27.9.18

Considerações sobre a arte de gostar de bondes

Por Odir Ramos da Costa


O amigo repórter, garimpeiro de notícias da Zona Oeste para o jornal em que trabalha, passou-me a informação: - Existe o museu do bonde e nele você encontra o que procura. Fica por trás da Catedral Metropolitana, na estação de embarque para Santa Tereza.

Agradeci a dica ao amigo. Há tempos queimava as pestanas tentando colher informações sobre os bondes para atender a um trabalho encomendado.

Acabei não procurando o tal museu. Meus velhos preconceitos prevaleceram, deixei a visita para outra ocasião.

Não o procurei, primeiro por presumir encontrar no acervo tão-somente informações sobre os bondes remanescentes de Santa Tereza. Bondes que escalam morros, como cabrito, e se equilibram sobre os Arcos da Lapa, feito alpinista.

Não me interessariam, também, reviver minhas viagens nos bondes da cidade, no Praça XV-Tijuca cheio de graves senhores de terno e gravata. Por certo veria fotos do 28, o Estrada de Ferro-Barcas, encacheado com a marujada do Arsenal de Marinha.

Não era bem isto o que eu buscava. Não me seduzia, repito, relembrar os bondes de cidade, embora, confesso, guarde certa nostalgia de um bonde chamado Harmonia.

Não há discórdia nem desavenças passadas capazes de resistir à passagem deste Harmonia em minha memória.

Meu propósito era falar dos bondes pés-de-poeira, sacolejantes e carregados de tainhas de Pedra de Guaratiba, bagageiros de banana de Grota Funda, varridos pelas lambadas das sapetubas dos
matagais do Rio da Prata.

Bondes excluídos dos museus dos importantes.

Bondes do Melhoral, da Maria Quinhentos-réis, do Guilherme de 26 de Abril, do Angelo Bonzi, motorneiro do Pedra, pontual na saída das três da madrugada rumo ao Campo Grande; do Lilito, condutor do carro 7 que saltava de bonde andando, de costas, com felina agilidade; do Bicanca, motorneiro e trombonista; do Nico, do Joaquim Alves, da atropelada descida pela Coronel Agostinho, cruzando o espaço, que era seu, onde hoje a multidão se atropela no espaço de ninguém, a quem chamam de Calçadão.

Consultei amigos e descobri que cada um campograndense de mais de 30 anos guarda no peito, bem guardado, seu museu particular do velho bonde: o Oswaldo Machado, viajante e fotógrafo da última viagem, empolga-se e fala horas sobre o assunto. Ney Ayala não esconde emoção nas crônicas que produz. O Altamiro Diro, o Danimar Diniz, o despachante Íris, ex-passageiros, ex-paqueradores, ex-caronas, todos elegem o bonde como a unanimidade do bairro.

É conveniente, então, prestar aos que vieram depois algumas justificativas para tanta paixão.

A começar, porque nunca houve e nem será inventado mais apropriado espaço para o povo pular o carnaval. Façamos o seguinte exercício de imaginação: embarquemos numa lenta viagem por entre o verde Guaratiba, em plena terça de carnaval, num veículo dócil e pachorrento, balançando com o nosso embalo, sambando junto com a turma, ofertando lataria à vontade para a batucada. A música, para melhor compreensão do jovem leitor, poderia ser: “Tá na hora/ tá na hora/ tá na hora de brincar/ pula, pula, bole, bole/ simbalando sem parar/ dê um pulo vai pra frente/ de peixinho vai prá trás/ quem quiser brincar com a gente/ pode vir, nunca é demais...”

Dá pra segurar? A marchinha, evidentemente, não era da Xuxa, mas cantava-se: Ei, você aí me dá um dinheiro aí/ me dá um dinheiro aí/ não vai dar?/ não vai dar não?/ Você vai ver, a grande confusão/ Vou beber, beber até cair/ me dá, me dá, me dá/ Me dá um dinheiro aí!

Irresistível, não? Pois assim ia o bonde, no carnaval. No restante do ano, aquietava-se modorrento como ele só, subindo gemendo as estradas do Cabuçu ou do Monteiro, apinhado no horário das seis, hora do pessoal voltar pra casa. Cada ponto ganhava nome, e este nome incorporava-se ao lugar com a perenidade das coisas bem feitas (o povo sempre soube denominar com poesia os seus torrões): Esquina do Pecado, Curva do Matoso, Pau Ferro, Favelinha, Astrogildo, Covanca, Reino Verde, Santa Clara, Morgado e Língua da Sogra - o Adelino Moreira que mora alí denomina um dos lados da Língua da Sogra. À esquerda fica o Brito.

Para viajar, impunham-se regras. Em nome da segurança, obedeciam-se normas: cuidado ao viajar no estribo para não ser varrido por um caminhão ou escorado por um poste; não ultrapassar do carro-motor para o reboque, pelo engate e com o veículo em movimento. Uma queda, amputação ou morte certa. Em nome da boa educação, outros procedimentos: dar lugar às moças e não lhes espiar as pernas na hora do embarque (obedecia-se? Claro que não); se a saia fosse justa e curta, a ginástica que a pobrezinha praticava para subir ao estribo merecia, mais que olhares, suspiros.

Para saber se o bonde estava chegando, dois macetes: o ouvido colado ao poste reproduzia o cantar de ferro das rodas sobre trilhos; rede elétrica balançando, ele ia apontar na curva.

A garotada também extraía seus proveitos: cacos de vidro sobre o trilho moía-o, em um pó fininho, especial para grudar na linha, cerol navalha para cortar papagaios, aliás, pipas.

Companheiros a vida toda, os bondes também conduziam à última viagem. Usava-se o carro-coche, aparatoso para enterros de figurões, depois substituído por um vagão mais simples, pintado de amarelo a quem o povo apelidara de Canarinho. O Canarinho passava blém-blém-blém: anúncio de que levava mais um pra comer jamelão. Descia-se na Curva do Matoso e carregava-se o finado no muque até o cemitério. Morto de Guaratiba, mais feliz, sofria menos: o Canarinho fazia ponto na porta do cemitério do Engenho Novo, na Ilha, era saltar e desembarcar na cova, sem baldeações.

Viagem encerrada, puxava-se uma cordinha e a campainha soava: plim! Dar partida, plim-plim! Outra cordinha mais acima, prerrogativa de fiscais e condutores (na lógica dos bondes, motorneiro conduzia e condutor cobrava), servia para registrar a quantidade de pagantes. O relógio marcador, bem visível, dedurava ao distinto passageiro que o número registrado nunca coincidia com o recebido. Justiça se faça: não se sabe de caso de enriquecimento ilícito entre fiscais, condutores e motorneiros. Era a merreca pro café, os trocados pra porrinha do Café Lavrador... e todos reconheciam ser legítimo direito dos trabalhadores defender algum pro leite das crianças.

Porque, afinal, o bonde era nosso... e reinava a vã concordância de que iríamos usufruir pra sempre do bom-senso sobre trilhos, viajando, viajando...até que...

Plim!

4 comentários:

Professora Sheila Cristina disse...

Belíssimas lembranças sobre os bondes cariocas.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Muito interessante o artigo sobre os bondes da Zona Oeste e não deixar que fique esquecida essa parte da História do Rio de Janeiro que não se resume aos bairros tradicionais próximos ao Centro. Uma pena que acabou esse meio de transporte que poderia agora estar sendo substituído pelos VLTs.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Rodrigo Phanardzis
Realmente a memória dos bondes da Zona Oeste nunca pode ser esquecida. Mesmo que venham para os bairros da nossa cidade os tipos de transporte mais modernos.
Agradeço pela sua visita e comentário.

Prof. Adinalzir disse...

Valeu Professora Sheila Cristina!

Muito feliz com sua visita e comentário. Volte sempre.

Um grande abraço.

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