quinta-feira, 4 de junho de 2020

Esquina das Garrafadas



O legal de passear por cidades antigas como o Rio é que você pode encontrar a história enquanto caminha. Esta esquina, entre as ruas do Ouvidor e da Quitanda, seria apenas mais uma para se atravessar apressado pelo centrão  – isso, se a gente não souber o que já rolou aqui. No caso, foi muita pancadaria, em um conflito que se tornaria conhecido como a Noite das Garrafadas e acabaria mudando os rumos do país. Corria o ano de 1831 e o imperador Pedro I já estava bem desgastado no poder. Ele, que proclamara a Independência do país apenas nove anos antes, se autoconcedeu amplos poderes com a Constituição de 1824 e encheu o Ministério e os principais postos do governo com portugueses, o que desagradou aos brasileiros mais nacionalistas. Esse pessoal alegava que o rompimento com a antiga Metrópole, na prática, não mudara tanta coisa. Além disso, o caráter ditatorial do rei, que perseguia jornalistas que o criticavam e tratava adversários políticos com mão de ferro, azedava ainda mais os ânimos. Para piorar as coisas, o governo sofreu fortes revezes na Guerra da Cisplatina, território anexado ao Uruguai e novamente perdido, ao custo de enormes custos humanos e financeiros. 

Dos bate-bocas na Assembleia Nacional às manchetes ácidas de jornais como “Observador Constitucional” e “Farol Paulistano”, a situação passou para os enfrentamentos. A execução de Frei Caneca, que se tornara ativista da Revolução Pernambucana, aumentou a rejeição ao imperador no Nordeste. Em 20 de novembro de 1830, o caldo se entornou de vez quando o jornalista Líbero Badaró, ferrenho crítico do monarca, foi assassinado em São Paulo. O crime foi atribuído aos apoiadores do governo e o clima ficou quase insustentável. Em fevereiro do ano seguinte, Pedro I resolveu visitar as províncias para tentar recuperar apoio, mas era tarde demais. Recebida com hostilidade em Minas Gerais - os sinos das igrejas repicaram toques fúnebres à sua passagem e autoridades locais se vestiram de preto - e sob ameaças de atentados, a comitiva antecipou a volta à capital. 

O partido dos portugueses, então, organizou uma festança no Rossio (atual Praça Tiradentes) para receber o imperador, mas grupos de brasileiros descontentes, incluindo comerciantes, intelectuais liberais, políticos de baixo clero, religiosos reformistas, trabalhadores empobrecidos e desempregados, foram lá tomar satisfações. As provocações logo deram lugar a uma briga generalizada, que durou de 11 a 15 de março. A maior violência aconteceu na noite do dia 13 e o episódio ganhou aquele nome porque cacos de vidro viraram armas. Um dos epicentros da luta foi nesta esquina. Dos sobrados, choviam pedras e garrafas, e os conflitos se estenderam pelas atuais ruas do Rosário, Teófilo Otoni e Uruguaiana. Acuado e sofrendo pressões de Lisboa, D.Pedro I ainda faria uma manobra final, nomeando o chamado Ministério dos Marqueses, todos “notáveis por sua impopularidade” conforme o historiador Werneck Sodré. Àquela altura, militares e republicanos já engrossavam o movimento pela renúncia. 

Acuado no Brasil e ainda sofrendo pressões de Lisboa, o imperador acabaria abdicando ao trono em 7 de abril de 1831, regressando a Portugal. Saiu sem se despedir do príncipe herdeiro, o infante Pedro, de apenas cinco anos e que, mais tarde, seria seu sucessor. Mesmo assim, Pedro I não perderia a majestade: assumiu a Coroa lusitana como D.Pedro IV, destronando o próprio irmão, Miguel. E a esquina famosa ficou por aqui, para o deleite dos passeadores, que podem parar, dar uma boa olhada nos sobrados e sentir a história - felizmente, sem risco de uma garrafada. Mas, como seguro morreu de velho, recomenda-se a observação sob uma das várias marquises.

Originalmente postado no Passeador Carioca

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 2 de junho de 2020

Paciência: de moderna fazenda a bairro industrial



Paciência fica na Zona Oeste do Rio de Janeiro e faz divisa com Santa Cruz, Cosmos, Campo Grande e o município de Nova Iguaçu. Sua urbanização foi iniciada em meados do século XX, favorecida pela abertura da Avenida Brasil, que deslocou para o seu entorno a maioria das fábricas da cidade – até então concentradas na região central. Esse movimento acelerou o crescimento populacional em direção às novas áreas fabris, inclusive o Distrito Industrial de Palmares, implantado no bairro.

Em meio a esse processo, surgiram os primeiros grandes loteamentos de Paciência: além do Jardim Palmares, o Jardim Sete de Abril, o Jardim Vitória e a Vila Geni. O centro comercial cresceu em torno do Rio Cação Vermelho, um dos mais extensos da cidade. Hoje o bairro conta com cerca de 15 comunidades e uma população de quase 95 mil habitantes, segundo o censo de 2010.

Paciência conta com uma boa oferta de equipamentos municipais de educação: oito creches, oito Espaços de Educação Infantil (EDIs), três Cieps e 16 escolas de Ensino Fundamental. Contudo, possui, junto com os demais bairros da XIX Região Administrativa, Santa Cruz e Sepetiba, um dos mais baixos índices de progresso social da cidade, conforme dados do Instituto Pereira Passos.

Além da Avenida Brasil, o bairro também é cortado pela Avenida Cesário de Melo, uma movimentada via que liga Santa Cruz a Campo Grande. O Viaduto de Paciência cruza a linha férrea e interliga as partes norte e sul do bairro.


História

Antes do movimento de urbanização, Paciência integrava a zona rural da cidade, que tinha em Campo Grande o seu grande epicentro. O escoamento da produção agrícola foi facilitado pela inauguração, em 1897, da estação de trem local. Além do plantio de hortifutigranjeiros, que abasteciam a população carioca, a produção de laranja para exportação era o grande carro-chefe da economia da região, na primeira metade do século XX.

Da substituição de antigas lavouras por laranjais não escaparam nem as terras da antiga Fazenda da Mata da Paciência, uma das mais prósperas e glamourosas propriedades rurais da província do Rio de Janeiro, na primeira metade do século XIX: “Na década de 1920, tornou-se um grande laranjal nas mãos de Oscar Pareto, um importante engenheiro civil”, diz o professor de História Sinvaldo do Nascimento Souza, que morou, estudou e trabalhou na região.

Parada real


A atual região de Paciência era cortada pela Estrada Real de Santa Cruz, que cruzava os sertões do Rio de Janeiro em direção à Fazenda dos Jesuítas. Com a expulsão dos religiosos das colônias portuguesas em 1759, a propriedade foi transferida à Coroa portuguesa. Desde a vinda da família real, tornou-se um dos lugares prediletos do príncipe D. Pedro, que chegava a prolongar sua estada no local por vários meses.

O longo trajeto entre São Cristóvão e Santa Cruz, feito a cavalo ou em carruagens, exigia algumas paradas para descansar os animais, ou trocá-los. A última delas era onde, hoje, fica o bairro de Paciência.

Anos de ouro

Durante praticamente os três primeiros séculos de colonização, as zonas Norte e Oeste eram tomadas por fazendas de cana de açúcar, com engenhos que produziam, principalmente, aguardente. Quando o plantio de café chegou ao Rio, no último quarto do século XVIII, não demorou muito para uma fazenda se destacar na produção do grão: a da Mata de Paciência, de João Francisco da Silva e Souza, um rico comerciante português.


A propriedade ganhou notoriedade ao ser descrita pela inglesa Maria Graham, preceptora, por um curto período, da filha mais velha de D. Pedro I, Maria da Glória. Em seu diário de 25 de agosto de 1823, registrou “a elegante e agradável hospitalidade de Mariana Eugênia” (viúva de João Francisco, que tocava a fazenda desde 1815), as plantações de café e os cerca de 200 escravos que viviam em pequenas casas (e não em senzala) e  folgavam todos os domingos. Também não poupou elogios à modernidade do engenho de açúcar, movido por potente máquina a vapor: “Uma das primeiras, senão a primeira instalada no Brasil”, escreveu a inglesa.

Após a morte de Mariana Eugênia, nenhuma de suas duas filhas se interessou pela fazenda. A propriedade – que, segundo alguns historiadores, deu nome ao bairro – foi vendida e revendida, até ser transformada em laranjal, e loteada, posteriormente.

Por Márcia Pimentel

Originariamente postado em multi.rio.rj

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

Reunião de Horrores



Bernhard Rust foi ministro de Hitler para a Educação. Nomeado no primeiro dia do governo nazista, foi fiel até a morte, por suicídio, na rendição da Alemanha. Não se pode dizer que Rust era culpado pela situação da educação alemã em 1933. Apesar de muito melhor que a nossa hoje, a educação alemã sofria consequências da Primeira Guerra e dos fortes constrangimentos impostos pelo acordo de paz que comprometeu as finanças públicas. Tudo isso agravado por hiperinflação e caos político ao longo da década de 1920. Rust não era o culpado da herança que recebeu, mas, em vez de montar um sistema educacional competitivo na Europa, concentrouse na ideologia para desarticular o que chamava de cultura comunista e influência de judeus na vida intelectual da Alemanha. Ele via a universidade como antro do marxismo cultural. Einstein era recusado como judeu e a teoria da relatividade vista como parte da conspiração internacional comunista.

Rust não fez parte da engenharia do Holocausto, mas foi um dos criadores do pensamento que serviu de base à execução da solução final para extinguir povos não arianos que faziam parte da Alemanha, especialmente judeus. Ele sentia horror às simples expressões “povo judaico” ou “povo cigano” ou “comunista”. Seu tipo de patriotismo achava que na Alemanha

havia um único povo, palavra que só se aplicava aos alemães. Para isso, demitiu professores, impediu escolha de reitores pela comunidade, vetou ideias incompatíveis com a tradição cristã.

Lembrei de Rust ao ouvir a participação do ministro da Educação do Brasil, na reunião de gabinete de 22 de abril. Ele não incentivou solução final para nossos índios, mas lançou a base para que isso ocorra. Não por morte em câmaras de gás, mas por morte lenta devido à negação dos direitos básicos de cada povo indígena. Ao sentir horror, sua cara passou a sensação de nojo ao povo indígena, passou a ideia de que o conceito de povo brasileiro nega permissão para a convivência fraterna com outros povos dentro do Brasil.

Ao dizer que tinha horror ao conceito de povo indígena, e manifestar que apenas o povo brasileiro com sua aparente identidade ocidental e cristã lhe interessa, ele repete o que dizia o ministro nazista para os judeus. Quase 100 anos depois, o ministro da Educação do Brasil senta a base ideológica para a ideia da pureza, se não racial, ao menos cultural, do povo brasileiro cristão e ocidental.

Não é por acaso que, logo após, o ministro do Meio Ambiente declarou que o governo deve aproveitar a atenção da mídia voltada aos mortos pela epidemia, para simplificar procedimentos que permitirão ocupar terras e destruir florestas onde vivem o que seu colega considerou “não povo” indígena. Dizimar as florestas onde vivem os índios é como colocá-los em “câmara de gás” que mata lentamente. Foi isso o que os dois ministros combinaram ser feito sem grandes dificuldades burocráticas, um sentando base ideológica pelo horror ao povo indígena e o outro definindo os meios administrativos para o genocídio. Diga-se a favor deles que talvez não tivessem consciência do que diziam, sem saberem quem foi Rust.

Por isso, nenhum outro ministro, nem o presidente, nem o vice, chamaram a atenção deles para o horror do que tinham dito. Acharam natural os sentimentos de horror com o conceito de povo indígena e com as amarras burocráticas que impedem derrubar florestas.

A reunião de 22 de abril passa a sensação de um ministério unido no uso de palavrões e na concepção de Bernhard Rust. Igualmente triste é imaginar que depois de nossos “Rusts”, dificilmente teremos um presidente com a visão do chanceler Adenauer, que, na primeira reunião para definir as prioridades do Plano Marshall, afirmou que a prioridade na reconstrução da Alemanha seria a educação, para recuperar o tempo perdido em décadas anteriores e corrigir o desastre nos anos nazistas.

Ministro da Educação de Hitler sentia horror às simples expressões ‘povo judaico’ ou ‘povo cigano’ ou ‘comunista’

Autor: Cristovam Buarque
Professor emérito da Universidade de Brasília

Originariamente postado em infoglobo.pressreader

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sábado, 30 de maio de 2020

História dos fuzilados de Sepetiba



Os ecos da Revolta da Armada se faziam ouvir ainda um ano depois de iniciado o levante de marinheiros contra o governo de Floriano Peixoto. A Revolta tinha como objetivo principal exigir novas eleições e maior consideração do governo federal em relação à Marinha, que se sentia inferior ao Exército.

Reflexo dos primeiros dez anos de instabilidade do regime republicano recém proclamado, não fora só no ano de 1893 que Armada se levantou em protestos contra os presidentes: em 1891, Deodoro da Fonseca teria enfrentado igual descontentamento dos militares da força marítima, que se insurgiu contra a atitude do então presidente de fechar o congresso, contrariando a Constituição Federal que regia aquele ano. Vale ressaltar o viés monárquico da Marinha daquele momento, cujos altos escalões tinham forte sentimento e lealdade pelo regime deposto anos antes, assim como por seu representante maior, o imperador D. Pedro II.

Os acontecimentos de 1893 que eclodiram na baía da Guanabara foram destacados em diversos jornais, que dividiam opiniões em relação ao levante. Notícias sensacionalistas se espalhavam por páginas favoráveis ao governo, destacando os bombardeios que os revoltosos protagonizavam contra a cidade; os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo se viram na mira dos canhões dos navios ancorados na baía, assim como o que hoje compõe o Centro da cidade, fazendo boa parte da população abandonar seus lares em direção à linha férrea da estação Central do Brasil, rumo aos subúrbios.


E não só o Rio de Janeiro fora palco dos acontecimentos, que se desdobraram para Santa Catarina. Em 1894, os ânimos revoltosos incendiavam marinheiros daquele estado. Importante lembrar que a região já se encontrava em constantes conflitos causados pela chamada Revolução Federalista, iniciada em 1893, que tentava derrubar Júlio de Castilhos.

E como Sepetiba se acha no meio desses acontecimentos que movimentaram o cenário nacional logo nos primeiros anos de governo republicano? A localidade, situada na atual Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, sempre fora característica por sua atividade pesqueira. Manobras militares por muitas vezes tiveram a baía de Sepetiba como palco para exercícios de navios.

Em 19 de Dezembro de 1894, o Jornal do Brasil noticiava:

“Por occasião do Uranus forçar a barra durante a revolta, foram prisioneiros pelas forças da linha de vigilância de Sepetiba, 22 indivíduos, ainda bem moços, pois ainda regulavam entre 18 e 20 annos. Pouco tempo depois, um capitão que commandava a força militar que guarnecia o cruzador Centauro, a serviço do governo, e que estava fundeado em uma enseada perto daquelle local requisitou-os do commandante da referida linha de vigilância. Os menores foram entregues amarrados a um tenente e depois enviados para bordo do navio”.

Era noticiada a captura de possíveis participantes da revolta, que a bordo do navio Uranus, tentavam entrar no Rio de Janeiro pela baía de Sepetiba. Os jovens foram feitos prisioneiros pelos militares que vigiavam o local. Chama atenção a forma que os considerados traidores eram tratados pelas “forças do governo”. Amarrados, os jovens foram levados a bordo de outro navio para serem interrogados. A notícia continua:

“Alli chegados, a despeito de declararem terem sido prisioneiro dos revoltosos em Santa Catarina, e portanto, nãos erem criminosos, foram removidos e levados para a ilha da Pescaria e alli bárbara e sumariamente fuzilados, com excepção, porém, de um, que, procurando fugir, atirou-se ao mar, morrendo afogado”.

Quem hoje frequenta a ilha da Pescaria, uma pequena península que fica próxima à praia Dona Luiza, no atual bairro de Sepetiba, muito provavelmente não imagina que divide o mesmo espaço com as almas desses jovens que tiveram seus destinos traçados pelas ordens de um comandante militar. O acontecimento abalou não só a população local, mas também oficiais militares que guarneciam o local. O jornal dá continuidade à narração da notícia:

“Este facto alarmou e entristeceu a toda a população de Sepetiba e até mesmo justos e merecidos protestos da parte do major commandante da força ahí estacionada, que reclamou pela falta ao menos de um conselho que justificasse o acto”.

A execução sumária de jovens tidos como subversivos, revoltosos e vagabundos é uma das heranças que nossa sociedade carrega até os dias atuais. Percebe-se que até mesmo a quebra da legalidade é mantida em prol de interesses particulares, buscando satisfazer uma espécie de sadismo com o qual levamos todos os dias para nosso travesseiro.


Marcado pelo mandonismo e o autoritarismo, o comandante que chefiou o fuzilamento, diante da reprovação popular e de seus companheiros de farda, deixa claro que faria o mesmo com “aquelles que o censurarem”. Nada diferente de nossos dias.

Atitudes como essa se deram não apenas na baía de Sepetiba. Em março de 1895 a Gazeta de Notícias mostra que as “víctimas da soldadesca” foram muitas e em diversos pontos do Rio de Janeiro: Magé, ilha do Boqueirão, Paquetá e Realengo foram o fim da linha para muitos os insurgentes.

Nas edições de 23 e 24 de Dezembro de 1894, o Jornal do Brasil deu continuidade à cobertura do fato, que caracterizou como “tão surprehendente, pelas circunstancias que o rodeavam”. O jornal apontava a falta de interesse de oficiais superiores e a falta de legalidade do fato. Diante da “falta de ordem do ministro da Guerra, do commandante da praça, e falta do respectivo processo, e terem sido seus autores oficciaes inferiores que procedem sem annuencia de seus chefes nem ordem alguma destes, que até manifestaram-se prazerosos, que não duvidamos em enviar àquelle lugar um dos nossos companheiros de trabalho afim de descobrir a verdade”.

Entretanto, os efeitos das ameaças do comandante fizeram efeito entre a população local. O repórter enviado ao local encontrou dificuldades para entrevistar os locais, que o encaravam com ares de desconfiança. O pescador Antônio Lopes, que vivia do “commercio da pesca de peixe”, foi o primeiro entrevistado. Deu detalhes de navios que viu na localidade durante a revolta, mas foi relutante em diversos momentos, principalmente em dar sua opinião sobre o fuzilamento:

“ – Diga-me, nunca ouviu fallar no fuzilamento de moços prisioneiros do vapor Uranus?
Lopes, a esta minha pergunta, mais se accentuou o seu constrangimento pela minha impertinencia e dizendo-me – Não sei! E retirando-se demonstrou-me que nada mais diria”.

O insistente repórter encontrou outro entrevistado, Reginaldo, um senhor de 54 anos, barbudo, que aparentava ser um pescador. Dele, o enviado pelo jornal conseguiu extrair muitas informações de grande valor não só para sua matéria, mas para nós do futuro, a começar pelos dados que este senhor nos informa: os jovens teriam sido feitos prisioneiros em Guaratiba e levados para o quartel instalado em Santa Cruz (“olhe que não é a fortaleza; é aqui, a fazenda”). O horário do fuzilamento, segundo o homem, teria sido as 16h de um dia como aquele, chuvoso: “Eram vinte e tantos moços que se foi buscar em Guaratiba…”.

O pescador foi mais detalhista quanto aos autores do fuzilamento e aponta o tenente da embarcação de nome Lamego como mandante: “Todos aqui dizem, até os bichos se soubessem fallar, pois que isto não é segredo…”. O nome do militar era Marcos Tulio. Os dois se dirigiram até o local do ocorrido e lá continuaram a conversar.
Logo após saírem do local, foram até a casa de um outro senhor de nome José Floriano de Souza, de 60 anos. Segundo o jornalista, este aparentava ser de uma “melhor sociedade”, que relatou o mesmo que o pescador. Floriano disse que fora convidado para assistir ao fuzilamento, mas declinou o convite por não gostar dessas coisas: “sou pae e vi os pobres que foram victimados”. Os jovens, segundo Floriano, foram enterrados em covas abertas pelos seus próprios algozes, praças do 14º batalhão, ali mesmo, na ilha, “debaixo d’aquella sepetiabeira que jazem elles”.

Floriano nos deixa mais pistas sobre um outro ato de fuzilamento que teria acontecido, dessa vez com jovens levados da Ilha Grande até Sepetiba. Segundo a descrição do jornalista, a memória do acontecido era reprovada por Floriano, que diz “Deus queira que nunca mais tenhamos dessas cousas, que são um horror!”.
As descrições dadas por Reginaldo e Floriano nos deixam grandes relatos dessa execução. Veio se juntar aos relatos a descrição de mais um morador do local, o português Annibal Soutinho. Este relatou ter visto toda a movimentação do fato e descreve:

“Foram alli na ilha (e apontou em direcção a ilha da Pescaria), eram uns trinta e tantos homens do Uranus que vieram prisioneiros. (…) foi de tarde, por volta das 4 horas, à vista de todo o povo. Aquelles que não viram ouviram as detonações. (…) foram collocados no plano inferior da ilha, aos magotes e a força executara naquelle mais alto (disse, novamente, apontando para o ponto indicado, a colina situada no meio de um dos braços da ilha) de forma que houve muitas descargas”.

O português indicou ao jornalista que buscasse maiores informações e detalhes com o senhor Custódio Campos, que pertencia ao 13º batalhão da guarda nacional, ocupando o posto de alferes. Custódio confirmaria em seus relatos boa parte dos testemunhos anteriores, e ainda acrescentaria que dos presos em Guaratiba e na Ilha Grande nem todos foram fuzilados, sendo alguns mandados para prisões na “côrte” – ou seja, na então cidade. Segundo o alferes, todos se entregaram sem resistência por estarem muito debilitados.

Um deles estaria residindo na rua da Misericórdia. Na edição dos dias 26 e 27 do Jornal do Brasil o repórter dá continuidade às suas buscas por detalhes e vai até a casa de um dos sobreviventes. Este morava em um cortiço na rua que indicara Custódio. Lá, entrevistou a portuguesa dona Maria Emília, esposa de Joaquim da Cruz Oliveira. Ela também deixou alguns detalhes dados pelos entrevistados anteriores e revelou que seu marido fora poupado por ser apenas membro da tripulação do Uranus, operando nas máquinas da embarcação. Apesar de ter sido levado junto com os revoltosos para o batalhão de Santa Cruz, Joaquim foi libertado mediante a comprovação de sua inocência. O jornalista segue seu caminho e encontra três amigos, sendo um deles membro do congresso nacional.

Em outro depoimento, colhido junto a um deputado federal (“membro proeminente do congresso nacional, onde occupa saliente posição desde a constituinte, não só pelo seu talento, como também pela posição assumida de chefe político do mais importante districto da União”) em um jantar no hotel Magini, o jornalista colheu informações a respeito do fato: não teriam sido mortos por fuzilamento os revoltosos, mas por golpes de baioneta! Confrontando o deputado com os depoimentos colhidos em Sepetiba a respeito das detonações, o entrevistado argumenta que foram precisos os disparos para forjar um fuzilamento. O diálogo entre repórter e deputado que apontam tais afirmações é o seguinte:

“Não sei para que vocês estão fazendo esta campanha, aliás, de factos bem sabidos. No entanto, você está cumprindo com seu dever. Olhe, eu lhe digo: todas as informações que foram publicadas pelo Jornal do Brasil são verdadeiras, menos uma.

Qual?
O que se refere a fuzilamentos. Não houve tal; todos foram mortos por arma branca.
Então à bayoneta? Peguntei verdadeiramente assombrado por declaração de tanta importância.
Sim.
Mas então como explica os depoimentos de várias testemunhas do facto, e que dizem terem sido as victimas fuziladas?
Você parece criança. Comprehende que era preciso fingir-se, e assim foi feito. Pólvora não faltava…”
Voltando à rua da Misericórdia, nº 90, no Centro da cidade, o repórter foi em busca do relato de Joaquim, marido de Maria Emília, que na ocasião da primeira visita não estava. Este deu seu relato, dizendo ter permanecido encarcerado em Santa Cruz por dez dias até ser comprovada sua inocência. Deu o nome de alguns dos mortos: Raymundo de tal, Xavier, Manuel do Bonfim, Ventura, Agusto Carvalho. Não se lembrava do nome de todos.

Joaquim da Cruz ainda contou alguns fatos que viriam a acrescentar neste quebra-cabeça, como a execução de dois jovens assim que foram capturados, sendo um muito parecido com o abolicionista José do Patrocínio. Antes de ser executado, um deles fora torturado. Seus corpos foram enterrados em covas na praia de Sepetiba, sendo de conhecimento de toda população local.

De 19 de Dezembro de 1894 à segunda metade de Janeiro de 1895, o Jornal do Brasil correu atrás de informações sobre o caso. Entre relatos, entrevistas e cartas de leitores com informações desencontradas sobre o número de mortos que se atiraram nas águas de Sepetiba para tentar fugir do fuzilamento (ou das mortes por baionetas), as averiguações do jornal nos deixam um relato de como foram tratados aqueles que se insurgiram contra o governo de Floriano Peixoto.

Presidente Floriano Peixoto

As execuções sumárias de jovens marinheiros em plena belle époque carioca mostra que nem tudo eram flores em um período de aparente ápice de progresso da humanidade. O acontecido em Sepetiba não foi um caso isolado, como certamente argumentariam nos dias de hoje os mais apaixonados por tais acontecimentos, pretensos defensores da ordem e da família tradicional. E também não é uma exclusividade da época em relação à revoltosos: até hoje nos deparamos com fatos parecidos em nossos noticiários, mostrando nossa herança autoritária e satisfeita por andar às margens da legalidade.

Por Vitor G. Almeida

Originariamente postado em Diário do Rio.Com

Texto sugerido por Flavio Brandão

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Salim de Campo Grande


Foto casarão antigo do Salim: Carlos Eduardo de Souza

De origem árabe, o nome Salim, segundo fontes, significa algo como "paz", um "homem com energia para transformar boas ideias em trabalho lucrativo".

No bairro de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, existe uma localidade (ou sub-bairro), na estrada do Tingui, denominado Salim. Segundo moradores mais antigos, o nome faz referência a um proprietário de terras chamado Salim, que viveu por essas bandas há muitas décadas. Alguns afirmam que o mesmo se tratava de um turco. Porém, era comum na região, descendentes de árabes/sírio-libaneses serem chamados de "turcos". Fica a questão no ar.

Ainda é possível encontrar na localidade um casarão antigo que, segundo "Seu Eno", um simpático morador da residência em questão, pertenceu ao "Seu Salim". No local, de grande extensão, indo até quase a Avenida Brasil, há plantações, criação de animais e produção de queijo. E é muito comum avistar o "Seu Eno" com sua carroça saindo para seu trabalho, numa cena que remonta muito ao século passado.

O Sub-bairro Salim também já foi palco de uma conhecida "corrida de cavalos" que, segundo Seu Eno e outros moradores, agitava a localidade, atraindo pessoas de várias partes da cidade.

Um outro morador antigo do local, mas que hoje não mora mais no Salim, Leu Lima, afirma que no local havia um morro conhecido como "Morro Vermelho", destruído e atualmente dando lugar a um condomínio. Leu Lima ainda afirma que costumava brincar num campinho de futebol, próximo a laranjais, típicos da época em todo Campo Grande. Abaixo, um mapa que o antigo morador fez de como era aproximadamente a localidade do Salim no passado.


Mapa feito por Leu Lima

Obs: a Rua da Bandeira hoje chama-se Estrada Carvalho Ramos, e a Estrada das Bandeiras é hoje parte da Avenida Brasil, que segundo fontes, este trecho ligaria a Avenida Brasil, na Estação de Lucas, com a Estrada Rio-São Paulo, em Campo Grande, passando por locais como Coelho Neto, Barros Filho, Deodoro, Gericinó e outros. Nos anos 1960, a Avenida das Bandeiras foi unificada com a Avenida Brasil.

Ainda no mapa, Leu Lima aponta alguns detalhes do local da época, como algumas propriedades e a quem estas pertenciam.

Abaixo, um mapa de aproximadamente anos 1950, pertencente a Leu Lima, com a Estrada do Tingui e a localidade do Salim próxima a ela.


Hoje a localidade convive com as constantes transformações que o progresso proporciona, com elevado número de residências, comércio e serviços em expansão, construções, mas ainda mantendo sítios e paisagens que remontam ao passado rural.

Foto: Carlos Eduardo de Souza. 


Agradecimentos especiais pelas informações a Leu Lima.

Originariamente postado no blog memoriascampogrande

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 26 de maio de 2020

Conheça José Bonifácio, o patriarca da Independência


José Bonifácio de Andrada e Silva, por Benedito Calixto, 1902. Felipe Camargo como o Patriarca da Independência em Novo Mundo. (Fotos de Wikipedia Commons e TV Globo)

Com a recente chegada de José Bonifácio a trama Novo Mundo, novela reprisada pela Rede Globo na faixa das 18:00 horas, o Patriarca da Independência voltou a se tornar um tema recorrente nas conversas da população brasileira. Saiba tudo sobre o enigmático político brasileiro a seguir.

José Bonifácio de Andrada e Silva era natural da cidade de Santos, no litoral sul de São Paulo. Ele nasceu em 13 de junho de 1763, sendo o segundo dos dez filhos do coronel Bonifácio José Ribeiro de Andrada, proprietário do sítio Mongaguá, que deu origem à cidade que leva esse nome e de sua esposa Maria Bárbara da Silva.

A família de Bonifácio pertencia a aristocracia portuguesa e tinha uma fortuna considerável. Deste modo Bonifácio recebeu uma educação esmerada. Aos 14 anos ele mudou-se para São Paulo, a fim de progredir em seus estudos, e aos 20 anos partiu para a Europa e passou a estudar em Coimbra, a grande universidade lusitana.

Fachada da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde José Bonifácio estudou. (Foto de Wikipedia Commons)

Em 1788 Bonifácio se formou em Direito e em Filosofia, se destacando por ser um bom aluno. Durante esse período ele também desenvolveu um grande amor pela leitura e pela poesia. Dando prosseguimento à carreira acadêmica, Bonifácio especializou-se em matemática, mineralogia e história natural, entre outros ramos.

Bonifácio tinha uma insaciável sede por conhecimento e guiado por esta viajou à pesquisa e estudo por toda a Europa Ocidental, conhecendo inúmeros países, sob o patrocínio da coroa portuguesa, que reconhecia suas inúmeras qualidades.

Bonifácio acompanhou de perto os acontecimentos que envolveram a Revolução Francesa, um dos principais marcos do mundo moderno, pois, nesta época, vivia em Paris, onde também ministrava aulas, e prestava serviços a coroa portuguesa no tocante a extração de ouro e pedras preciosas nas minas brasileiras.

Quando Bonifácio regressou a Portugal o país era sacudido pelas exigências do imperador francês Napoleão, que exigia o rompimento imediato das relações diplomáticas e econômicas entre Portugal e a Inglaterra, a grande aliada do país ibérico, que era, por sua vez, era o grande objeto de conquista da França.

Devido ao fato de Portugal não ter se posicionado oficialmente uma invasão seguiu-se, sob o comando do General Junot. No período Bonifácio aliou-se ao Corpo de Voluntários Acadêmicos, no qual chegou ao posto de comandante demonstrando bravura, porém não foi possível evitar o inevitável.

Em 1819, com 56 anos, Bonifácio finalmente regressou a sua terra natal: o Brasil, que desde 1808 era sede da corte portuguesa. Em São Paulo, ao lado de seu irmão Martim Francisco, realizou pesquisas mineralógicas, mas acabou envolvendo com política organizando as eleições de 1821 e tomando parte no governo paulista.

D. Pedro I, por Benedito Calixto, 1902. Caio Castro como o imperador na novela Novo Mundo. (Fotos de Wikipedia Commons e TV Globo)

Porém, Bonifácio entraria definitivamente para a história por ser o redator de uma carta que pedia a permanecia do príncipe d. Pedro no Brasil, apesar das ordens das Cortes Portuguesas, que virtualmente governavam Portugal, após a eclosão da Revolução Liberal do Porto e o regresso de d. João VI.

A ascensão política de Bonifácio foi meteórica. Tudo aconteceu de maneira inesperada quando o velho estudioso acreditava já ter cumprido o seu destino. Após a Proclamação da Independência, em setembro de 1822, ele foi nomeado Ministro dos Negócios do Interior no Rio de Janeiro, após hesitar em assumir o cargo.

Três irmãos de Bonifácio também passaram a fazer parte do governo. Martim Francisco ocuparia o cargo de ministro da Fazenda, lançando mãos de medidas eficazes para recuperar o déficit econômico, enquanto Antônio Carlos, recém-saído da prisão por envolvimento com a Revolução Pernambucana de 1817, seria deputado nas cortes de Lisboa e na assembleia constituinte de 1822.

Bonifácio esteve à frente do ministério de D. Pedro I por escassos 18 mês, de janeiro de 1822 a julho de 1823, mas fez história e teve grande influência sobre o imperador. Bonifácio tinha idade para ser pai de D. Pedro e revelou-se um ótimo conselheiro.

Conta-se que o imperador saia da Quinta da Boa Vista montando a cavalo e dirigia-se à casa do ministro, situada no centro da cidade, sem a necessidade de marcar uma audiência quando estava em busca de algum conselho.

Narcisa (Márcia Cabrita) e José Bonifácio (Felipe Camrgo) em Novo Mundo. (Foto de TV Globo)

Segundo relatos contemporâneos Bonifácio adorava crianças. Conhecemos pelo menos duas crianças ilegítimas que foram frutos de seus amores. Uma nasceu em Paris e outra em Portugal. Em 1790 ele contraiu matrimônio com a irlandesa Narcisa Emília O’Leary com quem teve duas filhas Carlota Emília e Gabriela Frederica.

Homem sábio e visionário Bonifácio era um progressista nas ideias e nos planos para o Brasil. Defendia tópicos revolucionários como:

fim do tráfico negreiro e a abolição da escravatura;
integração dos ex-escravos a sociedade como cidadãos de pleno direito;
reforma agrária pela distribuição de terras improdutivas;
 estímulo à agricultura familiar;
tolerância política e religiosa.
reforma no sistema educacional possibilitando educação para todos;
criação de universidades;
maior  proteção e conservação das florestas;
e por fim tratamento respeitoso aos índios.
Se o seu programa de governo tivesse sido implantando e apoiado pela classe política de então podemos afirmar que o Brasil teria rompido a ordem social vigente há séculos e dando grandes saltos rumo ao progresso e a modernização criando uma sociedade mais igualitária.

Bonifácio foi exitoso ao organizar a ação militar contra as províncias que resistiram a aderir a independência como, por exemplo, a Bahia. Porém, fracassou num dos pontos que lhe eram mais caros: a abolição da escravatura.

Praticada desde os primórdios do século 16, data da chegada dos portugueses ao Brasil, a econômica brasileira fora dependente do tráfico negreiro durante os mais de três séculos da colonização. O sistema econômico baseava-se, em grande parte, na mão de obra cativa, de tal modo que a abolição da escravatura na Independência revelou-se impraticável.

Volta à cidade de um proprietário de chácara, por Jean-Baptiste Debret, 1822. (Foto de Palco, Arte, Cinema)

Porém, o que causou o rompimento entre José Bonifácio e d. Pedro I, e consequentemente a saída dos irmãos Andrada do governo, foi a anistia geral e o fim da devassa em São Paulo, e em outras províncias, que o imperador decretou em relação aos envolvidos com a Bernarda de Francisco Inácio.

A chamada Bernarda de Francisco Inácio acontece em São Paulo, em maio de 1822, e impediu, por meio de armas, que Martim Francisco assumisse o governo da província. Tratava-se de uma disputa entre facções políticas. De um lado havia a facção dos irmãos Andrada, e seus aliados; de outro, a facção liderada por Francisco Inácio de Sousa Queirós e João Carlos Augusto de Oeynhausen.

Sentindo-se afrontados os irmãos Andrada renunciaram aos seus cargos quando souberam dos decretos lavrados pelo imperador que libertavam os prisioneiros, anulavam as devassas (investigações), e os decretos de deportação. Anistia geral era o resultado.

Marquesa de Santos, por Francisco Pedro do Amaral, c. 1820-29. Agatha Moreira como Marquesa de Santos em Novo Mundo. (Fotos de Google Arts & Culture e TV Globo)

Os Andrada até mesmo chegaram a acusar a amante paulista do imperador, Domitila de Castro e Canto e Melo, de receber subornos dos revoltosos para convencer d. Pedro a conceder anistia aos seus conterrâneos, porém, nada foi comprovado, e muitos pesquisadores atualmente veem a queda de Bonifácio e seus irmãos como resultado de suas ações arbitrarias e autoritárias.

As coisas pioraram quando os Andrada, especialmente Martim Francisco, defendeu, subsequentemente, na Assembleia Constituinte, projetos de lei que propunham a expulsão e o confisco de bens de portugueses residentes no Brasil que não apoiaram a Independência da colônia, e a retirada dos direitos civis dos militares portugueses, e a deportação dos mesmos. Nesta ocasião o povo tomou a Assembleia para ouvir os discursos de Martim Francisco e Antônio Carlos.

Ao mesmo tempo os Andrada fundaram dos jornais intitulados O Tamaio e Sentinela da liberdade à beira mar da Praia Grande, que pregavam ideias nacionalistas e antilusitanas causando um grande alvoroço social. Sentindo uma tensão crescente no meio das tropas o imperador ordenou que elas fossem movidas para São Cristóvão tentando, assim evitar, um derramamento de sangue na cidade.

Diante da inércia da Assembleia, que apesar dos pedidos do novo ministro-chefe Francisco Vivela Barbosa, não tomava nenhuma atitude, e ademais, se delongava para aprovar os artigos da Constituição d. Pedro tomou uma atitude polêmica: ele ordenou que as tropas fechassem a Assembleia à força. O resultado foi a chamada Noite da Agonia, em 12 de novembro de 1823.

Sessão das Cortes de Lisboa, por Oscar Pereira da Silba, 1922. (Foto de Wikipedia Commons)

Preso e deportado para a França ao lado de seus dois irmãs, e demais políticos, José Bonifácio se converteria num áspero crítico de D. Pedro e seu governo. Lembrar-se-ia com amargura de Domitila de Castro e ficou ultrajado quando a mesma recebeu o título de marquesa de Santos, a sua cidade natal.

Bonifácio voltou do exílio seis anos mais tarde e reencontrou com D. Pedro, que não se deixou levar pelas magoas e embates políticos do passado. Antes de abdicar o trono brasileiro e também partir para a Europa, em abril de 1831, o imperador nomeou José Bonifácio tutor de seus filhos, entre eles o futuro D. Pedro II.

D. Leopoldina, interpretada brilhantemente por Letícia Colin, em Novo Mundo foi mãe de d. Pedro II, que é visto, ao lado, em tela de Arnaud Pallière aos 6 anos. (Fotos de TV Globo e Wikipedia Commons)

Porém, o velho cientista e político permaneceu pouco tempo no cargo. Apesar de ter prestado juramento diante do Senado e de ter sido aceito pela Assembleia em agosto do mesmo ano acabou sendo acusado de tramar a volta de d. Pedro. Foi retirado do cargo de tutor em dezembro.

Quando José Bonifácio morreu em seu sitio em Paquetá, na madrugada de 6 de abril de 1838, ele estava empobrecido e esquecido. Apesar de ter sido absolvido das acusações se recolhera em exílio voluntário. Estava desiludido com os rumos da política brasileira. Seus restos mortais estão hoje depositados no Panteão dos Andradas, monumento erguido em sua homenagem em Santos.

Está matéria foi escrita por Fernanda Flores, com base nas informações coletadas das fontes, que são citadas logo abaixo. A autora permite reprodução e tradução do texto desde que seja citada a fonte e a autoria.

Fontes:

CALMON, Pedro. História do Brasil. O Império. 1800-1889. Vol. 4. In: A Constituinte – Companhia Editora Nacional, 1947. cap. 13, p. 196-205.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. 1° ed. Rio de Janeiro: LeYa, 2015.

GOMES, Laurentino. 1822. Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram dom Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira Participações, 2010.

Originariamente postado em blograinhasmalditas.wordpress

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

segunda-feira, 25 de maio de 2020

A brasileira que era chamada de “mulher do diabo” por ter senso de justiça



Leolinda Figueiredo Daltro nasceu na Bahia, em 14 de julho de 1859, foi professora, sufragista e indigenista, e lutou pela autonomia das mulheres.

Em 1910, juntamente com outras mulheres, fundou o Partido Republicano Feminino. Em 1917, liderou uma passeata exigindo a extensão do direito ao voto às mulheres.

O senso de justiça de Leolinda a fez ficar conhecida como “a mulher do diabo” em 1909. No Brasil fervorosamente católico da época, uma mulher desquitada, ativa politicamente, que circulava em ambientes masculinos, acreditava na transformação pela educação e lutava para garantir o direito das mulheres ao voto não poderia ser considerada outra coisa senão “diabólica”.

Como era costume na época, casou-se cedo e teve dois filhos. Porém, logo separou-se do marido, encontrando uma motivação para estudar para ser professora e ajudar nas economias de casa. Aos 24 anos, casou-se novamente e mudou-se para o Rio de Janeiro “em busca de melhores condições de vida”. Com o novo marido, Leolinda teve mais três filhos. Logo após sua ida para o Rio de Janeiro, Leolinda se separou ou ficou viúva, não se sabe ao certo.

Fundou o Partido Republicano Feminino com a poetisa carioca Gilka Machado em 1910, bem como três jornais dedicados à mulher, além de publicar dois livros nos quais contou aspectos de sua vida. Por mais de dez anos, Leolinda e suas companheiras de partido criticaram a cidadania incompleta das mulheres e participaram de todos os eventos que podiam ter repercussão na imprensa.

Além disso, Leolinda percorreu o interior do Brasil a fim de estimular a alfabetização laica de comunidades indígenas, uma vez que o sistema vigente na época era de catequização e conversão ao catolicismo.

Em 1902, em uma viagem ao sertão de Goiás, procurou o Instituto Histórico Brasileiro para propor a criação de uma associação civil de amparo aos indígenas. Daltro foi impedida de participar pessoalmente da reunião sob a alegação de que era mulher.

A partir de 1890, o voto deixou de ser considerado como um símbolo e passou a ser visto como uma chave para mudanças. As sufragistas diziam que as vidas das mulheres não melhorariam até que os políticos colocassem seus olhos no eleitorado feminino. A luta pelo direito de voto era um meio para atingir um fim.

Em 1913, os jornais deram ampla publicidade ao movimento das suffragettes, quase sempre reforçando que este não era um comportamento que as brasileiras deveriam seguir.

Na década de 1930, Leolinda ainda estava ativa na luta pela emancipação feminina, fazendo parte da Aliança Nacional de Mulheres. Leolinda, na maioria das vezes, foi mal compreendida e teve que suportar piadas e zombarias em relação à sua luta.

Ela não queria revolucionar o papel da mulher na sociedade. O objetivo era reformar seu papel, integrando a mulher de forma mais justa e igualitária na sociedade brasileira e dando oportunidades para que as mulheres fizessem parte da vida pública. Ela também procurou reformar as leis para que as mulheres brasileiras atuassem de forma igualitária à dos homens, com as mesmas oportunidades e direitos.

Leolinda foi uma das pioneiras da luta pelos direitos das mulheres no Brasil. E até hoje lutas como a dela seguem necessárias, já que as mulheres trabalham e estudam mais, mas continuam ganhando menos que os homens no país.

Por Maria Fernanda Garcia

Originariamente postado em observatorio3setor

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

domingo, 24 de maio de 2020

Anna Gonzaga e a Fazenda Inhoaíba


Instituto Metodista Ana Gonzaga - provavelmente anos 70 - Foto de Susana Huguenin - IMAG  Pesquisa da imagem: Guaraci Rosa

O bairro de Inhoaíba, localizado entre Campo Grande e Cosmos, na zona oeste do Rio de Janeiro tem sua história ligada a uma pessoa: Anna Gonzaga. Filha mais nova do casal Luis Antônio Gonzaga Suzano e Anna Joaquina de Soledade Gonzaga, donos da Fazenda Inhoaíba. Ela nasceu em 22 de novembro de 1861, mas em outra fazenda da família, a do Lameirão Pequeno, em Campo Grande (hoje nome de uma estrada). Criada nessa fazenda, entre muitos passeios a cavalo com o pai, Anna Gonzaga só sairia daquele paraíso de muito verde quando o pai a matriculou em um colégio interno no bairro de São Francisco Xavier, na zona norte da cidade, para que ela tivesse uma educação exemplar.

Anna Gonzaga, no entanto, teve uma vida de muitas perdas familiares. Aos 18 meses, perdeu a mãe e, logo depois, o irmão José. Em 1901, seu pai também faleceu e, pouco tempo depois, seu outro irmão, Luiz, e a filha pequena dele, Luiza. Sozinha, já que nem casou nem teria filhos, Anna Gonzaga manteve as fazendas de Inhoaíba e do Lameirão Pequeno do jeito que os pais queriam. Até mesmo quando o irmão e a sobrinha morreram, ela doou para a viúva, mesmo sem ter feito ainda o inventário do pai, uma boa parte da Fazenda Inhoaíba, mas depois a comprou, apenas para manter a fazenda com sua área integral. Mudou-se para uma casa simples numa vila do bairro da Tijuca e passou a se interessar pela Religião Metodista, frequentando a Igreja Metodista de Vila Isabel.

Em 1927, o reverendo Osório de Castro Caire apresentou a Anna Gonzaga à missionária norte-americana Layona Glen, que já estava no Brasil havia um bom tempo com a intenção de criar um orfanato, mas não conseguia apoio. O reverendo a aconselhou que não pedisse nada, apenas mostrasse o projeto a Anna Gonzaga. E foi o que ela fez, não sem antes se impressionar com a simplicidade em que vivia a rica fazendeira, numa casa modesta, mas organizada com muito bom gosto. Layona foi mostrando à Anna Gonzaga fotos e registros dos orfanatos mantidos pela Igreja Metodista nos Estados Unidos, despertando interesse na fazendeira, que fazia muitas perguntas.

Passado um tempo, quando a missionária acreditou que conseguiria algum apoio, travou-se o seguinte diálogo, segundo está escrito no livro que Layona escreveu em homenagem à fazendeira:

“A senhora conhece minha fazenda em Inhoaíba?” A visitante respondeu que conhecia apenas de vista.– “Pois bem” – continuou ela – “não acha que seria um bom lugar para um orfanato?”

– “Sem dúvida, Dona Anna, seria muito apropriada mas não podemos nem sonhar com uma fazenda tão vasta e de preço tão elevado”.

– “Não estou falando de preço” – insistiu Dona Anna – estou me referindo à localização”.

– “Na verdade, Dona Anna, o lugar seria ideal mas nós nem de leve podemos considerar tal coisa, por estar muito além de nossas possibilidades”.

– “Pois está muito bem” – continuou Anna com naturalidade – “Está muito bem! Vou doar a fazenda de Inhoaíba para o Orfanato”.

(Dona Anna da Conceição Gonzaga – um tributo de homenagem de sua amiga, de Layona Glenn)

A escritura de doação foi assinada em 13 de dezembro de 1930. A própria Anna Gonzaga cuidou da imensa burocracia e pagou todos os impostos. Além do orfanato, foi construída também uma Casa de Oração, que mais tarde seria transformada em igreja.

O orfanato foi inaugurado em 1.º de maio de 1932, mas a responsável para que todo aquele trabalho fosse realizado não pôde presenciar sua inauguração. Na noite de 14 de março, Anna Gonzaga estava sozinha em casa, como sempre, e levou um tombo, quebrando uma das pernas. Não conseguindo se levantar, começou a gritar e a bater com o sapato no chão, até que uma vizinha ouviu e foi ajudá-la. Não havia telefone por perto e só com muito esforço conseguiram avisar o Posto de Assistência, que só chegou às 3 horas da madrugada. Não havia médico de plantão e Anna Gonzaga ficou aguardando atendimento por muitas horas. Só de manhã, quando alguém foi a Inhoaíba e deram a notícia, providências foram tomadas para que ela fosse internada no Hospital Evangélico, onde faleceu depois de 15 dias, no dia 1º de abril, principalmente pelo longo tempo que ficou sem atendimento. Anna Gonzaga foi sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, no jazigo de seu pai.

Sob o argumento de que ela não gostaria que adiassem a inauguração do orfanato, a data foi mantida e, mesmo com muita tristeza, ele foi inaugurado no dia 1º de maio. Em homenagem a ela, o orfanato recebeu o seu nome.

Anna Gonzaga já havia doado uma faixa de terra para a construção da estação de trem local, com a condição de que tivesse o mesmo nome de sua fazenda, e também doaria a Fazenda do Lameirão Pequeno para a Igreja Metodista, que está lá até hoje. Em Inhoaíba, tanto o orfanato quanto a igreja fizeram de seu nome a referência local até hoje, incluindo várias atividades ligadas à cultura e à ecologia no bairro. Seu nome também está no Centro Municipal de Saúde de Inhoaíba.

Anna Gonzaga não gostava de tirar fotos, dizia que o orfanato seria o seu retrato. E, sem dúvida, seu desejo foi mais do que atendido.

Instituto Metodista Ana Gonzaga - provavelmente anos 70 - Foto de Susana Huguenin - IMAG  Pesquisa da imagem: Guaraci Rosa.

Por André Luis Mansur
Escritor e Jornalista.

Originariamente postado no noseducacao.net.br/blog

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

Esquina das Garrafadas

O legal de passear por cidades antigas como o Rio é que você pode encontrar a história enquanto caminha. Esta esquina, entre as ruas d...