sábado, novembro 17, 2018

Da série Campo Grande das minhas lembranças



"As esculturas alaranjadas espalhadas em algumas ruas de Campo Grande são símbolos da época dos grandes laranjais. Os mais velhos ainda se recordam dos Barracões de Laranjas, com imensos caminhões carregados de caixas perfumadas da fruta, transportadas para todo esse imenso Brasil. Além de laranjas, em qualquer lugar que andávamos, havia tanto verde, com bananas, goiabas, jamelões, jabuticabas, jacas, pitangas, abius, jenipapos, sapotis, amoras, tamarindos, mangas e tantas outras frutas à merce de quem as pegasse diretamente de cada pé. Eram de todos, espalhadas em terrenos baldios. Quando necessitamos comprar goiabas tão caras hoje, lembramos com saudade e melancolia de uma época em que tínhamos tudo isso às mãos. O progresso chegou e também chegaram as residências, tornando Campo Grande o bairro mais populoso do Brasil...
 
Com estrutura antiga e sem investimentos, os problemas da superpopulação permeiam o caos urbano no trânsito e também no tráfego de pedestres. Muitos chegaram sem o amor primeiro à terra tão bendita dos que aqui já estavam e não conseguem encontrar o mesmo lirismo diante do lugar a que usam, sem o sentimento de pertencimento. E, sem esse sentimento, vão cimentando quintais, calçadas e também um pouco da humanidade-natureza que deveria ser a faísca sagrada em cada ser. Ainda há ipês brancos, ipês amarelos, flamboyants, acácias, espirradeiras, extremosas e outras floridas em parcas calçadas do bairro. Mas já não encontramos terrenos baldios com frutíferas para sanar a fome do estômago e a fome da alma que insiste em aumentar, diminuindo as lembranças de um paraíso que poucos conheceram".

Foto de Marcos Meirelles

"Antigamente os subúrbios cariocas, cortados pela linha férrea da Central do Brasil, eram considerados aldeias. Campo Grande era assim, uma pequena aldeia, uma província, um arraial, que ficava na Zona Rural, na roça, como se dizia. Mas as festas das pequenas 'aldeias' todos conheciam. E as mais famosas eram as festas religiosas, como a Festa de Sant'Anna, a Festa do Desterro, a Festa de Santo Antônio. Em Campo Grande, esta última era a mais esperada nos idos dos anos 50's, a então chamada Festa da Curva do Matoso. Numa época de muito espaço, a pequena e bela igreja possuía espaço suficiente na área externa para que todos pudessem usufruir das barracas da quermesse, do palanque com banda tocando quase que a noite inteira. E chegava o momento em que os fogos de artifício coloriam determinado espaço da noite, enchendo de esperança os corações dos que, pelo menos naquele instante, deixavam a fé falar mais alto em oração silenciosa. Também naquele momento, corações se olhavam, mãos se encontravam e muitas histórias começavam ou recomeçavam. O progresso chegou a Campo Grande, deixando de ser Zona Rural para ser a Zona Oeste do Rio de Janeiro, com estruturas caóticas de cidade grande.

Ao passo em que a cidade cresce, diminuem os costumes e a cultura de raiz, sem rega, seca e morre. Os prédios frios e cinzentos se avolumam, contaminando os corações humanos com o cimento e o asfalto e as árvores morrem e morre também um pouco da sensibilidade humana, que por medo da violência, por desinteresse, passa a se relacionar friamente através da telas virtuais. As festas são raras, atualmente. Não preenchem mais os ambientes e ninguém mais vê a graça do passado.


Quando olho para a Igreja de Santo Antônio, na Curva do Matoso, quase não a vejo mais. Por necessidade de obras caritativas, foram construídos prédios de ação social no pátio da igreja, sufocando-a num pátio espremido de construção feia, mal acabada, típica da arquitetura moderna e pobre. Mas a igrejinha continua lá, mesmo escondida, em sua simplicidade, permanece imperiosa, orgulhosa de sua história do passado. E enquanto houver lembranças do passado haverá também história, haverá cultura, haverá prazer das recordações, até que nos esqueçamos das coisas boas que ficam em nós".

"Cinema, a Sétima Arte, fotografias em movimento, um 'milagre' do mundo moderno. O Cinema sempre preencheu nossas expectativas com todos os sentimentos possíveis de prazer, de medo, de ternura, uma catarse de nossos espíritos sempre insatisfeitos. Houve uma época em que o Cinema era o 'point' da juventude, o local de encontro também de crianças e de pessoas mais maduras. Em Campo Grande restam a estrutura de dois grandes cinemas, o Cine Palácio Campo Grande e o Cinema Campo Grande. Duas salas de projeção inesquecíveis.

O Cine Palácio Campo Grande, que teve vida útil de 1962 a 1990 era um dos mais belos da região. Sempre limpo, numa época em que as pessoas, ricas ou pobres, faziam questão de ser elegantes, limpas, educadas. O cinema cheirava gostoso, com assentos estofados confortáveis, luminárias bonitas... A bilheteria possuía uma parede mármore preto com guichês em janelas de grades douradas. No hall de entrada, o balcão de doces e balas. Uma das maiores do Rio de Janeiro. (Tive a informação de que possuía 1.749 lugares - não sei se procede). A Cultura deu lugar à fé e o Cinema hoje é prédio de um segmento religioso, como a maioria dos cinemas no Brasil.

Também havia o Cine Campo Grande, onde consegui vários cartazes de filmes, solicitando ao pessoal da secretaria do cinema. Apesar de mais novo do que o Palácio, o Cine Campo Grande era chamado de 'poeirinha' ou 'pulgueiro'. Passou por reformas na década de 90's e ficou bem bonito e cheiroso também. A Cultura deu lugar a projeto social - restaurante popular, vira e mexe desativado.

Pouca gente sabe que Campo Grande apresentou, ainda, mais três salas de projeção. Esse tesouro está nas lembranças de quem realmente vivenciou o bairro, de quem ainda ama essa terra tão abençoada. Sim, uma sala de projeção que desabou, felizmente, sem vítimas. Se minha memória não falha, apesar da idade, a sala ficava quase na esquina das ruas Campo Grande com Vitor Alves. Meu saudoso padrasto Waldemar Camargo falava muito sobre esse acontecimento, quando me ensinava coisas sobre Campo Grande, que eu não havia vivido.

Também houve uma sala de projeção bem moderna para a década dos anos 40's, entre a antiga estrada Rio-São Paulo com a rua Aricuri, na época, ainda sem asfalto. Era uma tela em um pátio externo, onde os carros podiam estacionar para assistir, apesar de haver também arquibancadas.

E, por fim, a magnífica sala de projeção das Faculdades Moacyr Sreder Bastos, onde, incontáveis vezes, lecionei Literatura para os alunos do extinto Colégio Afonso Celso, com clássicos do cinema. A sala de projeção atendia à comunidade externa também, sob a supervisão do escritor André Luis Mansur Baptista. 

Ah, os cinemas se organizaram nos Shoppings, mas a sensação de cada espaço citado ainda ficou em nossos olhares de saudade de um tempo que não voltará. É como um filme retrocedendo, avançando e o tempo continua rodando, alheio aos nossos sentimentos..."

Por Will Tom
 

As outras fotos foram capturadas na internet

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

2 comentários:

Will Tom disse...

Emocionado por encontrar texto meu em tão importante página virtual.
Gratidão infinita ao magnífico historiador Adinalzir Pereira.
Despretensiosamente escreve minhas lembranças de um tempo magnífico no lugar onde resido.
E continuarei exaltando sempre essa terra de gente boa, honesta e tão criativa e talentosa.
Mais uma vez, obrigado por compartilhar meus pensamentos num espaço tão relevante.
Beijão de luz!!!

Adinalzir disse...

Prezado Will Tom
Eu é que agradeço por nos contar tão belas lembranças de um Campo Grande que eu passei a admirar, principalmente depois que vim aqui morar. E olha que já tem tempo.
Um abraço fraterno e iluminado!