terça-feira, agosto 18, 2026

Palacete Princesa Isabel

O palacete, de aspecto neoclássico, foi inaugurado em dezembro de 1881, com a presença do Imperador Pedro II, para funcionar como sede administrativa do Matadouro Público, na área da antiga Fazenda Imperial de Santa Cruz – RJ.

Em 1886, algumas salas abrigaram a Escola Santa Isabel, destinada aos filhos dos trabalhadores do Matadouro. No início da República, o Matadouro tornou-se tecnologicamente defasado e, aos poucos, a Escola foi ocupando todo o palacete.


Em 1921, com o nome de Escola Estados Unidos, ali eram ministrados cursos práticos e teóricos de agricultura, apicultura e trabalhos manuais, consolidando, assim, o uso educacional e cultural do espaço. Durante cerca de quarenta anos, a instituição dedicou-se ao ensino técnico, recebendo, em 1946, o nome de Escola Princesa Isabel.


Na década de 1970, o prédio encontrava-se em condições bastante precárias, e a escola foi transferida para outra edificação, especialmente construída nos fundos do terreno.


A antiga sede administrativa do Matadouro Público de Santa Cruz, foi considerada patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro por suas características arquitetônicas e importância histórica, sendo tombada em maio de 1984, pelo Decreto Municipal nº 4.538.


Em 1993 a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro promoveu obras de restauração, adequação de uso, pesquisa arqueológica e educação patrimonial.

O Projeto e as Obras de Restauração e Adequação de Uso foram executados sob a orientação da Secretaria Municipal de Patrimônio Cultural, atual Subsecretaria de Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design (SUBPC), da Secretaria Municipal de Cultura, com fiscalização da Riourbe.

A proposta visava à preservação do monumento para as gerações futuras e à sua reinserção no cotidiano da comunidade, por meio da implantação do Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica(NOPH), que abriga a sede do Ecomuseu, um auditório multiuso, a Biblioteca Popular de Santa Cruz – Joaquim Nabuco, salas de exposição, cursos, oficinas, música e dança.

Imagens originais: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 – Vinicius Guerra.

Melhoradas por Inteligência Artificial.

Créditos: Acervo Santa Cruz @acervosantacruz

domingo, agosto 16, 2026

Fotos inéditas da história de Santa Cruz reveladas através de campanha de arrecadação de fotos.

Clique na foto acima para visualizar melhor!

Essas imagens incríveis foram obtidas através da campanha de arrecadação de fotos e enviadas por @claudia_davies_bosi, passando agora a integrar o acervo do Raízes de Santa Cruz. São registros inéditos, nunca antes revelados, que ajudam a preservar e contar a história de Santa Cruz.

As fotografias retratam Santa Cruz entre as décadas de 40, 50 e início dos anos 60, mostrando cenas do cotidiano, construções, festas e locais que marcaram gerações.

Seu pai, Rubem Luiz Bosi, militar da Aeronáutica que serviu na Base Aérea de Santa Cruz, registrou momentos valiosos da história do nosso bairro. A família Bosi, de origem italiana, foi uma das famílias tradicionais da região e possuía diversos imóveis em Santa Cruz.

Clique em todas as fotos abaixo para visualizar melhor!

Primeira foto: antigo Posto Santa Terezinha, na esquina da Felipe Cardoso com a Avenida Isabel. Hoje, no local, funciona o posto Shell.

Segunda foto: Avenida Felipe Cardoso com as barracas da antiga feira tradicional de Santa Cruz.

Terceira foto: amigos de Rubem Luiz Bosi na juventude, sentados na Praça do Ringue, onde atualmente fica o terminal do BRT.

Quarta foto: antiga casa localizada na Praça Marquês de Herval.

Quinta foto: reunião no tradicional Grêmio Procópio Ferreira.

Sexta foto: barraca de comidas típicas árabes da antiga feira tradicional.

Sétima foto: Praça do Ringue, com vista em direção à Felipe Cardoso, sentido Shopping Santa Cruz.

Oitava foto: antiga casa onde hoje funciona a creche do Apolo 12, na Rua General Olímpio.

Nona foto: final da Felipe Cardoso, com o antigo telhado da Estação de Santa Cruz aparecendo ao fundo.

Cada fotografia preservada é um pedaço da memória de Santa Cruz que continua vivo através das gerações. 

Se você também possui fotos antigas de Santa Cruz guardadas em casa, participe dessa nossa campanha de arrecadação de fotos e envie pra gente!

Todas as fotos foram remasterizadas e colorizadas por Inteligência Artificial.

Pesquisa realizada pelos perfis @raizesdesantacruz e @profcarvalho1

#RaizesDeSantaCruz #SantaCruzRJ #HistoriaDeSantaCruz

domingo, julho 26, 2026

Foto aérea raríssima de Santa Cruz, registrada no ano de 1938


Nessa foto aérea raríssima de Santa Cruz, registrada no ano de 1938, podemos ter uma noção e ver diversos pontos que ainda estavam em plena atividade: o que não existe mais e o que ainda permanece.

Antes de mais nada, o que mais chama a atenção nesse registro é que a topografia do lugar continua inalterada, com suas ruas e traçados, sendo alterados apenas o antigo Hospital Imperial, o galpão de abastecimento de comida do bairro e a Caudelaria. E, claro, uma casa ou outra que foi demolida ao longo do tempo para ser construída outra no lugar, o famoso apagamento histórico.


Começamos pelo atual Batalhão de Engenharia Villagran Cabrita. Na fotografia, aparece toda a parte do complexo do atual quartel, com suas construções laterais, a parte de trás e, principalmente, o seu grande campo, conhecido como Campo de Santa Cruz, que aparentemente ainda era aberto ao público, já que estava sem os muros cercando completamente a unidade. Assim como acontece na Quinta da Boa Vista, o local era um espaço de lazer e cultura.

Vemos também o antigo Hospital Real e Imperial, (aproximadamente onde hoje fica o atual hospital Pedro II). Uma construção comprida ao lado da rua que hoje entra no hospital pela lateral, e que foi o segundo hospital do bairro, uma construção feita posteriormente ao que existia dos Jesuítas ao lado do Palácio. Ele foi construído entre os anos de 1818 e 1821, durante o reinado de D. João VI (não confundir com o atual fórum). Toda a construção foi feita com o objetivo de ser mais ampla e possuir maior ventilação para evitar doenças respiratórias. Na época, não era permitido que houvesse construções mais altas que o Palácio, e ele era provavelmente uma das únicas edificações a possuir a mesma altura.


Ao lado do hospital, em uma construção robusta, de acordo com minhas pesquisas, esse lugar funcionava como um armazém, depósito e local de abate de animais de pequeno porte. Ele abastecia o hospital ao lado e, muito provavelmente, a população do bairro. Na época, Santa Cruz ainda era um bairro inteiramente rural, então era necessário guardar outros tipos de alimentos e grãos que muitas vezes não eram produzidos aqui. Assim, seria uma segunda alternativa para quem não queria comprar carnes vindas do Matadouro Imperial.

Atravessando a rua, não podemos deixar de notar a Caudelaria Imperial, local onde ficavam os cavalos durante o período do Império. Animais das mais diversas raças e pertencentes a várias personalidades importantes e membros de famílias reinantes ficavam nesse lugar histórico. Inclusive, acredita-se que os cavalos do futuro Imperador D. Pedro I e seus companheiros tenham ficado ali, tanto para descansar antes de partir rumo a São Paulo quanto na volta, quando ele deu uma festa de três dias em comemoração à Independência do Brasil no Palácio Imperial de Santa Cruz.

Do outro lado da rua, no mesmo complexo, ficavam a área de limpeza e de lazer dos cavalos, onde hoje ficam a Escola Joaquim da Silva Gomes e a Coordenadoria Regional de Educação.

Também não podemos deixar de falar do traçado inalterado das ruas, que permanece até os dias de hoje. A imagem mostra parte da Rua Felipe Cardoso e também a Rua Senador Camará, que naquela época se chamava Rua do Comércio e era o centro do bairro. Além disso, vemos o atual fórum, que na época ainda funcionava como a Escola Mixta do bairro. Muitos não sabem, mas ela foi construída em formato numeral 2 em algarismo romano pra homenagear o criador dessa escola que foi o Imperador D.Pedro II. Também vemos a linha férrea, que nesse registro ainda possuía a ligação de extensão de Santa Cruz até Mangaratiba, pois nessa época já haviam estendido a linha férrea, que anteriormente ia apenas até a cidade irmã e histórica de Itaguaí.

Pesquisa realizada pelo excelente perfil: @acervosantacruz

Fotos colorizadas por Inteligência Artificial do: @arquivo_rio

Campo de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, em 1889

Campo de Santa Cruz em 1889, após os treinamentos militares que aconteciam ao longo do século XIX na Fazenda Imperial de Santa Cruz. Esses eventos atraiam uma verdadeira multidão, por acontecer em campo aberto, além de ser nas dependências do Palácio Imperial, e ter a remota chance de ver alguns dos membros da família reinante. Para um lugar na época com uma população pequena comparada a hoje, as ruas ficavam lotadas pra ver os soldados que por muitas vezes heroicamente defenderam o Brasil dos inimigos internos e externos. Entre um exercício e outro, estava o famoso canhão alemão Kupp que substituiu o canhão Lá Hitte, sempre testando o seu grande poder de fogo.

O local, assim como a Quinta da Boa Vista, era aberto ao público, seja pra passear, fazer atividades físicas e culturais, já que ainda não haviam muros. Em outras ocasiões aconteciam desfiles e festividades.


Analisando a foto, tudo leva a crer que ela tenha sido tirada na altura do portão que fica em frente aos correios e ao posto de gasolina, e o que vimos atrás, o que levava a crer que seria uma montanha arborizada, era na verdade o céu, já que uma parte do Campo fica em uma elevação, sendo percebida apenas do ângulo lateral ou na parte de trás do terreno, ou seja, o céu era o verdadeiro cenário de fundo em uma visão periférica.

Na foto podemos ver entre todos os outros o libertador da escravidão do Paraguai 24 anos depois, Conde D'Eu, Marido da Princesa Isabel, assim como podemos ver Marechal Deodoro, afilhado de D.Pedro II, grande amigo na época, e que quando criança teve toda a sua família abrigada no palácio da Quinta da Boa Vista, e os irmãos encaminhados ao exército pelo Imperador.

A principal rua do Bairro na época era a chamada rua do Comércio, atualmente chamada Senador Câmara, e não o centro como conhecemos hoje. Ela é uma das ruas mais antigas do bairro, por onde já passaram de D.Pedro I até Machado de Assis, entre outros vultos históricos do Brasil.

No século XIX a temperatura no Brasil era amena, sendo raro passar dos 30°, por isso em muitas fotos vemos pessoas com roupas impensáveis para se usar nos dias atuais.

Pesquisa realizada pelo excelente perfil: @acervosantacruz

Fotografias colorizadas por Inteligência Artificial do Livro História do Brasil, de Pedro Calmon. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, Ano de 1961.

sábado, maio 30, 2026

O Massacre do Quilombo de Carukango. Em Macaé, RJ

Desembarque de escravos. Paul Harro-Harring. 1840. Acervo Instituto Moreira Sales.

No século 19, o quilombo de Carukango, em Macaé, aterrorizava fazendeiros. Liderado pelo escravizado Carukango, o quilombo resistia à escravidão. Foi destruído em 1831 por uma expedição militar, e seu líder, decapitado. A memória de Carukango permanece como símbolo de resistência.

No século 19, os fazendeiros do município de Cantagalo faziam uso de quatro vias para o transporte do café oriundos de suas unidades de produção. Entre estas vias, a que mais provocava receio era a estrada Cantagalo-Macaé em razão dos assaltos praticados pelos quilombolas do quilombo de Carukango. O início da construção da estrada Cantagalo-Macaé preocupou os vereadores de Nova Friburgo, já que iria diminuir o trânsito das tropas por este município prejudicando a sua economia. Mas na realidade isto não ocorreu por ser esta via tortuosa, muito íngreme e pelo terror provocado pelo quilombo de Carukango. Traficantes de escravos descarregavam tumbeiros no litoral macaense, de onde eram levados para as lavouras de café de Cantagalo e possivelmente traficados pelo primeiro Barão de Nova Friburgo.

Em Macaé, quem deu início ao quilombo de Carukango foi o escravizado de mesmo nome. Nascido em Moçambique, Carukango fora príncipe na sua tribo pertencendo a realeza. Era um obá! Um príncipe com uma alma selvagem e um indomável guerreiro. Tudo indica que torna-se prisioneiro nas guerras tribais ficando cativo, uma prática comum desde a Antiguidade. Os traficantes de pessoas se valiam das escaramuças entre as tribos africanas para adquirir escravos e Carukango foi vendido a um navio negreiro do Brasil. Chegou ao município de Macaé desembarcando no porto de Imbetiba no início do século 19. Foi comprado pelo fazendeiro Antônio Pinto, família de imigrantes portugueses estabelecidos em Macaé.  

Carukango sempre resistia ao trabalho compulsório e exercia liderança e respeito sobre os outros escravizados, principalmente porque era um feiticeiro. Sua forma de resistência foi a fuga e a formação de um quilombo. Considerada a maior comunidade quilombola da província fluminense, a primeira notícia do quilombo Carukango data do ano de 1819. Inicialmente o que se sabia desta comunidade quilombola era através do livro “Evocações, Crimes Célebres em Macaé” de Antão de Vasconcelos, cujo avô teria organizado a expedição para destruir o quilombo. Este memorialista teve a sua formação no Colégio São Vicente de Paula, em Nova Friburgo, localizado na casa sede da fazenda do Morro Queimado, onde hoje está instalado o colégio Anchieta. Quem atualmente se debruça na pesquisa sobre este quilombo é o historiador Marcelo Abreu Gomes.

De acordo com o historiador as fontes primárias indicam a existência de um imenso quilombo na região fluminense cujo líder tinha como nome de batismo de Antônio Moçambique. Abreu Gomes pesquisou os Autos de Devassa da antiga delegacia de Macaé; os registros de óbitos dos escravos que combateram no quilombo; os Registros Paroquiais de Terras do século 19 de Macaé, Conceição de Macabu, Campos e Trajano de Morais localizando alguns personagens citados por Antão de Vasconcelos; faz uso da tradição oral e da obra acima citada do memorialista Antão de Vasconcelos.

Nestes registros de terras localizou as pessoas que possuíram propriedades no lugar onde foi o quilombo. Carukango ganhou notoriedade alguns contos publicados em jornais no início do século 20. Na literatura foi romanceado por João Oscar no livro “Carukango Rei” e a Fundação Zumbi dos Palmares de Campos editou o livro “Carukango, Príncipe dos Escravos”. Vou me valer na introdução deste artigo de um dos contos, adaptando-o, para que o leitor possa compreender a vida cotidiana de um escravizado no Brasil.

Jean-Baptiste Debret, 1835. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Bacalhau em punho, suarento feroz, o capataz da fazenda vergastava o preto velho amarrado a um moirão. E com que desenvoltura, com que selvagem energia o homem furibundo agitava no ar o terrível azorrague! Um pé na frente, outro atrás, corpo oscilando cadencioso, mangas arregaçadas, dois braços nus exibindo uma possante musculatura e acompanhando os vai-vens do corpo. As correias do azorrague cortavam o ar sibilando, indo enroscar-se flexíveis, causticantes e urentes como fogo ao corpo seminu do preto velho que já não gritava. Aquilo era o trabalho normal de um bom feitor; punha nele todo o seu talento, vigor e energia.

O senhor Antônio Pinto observava o trabalho de uma janela do sobrado com certo orgulho, um prazer satânico que se traduzia num sorriso perverso. Alguns pretos ressabiados espiavam à distância, cheios de medo. Moleques como cães pelas moitas espiavam com olhos medrosos, ariscos. Aquilo era exatamente para que eles vissem o exemplo. A senhora da casa expiou da janela e vendo o estado miserável do pobre diabo sentiu um pouquinho de piedade e gritou – Chega gente! Mas o capataz fingiu não ouvir. Era necessário fazer uma exibição convincente de perversidade e mostrar ao senhor que não tinha pena de negro. Antônio Pinto espalmou a mão direita no ar e disse também. – Chega! O capataz deu ainda três lambadas vigorosas, atirou o bacalhau ao solo e desatou os laços que prendiam o preto velho ao moirão. Este derreou-se como uma pesada massa no terreiro. Perdera os sentidos. O corpo estava encaroçado e cheio de vergões. Pobre velho Tibúrcio! Deixando o terreiro o olhar do capataz se cruza com os olhos frios e taciturno do negro mal encarado que observava o castigo, Carukango!

Ilustração de um conto sobre Carukango. Acervo Biblioteca Nacional.

Este conto retrata exatamente a vida cotidiana nas propriedades rurais no Brasil durante a escravidão. Saindo da literatura vamos ao relato do memorialista. Carukango era um negro baixo, atarracado, forte, meio corcunda e coxeava de uma perna. Toda gente temia aquele indivíduo macambuzio. Ao prestígio de príncipe ajuntou-se ao de feiticeiro e o obá era estimado e respeitado pelos escravizados. No seu entorno girava um mundo de superstições, crendices, ritos, deuses e demônios africanos. Não suportava a escravidão. Fugia do trabalho e aconselhava seus companheiros que fizessem o mesmo.

Não era poupado pelo capataz em razão de sua atitude indomável de orgulhosa reserva. Vivia de tronco aos pés, sempre tomando o cruciante castigo do bacalhau no pelourinho ou na escada. Instrumento de castigo, o bacalhau era feito de couro seco, trançado e usado como chicote ou chibata para açoitar os escravizados faltosos. Mas Carukango não se dobrava, não era como os outros. O bacalhau, o tronco e o libambo que os senhores usavam para amansar, espezinhar e submeter os escravizados, nele apenas serviam para torná-lo mais rebelde.

Jean-Baptiste Debret, 1835. Acervo Biblioteca Nacional.

Para se ver livre dos contínuos castigos fugiu e o seu paradeiro ficou desconhecido durante alguns anos. Surge a notícia de que o seu antigo senhor Antônio Pinto e toda a família foram encontrados degolados. Nada se apurou sobre os autores da carnificina. Continuaram os assaltos nas fazendas, assassinatos, roubo de escravos, animais, dinheiro, joias e relíquias sagradas. O procedimento era o mesmo. Levavam os escravos jovens e matavam os mais velhos para não deixar nenhuma testemunha viva. Os fazendeiros atemorizados começaram a abandonar suas propriedades e residir na vila de Macaé.

Entre as freguesias das Neves e a do Frade, no lugar denominado Crubixais ou Crubichá, tinha estabelecido sua fazenda Francisco Pinto, irmão de Antônio, o assassinado. Chico Pinto como era conhecido tinha um pajem de inteira confiança, o moleque Domingos, e por amásia a mulata Josefa com quem vivia longos anos. O moleque tornou-se arteiro e tantas fez que Chico Pinto tão arreliado com as suas artes deu-lhe uma sova. O moleque fugiu. Passados alguns dias, pelas dez horas da noite, Chico Pinto despertou com batidas fortes na porta e indagou quem era. Era o moleque Domingos dizendo estar arrependido e vinha pedir perdão. A casa era de taipa e taboinhas com varas barreadas de sopapo, conhecida como pau-a-pique. Em razão das pancadas caíram alguns torrões de barro batido.

Espiando pelo buraco produzido, Josefa reconheceu Carukango do lado de fora. Correu para buscar uma espingarda entregando-a a Chico Pinto para que atirasse. Este tremia de medo mas vendo que a porta estava prestes a ceder e apavorado com a ousadia da investida descarregou a arma acertando Carukango com uma carga de chumbo no peito e nos braços. Supondo que dentro da casa se achavam muitas pessoas armadas, retiraram-se. Mas antes Carukango gritou: "Eu volto cá meu branco e liquidaremos as contas”. Chico Pinto abandonou a fazenda e passou a residir na vila. A notícia do atentado correu de boca em boca, e todos os atos de banditismo ocorridos em Macaé foram atribuídos ao “facínora, ao eviscerado bandido negro” Carukango, como era descrito. Continuaram os ataques às fazendas da região e Carukango levava cada vez mais escravos para povoar o quilombo, fazendo-se senhor absoluto da região.

As autoridades de Macaé solicitaram auxílio ao chefe militar da Capitania do Espírito Santo. Assumiu a expedição o coronel Antônio Coelho Antão de Vasconcelos que veio para o Brasil com D. João VI e trabalhou como chefe da Casa Militar. Uniram-se às milícias do Espírito Santo as de Campos, Macaé e Cabo Frio. Organizou-se uma expedição composta não somente com milicianos, mas igualmente com o auxílio de populares e da família Pinto, sedentos de vingança. A casa de Francisco Pinto foi transformada em quartel-general e diversas vedetas foram colocadas em pontos diferentes. Expressão pouco usada atualmente, chama-se de vedeta a sentinela ou à guarda situada em posição estratégica para defesa militar de um lugar. O coronel Antão usou de uma estratégia que funcionou perfeitamente. Monitorava a comunicação dos quilombolas com a vila, pois era frequente comerciarem com as tabernas da localidade. Conseguiu prender um deles que sob intensa tortura deu informações sobre a localização do quilombo e o número quilombolas.

De acordo com o memorialista e neto do coronel Antônio Coelho Antão de Vasconcelos, o quilombo era situado em Serra Deserta, na divisa de Cachoeiros com Nova Friburgo, que ainda hoje é conhecida como Serra do Quilombo. Para o historiador Alberto Lamego era situado na Serra do Deitado, próximo às nascentes do rio do Deitado a nordeste de Macaé, confrontantes com os municípios de Trajano de Morais e de Conceição de Macabu. Já o memorialista Godofredo Tavares discorda pouca coisa de Lamego. Embora não possa indicar o ponto exato do quilombo afirma que o local das casas e das lavouras se situava em Conceição de Macabu, próximo à Serra do Deitado, ao lado do ribeirão Carocango, divisa de Conceição de Macabu com Trajano de Morais. Mas com a publicação da pesquisa do historiador Marcelo Abreu Gomes saberemos a localização exata.

Victor Frond, 1861. Acervo Coleção Brasiliana Itaú.

Bem municiados e seguindo a rota indicada pelo quilombola, os expedicionários chegaram ao seu destino pela madrugada. O vigário João Resende da paróquia local relata que o ataque ao quilombo ocorreu nas margens do Rio Macabu, no dia 01 de abril de 1831, uma sexta-feira Santa. O quilombo ficava em um chapadão extenso com uma sucessão de chapadas, serros, bibocas, locas, ribeiros, boqueirões e bariris, oculto pela mata virgem circundante. Havia roças de milho, feijão, ervilhas e outros cultivos. No centro do mandiocal existia uma casa baixa e muito comprida com a frente para a entrada da mata e os fundos apoiados em três enormes matacões de granito que se erguiam a mais de 15 metros sobre a casa achaparrada.

Sabia-se que no quilombo havia cerca de 200 homens, com poucas de mulheres e crianças. Estranhou-se tão pequena habitação para abrigar tanta gente. A casa foi cercada pelos milicianos que ficaram ocultos em diversas posições. O coronel Antão mandou que fossem espocados apenas alguns poucos tiros. Ouviu-se um toque de buzina que parecia sair por debaixo do chão e, logo a seguir, irrompeu cerrada fuzilaria de bala, chumbo e toda sorte de projéteis vindos da casa. O fogo foi respondido fracamente, de um outro ponto, consoante as ordens, para que acreditassem fosse pequena a força sitiante. Os quilombolas não conseguiam ver os milicianos escondidos na mata. Repentinamente se abriu a porta da casa.

Optaram pela ofensiva e os quilombolas saíram atirando em todas as direções, protegidos pelos que estavam de cima dos matacões de granito. Estavam armados de foices, alfanjes, lanças e armas de fogo. Não sabendo que 400 milicianos cercavam a casa precipitaram-se num espetaculoso assalto. Foi quando os milicianos reagiram e cerraram fogo com uma descarga de centenas de espingardas surpreende-os no terreiro, matando muitos e ferindo alguns. Os que não foram atingidos recolheram-se em desordem e foram perseguidos pelos milicianos. Mas os quilombolas continuavam atirando do alto dos matacões embora a desvantagem fosse imensa. Na batalha soavam tiros de espingardas, pistolas, chuços, sabres e gritos de mata e esfola. As milícias melhor armadas e mais numerosas chacinaram todos os homens.

Victor Frond. 1861. Acervo Coleção Brasiliana Itaú.

Assenhoreando-se da casa aprisionaram todos quantos nela estavam. Nenhum homem foi poupado e deixado com vida. Demolida a construção, ficou à vista uma grande abertura de vasto subterrâneo, gruta natural onde residiam os quilombolas. Isto esclarece o misterioso toque da buzina que vinha das entranhas da terra. Estava explicada a astúcia e a engenhosidade dos quilombolas. Se tivesse no local pequenas cabanas levantaria suspeita de ser uma comunidade de escravos fugitivos. Com apenas uma única habitação e dormindo todos na gruta não levantavam desconfiança. Os que estavam dentro dela foram intimados a renderem-se. Só anuíram depois que se fizeram para dentro da gruta duas descargas de espingardas.

Capitulados, saiu na frente Carukango silencioso e solene. Vestia um hábito sacerdotal trazendo ao peito um rico crucifixo de ouro. Fez-se silêncio ante o célebre babalorixá, misto de alufá, pajé e sacerdote católico. Curiosamente de acordo com o memorialista, os milicianos tiraram os chapéus reverentes e abaixaram as armas para ele apontadas. Carukango parou, olhou para todos os lados e dirigiu-se a passos lentos para onde estavam os indivíduos mais importantes da expedição. Aproximou-se do filho de Antônio Pinto, por ele assassinado, e que escapara da matança por estar fora de casa nesse dia.

De repente, ergueu o braço direito que trazia oculto sob a capa sacerdotal e armado de uma pistola de dois canos desfechou dois tiros sobre o rapaz, matando-o instantaneamente. Os milicianos precipitaram-se sobre Carukango, arrancaram-lhe as vestes e a imagem sagrada. Amarraram-no sobre um tronco de uma árvore e o decapitaram com as costas de duas foices que compassadamente lhe batiam no pescoço. A gruta foi devassada e mataram todos os que ali se encontravam, com exceção das mulheres que foram poupadas.

Pintura Paul Harro-Harring. 1840. Acervo Instituto Moreira Sales.

Inquiridas sobre a vida no quilombo soube-se que o Carukango era dele o Imperador e o Papa. Tinha serralho de todas as pretas moças. Aquelas que ficavam grávidas eram repudiadas e entregues aos outros homens.  Logo que davam à luz, a criança era morta e queimada: “A nossa raça, dizia Carukango, deve extinguir-se para não ficar na mão do branco.” Segundo elas foram levadas para o quilombo à força da casa dos seus senhores. Voltaram aos donos com ordens para que não fossem maltratadas. Os quilombolas degolados tiveram as suas cabeças espetadas em estacas e colocadas à margem da estrada geral para servirem de exemplo aos outros escravizados.

A cabeça do Carukango foi colocada na encruzilhada do Zé Bento, hoje conhecida por Chico Martins, ponto onde se reuniam a três estradas do Frade, Macaé e do Furambongo. Carukango foi um facínora ou um mártir? A população nas imediações do quilombo respondeu a esta problemática julgando-o como um mártir e tecendo preito a sua memória. Carukango foi homenageado no município de Macaé com o nome de uma rua e em Conceição de Macabu com nome de uma localidade, um rio, uma fazenda e uma serra.

Fontes: Entrevista com o historiador Marcelo Abreu Gomes; Artigo “Macaé à Luz de Documentos Inéditos” de Alberto Lamego. Anuário Geográfico do Estado do Rio de Janeiro, n°: 11. P.97 – 1958; A Noite, 09 de novembro de 1937; Correio da Noite, 03 de março de 1915; Suplemento de A Notícia, “Carukango, dos crimes célebres em Macaé”; “Imagens de nossa Terra”, de Godofredo Guimarães Tavares.

Pesquisa feita pela historiadora Janaina Botelho.

quarta-feira, maio 13, 2026

A história de Juliano Moreira

A história de Juliano Moreira. Um médico e pesquisador negro que revoluciou o tratamento a pacientes com transtornos mentais no Brasil, embasado na ciência, e principalmente, na humanidade.

Juliano Moreira, é considerado o patrono e um revolucionário da psiquiatria e psicanálise no Brasil.

Nascido em Salvador (BA), no dia 6 de janeiro de 1873, Juliano Moreira teve uma infância bem pobre. Sua mãe trabalhava na casa de uma família aristocrata. Juliano Moreira ingressou na faculdade de medicina cedo, aos 14 anos, com a ajuda e incentivo do médico e Barão de Itapoã, onde provavelmente sua mãe trabalhava. Cercado pela ciência e livros, foi o incentivo que lhe faltava. Depois de formado, trabalhou na Universidade Federal da Bahia, e em 1903, assumiu a direção do Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro por mais duas décadas. Lá, ele aboliu o uso de camisas de força, eletrochoques, a prática da lobotomia e retirou grades de todas as janelas, procurando sempre humanizar seu tratamento. Juliano Moreira, também participou de inúmeros pesquisas e estudos na área, desenvolvendo teses de suma importância até hoje.

Em meados da década de 20-30 do século passado, em Jacarepaguá, foi construído na área onde havia um engenho de cana de açúcar, as edificações do Núcleo Histórico da Colônia Juliano Moreira (até então denominada Colônia de Psicopatas de Jacarepaguá). Ao longo de sua história, mais de 5.000 internos passaram pelos seus inúmeros hospitais e pavilhões ali construídos.

Juliano Moreira, morreu em 2 de maio de 1933, em Petrópolis, depois de ser internado para tratamento de tuberculose. Naquela ocasião inúmeras homenagens póstumas foram realizadas em seu nome.



Pintura em Grafite feita por @negromuro No Instituto Phillipe Pinel, no Bairro de Botafogo.  Créditos pela Pesquisa: @historio.photos

domingo, maio 03, 2026

O show de Shakira ontem foi mesmo um acontecimento

Milhares de pessoas reunidas diante de uma artista que há décadas ocupa um lugar singular: Shakira não é apenas pop — é narrativa.

Uma mulher que atravessou exposição pública intensa, vida pessoal transformada em espetáculo, julgamentos constantes — e que respondeu como pôde: com música, presença e permanência. Após mais de 10 anos juntos, Shakira e o jogador Gerard Piqué se separaram. O tema virou fenômeno midiático global, com enorme exposição da vida pessoal dela. Ela respondeu artisticamente, com músicas de grande repercussão

Shakira foi acusada de fraude fiscal pelo governo espanhol. Em 2023, ela fechou acordo com a Justiça, evitando julgamento. Pagou multa elevada e regularizou a situação.  Esse episódio reforçou a pressão publica a exposição de sua vida fora da música

Nos últimos anos, Shakira: voltou com força à música e aos palcos; construiu uma narrativa de independência, recomeço e afirmação; passou a ser vista como uma artista que transforma crise em linguagem  No Rio, não houve  apenas performance. Houve mesmo  identificação.

Porque o que se vê ali não é apenas uma cantora internacional. É uma figura que encarna algo muito contemporâneo: a disputa de uma mulher por autonomia em meio à superexposição.  Um lugar em que as mulheres não precisam chorar sempre, como foi o nome de seu show, e não precisam ser apenas vítimas 

Em tempos de redes, crises pessoais viram entretenimento. Mas também podem virar linguagem. E talvez seja essa a mensagem — mesmo quando não dita como discurso: continuar, apesar de tudo, já é uma forma de resposta.

E uma mulher ocupar o espaço público, com o próprio corpo e a própria voz, também é.  Foi lindo o show ontem — com tantas figuras brasileiras queridas — e a mensagem também.

Texto de Lilia Schwarcz - @liliaschwarcz

Historiadora e antropóloga brasileira.

sexta-feira, abril 10, 2026

Cordovil: o nascer de um bairro

A família Cordovil chega ao Brasil no início dos anos 1700 e logo se estabelece na Fazenda Real, que foi cedida por Sua Majestade, o Rei de Portugal, pelos serviços realizados no reino. Bartolomeu de Siqueira Cordovil, o primeiro dono da fazenda, logo após sua chegada, casa-se na Capela de Irajá, em 1707, com a filha do dono do Engenho de Irajá, a senhorita Margarida Pimenta de Mello. Bartolomeu, entre outros cargos, foi secretário do Governo da Capitania do Rio de Janeiro (assumiu em 20 de janeiro de 1705), cargo concedido apenas a homens de confiança. Faleceu em 3 de janeiro de 1738, deixando como herança as terras para o filho Francisco Cordovil de Siqueira e Mello, que substituiu o pai nos negócios.

Toda a sua descendência teve importância ímpar, não apenas para a história do Rio de Janeiro, mas também para a do Brasil. Sempre que folheamos os anais da Colônia e do Império, vemos o sobrenome Cordovil, como, por exemplo, o Major Wenceslau Cordovil de Siqueira e Mello, que exerceu várias funções, destacando-se como Juiz de Paz e Presidente do Colégio Eleitoral para a eleição de deputados. Outro grande nome foi o Almirante Joaquim Antônio Cordovil Maurity, considerado um herói na Guerra do Paraguai. Foi o aluno número um de sua turma na Escola Naval, participou ativamente da guerra, foi homem de confiança tanto no Império quanto na República e representou o Brasil no exterior em várias missões. O Visconde de Ouro Preto, em sua obra A Marinha de Outrora, fez uma citação ao ato de bravura de Maurity. D. Pedro II também prestou homenagem ao militar por sua dedicação ao Império.

Mas o chamado progresso, disfarçado de capitalismo, chega com força ao Rio de Janeiro. Após o Golpe de 1889, a cidade passa a experimentar uma grande evolução urbana. Locais até então considerados zonas rurais vão, aos poucos, sendo incorporados à cidade, iniciando-se um processo de urbanização que traria muitas pessoas para regiões inóspitas. Quando falamos de bairros como Cordovil, Brás de Pina, entre outros, devemos atribuir seu surgimento principalmente aos trens, pois a necessidade de lotear esses terrenos era urgente. O processo urbano da cidade, influenciado pelo capitalismo, determinou que o pobre não deveria ocupar o centro nem os bairros emergentes. Para que a cidade evoluísse, era necessário realizar uma urbanização que afastasse o pobre de seu local de trabalho, já que, com a nova visão de cidade, o custo de vida no centro seria muito mais alto. A estrutura do espaço urbano tem muito a ver com os conflitos entre classes, a luta pelo domínio territorial e a elitização de determinadas zonas em detrimento de outras.

Como o governo recém-instaurado apoiava os planos das elites, criou-se o ambiente perfeito para a separação social definitiva.

Esse novo padrão de cidade divide o território entre núcleo e periferia, sendo que o núcleo concentra as funções centrais (econômicas, administrativas, financeiras, políticas e culturais), enquanto a periferia abriga, majoritariamente, as famílias de classe média baixa. Foi nessa conjuntura que a família Cordovil viu a oportunidade de obter lucro vendendo definitivamente suas terras ao Visconde de Moraes (1848–1931).

Esse trecho foi retirado do Diário Oficial da compra das terras pelo Visconde de Moraes, responsável pelo loteamento do bairro. Contudo, registros do século XVIII mostram que a família Cordovil já havia colocado terras à venda, e possivelmente os primeiros moradores do bairro chegaram por volta de 1840.

Oficialmente, o bairro nasceu em 5 de outubro de 1910, devido à Lei nº 989/2002, de autoria da vereadora Rosa Fernandes. Porém, o livro de Waldir Fontoura mostra que já existia um local onde o trem parava para descarregar e embarcar produtos. Essa primitiva estação ficava na direção da Rua Cordovil, que, além de servir ao transporte de produtos agrícolas, também era utilizada para o escoamento de materiais destinados à construção de estruturas de captação de água dos mananciais de Tinguá e Xerém.

O trem foi o principal responsável pela transformação das antigas freguesias, até então exclusivamente rurais, em bairros em crescimento. As áreas abertas ao redor da linha férrea destinavam-se, sobretudo, aos mais pobres, que se deslocavam em massa. Para atender todas as classes, as locomotivas eram divididas em primeira, segunda e terceira classes.

Ao analisar periódicos da época, foi possível encontrar uma reportagem de 1836 que descreve as características da região, onde um local estava sendo colocado à venda para quem se interessasse. Essa área corresponde hoje às ruas Amaetinga e Aricambu, locais que ofereciam uma bela visão do mar (quando ele ainda existia, é claro).

O que quero apontar é que os primeiros moradores do bairro eram, em sua grande maioria, de origem pobre, embora exista um contraponto a essa hipótese. Brasil Gerson, em seu livro Ruas do Rio, aponta a presença de um grupo de portugueses com bom poder aquisitivo morando no bairro, o que leva a duas possibilidades: ou eram comerciantes em busca de oportunidades de crescimento, ou eram pessoas com melhores condições financeiras que escolheram o bairro para fugir da alta carga tributária da República. Uma família que até hoje habita a região é a família Bonavita, que, em 1930, era proprietária de uma olaria localizada na Estrada do Porto Velho, sendo de origem portuguesa.

“A periferia imediata é, principalmente, o local de residência da classe baixa” (ABREU, 2013, p. 25). O que sustenta a afirmação de que o bairro era majoritariamente formado por pessoas pobres são as propagandas de venda de terrenos. O periódico A Noite noticiou, em 14 de abril de 1913, a venda de terrenos no bairro. Ainda no mesmo ano, O Malho também anunciou vendas, com preços de 300$ réis, 8$500 réis e 5$700 réis. Em comparação, outro bairro que se formava na mesma época, mas sem acesso ao trem, apresentava valores muito superiores. Em Copacabana, que então era um local deserto e ocupado por pescadores, os primeiros terrenos foram vendidos por valores entre 3.000$ e 4.000$ réis. Em uma época em que os trabalhadores não tinham condições de vida dignas e sofriam a pressão da elite e do governo para serem afastados dos núcleos financeiros, os preços desses bairros tornaram-se atrativos para iniciar ou recomeçar a vida. Isso ocorreu especialmente devido às reformas urbanas promovidas pelo governo republicano, representado pelo prefeito Pereira Passos, que transformou o núcleo da cidade e expulsou a população mais desfavorecida de suas moradias.

A taxa de crescimento dos bairros que englobavam a freguesia de Irajá, entre os anos de 1890 e 1906, foi de 109%. Em 1890, a estimativa populacional da freguesia era de 13.130 pessoas; em 1906, esse número passou para 27.410. Essa população concentrou-se principalmente nas regiões próximas à linha férrea, sendo, em sua maioria, composta por pessoas de baixa renda.

Partes desta pesquisa deram origem a um TCC muito elogiado.

Foto: cedida por Tiago Bandeira.

Repostado do perfil do facebook Paulo Jorge.

terça-feira, março 31, 2026

A fortaleza de São João da Barra do Rio de Janeiro

A fortaleza de São João da Barra do Rio de Janeiro, também referida como Fortaleza de São João, localiza-se no lado ocidental da barra da baía da Guanabara, no atual bairro da Urca, Rio de Janeiro

Local da fundação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1565, o primitivo Forte de São João foi erguido por Estácio de Sá, fundador da cidade, que veio com a missão de expulsar os franceses da Ilha de Serigipe, onde hoje está a Escola Naval.

Acredita-se que este primitivo reduto, sob a invocação de São Martinho, defendia o lado de terra. Resistiu ao primeiro combate naval e terrestre, contra os tamoios, a 1 de junho de 1565. Posteriormente, com a vitória portuguesa definitiva sobre os franceses, a cidade foi transferida para o Morro do Castelo em 1567, sem que a defesa da barra tenha sido descuidada.


O forte ou reduto de São Martinho foi reforçado no governo de Salvador Correia de Sá (1568-1572) com a adição da bateria ou reduto de São Teodósio (1572), sobre a ponta de mesmo nome. No segundo governo de Salvador Correia de Sá (1577-1599) foi levantado o reduto de São José (1578), batendo a barra da baía da Guanabara. Com a conclusão do reduto de São Diogo (24 de junho de 1618), o conjunto entrou em serviço oficialmente, com o nome de Fortaleza de São João da Barra do Rio de Janeiro, cruzando fogos com a Fortaleza de Santa Cruz da Barra e com o Forte da Laje. O conjunto contava com trinta peças de artilharia de diversos calibres, que conservava à época do governador Duarte Correia Vasqueanes (1645-1648)


As suas defesas foram reforçadas pelo governador da capitania, Sebastião de Castro Caldas (1695-1697). Desse modo, repeliu, com o apoio da fortaleza de Santa Cruz, a esquadra do corsário francês Jean-François Duclerc, a 6 de agosto de 1710. Desguarnecida após o sucesso por ordem do governador Francisco de Castro Morais (1710-1711), pouco pôde fazer ante a invasão de dezoito navios, 740 peças de artilharia, dez morteiros e 5 764 homens do corsário francês René Duguay-Trouin, em setembro de 1711.

Juntamente com a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, do lado oposto da baía em Niterói e ainda, com o Forte Tamandaré da Laje, que fica numa ilha entre as duas fortalezas, tornavam praticamente intransponível a entrada de navios pela Baía de Guanabara.

Desativado durante a Regência, foi, por ordem de D. Pedro II, inteiramente restaurado em 1872. Em 1874 o Forte serviu de prisão do Bispo de Olinda Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira (1844-1878) após ser condenado pelo Superior Tribunal de Justiça na Questão Religiosa.


Durante a Revolta da Armada, trocou tiros com o encouraçado Aquidabã (capitânea da armada brasileira à época) e os cruzadores Javari e Trajano, das catorze às dezesseis horas de 30 de setembro de 1893, na eclosão da revolta da Armada (1893-1894), tendo o canhão Armstrong de 280 mm (o "Vovô") sido manejado por cadetes da escola Militar da Praia Vermelha. Os danos que lhe foram causados por esse episódio foram reparados em 1895.

Tendo participado de vários episódios da história do País, ali funcionam atualmente o Centro de Capacitação Física do Exército, a Escola Superior de Guerra e o Museu do Desporto do Exército. O Portão de Armas da fortaleza encontra-se tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1938.

Trabalho de Pesquisa do @brasilis_regnum

sexta-feira, março 06, 2026

Os índios Coroados na Região de Petròpolis e no Vale do Paraíba Fluminense


História, Territorialidade e Legado nos atuais municípios de Petrópolis, Areal, São José do Vale do Rio Preto, Paraíba do Sul, Paty do Alferes e Três Rios.

Os índios Coroados constituíram um dos principais grupos indígenas que habitaram o interior do atual estado do Rio de Janeiro, especialmente as regiões serranas e os vales associados ao Rio Paraíba do Sul. 

Este documento apresenta uma síntese histórica, etnográfica e territorial da presença Coroada nos territórios que hoje correspondem aos municípios de Petrópolis, Areal, São José do Vale do Rio Preto, Paraíba do Sul, Paty do Alferes e Três Rios. 

A análise baseia-se em registros históricos coloniais e imperiais, relatos de viajantes naturalistas, estudos etnológicos e evidências arqueológicas. 

O objetivo é contribuir para a preservação da memória histórica e para o reconhecimento do papel fundamental desse povo na formação territorial e cultural da Serra Fluminense e do Vale do Paraíba.

1. Introdução

Antes da ocupação colonial europeia, a região serrana e os vales do interior fluminense eram habitados por diversos povos indígenas adaptados ao ambiente da Mata Atlântica. Entre eles, destacavam-se os Coroados, pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê, estreitamente aparentados aos Puri.

O nome "Coroado" foi atribuído pelos colonizadores portugueses devido ao costume de raspar o topo da cabeça, criando uma forma semelhante a uma coroa. Trata-se de uma denominação externa, não correspondendo ao nome original utilizado por esses povos.

Os Coroados ocupavam uma extensa área que incluía as vertentes da Serra do Mar, a Serra da Mantiqueira e o Vale do Rio Paraíba do Sul, formando uma rede territorial integrada que conectava regiões serranas e fluviais.

2. Territorialidade e distribuição geográfica


A ocupação Coroada não seguia o modelo sedentário urbano, mas sim um sistema dinâmico baseado em mobilidade territorial, com aldeias permanentes, acampamentos temporários e rotas de deslocamento sazonal.

2.1 Região de Petrópolis e Serra da Estrela

Na região de Petrópolis, os Coroados habitavam os vales dos rios Piabanha e seus afluentes.

Essas áreas ofereciam condições ideais para subsistência, incluindo:

Abundância de água potável

Presença de fauna diversificada

Recursos vegetais abundantes

Abrigos naturais nas encostas e florestas densas

A serra funcionava como núcleo territorial, oferecendo proteção natural contra invasores e permitindo o controle estratégico das rotas naturais.

2.2 Região de Areal e São José do Vale do Rio Preto

As áreas correspondentes aos atuais municípios de Areal e São José do Vale do Rio Preto constituíam zonas de transição entre a serra e o Vale do Paraíba. Nessas regiões, os Coroados mantinham áreas de ocupação frequente, especialmente ao longo dos rios Preto e Piabanha.

Esses territórios eram particularmente importantes para:

Agricultura itinerante

Pesca

Coleta de frutos e raízes

Estabelecimento de acampamentos sazonais

A topografia mais suave favorecia o cultivo e facilitava o deslocamento entre diferentes regiões.

2.3 Região de Paraíba do Sul, Três Rios e Paty do Alferes

O Vale do Paraíba do Sul representava uma área estratégica dentro do território Coroado. 

Os rios funcionavam como corredores naturais de mobilidade e subsistência.

Nessas regiões, os Coroados utilizavam o território para:

Caça de animais de maior porte

Pesca em rios de maior volume

Deslocamento entre diferentes áreas territoriais

Contato com outros grupos indígenas

As encostas intermediárias entre a serra e o vale serviam como áreas seguras de circulação, protegidas e com acesso a recursos naturais diversificados.

3. Organização territorial e mobilidade

Os Coroados organizavam seu território como uma rede interligada de aldeias e rotas, e não como unidades isoladas. Essa estrutura permitia o uso sustentável dos recursos naturais, evitando o esgotamento ambiental.

As trilhas abertas por eles atravessavam:

Serras

Vales

Rios

Passagens naturais

Essas rotas ancestrais seriam posteriormente utilizadas pelos colonizadores, servindo de base para caminhos históricos como o Caminho Novo, aberto no século XVIII.

4. Contato com os colonizadores e deslocamento territorial

O contato com os colonizadores portugueses intensificou-se a partir do século XVIII, com a abertura de rotas ligando o Rio de Janeiro às Minas Gerais.

Esse processo provocou profundas transformações no território Coroado, incluindo:

Perda de terras tradicionais

Deslocamento forçado

Conflitos armados

Disseminação de doenças epidêmicas

Desestruturação social e cultural

No século XIX, com a expansão agrícola e a fundação de cidades, a pressão sobre os territórios indígenas tornou-se irreversível.

Grupos Coroados ainda eram observados circulando entre a serra e o vale até meados do século XIX, mas sua população havia sido drasticamente reduzida.

5. Evidências históricas e documentais

A presença Coroada na região é confirmada por diversas fontes históricas, incluindo:

Relatórios administrativos da Província do Rio de Janeiro

Registros eclesiásticos de aldeamentos indígenas

Relatos de viajantes naturalistas europeus

Estudos etnográficos e linguísticos

Evidências arqueológicas regionais

Esses documentos confirmam a ocupação indígena contínua da região até o século XIX.

6. Legado histórico e cultural

Embora não existam atualmente comunidades que se identifiquem formalmente como Coroados nessa região, seu legado permanece presente em diversos aspectos:

6.1 Legado territorial

Trilhas indígenas que se tornaram estradas históricas

Núcleos urbanos estabelecidos em áreas anteriormente ocupadas

Uso contínuo de corredores naturais definidos originalmente pelos indígenas

6.2 Legado cultural

Conhecimento tradicional sobre plantas e recursos naturais

Influência na formação da população regional

Presença de topônimos de origem indígena

6.3 Legado histórico

Os Coroados foram os primeiros ocupantes conhecidos dessas terras, moldando o território por meio de sua relação sustentável com o ambiente ao longo de séculos.

7. Conclusão

A história dos municípios da Serra Fluminense e do Vale do Paraíba não pode ser compreendida sem reconhecer a presença fundamental dos índios Coroados.

Muito antes da colonização europeia, esses povos já ocupavam e conheciam profundamente o território, estabelecendo rotas, manejando recursos naturais e formando uma rede territorial integrada entre a serra e o vale.

O desaparecimento físico dos Coroados como grupo organizado resultou de processos coloniais violentos, incluindo deslocamento territorial, epidemias e assimilação forçada.

No entanto, sua presença permanece inscrita na geografia, na história e na formação cultural da região.

O reconhecimento dessa herança constitui um passo essencial para a preservação da memória histórica e para a compreensão completa da formação territorial da Serra Fluminense e do Vale do Paraíba.

Texto de autoria de Julian Kronenberger 

Pesquisador focado na história indígena do Vale do Paraíba fluminense e região serrana.

O seu trabalho aborda o processo de ocupação, aldeamento (como o de Valença) e o impacto da colonização (fazendas de café e estradas) sobre os povos Coroados e Puris na região.

Ele frequentemente utiliza fontes primárias e historiografia local para reconstruir a presença desses povos nos atuais municípios da região.