23.9.18

País rico

Por Lima Barreto


Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, e os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico...

Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

- Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?

O governo responde:

- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico...

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não têm cavalos, etc., etc.

- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

-  Não há verba; o governo não tem dinheiro.

- E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico...

* Marginália, 8-5-1920
A crônica que você leu foi escrita há 94 anos por Lima Barreto, um dos poucos escritores do final do século XIX e início do século XX que se preocuparam em denunciar, por meio da Literatura, o quadro social e político do país à época. Contudo, é interessante observar que a situação descrita, apesar de um século nos separar do texto de Lima Barreto, continua relativamente atual. Por sua relevância literária, o site Alunos online traz para você um pouco da vida e obra de Lima Barreto.

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1881, sete anos antes da abolição da escravatura. Mulato, filho de família humilde, mas de bom nível cultural – a mãe era professora primária, o pai, tipógrafo –, Lima Barreto tinha como padrinho o Visconde de Ouro Preto e, graças a ele, conseguiu ingressar na faculdade de Engenharia, um verdadeiro feito, tendo em vista que a situação não era corriqueira para pessoas de seu nível social. Abandonou o curso, pois diante da doença do pai (a mãe falecera quando o escritor tinha apenas seis anos), viu-se obrigado a trabalhar para sustentar a família, madrasta e irmãos.

O fato de ser mulato e de ter sofrido com a discriminação racial marcou profundamente a obra do escritor, que diferentemente de outros escritores contemporâneos, não se calou diante das injustiças sociais às quais a população negra e pobre era submetida. Embora tenha sido um dos grandes literatos de nosso país, Lima Barreto foi negligenciado pela crítica literária e pelo grande público, que há pouco, em um movimento recente que popularizou os livros do escritor, reconheceu sua importância para a Literatura brasileira, sendo então aceito como um dos representantes do Pré-Modernismo. Lima Barreto construiu uma relação de amor e ódio com a Academia Brasileira de Letras, tendo candidatado-se por três vezes sem sucesso. Isso não significa que ele não merecesse vestir o fardão dos imortais da ABL, pois é certo que a candidatura malsucedida foi resultado do preconceito que sofria.

Seus problemas com o alcoolismo, associados a distúrbios psíquicos, levaram-no por duas vezes à internação na Ala Pinel do Hospício Nacional. Vítima de um colapso cardíaco, consequência de uma saúde debilitada, Lima Barreto faleceu no Rio de Janeiro no dia 1° de novembro de 1922, aos 41 anos. Sua obra é composta por romances, contos e crônicas, dentre os quais merece destaque o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, que narra a trajetória daquele que ficaria conhecido como o “Dom Quixote brasileiro”, personificação exata do ufanismo nacional. A literatura brasileira possui uma dívida histórica com Lima Barreto, que merece ter sua obra revisitada e divulgada para que mais leitores apreciem seus textos.

Originalmente postado no site Alunos Online Uol

Postado nesta página por Adinalzir Pereira Lamego

8 comentários:

Unknown disse...

Muito interessante ler que o texto escrito por Lima Barreto continua tão atual. A desculpa do governo é mesma de quase cem anos atrás, "não têm verba, não tem dinheiro" e os problemas sociais continuam, como a falta de verba para a educação.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Professor Leandro Historiador
Sempre é bom relembrar um pouco sobre a vida de Lima Barreto autor de Policarpo Quaresma,o Dom Quixote brasileiro. Os bons autores brasileiros nunca devem ser esquecidos. Um grande abraço e volte sempre.

Winderson Marques Machado disse...

Que maravilha esse blog! Textos que nos conduzem a reflexão desta nossa existência em ciclos que mudam-se os estereótipos, mas prevalecem as essências impregnadas pelo individualismo e mentiras. Parabéns pelo trabalho professor.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Winderson Marques Machado
Agradeço pela visita e palavras elogiosas. Muito bom saber que o amigo é um admirador das coisas da História. Muito bom saber que a História vive pelas palavras das pessoas que a admiram. Um grande abraço!

Professora Sheila Cristina disse...

Brasil, um país que caminha para o fim nas mãos dos corruptos.
Tristeza total.

Roberto Moreira de Abreu disse...

Gostei das reportagens do blog. Resgata em muito a história dos bairros do Rio de Janeiro. Parabéns.

Prof. Adinalzir disse...

Prezada Professora Sheila Cristina

Infelizmente estamos vivendo uma época difícil.
Mas temos que continuar a ter esperança. Até quando ainda não sei.

Forte abraço e agradeço pela visita!

Prof. Adinalzir disse...

Caríssimo Roberto Moreira de Abreu

Seu comentário coloca sempre mais luz aos meus escritos.

Muito obrigado e volte sempre!

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