Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) o Visconde de Porto Seguro, foi um militar, diplomata e historiador paulista que foi o renovador da metodologia de pesquisa histórica brasileira e autor de vários estudos, onde se destaca a primeira grande obra de síntese sobre a história do Brasil: História Geral do Brasil, publicada em dois volumes entre 1854 e 1857.
Sua contribuição seminal e monumental lhe valeu o apelido de "Heródoto brasileiro". Também deixou relevante trabalho na historiografia e crítica da literatura.
Em seus primeiros trabalhos de história, entre 1835 e 1838 levam-no a localizar o túmulo do navegador português Pedro Álvares Cabral na Igreja da Graça, em Santarém, Portugal, onde passou boa parte de sua juventude. O mesmo estudo lhe franqueou a entrada, em 1840, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB que por determinação de Dom Pedro II, foi incumbido de desvendar os mistérios a cerca do Descobrimento do Brasil pelos portugueses.
Ao Descobrir o Túmulo de Cabral, Varnhagen impressiona-se com a ausência de qualquer menção às proezas do navegante. Na lápide estava gravado “Pedr’Alvares Cabral” e abaixo do seu nome, nada; no da sua mulher, sim, dizia-se que fora “camareira de Dona Maria”, uma das filhas de D. João III...
Varnhagen é um dos poucos intelectuais brasileiros que tem grande repercussão no mundo da cultura ocidental: seus estudos sobre Vespúcio são citados por todos os que se ocupam do célebre personagem. Seu livro “História Geral do Brasil" é considerado por muitos como a maior obra historiográfica sobre o Brasil Colonial.
Sobre a descoberta do Brasil, declarou: “Todo mundo sabe que Porto Seguro, no sul da Bahia, indica o local, para sempre memorável, onde o Brasil foi descoberto por Cabral, e que essa descoberta marca o ponto de partida da civilização do vasto império brasileiro.”
Foi o principal professor de História do Imperador Dom Pedro II, com quem manteve correspondência por 30 anos, a maior parte em torno de temas puramente pessoais e de pesquisa histórica, mas também abordando eventuais “graças” que lhe poderia conceder D. Pedro II em aspectos de sua vida funcional.
Seu título de barão, depois visconde, de Porto Seguro, escolhido expressamente devido ao seu cuidado em localizar o exato local onde Cabral teria aportado no Brasil, é um dos resultados de sua intensa atividade como missivista sempre solícito à atenção do imperador.
A extensa e bem documentada obra de Varnhagen inclui, entre os mais notáveis de seus escritos: O descobrimento do Brasil, O Caramuru perante a história, Tratado descritivo do Brasil em 1587, História completa das lutas holandesas no Brasil, Épicos brasileiros, Florilégio da poesia brasileira, Amador Bueno, drama histórico, Cancioneiro e Literatura dos livros de cavalaria. Dele escreveu Oliveira Lima: “Francisco Adolfo de Varnhagen foi por certo o mais notório e o mais merecedor dos estudiosos do passado brasileiro; foi um ardente investigador, um infatigável ressuscitador de crônicas esquecidas nas bibliotecas e de documentos enterrados nos arquivos, um valioso corretor de falsidades e ilustrado conhecedor de fatos. O traço dominante da individualidade de Varnhagen é a paixão da investigação histórica à qual subordinou todas as suas manifestações de escritor."
Também foi diplomata de carreira e atuou em temas chaves da política externa brasileira em meados do século XIX. Em um Império rodeado de Repúblicas, sua representação diplomática se deu entre dilemas de Monarquia e República, Verdade e Imparcialidade, História e Diplomacia. Inserido em uma política externa amplamente euro-orientada, foi inconscientemente um dos precursores da americanização das relações do Brasil, atuando junto as repúblicas do Peru, Chile e Equador entre 1863 e 1867. Esta missão, entrecortada de numerosas e difíceis viagens, coincide com um período de grandes acontecimentos no cenário continental, notadamente a Guerra do Pacífico entre a Espanha, de uma parte, Chile e Peru, de outra; e a Guerra da Tríplice Aliança.
Varnhagen, patrono da historiografia brasileira teve o mérito, como diplomata e homem público, de pensar o Brasil de uma perspectiva geopolítica e geoestratégica. Para ele, a ação diplomática deveria orientar-se nessa direção.
Sua visão estratégica ajusta dois relevantes campos do conhecimento, a história e a geografia. A combinação de uma visão estratégica interna, envolvendo o binômio integridade-integração do país, e externa, faz dele um dos formuladores do pensamento diplomático e estratégico.
Ao escrever a história do Brasil, Varnhagen pretendeu moldar o futuro das nação, considerado pelos estudiosos como a essência do planejamento estratégico, o exame das tendências do passado e do presente, para poder projetar e influenciar rota preferencial entre diferentes opções. Para o diplomata Paulo Roberto de Almeida, Varnhagen pode ser visto como ideólogo liberal dotado de um “conservadorismo reformador”, que pensa nos problemas brasileiros e propõe respostas aos desafios atuais e futuros. Ele não apenas identifica os problemas a serem superados, como se dispõe a propor um conjunto de reformas que ajudariam a administração imperial a civilizar o Brasil.
Varnhagen moldou o pensamento histórico, antropológico e político das elites dirigentes do Brasil, desde o segundo reinado até a República de 1946. Como ressaltou Paulo Roberto Almeida, “fez-se presente em todos os cursos de História dos liceus e das faculdades de Direito, e nas demais instâncias da educação nacional durante mais de três gerações”
Fonte: Varnhagen em movimento: breve antologia de uma existência. Temístocles Cezar/ Varnhagen (1816-1878) Diplomacia e pensamento estratégico. Sérgio Moreira Lima.
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