quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Porque devemos valorizar nossos bairros e as pessoas que ajudaram a construir a história deles?

Por Historiador Paulo


Quintino Bocaiuva foi tão importante para a história brasileira e para a história carioca (onde viveu e ainda existe sua casa) que quando ele faleceu, parou parte da cidade para acompanhar seu enterro. Aqui vemos milhares de pessoas na estação de Cascadura indo reverenciar o antigo morador e importante brasileiro.

Veja o trecho tirado da página "UM CORAÇÃO SUBURBANO" sobre a situação!

"O enterro de Quintino Bocaiuva e porque o bairro da zona norte ganhou o nome do politico republicano.

Foto publicada na Revista O Malho de Junho de 1912, mostra o momento do enterro do jornalista e politico Quintino Bocaiuva no Cemitério de Jacarepaguá (Pechincha).

Quintino Antônio Ferreira de Sousa Bocaiuva (nasceu em 4 de dezembro de 1836 e faleceu em 11 de junho de 1912) foi um jornalista e político brasileiro, conhecido por sua atuação no processo da Proclamação da República. Como político, foi o primeiro ministro das relações exteriores da República, de 1889 a 1891, e presidente do estado do Rio de Janeiro, de 1900 a 1903.

Quintino Bocaiuva faleceu no bairro do Rio de Janeiro onde morava, e que hoje, em homenagem, leva o nome: Quintino Bocaiuva.

Quintino era, até o início do século XX, parte da Freguesia de Inhaúma, área da cidade que compreendia vários atuais bairros da região. O lado sul era pantanoso e fazia parte da Fazenda da Bica, com sede próxima à atual Rua Souto. Em 1876, foi inaugurada a Estação Cupertino de trens. Com a morte do jornalista, político e morador da região, Quintino Bocaiuva, em 1912, a estação próxima à sua casa ganhou seu nome e acabou também dando o nome ao bairro.

Em 1912, já eletrificado, o bonde de Jacarepaguá serviu de cortejo fúnebre a Quintino. O senador, antes de morrer, pediu para ser sepultado no Cemitério de Jacarepaguá. O féretro veio do Centro do Rio pelo trem da Central até Cascadura, de onde o cortejo seguiu de bonde até o Pechincha."

Fonte: Revista O Malho, Ano 1912.

Imagem: Biblioteca Nacional e Um Coração Suburbano.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Bolsonaro vai a Santuário de Aparecida e ouve sermão crítico

 Por José Maria Tomazella

Sem ser citado diretamente na homilia, Bolsonaro acompanhou missa da tarde com referências à pandemia, fome e desemprego.

Depois de ouvir críticas sobre a liberação de armas e a condução da pandemia pelo seu governo nas celebrações do Dia da Padroeira, o presidente Jair Bolsonaro tirou a máscara e causou aglomeração, nesta terça-feira, 12, no Santuário Nacional de Aparecida. Ele, que já tinha provocado um grande ajuntamento de pessoas na chegada, desfilou com o corpo fora do carro quando saiu do santuário. Parte do grupo, que se espremia nas cercas de segurança, o aplaudiu e chamou de "mito", enquanto um coro menor gritava "lixo". Um chinelo foi arremessado do meio do público, mas não atingiu o presidente.

Bolsonaro assistiu à missa da tarde na companhia dos ministros Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia e Inovações, e João Roma, da Cidadania. Na homilia, à frente do presidente, o padre José Ulysses da Silva, porta-voz do santuário, fez uma referência indireta à postura armamentista do governo. "Se conseguíssemos abraçar a proposta de Jesus nós seríamos um povo mais desarmado e fraterno", afirmou o padre.

Citando um trecho do evangelho lido por Bolsonaro durante a celebração, o religioso lamentou os mortos pela covid-19 e disse que "a vida é um valor que deve prevalecer sobre todo e qualquer outro valor, sobre nossos interesses políticos, econômicos e até religiosos". Desde o início da pandemia, o presidente sempre se posicionou contra as medidas de isolamento social, alegando prejuízo econômico. Segundo o padre, é graças à solidariedade da população que o País não atravessa uma crise ainda mais violenta. "Nós sabemos quantas pessoas perderam a vida para cuidar da nossa. Há mesas vazias, há desemprego e há sequelas da enfermidade", afirmou. Disse, ainda, que além do "dragão da pandemia" há o "dragão da ganância" que suga a vida de quem mais precisa e "tem muita gente sofrendo".

As declarações do padre ecoaram a homilia da principal missa do dia, celebrada pelo arcebispo de Aparecido, dom Orlando Brades, pela manhã: para ser pátria amada, não pode ser pátria armada".

Na cerimônia da tarde, Bolsonaro se apresentou para receber o sacramento católico da comunhão e participou do ritual de consagração à Nossa Senhora. Importante para os católicos e devotos da santa, o ritual não é aceito pelos evangélicos, que compõem importante base de apoio ao presidente. Durante a missa, Bolsonaro e seus ministros usaram máscaras, embora a direção do santuário já tivesse decidido permitir a participação presidencial na celebração mesmo sem a proteção facial. Antes da missa, o presidente se reuniu com o padre Carlos Eduardo Catalfo, reitor do santuário, e com dom Orlando, que presidiu a celebração.

Mentiras e fake news

Além de criticar a política de liberação do uso de armas do governo Bolsonaro, dom Orlando também se referiu ao viés negacionista de Bolsonaro, defendendo a vacina e a ciência. Também pediu uma pátria "sem ódio, uma república sem mentiras, sem fake news".

O arcebispo lembrou que o Brasil está enlutado pelas mais de 600 mil mortes na pandemia da covid-19 e defendeu a preservação da Amazônia. Também pediu um abraço aos índios, aos negros, às crianças, aos pobres e às "nossas autoridades, para que, juntos, construamos o Brasil Pátria Amada. E para ser pátria amada não pode ser pátria armada".

Quando esteve no santuário de Aparecida em seu primeiro ano de mandato, no 12 de outubro de 2019, Bolsonaro foi aplaudido, mas também foi vaiado pelos fiéis. Naquele dia, o arcebispo havia usado a homilia da missa para criticar duramente "o dragão do tradicionalismo" e afirmar que "a direita é violenta, é injusta, estão fuzilando o Papa, o Sínodo, o Concílio Vaticano Segundo". Depois, na presença do presidente, amenizou o tom, dizendo que os dragões seriam as ideologias "tanto da direita quanto da esquerda".

O presidente passa o feriado no Forte dos Andradas, em Guarujá, litoral paulista. Após a visita a Aparecida, ele retornou ao local, que funciona como hotel de trânsito da Marinha. Nesta quarta-feira, 13, ele retoma a agenda indo a Miracatu, no Vale do Ribeira, para uma entrega de títulos de regularização fundiária. Na segunda, 11, ele fez um passeio de moto até a Praia da Enseada, com capacete sem viseira - o que é proibido pelas leis de trânsito - e causou aglomerações, mais uma vez sem usar máscara. O uso do protetor facial é obrigatório por lei estadual. No sábado, 9, o presidente esteve em Peruíbe, onde visitou uma feira. Ele foi multado em R$ 500 pela prefeitura local por não usar máscara.

FONTE: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/bolsonaro-vai-a-santuario-de-aparecida-e-ouve-sermao-critico,d3ca80c40490c43f45442015b1a9e76a9qwclwdt.html

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

domingo, 10 de outubro de 2021

Rua Coronel Agostinho

Por André Luis Mansur

A Rua Coronel Agostinho, onde fica o Calçadão de Campo Grande, foi reconhecida pelo Decreto 1.165, de 31 de outubro de 1917, e homenageia “um negociante muito respeitado nela residente há muitos anos e que pertencia aos quadros da Guarda Nacional” (Patropi – Jornal da Região Oeste – Semana de 19 a 25/11/87).

Inicialmente chamada de Rua Tenente-Coronel Agostinho, ela “subiu de patente” e passou a abrigar muitos estabelecimentos comerciais, principalmente quando por ela passava o bonde, durante boa parte do século XX até a extinção deste meio de transporte na região, em 1967.

A princípio, ela era calçada com paralelepípedos, até que em 1934 começaram as obras de asfaltamento em seus 415 metros de extensão. Sua primeira loja importante foi a Padaria Adelaide, dos irmãos Peixoto, que acabou se transformando em um ponto de encontro dos mais prestigiados da sociedade campograndense. Outras lojas importantes da Coronel Agostinho foram a Casa Eunice, a Casa Abrahão (pioneira em artigos masculinos), a Drogaria Luzes, a Casa Nilza (uma das melhores sapatarias da Zona Rural) e a Casa Neves e Barros, um grande estabelecimento de ferragens, madeira e material de construção. Tivemos também por lá a saudosa Silbene (com entrada também pela Rua Augusto Vasconcelos), os Supermercados Leão, a Churrascaria Rio Grande, a Casa de Saúde Campo Grande e a primeira sede do Colégio Afonso Celso, entre muitos outros estabelecimentos importantes.

Em relação aos imigrantes que se estabeleceram na rua, os italianos e os libaneses foram os que mais prosperaram.

O projeto do Calçadão surgiu no início da década de 70 e teve como seu grande impulsionador o professor Moacyr Bastos, Administrador Regional de Campo Grande e, depois, vereador. Com projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, o Calçadão foi inaugurado em 1976 e permanece sendo a principal rua deste imenso bairro, com lojas como as Casas Bahia, Lojas Americanas, Papelaria Tid´s, o bom e velho Mercado São Braz e o Centro de Comércio de Campo Grande, no número 76, o prédio de 12 andares que marcou o início do “crescimento vertical” do bairro.

“Nesta rua, aconteceram as maiores e melhores festas de Campo Grande, tais como Carnaval, as paradas escolares e a grande procissão do Corpo de Deus, durante a qual os moradores enfeitavam as janelas de suas casas com colchas de rendas e muitas folhagens que, no auge da festa, constituía-se num extenso tapete” (Patropi – 29/11/1985).

Fonte: http://aecg.rio/2021/10/artigo-rua-coronel-agostinho/

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

A Fazenda do Mendanha, as primeiras mudas de café e o ilustre botânico - Campo Grande - Rio

Excelente pesquisa feita pelo amigo Hugo Delphim publicada na Página O belo e histórico Rio de Janeiro. Que eu compartilho aqui no meu blog para a leitura de todos!


Imagem de satélite localizando onde ficava a sede da Fazenda do Mendanha, entre o círculo vermelho, e a casa do botânico Francisco Freire Alemão, que era no alto do morro indicado pela seta branca.

Gostaria de compartilhar com os seguidores essa pesquisa que me custou muito tempo e que considero uma das melhores publicadas aqui. O texto ficou longo, peço desculpas, mas não tinha como ser diferente. O tamanho é proporcional ao valor histórico da região. Me esforcei pra não deixar nada de fora e apresentar fontes primárias. Boa leitura a todos ...

A ORIGEM:

Sendo parte da sesmaria concedida por Gonçalo de Aguiar em 1603 ao Padre Martim Fernandes, o Vigário da Sé do Rio de Janeiro, estando situada nas fraldas de "Gori-Sinonga" ou "Jorissinon", que é a Serra do Gericinó, a região passou a se chamar Mendanha por ter pertencido ao Capitão Luis Vieira de Mendanha Souto Maior no final do século XVII.


Recorte de mapa da virada do século XIX para o XX. Note a localização "M. De Curangaba" onde se localizava a casa do botânico Francisco Freire Alemão e  logo nos pés do morro a Fazenda do Mendanha. Fonte: Biblioteca Nacional.

Seu pai, também Luis Vieira de Mendanha Souto Maior, era genro de D. Catarina Bittencourt e do capitão Belchior da Fonseca Dória, que foi o fundador da capela de S. Antonio, localizada na Bica, em Guaratiba. Era casado com a filha D. Luiza da Fonseca Dória. A citada sogra era neta de Manuel Veloso de Espinha, sesmeiro de Guaratiba e vereador no Rio de Janeiro, e foi uma poderosa senhora de terras em "Cipitiva" (Sepetiba), Guaratiba, "Curumahi" (Grumari), fazendo divisa com as vargens e o Camorim. Também foi dona de terras no Curral Grande, onde havia um porto, onde se embarcava as caixas de Luis Vieira de Mendanha Souto Maior, o pai, que recebeu esta terra como dote de casamento. Ele também herdou terras de seu pai João Vieira de Carvalho na mesma Guaratiba e foi procurador de sua sogra em diversas transações de terras no final do século XVII. Esse poderoso personagem também foi juiz ordinário na ausência do governador Duarte Teixeira Chaves em 1683 e ocupou importantes cargos políticos da época, assim como diversos parentes das famílias Fonseca Dória e Veloso Espinha, por parte de sua esposa.


Recorte de mapa do início do século XX onde aparece a Fazenda do Mendanha. Fonte: Biblioteca Nacional.

O CAPITÃO MÓR MENDANHA:

O Capitão Mór da Guaratiba e Marambaia, Luis Vieira de Mendanha Souto Maior, filho, também chamado "o moço", foi dono de terras no mesmo Curral Grande, Juari, Inhoaíba e Sepetibinha. Também foi dono de um Engenho de invocação de N. S. da Conceição, em Guaratiba e outro de invocação a N. S. do Rosário, comprado de Francisco Dias Medonho em 1694, localizado na Penha. Também arrendou terras do Visconde de Asseca na Restinga e Barra da Lagoa da Tijuca. Naquela região outros membros da família também foram donos de terras, como Rodrigo de Mendanha (Cabuçu), Francisca de Mendanha, Helena de Mendanha, Guiomar de Mendanha (em Guaratiba) e seu irmão Antonio de Mendanha (em Guandu-Mirim). O capitão Luis Vieira de Mendanha também possuía uma chácara na Bica, que se localizava aos pés do Morro do Desterro e moradas de casas de sobrado na rua da Quitanda. Mas foi no Campo Grande que o Capitão Luis Vieira de Mendanha Souto Maior estabeleceu sua mais importante propriedade, o Engenho do Mendanha.

Vale aqui ressaltar que o Capitão Mendanha e sua esposa Clara de Moraes Coutinho foram presos pelo tribunal do santo ofício, isto é, pela inquisição. Não se sabe por qual motivo ele foi considerado cristão-velho, que é inocente, e sua esposa considerada cristã-nova, isto é, condenada pelo crime de judaísmo, com penas de confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo e penitências espirituais! Ela era cristã-nova de família e alguns de seus filhos também foram condenados, como outro Luiz Vieira de Mendanha, mais um a levar o nome na terceira geração. Segue em anexo um raro registro do seu processo no santo ofício em Lisboa.

O CAPITÃO MANOEL FREIRE ALEMÃO DE CISNEIROS:

As terras vizinhas da Fazenda do Guandu-Mirim, que se confundiam com o Engenho do Mendanha, pertenceram ao Capitão Manoel Freire Alemão de Cisneiros, que ali comprou em 1702, terras de Helena de Oliveira, que era viúva de Manoel Rodrigues de Alvarenga, além de terras de Francisco de Macedo Freire em 1712, Antonio de Oliveira em 1714 e de João Oliveira Sampaio em 1717. Foi também sócio de sua prima D. Brites de Lemos na Fazenda do Bangu e foi dono de terras também em outras regiões, como o Engenho de São Matheus (Nilópolis), do Engenho de N. S. da Graça (Vigário Geral), de uma "fábrica de pesca", que é uma armação de baleias, na Marambaia e de um Engenho na Ilha da Madeira. De origem portuguesa, foi um dos homens mais ricos do Rio de Janeiro naquele tempo e lucrava com empréstimos de dinheiro a juros. Também arrendava terras, engenhos e currais de gado, tomadas em represália a Martim Correia de Sá e Benevides. O português recorre por segunda vez ao rei, em 20 de novembro de 1713, para que se lhe restituíssem os bens, como fora ordenado:

"...e porque estar ordens se não têm até o presente executado, por respeito do suplicado que é um homem poderosíssimo, régulo e insolente, pede V. M..." (Cartas Régias, Sesmarias - Biblioteca Nacional)

Veja pela descrição que era um homem muito poderoso! Após a morte do capitão, parte da terra fica com seu filho Francisco Marcelino Freire, mas a família Freire Alemão inicia um lento processo de empobrecimento, se tornando simples lavradores nas próximas gerações, até que no início do século XIX, dela surge um importante personagem da história nacional, do qual falaremos mais adiante nesse estudo. 

Outro documento com mais de três séculos de existência pertencente ao processo de D. Clara de Moraes Coutinho presa pela inquisição. É uma ordem de prisão com confisco de bens. Fonte: Acervo pessoal.

O CAPITÃO FRANCISCO CAETANO DE OLIVEIRA BRAGA:

Em meados do século XVIII as terras do Engenho do Mendanha se encontravam divididas entre vários proprietários, sendo a localidade também chamada Guandu do Mendanha, já localizada na Freguesia de N. S. do Desterro do Campo Grande. A partir dai surge a figura do Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga, que aos poucos compra todas as porções de terra e as unifica novamente. Foram estas terras as seguintes: 250 braças compradas do alferes João Pimenta de Menezes em 1762. 900 braças compradas de Manoel da Costa Guimarães em 1763. 165 braças compradas de Francisco de Araújo de Andrade Souto Maior em 1764. 525 braças compradas de Francisco Marcelino Freire, filho de Manoel Freire Alemão de Cisneiros, em 1776, totalizando 1840 braças, que ainda acrescentou mais terras localizadas na Serra de Gericinó, que partiam até Marapicu, compradas do Alferes Antônio Barreto Pizarro em 1776, sendo estas pertencentes a antiga sesmaria do Capitão Antônio Coelho Cão.


Recorte de mapa de 1767 onde aparece o Engenho do Mendanha, vizinho ao Engenho do Furtado (Antonio Furtado de Mendonça), Engenho das Capoeiras, Engenho do "Jerexinó", Engenho dos Coqueiros e etc.

Segue trecho de um registro de 1771, onde cita o Capitão Francisco de Oliveira Braga:

"Escritura de doação gratuita de metade das terras de um engenho com várias benfeitorias que faz o Capitão Francisco Caetano de Oliveira, solteiro e morador no seu engenho chamado Mendanha..." (Arquivo Histórico Ultramarino).

Francisco Caetano de Oliveira Braga era filho do poderoso Bento de Oliveira Braga e também foi dono do Engenho de N. S. da Piedade, também chamado Engenho Novo, e do Engenho de São Bernardo, ambos onde hoje é o bairro de Anchieta, além da Fazenda do Magarça, que foi o Engenho de São Francisco de Paula, de Manoel Martins Magarça, além da Ilha do Brocoió, vizinha a Ilha de Paquetá e etc. 

Em 1776, o Capitão Francisco Caetano de Olivera Braga arrenda parte das terras ao Padre Antonio do Couto da Fonseca, outro famoso dono da Fazenda do Mendanha, conforme seguinte registro:

"Escritura de aforamento de terras que faz o Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga ao reverendo padre (...) Couto da Fonseca - Aforamento por 27 anos..." (1º Ofício de Notas, disponível no Arquivo Nacional)

Em 1778 arrenda outra parte das terras, conforme registro:

"Escritura de arrendamento de um engenho que faz o Capitão Francisco Caetano de Oliveira ao Tenente Bernardo José Dantas – chamado Mendanha. Com condição de que o engenho se compõe das terras a ele pertencentes e de que ele arrendatário está de posse (...) No arrendamento estão incluídos 30 escravos, 50 bois, 29 bestas, etc." (4º Of. Notas, no Arq. Nacional)

Em 1783, o contrato com o Tenente Bernardo José Dantas já havia acabado e Francisco Caetano de Oliveira Braga faz sociedade no engenho com João Vaz Pinheiro, conforme registro:

"Escritura de sociedade que fazem em um engenho de açúcar o Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga e João Vaz Pinheiro – sito na freguesia de Campo Grande, na paragem chamada Mendanha..." (1º Of. Notas, no Arq. Nacional)

Em 1784, essa metade do engenho é vendida ao mesmo João Vaz Pinheiro:

"Escritura de venda da metade de um engenho e seus pertences que faz o Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga a João Vaz Pinheiro - com 1.800 braças de terras de testada e meia légua de sertão, com 23 escravos, gado, bestas, de fazer açúcar, corrente e moente, sito na paragem denominada do Mendanha, Freguesia de Nossa Senhora do Desterro do Campo Grande..." (2 Of. Notas, no Arq. Nacional)


Mais uma página do processo de D. Clara de Moraes Coutinho (auto de entrega), presa pela inquisição, como diz no texto no "Anno do nascimento do nosso senhor Jesus Cristo de mil setecentos e doze anos aos onze dias do mês de outubro...", isto é, uma relíquia de 1712! Fonte: Acervo pessoal.

O PADRE ANTONIO DO COUTO DA FONSECA:

Em 1788, o Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga vende a outra metade do engenho ao Padre Antonio do Couto da Fonseca, antes mesmo de terminar os 27 anos do contrato de arrendamento. Segue registro da transação:

"Escritura de venda de metade de uma fazenda e um engenho de fazer açúcar que faz o Capitão Francisco Caetano de Oliveira Braga ao Padre Antonio do Couto da Fonseca – corrente e moente, chamado o Mendanha, sito na freguesia de Nossa Senhora do Desterro do Campo Grande, constituído em 1.840 braças de testada e meia légua de sertão..." (2º Of. Notas, no Arq. Nacional)

Em 1789 o Padre Antonio do Couto Fonseca compra a parte de João Vaz Pinheiro, que dentre tantos esquecidos pela historiografia, foi mais um. João Vaz Pinheiro também foi um importante senhor de engenho na Freguesia de São Tiago de Inhaúma, onde possuía os Engenhos de Inhaúma, N. S. do Pilar e Velho, além da famosa Fazenda do Capão, hoje chamada Capão do Bispo, por depois ter pertencido ao Bispo Dom José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco.

Nesse "vai-e-vem" de compra e venda de terras, o padre Antonio do Couto da Fonseca vende uma parte ao Capitão José Álvares de Azevedo em 1790, que depois vende ao Sargento-mór Antonio Garcia do Amaral, que também foi um dos herdeiros de seu tio Francisco da Silva Sene, também chamado Sena, da vizinha Fazenda do Guandu-Mirim. Daí surgiu o nome "Guandu do Sena" que perdura até hoje. Também foi dono do Engenho do Calundu em Jacutinga, que é a atual São João de Meriti. Os herdeiros do padre ficaram com a maior parte da Fazenda do Mendanha.


Esse documento é de valor inestimável, com mais de três séculos de existência (1713). Se trata da capa do processo de D. Clara de Moraes Coutinho, esposa do Capitão Luiz Vieira de Mendanha Souto Maior (ver nome marcado), presa pela inquisição. Fonte: Acervo pessoal.

AS PRIMEIRAS MUDAS DE CAFÉ DO SUDESTE:

As primeiras sementes do café do Brasil chegaram ao Pará, contrabandeadas das Guianas Francesas, por Francisco de Melo Palheta. Depois propagaram-se para o Amazonas e Maranhão. Por volta de 1762, João Alberto Castello Branco, transferido do Maranhão para chanceler da relação do Rio de Janeiro, no governo do Conde de Bobadella, manda vir as primeiras mudas de café, sendo plantadas no Hospício de Jerusalém, na antiga rua dos Barbonos, depois chamada rua Evaristo da Veiga. Sobre este fato testemunha Monsenhor Pizarro, em suas Memórias Históricas do Rio de Janeiro:

"Pouco a pouco se foi introduzindo a planta do café pelo Pará e Maranhão, onde tem prosperado notavelmente, depois que o decreto de 4 de maio de 1761 o isentou dos direitos nas conquistas portuguezas. Não excede muito do anno de 1770 o princípio desta cultura nesse paiz, devido ao zelo e dilligencia de João Alberto Castello Branco, chanceller que era na relação deste cidade, mandando vir, do Maranhão ou do Pará, onde nascera ou havia sido magistrado, as plantas primeiras que se dispuzeram na cerca do hospício dos padres Barbadinhos italianos e na quinta de João Hoppmann, além do arraial de Mata-Porcos..."

Do Hospício de Jerusalém sai sementes para a Quinta de John Hoppmann em Mata-Porcos (atual Estácio/Rio Comprido), no Engenho Velho, e para a Fazenda do Capão, do Bispo do Rio de Janeiro, D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco (atual Del Castilho). O Bispo envia sementes para o Padre Antonio do Couto da Fonseca, da Fazenda do Mendanha, e para o padre João Lopez em São Gonçalo. Assim também testifica o cônego Januário da Cunha Barbosa, biógrafo do Bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco:

"Também concorreu elle para a propagação da cultura do café, recebendo sementes da horta dos barbadinhos italianos, e fazendo-as distribuir com muita recomendação pelos padres Coito e João Lopez, aquelle no caminho de Rezende, este no districto de São Gonçalo. Estas sementes tiveram progresso que hoje sabemos, pois que da fazenda do padre Coito se derramaram por todas as de serra acima, onde prosperou espantosamente..."

Apesar dos esforços do Marquês do Lavradio em promover a cultura do café, ele permaneceu por muito tempo apenas nos jardins do Rio de Janeiro, figurando como planta de ornamentação, até que certos artigos sobre o café de Cuba, que foram publicados nos jornais da Côrte, fizessem com que alguns lavradores empreendessem no plantio do café, mas sem abandonar a cultura da cana. A primeira colheita foi desanimadora, sendo vendida a míseros 800 réis a arroba. Com a dúvida sobre o café alguns fazendeiros incendiaram seus cafezais. Os que continuaram encorajados conseguiram ótimos preços na segunda e terceira remessa para o exterior

Mas foi o padre Antonio do Couto da Fonseca considerado como o primeiro a plantar o café de forma sistemática, por volta de 1789, na Fazenda do Mendanha. Dali saiu as mudas para Resende, Areias, São João Marcos e toda a região de Serra acima, se alastrando para São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e etc. Por volta de 1792, o bispo D. José Joaquim Justiniano de Mascarenhas Castelo Branco, também plantando em larga escala, colhe incríveis 160 arrobas na Fazenda do Capão.

O Botânico Francisco Freire Alemão, que nasceu e morreu na Fazenda do Mendanha, confirma o testemunho do cônego Januário:

"A primeira plantação se fez na cerca do Hospicio dos Barbonos, situado na actual rua do mesmo nome. Ainda em 1782 o conego Jannuario ali viu dois pés de café, dos primeiros que nasceram nesta cidade. Parece que se foram criando sem suscitar grande atenção, até a chegada do vice-rei, o marquez do Lavradio, que foi em fins de 1769; isto é, sete ou mais alguns annos depois que as sementes tinham vindo. E é natural que fosse o interesse, que o vice-rei mostrou por essa planta, que movesse Hoppman a cultiva-la em sua chacara de Mata-porcos, e o bispo na sua fazenda do Capão (...) Da fazenda do Capão sairam plantas para a do padre João Lopez em S. Gonçalo, da qual se propagou o café pelos lugares circunvizinhos, e para a do Mendanha, em Campo Grande onde, pelo que eu pude alcançar essa cultura começou pouco antes de 1789. Do sitio onde se fez a primeira plantação em Mendanha era proprietário, e pouco tempo depois foi também da fazenda, o padre Antonio do Coito da Fonseca. Foi meu padrinho de baptismo e criou-me em sua casa até o dia de seu fallecimento acontecendo em 11 de janeiro de 1810 (...) Para o anil havia feito (o padre Coito) fabricas autoras e que talvez não tivessem irmãs em todo o Brasil; adoptando porém a cultura do café, desprezou aquella inteiramente. Nesta se esmerava de igual modo, e por meio de machinas espremia o café, lavava, seccava e o preparava até o ponto de beber-se; com a compra, porém, do engenho do Mendanha, substituiu as grandes plantações de café por cannaviaes, deixando apenas o quanto lhe desse para o gasto, e para presentear os amigos. Desses primitivos cafezaes ainda alguns alcancei: e vive ainda hoje uma preta, que contando mais de 90 annos, e conservando ilesas lembranças da sua mocidade, refere que fazia parte dos exércitos que se ocuparam no primeiro plantio de café, que fez o padre Coito. Dessa fazenda sairam mudas para serra acima, onde esta planta tão belamente se tem naturalizado..."

Ninguém melhor para testemunhar que o Botânico Francisco Freire Alemão, não só um grande entendido do assunto, mas também nascido e criado no local. Segue mais um registro do botânico sobre seu padrinho Padre Couto: 

"Lavrador inteligente, excogitava, experimentava e adotava os melhores métodos e aparelhos, que nesses tempos aqui se podiam conhecer; de modo que os produtos da sua lavoura, primeiro o anil, depois o café e ultimamente o açucar, eram entre os melhores que apareciam no mercado".

O BOTÂNICO FRANCISCO FREIRE ALEMÃO:


Francisco Freire Alemão, o grande botânico reconhecido pelo mundo afora. Fonte: Anais da Biblioteca Nacional.

Como citado, na Fazenda do Mendanha nasceu e viveu o grande botânico do século XIX, Francisco Freire Alemão! Sua mãe Feliciana Angélica, também fora afilhada do padre Couto, vivendo em sua casa criança e moça e casando-se no oratório particular da fazenda. Seu pai, João Freire Alemão de Cisneiros, das riquezas da família de outrora, herdou apenas o apego a terra. Zelava, administrava a triagem, seca e encaixotamento do açúcar, em troca, deixava o Padre Couto tirar meação da cana que moía. Do simples casal de lavradores, nasceu dez filhos, a maioria criada no duro labor da lavoura. Dos dez, somente dois romperam o vínculo da servidão. Foi Antonio o primeiro, se tornando médico da Santa Casa, e Francisco Freire Alemão, o botânico, também médico, doutorado em Paris.


Foto da lateral da casa do botânico Francisco Freire Alemão. Infelizmente está de difícil compreensão. Fonte: Arquivo Geral.

Para eximi-lo do recrutamento militar, a família tentou tornar Francisco sacristão. O seu mestre era o Padre Luís Pereira Duarte. Sobre esse período, nos conta o próprio Francisco Freire Alemão:

"Eu era só, o padre sem me ajudar, dava-me a seleta marcando a lição e deixava-me, indo dizer a sua missa em Coqueiros (...) Quando voltava para casa ao meio-dia, pedia-me a lição, que eu nunca pude saber. Êle enfurecia-se, ralhava, dizendo que eu não servia para aquilo, que fôsse aprender um ofício, etc. Eu me afligia, chorava e maldizia-me..." 

Dentre tantos notáveis que fizeram parte da história da Fazenda do Mendanha, não seria esse o principal? Difícil responder! Apesar de pouco lembrado hoje, Francisco Freire Alemão foi um conceituado botânico reconhecido a nível internacional, principalmente na Europa, se tornando depois médico cirurgião do império.

Francisco Freire Alemão nutria uma admiração pelo botânico Frei José Mariano da Conceição Veloso e como ele testemunha, assim descobriu tal vocação:

"Era eu ainda muito menino quando estêve em Mendanha o Padre Veloso fazendo coleções de ciências naturais. Minha tia Antônia tem lembranças fracas dêle e seus companheiros. Quando eu já tinha alguma inteligência ouvia à gente de casa alguma coisa a êsse respeito, como: que êles apanhavam borboletas e as comprimiam entre dois papéis, onde elas ficavam impressas. Eu que então já andava na escola fiz algumas diligências para imprimir borboletas..."

Quando Diogo Antonio dos Santos andou ensinando pelo Mendanha, dele se aproximou Francisco Freire Alemão e recomeçou os estudos. Tempos depois, Diogo se torna padre e professor do Seminário de São José e consegue, por intercessão junto ao bispo, uma matrícula gratuita no estabelecimento. Francisco Freire Alemão já tinha vinte anos, permanecendo como aluno pobre de 1817 a 1820. No fim, entre a ordenação sacerdotal ou interromper o curso, escolhe a segunda. Como a ordenação era uma aspiração familiar, ele não retorna ao Mendanha. Passa a viver de aulas a domicílio, de latim e primeiras letras. Assim sobrevive com poucos recursos na Corte. Em 1822 inicia os estudos de cirurgia. Se vale de uma pensão de nove mil e seiscentos réis que era concedida anualmente a doze alunos pobres, em troca de obrigações e serviços a tropa. Como os estudos médicos no Rio deixavam a desejar, pensa em ir a França estudar. Mas em 1827 se viu convocado para acompanhar o imperador na viagem ao sul do país. Mas simplesmente não se apresentou, como testemunha seu registro:

"Estava então preparando-me para ir a França estudar; fiquei muito contrariado, e segundo meu gênio, fiz-me esquecido, e não me apresentei. Estava pois criminoso; peguei-me com João Bandeira de Gouveia, cujas filhas ensinava, o qual me desembaraçou".

Em outubro de 1828, consegue por interferência do Dr. José Francisco Xavier Sigaud, uma passagem gratuita num navio de guerra francês, chegando em fevereiro de 1829 a Paris. Lá se dedica por três anos, obstinado no estudo, em vários cursos de várias sumidades científicas em diferentes estabelecimentos. Nos momentos de aperto, é ajudado por um velho amigo, com ele jantando todos os dias, pegando dinheiro adiantado para as matrículas e recebendo diversos favores. Descobre sua vocação nas aulas de botânica com o professor Clarion, redescobrindo a infância roceira no Mendanha.

Em 1831 defende sua tese sobre a papeira (Dissertation sur le goitre), permanecendo em Paris o tempo necessário para receber o diploma de doutor pela Escola de Medicina. No tempo que por lá esteve, nenhum passeio, viagem ou diversão, devido aos poucos recursos financeiros. Volta o mais breve, em fevereiro de 1832, desembarcando na Corte do Rio de Janeiro. O Brasil já havia passado por alterações políticas no período de sua ausência, sendo criada a Sociedade de Medicina, e duas escolas de medicina segundo o modelo francês. A Sociedade de Medicina abre as portas ao jovem médico, tendo como tema de sua tese de doutorado, uma dissertação manuscrita sobre o iôdo na cura do bócio. As portas da Escola de Medicina se abrem após o concurso para a cadeira de Botânica Médica e Princípios Elementáres de Zoologia. Não houve concorrentes a altura e, em 10 de junho de 1833, era nomeado para a vaga, com ordenado anual de um conto e duzentos mil réis. 

Em 1840, foi mais uma vez favorecido pelo acaso, quando o jovem imperador adoeceu subitamente, não estando presente o médico de plantão, recorreu-se ao mestre, ocupado em suas aulas da Escola de Medicina. Novos horizontes se abriam para o humilde camponês, que foi nomeado médico da câmera imperial. Quando estava de serviço, seja no Paço, na Quinta de São Cristóvão, na Fazenda de Santa Cruz ou no Palacete de Petrópolis, aproveitava, frequentando a biblioteca imperial, fazendo observações metereológicas e herborizando pelas redondezas. Em 1843 fez parte da comitiva que foi a Nápoles, para trazer a futura imperatriz Teresa Cristina. Passa a dar lições de botânica as jovens princesas e as acompanha nas excursões matinais. Acompanha também o imperador, em sua avidez de tudo empreender. Segue curioso depoimento:

"No dia 9 de junho de 1853, pelas 5 horas da tarde S. M. o Imperador quis ir ver um famoso jiquitibá que está nas matas de Andaraí, chácara dos senhores Marques (sua mãe que ainda vive chama-se Luisa?) e com efeito lá foi acompanhado pelo seu camarista Cabral, o seu guarda-roupa Miranda Rêgo, e eu, que estava de semana; o acompanhou também o senhor Marques (o doutor em Medicina) e outro mais velho."

Muito mais que um professor de Botânica, procurou Francisco Freire Alemão ser um Botânico, se embrenhando nas matas por anos, colhendo exemplares, classificando e etc, assistindo derrubadas e marcando árvores, destinando guardiões a elas, matutos de Campo Grande ou mateiros de Bangu. Se correspondia com Martius, Jean Goncet, Fischer, Michele Tenore, Giovanni di Brignolli, entre outros. Só com Martius foram 29 cartas trocadas, por iniciativa do europeu. Por cerca de 30 anos trabalhou arduamente em suas pesquisas, publicando 17 tomos de estudos, sempre pioneiros. As impressões eram custosas, muitas feitas através de favores. Para litografar uma planta, se pagava até 25 mil réis, fazendo com que ele mesmo gravasse seus desenhos. Em 1853 pleiteia sua jubilação da Escola de Medicina, que lhe custa perda financeira, mas proporciona o tempo necessário para se dedicar por inteiro a Botânica. De volta ao Mendanha, no sítio da tia Antônia, constrói uma casa no morro, que passsa a chamar Porangaba, que é lugar bonito e de boa vista. Em Porangaba, com a liberdade da roça, inicia a terceira fase de seus trabalhos, alternando seu tempo entre os matos do Mendanha e a Côrte. A localização de Porangaba, que depois se chamou Morro de Curangaba se encontra no mapa do final do século XIX e na imagem de satélite que estão em anexo. Uma rara imagem da casa onde viveu Freire Alemão também é compartilhada.

MEADOS DO SÉCULO XIX:

Em meados do século XIX, parte da Fazenda do Mendanha pertenceu a associação Pharol Agrícola, que alí estabeleceu uma escola fazenda experimental. Sobre esta época, segue uma notícia:

"A associação - Pharol Agrícola - que tem lutado com todas as dificuldades, que encontra entre nós tudo quanto é útil e vantajoso, começa a realizar algumas de suas promessas. Os instrumentos aperfeiçoados de agricultura encomendados na Europa pelo conselho administrativo e pelo gerente da sociedade, tendo desembarcado livre de direitos, graças a solicitude e esclarecida proteção de S. Ex. o Sr. marquez de Paraná, chegarão á fazenda do Mendanha no dia 27 do mez passado" (Correio Mercantil, e Instructivo, Político, Universal, em 1856).

O diretor da associação era Luiz Taizon, mas a falta de capitais necessários fizeram com que o negócio não fosse a frente. O período posterior a essa época não será abordado nessa pesquisa.


Raro registro fotográfico do início do século XX. Esta era a casa do grande botânico Francisco Freire Alemão  na Fazenda do Mendanha, onde nasceu e morreu! Imagem pertencente ao acervo pessoal de Hugo Delphim, colorida pelo mesmo.

A casa sede da Fazenda do Mendanha não existe mais. Os mapas da segunda metade do século XVIII apontam que ficava na margem esquerda do antigo rio Guandu do Sena, atual Bananal. Já os mapas do final do século XIX e início do XX apontam para a margem direita, aos pés do antigo Morro do Curangaba, primitivo Porangaba (ver mapas antigos em anexo), isto é, nos arredores da Estrada do Guandu, Caminho da Serra, Rua Eduardo Leite, Praça José Roman, Caminho das Piabas e etc. A casa do botânico Freire Alemão também não existe mais e segundo registros antigos ficava no alto do mesmo morro. Nela funcionou depois uma escola primária para meninos. A casa que provavelmente foi a sede da Fazenda do Mendanha, pertenceu no final do século XIX a professora Joaquina Augusta de Paula Silva, onde funcionou uma escola mista. As fontes antigas localizam a professora na antes chamada Piabas de Campo Grande, no Mendanha, isto é, nos arredores já citados. Em anexo segue raras imagens de ambas as construções.


Esta é a edificação que provavelmente foi a sede da Fazenda do Mendanha, onde no final do século XIX funcionou uma escola mista. Imagem colorida por Hugo Delphim, pertencente ao acervo do Arquivo Geral.



Esse edifício é o primeiro posto de saúde do Mendanha. Fonte: Arquivo Geral.

Apesar de ser um lugar carregado de história, hoje só nos resta apreciar as fotografias que aguçam nossa imaginação! 

Obs.: Se você leu até aqui, muito obrigado. Participe deixando seu comentário."

*Texto e pesquisa de Hugo Delphim, publicados na Página O belo e histórico Rio de Janeiro.

*As fontes de pesquisa se encontram no próprio texto.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Freguesia de N. S. da Apresentação de Irajá


 Você sabia?

Menos de cem anos depois da fundação da Cidade, a região de Irajá foi instituída como Freguesia, tornando-se a segunda da Cidade e a maior de todas em extensão de terra, dando mostras da importância que já tinha para a administração do governo colonial.

Embora o Rio de Janeiro ainda não passasse de um pequeno núcleo urbano, o território da Freguesia de Irajá estendia-se de São Cristóvão à Santa Cruz. Os terrenos de Jacarepaguá, Campo Grande e Engenho Velho pertenceram ao território da Freguesia de N. S. da Apresentação de Irajá até meados do século XVII.

Texto de Rita Ribeiro.

Compartilhado de orioquenaovivi

https://www.instagram.com/p/CT_S58sBAYN/?utm_medium=copy_link

Acesse o link abaixo e baixe em PDF toda a história da Freguesia de Irajá.

https://docplayer.com.br/4554666-Meu-iraja-agostinho-rodrigues-edicao-digital-coletivo-instituto-historico-e-geografico-baixada-de-iraja.html

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quinta-feira, 16 de setembro de 2021

A Leica e os Judeus



A Leica é a câmera pioneira de 35 mm.  É um produto alemão - preciso, minimalista e totalmente eficiente.

Por trás de sua aceitação mundial como ferramenta criativa estava uma empresa familiar e de orientação social que, durante a era nazista, agiu com graça, generosidade e modéstia incomuns.  E. Leitz Inc., designer e fabricante do produto fotográfico mais famoso da Alemanha, salvou seus judeus.

E Ernst Leitz II, o patriarca protestante de olhos de aço que chefiava a empresa de capital fechado enquanto o Holocausto se aproximava pela Europa, agiu de forma a ganhar o título de "o Schindler da indústria fotográfica".

Assim que Adolf Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha em 1933, Ernst Leitz II começou a receber ligações frenéticas de associados judeus, pedindo sua ajuda para tirá-los e suas famílias do país.  Como cristãos, Leitz e sua família eram imunes às leis de Nuremberg da Alemanha nazista, que restringiam o movimento de judeus e limitavam suas atividades profissionais.

Para ajudar seus trabalhadores e colegas judeus, Leitz discretamente estabeleceu o que ficou conhecido entre os historiadores do Holocausto como "o Trem da Liberdade Leica", um meio secreto de permitir que os judeus deixassem a Alemanha sob o disfarce de funcionários da Leitz designados para o exterior.

Funcionários, varejistas, parentes e até amigos de parentes foram "designados" para os escritórios de vendas da Leitz na França, Grã-Bretanha, Hong Kong e nos Estados Unidos. As atividades de Leitz se intensificaram após a Kristallnacht de novembro de 1938, durante a qual sinagogas e lojas judaicas foram queimadas  em toda a Alemanha.

Em pouco tempo, os "funcionários" alemães estavam desembarcando do transatlântico Bremen em um píer de Nova York e se dirigindo ao escritório da Leitz Inc. em Manhattan, onde os executivos rapidamente encontraram para eles empregos na indústria fotográfica.

Cada recém-chegado trazia em seu pescoço o símbolo da liberdade - uma nova câmera Leica.

Os refugiados receberam um estipêndio até que pudessem encontrar trabalho.  Dessa migração vieram designers, técnicos de reparo, vendedores, profissionais de marketing e redatores da imprensa fotográfica.

Mantendo a história em segredo O "Trem da Liberdade Leica" atingiu seu auge em 1938 e no início de 1939, levando grupos de refugiados a Nova York a cada poucas semanas.  Então, com a invasão da Polônia em 1º de setembro de 1939, a Alemanha fechou suas fronteiras.

Naquela época, centenas de judeus ameaçados de extinção haviam escapado para a América, graças aos esforços dos Leitzes.  Como Ernst Leitz II e sua equipe conseguiram se safar?

Leitz, Inc. era uma marca reconhecida internacionalmente que refletia crédito no recém-ressurgido Reich. A empresa produziu câmeras, telêmetros e outros sistemas ópticos para os militares alemães.  Além disso, o governo nazista precisava desesperadamente de moeda forte do exterior, e o maior mercado único de Leitz para produtos ópticos eram os Estados Unidos. Mesmo assim, membros da família Leitz e da empresa sofreram por suas boas obras.  Um alto executivo, Alfred Turk, foi preso por trabalhar para ajudar judeus e libertado somente após o pagamento de um grande suborno.

A filha de Leitz, Elsie Kuhn-Leitz, foi presa pela Gestapo depois de ser pega na fronteira, ajudando mulheres judias a cruzar para a Suíça.  Ela acabou sendo libertada, mas suportou um tratamento duro durante o interrogatório.  Ela também foi suspeita ao tentar melhorar as condições de vida de 700 a 800 trabalhadores escravos ucranianos, todos mulheres, que haviam sido designados para trabalhar na fábrica durante os anos 1940.

(Após a guerra, Kuhn-Leitz recebeu inúmeras homenagens por seus esforços humanitários, entre eles o Officier d'honneur des Palms Academic da França em 1965 e a Medalha Aristide Briand da Academia Europeia nos anos 1970).

Por que ninguém contou essa história até agora? De acordo com o falecido Norman Lipton, escritor e editor freelance, a família Leitz não queria publicidade para seus esforços heróicos. Somente depois que o último membro da família Leitz morreu, o "Trem da Liberdade Leica" finalmente veio à luz.

Agora é o assunto de um livro, "The Greatest Invention of the Leitz Família: The Leica Freedom Train", de Frank Dabba Smith, um rabino nascido na Califórnia que atualmente mora na Inglaterra.

Obrigado por ler o texto acima e se você se sentir inclinado, como eu, a repassá-lo a outras pessoas, faça-o.  Leva apenas alguns minutos.

As memórias dos justos devem viver.

Guisheft News via Carrie Kaufman

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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

SOS Guaratiba: um patrimônio cultural ameaçado



Guaratiba foi o nome dado por seus primeiros habitantes, os tupinambás, à região onde abundavam as garças: guará – ave aquática pernalta – e tiba – reunião de muitas coisas.

Depois vieram os homens brancos. Mais precisamente, em 1579, Manoel Velloso Espinha, que, tendo lutado bravamente lado a lado de Estácio da Sá contra os Tamoios, recebeu como recompensa a sesmaria situada ao Norte da atual Restinga de Marambaia, ao longo da costa, com duas léguas de comprimento e mais outras em direção ao sertão, somada à região hoje chamada Barra de Guaratiba.

Essa extensão de terras constitui a Freguesia de Guaratiba que, com a morte de seu proprietário, foi partilhada, tendo como divisa o Rio Piraquê, entre seus dois filhos: Jerônimo Velloso Cubas ficou com a parte Norte e Manoel Espinha Filho com a parte Leste.

Jerônimo não teve herdeiros e, por lei, teve de doar sua parte à província Carmelitana Fluminense, congregação religiosa de frades da Ordem do Carmo, que ali construiu igreja, noviciato e um engenho de açúcar. A região prosperou e nela surgiu a Fazenda da Pedra, região hoje denominada Pedra de Guaratiba.


Igreja Nossa Senhora do Desterro

É na Pedra de Guaratiba que se encontra a singela igrejinha de Nossa Senhora do Desterro, construída à beira mar, em 1628, em terras cedidas por Jerônimo Vellozo Cubas e sua esposa, Beatriz Álvares (ou Alves) Gago.

Já no século XIX, sua fachada foi alterada ao ser revestida de azulejos e, no século XX, sofreu inúmeras vezes reformas, tendo sido tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938.

Além dela, Guaratiba possui a Igreja de São Salvador do Mundo, construída em 1856, a Capela de Nossa Senhora da Saúde, que data de 1750, recentemente restaurada por iniciativa da comunidade local liderada pelo Sr. Ilton Alves de Jesus.

Vista a importância histórica e cultural da região, uma das principais preocupações da ONG “Centro de Estudos Pesquisas e Ações de Guaratiba” (CEPAG) consiste na preservação de seus marcos, referências de sua formação, completamente relegados ao descaso pelas instâncias competentes, a saber:

Marco da Fazenda  Imperial de Santa Cruz

– O Marco da Fazenda Imperial de Santa Cruz (1826), situado na APA da Brisa, cujo pedido de tombamento já foi encaminhado para Prefeitura do Rio e o processo encontra-se “parado” na Fundação Parques e Jardins;

– O Marco das Sesmarias na Ilha de Guaraqueçaba (1629) e os marcos que delimitavam o perímetro do Distrito Federal: em Guaratiba há cinco deles preservados nos quilômetros originais, mas todos os demais foram retirados para fazer guarda-corpo na orla da Barra de Guaratiba.




Além dos marcos especificamente, necessitam de cuidados de preservação: as Pontes da Estrada da Grota Funda que, construídas em 1870, constituíram a 1ª licitação pública para construção na área de Guaratiba, e a Ponte da Restinga de Marambaia – que data do período da 2ª Guerra Mundial e foi inaugurada com a presença do então Presidente Dutra.

Uma das pontes da Estrada da Grota Funda


Ponte da Restinga de Marambaia

Abandonadas também estão as quatro bicas, construídas nas décadas de 50/60, que representam a política do Triângulo Carioca: a primeira na Ilha de Guaratiba, a segunda na Estrada da Barra de Guaratiba, a terceira no Bairro do Mato Alto e a quarta no Largo do Alarcão, em Pedra de Guaratiba.

Fazenda de Marambaia

Por fim, a Fazenda de Marambaia – onde ocorria a seleção de escravos a serem  encaminhados para as fazendas do Alto do Piraí – que, hoje, que pertence à Polícia Militar.

Vale lembrar, para que não reste dúvida sobre a importância histórica e cultural de Guaratiba, que ali também se encontra um dos mais importantes sítios arqueológicos do país: o Sambaqui Zé Espinho.


A região de Guaratiba traz a história do Rio no seu território, ainda conservado pelos cariocas de nascimento e coração que lá habitam!  

Urge, portanto, investimento público na política de preservação cultural desta importante região que explica a nossa história.

Compartilhado de:

https://www.soniarabello.com.br/sos-guaratiba-um-patrimonio-cultural-ameacado/

Outras fontes:

http://brevescafe.net/quilombodamarambaia.html

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego