domingo, maio 03, 2026

O show de Shakira ontem foi mesmo um acontecimento

Milhares de pessoas reunidas diante de uma artista que há décadas ocupa um lugar singular: Shakira não é apenas pop — é narrativa.

Uma mulher que atravessou exposição pública intensa, vida pessoal transformada em espetáculo, julgamentos constantes — e que respondeu como pôde: com música, presença e permanência. Após mais de 10 anos juntos, Shakira e o jogador Gerard Piqué se separaram. O tema virou fenômeno midiático global, com enorme exposição da vida pessoal dela. Ela respondeu artisticamente, com músicas de grande repercussão

Shakira foi acusada de fraude fiscal pelo governo espanhol. Em 2023, ela fechou acordo com a Justiça, evitando julgamento. Pagou multa elevada e regularizou a situação.  Esse episódio reforçou a pressão publica a exposição de sua vida fora da música

Nos últimos anos, Shakira: voltou com força à música e aos palcos; construiu uma narrativa de independência, recomeço e afirmação; passou a ser vista como uma artista que transforma crise em linguagem  No Rio, não houve  apenas performance. Houve mesmo  identificação.

Porque o que se vê ali não é apenas uma cantora internacional. É uma figura que encarna algo muito contemporâneo: a disputa de uma mulher por autonomia em meio à superexposição.  Um lugar em que as mulheres não precisam chorar sempre, como foi o nome de seu show, e não precisam ser apenas vítimas 

Em tempos de redes, crises pessoais viram entretenimento. Mas também podem virar linguagem. E talvez seja essa a mensagem — mesmo quando não dita como discurso: continuar, apesar de tudo, já é uma forma de resposta.

E uma mulher ocupar o espaço público, com o próprio corpo e a própria voz, também é.  Foi lindo o show ontem — com tantas figuras brasileiras queridas — e a mensagem também.

Texto de Lilia Schwarcz - @liliaschwarcz

Historiadora e antropóloga brasileira.

sexta-feira, abril 10, 2026

Cordovil: o nascer de um bairro

A família Cordovil chega ao Brasil no início dos anos 1700 e logo se estabelece na Fazenda Real, que foi cedida por Sua Majestade, o Rei de Portugal, pelos serviços realizados no reino. Bartolomeu de Siqueira Cordovil, o primeiro dono da fazenda, logo após sua chegada, casa-se na Capela de Irajá, em 1707, com a filha do dono do Engenho de Irajá, a senhorita Margarida Pimenta de Mello. Bartolomeu, entre outros cargos, foi secretário do Governo da Capitania do Rio de Janeiro (assumiu em 20 de janeiro de 1705), cargo concedido apenas a homens de confiança. Faleceu em 3 de janeiro de 1738, deixando como herança as terras para o filho Francisco Cordovil de Siqueira e Mello, que substituiu o pai nos negócios.

Toda a sua descendência teve importância ímpar, não apenas para a história do Rio de Janeiro, mas também para a do Brasil. Sempre que folheamos os anais da Colônia e do Império, vemos o sobrenome Cordovil, como, por exemplo, o Major Wenceslau Cordovil de Siqueira e Mello, que exerceu várias funções, destacando-se como Juiz de Paz e Presidente do Colégio Eleitoral para a eleição de deputados. Outro grande nome foi o Almirante Joaquim Antônio Cordovil Maurity, considerado um herói na Guerra do Paraguai. Foi o aluno número um de sua turma na Escola Naval, participou ativamente da guerra, foi homem de confiança tanto no Império quanto na República e representou o Brasil no exterior em várias missões. O Visconde de Ouro Preto, em sua obra A Marinha de Outrora, fez uma citação ao ato de bravura de Maurity. D. Pedro II também prestou homenagem ao militar por sua dedicação ao Império.

Mas o chamado progresso, disfarçado de capitalismo, chega com força ao Rio de Janeiro. Após o Golpe de 1889, a cidade passa a experimentar uma grande evolução urbana. Locais até então considerados zonas rurais vão, aos poucos, sendo incorporados à cidade, iniciando-se um processo de urbanização que traria muitas pessoas para regiões inóspitas. Quando falamos de bairros como Cordovil, Brás de Pina, entre outros, devemos atribuir seu surgimento principalmente aos trens, pois a necessidade de lotear esses terrenos era urgente. O processo urbano da cidade, influenciado pelo capitalismo, determinou que o pobre não deveria ocupar o centro nem os bairros emergentes. Para que a cidade evoluísse, era necessário realizar uma urbanização que afastasse o pobre de seu local de trabalho, já que, com a nova visão de cidade, o custo de vida no centro seria muito mais alto. A estrutura do espaço urbano tem muito a ver com os conflitos entre classes, a luta pelo domínio territorial e a elitização de determinadas zonas em detrimento de outras.

Como o governo recém-instaurado apoiava os planos das elites, criou-se o ambiente perfeito para a separação social definitiva.

Esse novo padrão de cidade divide o território entre núcleo e periferia, sendo que o núcleo concentra as funções centrais (econômicas, administrativas, financeiras, políticas e culturais), enquanto a periferia abriga, majoritariamente, as famílias de classe média baixa. Foi nessa conjuntura que a família Cordovil viu a oportunidade de obter lucro vendendo definitivamente suas terras ao Visconde de Moraes (1848–1931).

Esse trecho foi retirado do Diário Oficial da compra das terras pelo Visconde de Moraes, responsável pelo loteamento do bairro. Contudo, registros do século XVIII mostram que a família Cordovil já havia colocado terras à venda, e possivelmente os primeiros moradores do bairro chegaram por volta de 1840.

Oficialmente, o bairro nasceu em 5 de outubro de 1910, devido à Lei nº 989/2002, de autoria da vereadora Rosa Fernandes. Porém, o livro de Waldir Fontoura mostra que já existia um local onde o trem parava para descarregar e embarcar produtos. Essa primitiva estação ficava na direção da Rua Cordovil, que, além de servir ao transporte de produtos agrícolas, também era utilizada para o escoamento de materiais destinados à construção de estruturas de captação de água dos mananciais de Tinguá e Xerém.

O trem foi o principal responsável pela transformação das antigas freguesias, até então exclusivamente rurais, em bairros em crescimento. As áreas abertas ao redor da linha férrea destinavam-se, sobretudo, aos mais pobres, que se deslocavam em massa. Para atender todas as classes, as locomotivas eram divididas em primeira, segunda e terceira classes.

Ao analisar periódicos da época, foi possível encontrar uma reportagem de 1836 que descreve as características da região, onde um local estava sendo colocado à venda para quem se interessasse. Essa área corresponde hoje às ruas Amaetinga e Aricambu, locais que ofereciam uma bela visão do mar (quando ele ainda existia, é claro).

O que quero apontar é que os primeiros moradores do bairro eram, em sua grande maioria, de origem pobre, embora exista um contraponto a essa hipótese. Brasil Gerson, em seu livro Ruas do Rio, aponta a presença de um grupo de portugueses com bom poder aquisitivo morando no bairro, o que leva a duas possibilidades: ou eram comerciantes em busca de oportunidades de crescimento, ou eram pessoas com melhores condições financeiras que escolheram o bairro para fugir da alta carga tributária da República. Uma família que até hoje habita a região é a família Bonavita, que, em 1930, era proprietária de uma olaria localizada na Estrada do Porto Velho, sendo de origem portuguesa.

“A periferia imediata é, principalmente, o local de residência da classe baixa” (ABREU, 2013, p. 25). O que sustenta a afirmação de que o bairro era majoritariamente formado por pessoas pobres são as propagandas de venda de terrenos. O periódico A Noite noticiou, em 14 de abril de 1913, a venda de terrenos no bairro. Ainda no mesmo ano, O Malho também anunciou vendas, com preços de 300$ réis, 8$500 réis e 5$700 réis. Em comparação, outro bairro que se formava na mesma época, mas sem acesso ao trem, apresentava valores muito superiores. Em Copacabana, que então era um local deserto e ocupado por pescadores, os primeiros terrenos foram vendidos por valores entre 3.000$ e 4.000$ réis. Em uma época em que os trabalhadores não tinham condições de vida dignas e sofriam a pressão da elite e do governo para serem afastados dos núcleos financeiros, os preços desses bairros tornaram-se atrativos para iniciar ou recomeçar a vida. Isso ocorreu especialmente devido às reformas urbanas promovidas pelo governo republicano, representado pelo prefeito Pereira Passos, que transformou o núcleo da cidade e expulsou a população mais desfavorecida de suas moradias.

A taxa de crescimento dos bairros que englobavam a freguesia de Irajá, entre os anos de 1890 e 1906, foi de 109%. Em 1890, a estimativa populacional da freguesia era de 13.130 pessoas; em 1906, esse número passou para 27.410. Essa população concentrou-se principalmente nas regiões próximas à linha férrea, sendo, em sua maioria, composta por pessoas de baixa renda.

Partes desta pesquisa deram origem a um TCC muito elogiado.

Foto: cedida por Tiago Bandeira.

Repostado do perfil do facebook Paulo Jorge.

terça-feira, março 31, 2026

A fortaleza de São João da Barra do Rio de Janeiro

A fortaleza de São João da Barra do Rio de Janeiro, também referida como Fortaleza de São João, localiza-se no lado ocidental da barra da baía da Guanabara, no atual bairro da Urca, Rio de Janeiro

Local da fundação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1565, o primitivo Forte de São João foi erguido por Estácio de Sá, fundador da cidade, que veio com a missão de expulsar os franceses da Ilha de Serigipe, onde hoje está a Escola Naval.

Acredita-se que este primitivo reduto, sob a invocação de São Martinho, defendia o lado de terra. Resistiu ao primeiro combate naval e terrestre, contra os tamoios, a 1 de junho de 1565. Posteriormente, com a vitória portuguesa definitiva sobre os franceses, a cidade foi transferida para o Morro do Castelo em 1567, sem que a defesa da barra tenha sido descuidada.


O forte ou reduto de São Martinho foi reforçado no governo de Salvador Correia de Sá (1568-1572) com a adição da bateria ou reduto de São Teodósio (1572), sobre a ponta de mesmo nome. No segundo governo de Salvador Correia de Sá (1577-1599) foi levantado o reduto de São José (1578), batendo a barra da baía da Guanabara. Com a conclusão do reduto de São Diogo (24 de junho de 1618), o conjunto entrou em serviço oficialmente, com o nome de Fortaleza de São João da Barra do Rio de Janeiro, cruzando fogos com a Fortaleza de Santa Cruz da Barra e com o Forte da Laje. O conjunto contava com trinta peças de artilharia de diversos calibres, que conservava à época do governador Duarte Correia Vasqueanes (1645-1648)


As suas defesas foram reforçadas pelo governador da capitania, Sebastião de Castro Caldas (1695-1697). Desse modo, repeliu, com o apoio da fortaleza de Santa Cruz, a esquadra do corsário francês Jean-François Duclerc, a 6 de agosto de 1710. Desguarnecida após o sucesso por ordem do governador Francisco de Castro Morais (1710-1711), pouco pôde fazer ante a invasão de dezoito navios, 740 peças de artilharia, dez morteiros e 5 764 homens do corsário francês René Duguay-Trouin, em setembro de 1711.

Juntamente com a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, do lado oposto da baía em Niterói e ainda, com o Forte Tamandaré da Laje, que fica numa ilha entre as duas fortalezas, tornavam praticamente intransponível a entrada de navios pela Baía de Guanabara.

Desativado durante a Regência, foi, por ordem de D. Pedro II, inteiramente restaurado em 1872. Em 1874 o Forte serviu de prisão do Bispo de Olinda Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira (1844-1878) após ser condenado pelo Superior Tribunal de Justiça na Questão Religiosa.


Durante a Revolta da Armada, trocou tiros com o encouraçado Aquidabã (capitânea da armada brasileira à época) e os cruzadores Javari e Trajano, das catorze às dezesseis horas de 30 de setembro de 1893, na eclosão da revolta da Armada (1893-1894), tendo o canhão Armstrong de 280 mm (o "Vovô") sido manejado por cadetes da escola Militar da Praia Vermelha. Os danos que lhe foram causados por esse episódio foram reparados em 1895.

Tendo participado de vários episódios da história do País, ali funcionam atualmente o Centro de Capacitação Física do Exército, a Escola Superior de Guerra e o Museu do Desporto do Exército. O Portão de Armas da fortaleza encontra-se tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1938.

Trabalho de Pesquisa do @brasilis_regnum