segunda-feira, fevereiro 23, 2026

História das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo

As Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM) foram um dos maiores e mais importantes conglomerados industriais do Brasil e da América Latina, com sede em São Paulo e atuação nacional abrangente desde o final do século XIX até o fim dos anos 1980. O grupo teve origem em 1891, quando o imigrante italiano Francesco Matarazzo iniciou atividades em Sorocaba (SP) com um pequeno comércio de banha, evoluindo posteriormente para a produção industrial e criando sua primeira estrutura fabril voltada a produtos como sabão e velas por volta de 1900. Ao longo das décadas seguintes, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, as IRFM chegaram a agrupar mais de 200 a 350 unidades fabris em setores como alimentos, têxteis, bebidas, metalurgia, papel e produtos químicos, empregando mais de 30 000 trabalhadores em várias cidades brasileiras. Em Marília (SP), por exemplo, uma das unidades do grupo — voltada ao beneficiamento de algodão e arroz — empregava cerca de 400 funcionários entre 1939 e 1975, sempre estrategicamente localizada próxima à ferrovia para facilitar logística e distribuição. 

Em termos de valor econômico, estimativas históricas indicam que o patrimônio de Francesco Matarazzo e dos ativos controlados pelas IRFM ultrapassariam os US$ 20 bilhões em valores atuais, colocando-o entre os empresários mais ricos do mundo em seu tempo e consolidando o grupo como o quarto maior gerador de receita do Brasil na sua era, atrás apenas de grandes entidades estatais e setores como o café exportador. Apesar de seu gigantesco alcance industrial e econômico nas primeiras décadas do século XX, o conglomerado começou a enfrentar dificuldades a partir dos anos 1970 e 1980, marcadas por disputas familiares, desinvestimentos e perdas competitivas, o que o levou a entrar em concordata e eventualmente à dissolução no fim da década de 1980. 

Fontes:

• Exposição resgata memórias das Indústrias Matarazzo – São Paulo para Curiosos (spcuriosos.com.br)

• Documento histórico sobre a Companhia Matarazzo e industrialização – Mackenzie.edu

Repostado do @curiosomundonosso

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Um episódio pouco contado

Em 24 de agosto de 1814, durante a Guerra de 1812, tropas do Império Britânico incendiaram a capital dos Estados Unidos, Washington, D.C., incluindo a então chamada Presidential Mansion, edifício que mais tarde ficaria conhecido como Casa Branca. O ataque ocorreu após a Batalha de Bladensburg, em Maryland, quando forças britânicas derrotaram facilmente a milícia americana e avançaram cerca de 10 quilômetros até o coração político do país. As tropas eram comandadas pelo general Robert Ross e pelo vice-almirante Alexander Cochrane, e incluíam soldados regulares britânicos estacionados em colônias da América do Norte, especialmente no território do Upper Canada, região que hoje corresponde em grande parte ao sul do Canadá (Ontário). Na noite do ataque, prédios públicos estratégicos foram incendiados, como o Capitólio, o Departamento do Tesouro e a residência presidencial, cujas paredes externas de pedra resistiram às chamas, enquanto o interior foi completamente destruído. 

É fundamental entender que o Canadá ainda não existia como país naquele momento: todo o território era colônia britânica, e a ofensiva foi uma retaliação direta à invasão americana de York (atual Toronto) em abril de 1813, quando tropas dos EUA saquearam e incendiaram edifícios governamentais britânicos em solo colonial. Ou seja, embora a decisão e o comando tenham sido da Inglaterra, o ataque partiu de território que hoje é canadense, usando soldados e infraestrutura da região. O incêndio de Washington marcou a única vez na história em que uma potência estrangeira capturou e destruiu a capital dos Estados Unidos, um episódio tão traumático que acelerou negociações de paz, culminando no Tratado de Ghent, assinado em dezembro de 1814.

Fontes de Pesquisa: 

American Battlefield Trust — The Burning of Washington (1814).

National Park Service (U.S. Department of the Interior) — The Burning of Washington.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

O silêncio como poder: Mídia, Discurso e Filosofia Política

Durante o Carnaval de 2026, a aparente interrupção dos comentários do carnavalesco Milton Cunha sobre a escola Acadêmicos de Niterói — que homenageou o presidente Lula — gerou indignação em parte do público. O episódio, independentemente das motivações reais da emissora, oferece uma oportunidade filosófica rara: observar ao vivo como o poder sobre o discurso opera na mídia de massa. 


🔸O discurso tem dono -- Foucault

Para Michel Foucault, o discurso nunca é livre: ele é sempre controlado, filtrado e delimitado por relações de poder. Em toda transmissão televisiva existe uma ordem invisível que define o que pode ser dito, por quem e até quando. Cortar um comentarista ao vivo não precisa ser um ato consciente de censura para revelar essa ordem — o gesto já a expõe. 

🔸A esfera pública em risco -- Habermas

Jürgen Habermas defendeu que a democracia depende de uma esfera pública genuinamente plural, onde cidadãos debatem livremente. O problema é que, no Brasil, essa esfera foi em grande parte ocupada por corporações midiáticas cujas escolhas editoriais respondem a interesses econômicos tanto quanto a valores jornalísticos. O que deveria ser fórum virou mercado. 

🔸O poder que não se vê -- Bourdieu 

Pierre Bourdieu chamou de violência simbólica as formas de dominação que se impõem sem aparecer como dominação. Na televisão, essa violência opera pela naturalização do filtro: o espectador assiste a uma transmissão aparentemente espontânea sem perceber as decisões que moldaram cada segundo do que viu. A invisibilidade do mecanismo é parte de sua eficácia. 

🔸Neutralidade é também uma escolha

Stuart Hall lembrou que não existe representação inocente. Toda escolha editorial — o que mostrar, o que cortar, quem fala — já é uma posição política. A pretensão de neutralidade das grandes emissoras muitas vezes cumpre uma função específica: proteger concessões públicas e contratos com anunciantes ao evitar conflitos com qualquer polo do poder. Esse pragmatismo corporativo é, ele mesmo, uma forma de política.

Conclusão

O episódio que motivou este texto — independentemente de qual tenha sido a real motivação da emissora — nos convida a exercitar um olhar filosófico sobre a comunicação de massa. Com Foucault, aprendemos a perguntar: quem controla o discurso e por quê? Com Habermas, a exigir que o espaço público seja genuinamente plural. Com Bourdieu, a desconfiar das violências que se disfarçam de normalidade. E com Stuart Hall, a lembrar que toda representação é uma escolha, e toda escolha é uma forma de poder.

Em uma democracia saudável, a vigilância sobre os meios de comunicação não é paranoia — é dever cívico. Questionar o que vemos na televisão, perguntar o que não foi mostrado e por que, é um exercício de pensamento crítico que a Filosofia nos treina a fazer. E é justamente isso que diferencia o cidadão do mero espectador.

Referências para aprofundamento:

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: UNESP, 2014.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

(Texto de autoria do Professor Lima Dias, 18.02.2026, Mossoró-RN.)