas

Percorrer os cemitérios do Rio de Janeiro é transitar pela própria cidade. Poucos espaços urbanos revelam o passado de forma tão direta, tão concreta e tão pouco filtrada quanto os campos-santos cariocas. Entre alamedas silenciosas, túmulos antigos e mausoléus monumentais, repousam não apenas indivíduos, mas camadas inteiras da história urbana: a escravidão, a imigração, a pobreza, a fé, a política, a arte e o poder.

O Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, talvez seja o exemplo mais eloquente dessa cidade invisível dos mortos. Criado a partir do antigo campo-santo da irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, o Caju nasceu como espaço destinado aos indigentes, aos escravizados, aos doentes e àqueles que não tinham recursos para garantir uma sepultura digna. Com o passar do tempo, transformou-se num vasto complexo funerário, do qual se desmembraram áreas administradas por ordens terceiras, quadras destinadas a acatólicos e o cemitério da comunidade judaica.


Poucos lugares no Rio condensam de forma tão clara a história social da cidade. No Caju estão enterrados aqueles que quase nunca aparecem nos livros escolares: trabalhadores anônimos, africanos recém-chegados pelo Valongo, pobres assistidos por irmandades, homens e mulheres para quem a morte foi, muitas vezes, o primeiro e único registro formal de existência. O cemitério funciona como um verdadeiro arquivo urbano a céu aberto, revelando desigualdades profundas, mas também o esforço institucional de oferecer dignidade no fim da vida.

O Cemitério de São João Batista, em Botafogo, narra outra face dessa mesma história. Criado no contexto da reorganização funerária do século XIX, ele se consolidou como o grande panteão nacional. Presidentes da República, artistas, escritores, músicos, intelectuais e militares estão ali sepultados em mausoléus que são, muitas vezes, verdadeiras obras de arte. Mais do que um local de sepultamento, o São João Batista tornou-se um espaço de memória pública, visitado, atravessado e incorporado ao cotidiano da cidade.

Apesar das diferenças sociais e simbólicas, Caju e São João Batista compartilham um traço essencial: a permanência da linguagem religiosa católica. Mesmo após a secularização formal dos cemitérios, cruzes, anjos, imagens marianas e inscrições bíblicas continuam a dominar a paisagem funerária carioca. A morte, no Rio, nunca se tornou completamente laica ou impessoal. Ela manteve um vocabulário espiritual que atravessou o Império, a República e o século XX.

Durante séculos, esse universo foi organizado por uma lógica institucional que unia administração, fé e assistência social. A Santa Casa da Misericórdia, ao lado de irmandades e ordens terceiras, não apenas geriu cemitérios: garantiu sepultamentos gratuitos, cuidou dos campos-santos, reformou espaços, zelou por túmulos e manteve viva a ideia de que enterrar os mortos era um dever moral antes de ser um serviço. Tratava-se de uma gestão que não separava o ato administrativo do cuidado humano e espiritual.

Esse ciclo histórico chegou ao fim em 2014, quando a administração dos cemitérios públicos do Rio de Janeiro passou a ser exercida por concessionárias privadas. A mudança foi apresentada como necessária para modernizar a gestão, profissionalizar serviços e dar respostas mais eficientes a uma cidade complexa e em constante crescimento. Esperava-se que um novo modelo resolvesse problemas antigos e trouxesse maior organização ao cotidiano dos cemitérios.

Passados alguns anos, o cenário se mostra mais ambíguo. Há iniciativas de manutenção, ações sanitárias e projetos culturais que buscam integrar os cemitérios à vida urbana contemporânea. Ao mesmo tempo, surgem episódios que indicam que certos desafios persistem: debates sobre preservação do patrimônio funerário, disputas judiciais envolvendo taxas e serviços, além de reclamações pontuais de famílias que frequentam esses espaços. A sensação difusa é a de que a mudança de modelo não eliminou, por si só, todas as tensões em torno da morte na cidade.

Não se trata de afirmar que um sistema era melhor do que o outro, nem de ignorar a complexidade do Rio atual. Mas permanece, entre muitos cariocas, uma nostalgia discreta dos tempos em que a gestão dos cemitérios estava integrada a uma instituição cuja vocação histórica não se limitava à eficiência administrativa, mas incluía caridade, continuidade simbólica e presença religiosa.

No Rio de Janeiro, os cemitérios nunca foram apenas terrenos murados. Sempre foram lugares de memória, fé, arte e pertencimento. A forma como a cidade cuida de seus mortos — ontem e hoje — diz muito sobre como ela entende a si mesma. Talvez seja por isso que, mesmo após tantas mudanças, a pergunta continue no ar, silenciosa como esses campos-santos: modernizar era necessário, mas será que tudo aquilo que se perdeu no caminho pôde, de fato, ser substituído?

Essa dúvida, mais do que qualquer polêmica, mantém viva a história dos cemitérios cariocas — e a relação profunda do Rio com sua própria memória.

Texto de autoria de Bruna Castro.

Crédito da pesquisa:

https://diariodorio.com/caju-sao-joao-batista-e-os-outros-como-os-cemiterios-do-rio-contam-a-historia-da-cidade/

sexta-feira, janeiro 02, 2026

De Itaguaí a Santa Cruz: quando a literatura encontra a realidade

Pouca gente sabe, mas o bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, guarda uma curiosa ligação com a literatura brasileira. O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da região se chama Simão Bacamarte, nome do protagonista do conto “O Alienista”, de Machado de Assis.

Na famosa história, o Dr. Simão Bacamarte é um renomado médico e psiquiatra que, movido por um desejo científico de compreender a mente humana, funda em Itaguaí — cidade vizinha a Santa Cruz — um manicômio batizado de Casa Verde. É lá que ele interna pessoas consideradas “loucas” segundo seus próprios critérios, questionando os limites entre a razão e a loucura.

A coincidência vai além do nome: o prédio do CAPS Simão Bacamarte está pintado de verde, mesma cor da lendária Casa Verde criada pelo personagem no conto. Uma coincidência ou uma homenagem simbólica à obra de Machado de Assis? De qualquer forma, o fato mostra como a arte e a realidade se cruzam de maneira surpreendente, unindo Itaguaí, Santa Cruz e a literatura brasileira em uma mesma história.

Trecho de “O Alienista”, de Machado de Assis:

“Foi então que Simão Bacamarte resolveu fundar, à sua custa, uma casa de orates. Obteve da câmara de Itaguaí licença necessária, e edificou a casa na Rua Nova, com o nome de Casa Verde, por estar pintada dessa cor. Nela recolheu não só os loucos propriamente ditos, como todos os que, a seu juízo, padeciam de alguma moléstia mental.”

(Machado de Assis — O Alienista, publicado originalmente em 1882)

Foto principal: @valerialero

Cortesia: @descubrasantacruzrj 

Repostado do @acervosantacruz