20.5.18

O Bairro de Cosmos e sua história


Croqui do bairro e um roteiro histórico. Desenho de autoria de Leu Lima

O local onde hoje se situa o bairro de Cosmos, foi nos primórdios parte das terras dos índios Tamoios. Depois que os índios foram expulsos e exterminados suas terras passaram a fazer parte do grande patrimônio da Fazenda Jesuítica, Real e Imperial. Fato este comprovado com os camotins ou igaçabas, (grandes vasos de barro onde os índios enterravam os mortos) encontrados, na época da construção do bairro.

Com o advento da República, as terras da fazenda, tornaram-se foreiras depois do ciclo do café. Foi quando surgiu o Núcleo Habitacional da Vila Igaratá.

O café que, no Estado do Rio de Janeiro, vinha em decadência desde a abolição da escravatura chegou ao auge da crise em 1929. Um pouco antes   em 1928, nascia o Bairro de Cosmos, construído pela Companhia Imobiliária Kosmos. A Companhia, fundada e dirigida por Oscar Sant’Anna, lançou grandes loteamentos que resultariam na urbanização de imensas áreas. Entre esses loteamentos estava a Villa Igaratá (que deu origem ao bairro). Como podemos ver num anúncio aqui publicado pelo O Jornal no dia 16 de junho de 1928. Lembrando que no começo da década de 1930 chegou a haver uma grande queima de café, no lugar onde hoje está situada a Igreja de Santa Sofia.

 
Como podemos ver num anúncio publicado acima pelo O Jornal no dia 16 de junho de 1928.

As indústrias têxteis, que desde o século XIX estavam em franca expansão, procuravam lugares mais amplos para que pudessem instalar suas fábricas e construir residências para os operários. Esta foi a principal razão para que uma dessas indústrias escolhesse como local a Vila Igaratá.

Chamava-se Fábrica de Tecidos Aliança e estava localizada no bairro de  Laranjeiras. Após negociar com a Companhia Imobiliária Kosmos uma área hoje conhecida como Caminho do Céu. Quando a fábrica estava prestes a se mudar para a Vila Igaratá, o negócio foi embargado pela justiça por uma tal de Companhia Metrópolis, que se intitulava a legítima proprietária das terras.

A fábrica de tecidos não veio, mas o bairro que foi planejado para ser uma vila operária, foi crescendo lentamente e se tornou um excelente lugar para morar. Com uma planta muito bem elaborada por um jovem projetista que na época iniciava uma carreira vitoriosa passando a ser reconhecido internacionalmente. Cujo nome era Oscar Niemeyer. Na década de 1940 as antigas terras foreiras da Fazenda de Santa Cruz foram transformadas em terras devolutas. Iniciando-se o importante ciclo da laranja em Cosmos.

Nessa época nas chácaras que foram criadas no Bairro de Cosmos, começaram a chegar muitos imigrantes portugueses. Entre os que chegaram, convidado por um primo, estava Serafim Moreira Sofia, pai do compositor Adelino Moreira e que era conhecido como Comendador. Homem muito trabalhador, começou como ourives no ramo de joias, o que gerou muitos empregos para os moradores locais. Tornando-se também um grande benfeitor de Cosmos. Ele distribuía pão e leite para as pessoas carentes e também participava de vários empreendimentos no bairro.

Em 1º de maio de 1930 foi fundado o Kosmos Atlético Clube e o Comendador participou ativamente da sua fundação. Posteriormente por desentendimentos internos desligou-se do mesmo e fundou o Esporte Clube Rosita Sofia.

O Posto de Saúde e a primeira Escola Pública foram instalados graças ao bom trânsito político do Comendador. A Igreja de Santa Sofia foi construída com o patrocínio do Comendador Sofia, que mandou construí-la como pagamento de uma promessa por ter escapado de um naufrágio ao vir de Portugal em plena Segunda Guerra Mundial.

A Unidos de Cosmos, a mais antiga escola de samba da Zona Oeste Carioca em atividade foi criada por incentivo do Comendador. Antes do surgimento do Grêmio Recreativo Unidos de Cosmos havia em Cosmos no Sertão Carioca, um bloco carnavalesco chamado União de Cosmos, fundado por um pernambucano auto-didata que veio para o Rio de Janeiro e apaixonou-se pelo samba carioca. Este pernambucano chamava-se Oswaldo Augusto de Albuquerque e que incentivado por Serafim Sofia fundou a Escola de Samba Unidos de Cosmos em 1º de janeiro de 1948, junto com outros bambas de Cosmos, como José Lima, Francisco Hilário Gomes, Adelino Moreira, Isaac Barbosa e o Sr. Artur. Nessa época, o Comendador doou o terreno para a construção da quadra e ainda ajudava a escola com donativos. Apenas solicitando a diretoria que deixasse o seu filho Adelino Moreira compor os primeiros sambas da escola até a formação da ala de compositores. Em l948 a Unidos de Cosmos filiou-se a Confederação das Escolas de Samba do Brasil. Entre os primeiros carnavais apresentados pela Escola destacamos: "Viva a Marinha Brasileira", de 1950. Cujo samba foi escrito pelo saudoso compositor Adelino Moreira, já então um famoso compositor luso-brasileiro, autor de inesquecíveis canções, como a "A Volta do Boêmio", "Fica Comigo Esta Noite" e "Normalista". A agremiação desfilou até 1952 quando foi afastada devido ao não comparecimento dos seus diretores a cabine dos jurados pela Coordenação desse desfile. Muitas escolas de samba não desfilaram naquele ano devido aos violentos temporais que caíram sobre a cidade. Muitas escolas desfilaram apenas com os pavilhões e a Unidos de Cosmos ficou aguardando o fim do temporal embaixo das marquises do Edifício da Central do Brasil.
De 1953 a 1968 a Escola ficou afastada dos desfiles oficiais do Centro do Rio, sobreviveu como entidade carnavalesca participando dos desfiles de escola de samba de Campo Grande, Santa Cruz e da cidade de Itaguaí (Costa Verde). Comenta-se que o longo afastamento da Unidos de Cosmos dos desfiles oficiais foi devido à má vontade dos dirigentes da Confederação das Escolas de Samba do Brasil em autorizar o retorno da Verde e Branca da Rua Iguaraçu aos certames oficiais do carnaval carioca. Em 1969, a Confederação autorizou a volta da Escola aos desfiles oficiais, entretanto não protocolou a apresentação da agremiação que não teve o seu desfile reconhecido oficialmente. Cansada de ser enrolada pela Confederação, filiou-se a Associação das Escolas de Samba do Estado da Guanabara, tendo que fazer um desfile de avaliação sem subvenção. Foi aprovada e em 1971 retornou as disputas carnavalescas oficiais onde obteve a nona colocação com o enredo "Exaltação ao Negro Brasileiro" que exaltava importantes personagens negros da História do Brasil.

Um outro pioneirismo da Unidos de Cosmos foi lançar um enredo falando sobre o futebol, numa época em que os enredos abordavam apenas temas históricos, biográficos e culturais. Este enredo intitulado "Epopéia Carioca" de autoria de Flávio Lopes de Almeida que abordava também a introdução de ritmos e danças nativas até chegar ao samba criado pelos afro-descendentes, expoente máximo do carnaval carioca. Onde merece ser destacado também o enredo "Candomblé, Culto a Magia Afro-Brasileira" de 1976. Com esse enredo a Unidos de Cosmos prestou homenagem aos candomblecistas e reverenciou os orixás africanos. Outro destaque foi o enredo de 1980, "O Brasil também é criança", em que as crianças e os seus brinquedos pueris são mostrados na avenida. Em 1981, com o enredo "Enfim a Felicidade", assinado pelo saudoso carnavalesco Ney Ayan, a escola falou sobre a mitologia indígena, lembrando as histórias fantásticas dos deuses Tupis. Em "Numa Noite, um Dia no Rio", de 1982, a Cosmos mostrou as belezas do Rio de Janeiro, seus folguedos e o cotidiano alegre do carioca. "Carnaval do Passado", de 1984, relembrou carnavais antigos, corsos, grandes sociedades, ranchos, blocos, cordões e escolas de samba tradicionais. Em 1985, "Chegou o General da Banda", a nossa homenagem a quem tanto fez pelo samba: Blecaute. Em 1986, "Guerreiro Verde", o enredo ecológico, em que um herói indígena sai em defesa da Amazônia ultrajada pela ambição do homem civilizado que só pensa em extrair riquezas da floresta, destruindo assim o meio ambiente e pondo em risco o futuro da terra: Oh! Guerreiro Verde Proteja a Amazônia do invasor! "Arigatô, 80 anos de imigração Japonesa no Rio". Onde a Unidos de Cosmos comemorou 80 anos da imigração japonesa no Rio de Janeiro, principalmente de Santa Cruz e Itaguaí. Onde vivem as colônias japonesas de agricultores no Rio de Janeiro.

Depois de anos de afastamento dos desfiles oficiais, de 1993 a 2002. No ano de 2002, a Unidos de Cosmos fez um grande carnaval para a sua comunidade, com o criativo enredo "O Samba só tem um Sinhô", homenagem da escola ao grande compositor e baluarte do samba José Barbosa da Silva. Foi um ensaio para a sua volta triunfal no ano seguinte. Em 2003 a volta por cima foi com o vice-campeonato conquistado com o enredo "Cosmos 5.5 Reverencia Heitor dos Prazeres". A estrela do pioneiro sambista fez brilhar a escola, mesmo sem subvenção oficial. O fato é que o Mano Heitor encheu de alegria e euforia os componentes da Unidos de Cosmos que cantaram e encantaram a passarela:

Deixa falar, Vizinha Faladeira / De mim ninguém se lembra / Trouxe a primeira Bandeira.

Em 2004, com o enredo "Cosmos Viaja nos sonhos de Ney Roriz sem medo de ser feliz", a verde e branca brilhou e faltou pouco para uma nova ascensão. Os carnavais de Ney Roriz, sua vida e os seus sonhos empolgaram os seus  foliões na avenida. Em 2005, a malandragem desfilou com a Unidos de Cosmos, "Com a Fina Flor da Malandragem, Cosmos pede Passagem". Enredo que contou na passarela a história da malandragem desde o século XIX, até o seu apogeu no Rio Antigo, com a Lapa Boêmia até o ultimo malandro, Madame Satã. Em 2006, "Cosmos Faz a Festa na Intendente", enredo que a escola mostrou na avenida as principais festas do Rio de Janeiro e as importantes datas festivas do nosso país.

Não podemos esquecer que em 2018, a Unidos de Cosmos estará em festa pelos seus 70 anos consagrados ao samba. Temos todos que comemorar!

Texto e pesquisa de fotos de Adinalzir Pereira Lamego.

Bibliografia e Fontes de consulta na Internet:
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Boletim NOPH 14, página 5, janeiro de 1985, Rio de Janeiro, RJ. Artigo do Prof. Sinvaldo Nascimento Souza.
Comendador Serafim Sofia: Ourives, poeta, desportista e benemérito, um gondomarense no Brasil. Texto de Margarida Almeida.
A Evolução Econômica e Populacional de Campo Grande - Século XX. Carlos Eduardo de Souza, 2ª edição, 2016. Rio de Janeiro, RJ.
Esporte Clube Rosita Sofia. Rio de Janeiro (RJ): O time do Comendador. 
http://cacellain.com.br/blog/?p=68743 Consultado em 20/05/2018.
Blog do Prof. Carlos Eduardo de Souza. Consultado em 20/05/2018.

2 comentários:

Carlos Eduardo disse...

Excelente pesquisa, meu amigo. Muito bom saber detalhes da história de bairros da Zona Oeste. E me sinto honrado em ter sido lembrado na bibliografia. Um abraço.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Carlos Eduardo
Eu é que fico grato com sua visita.
E também me sinto honrado pelo seu comentário.
Um grande abraço!

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