Durante o Carnaval de 2026, a aparente interrupção dos comentários do carnavalesco Milton Cunha sobre a escola Acadêmicos de Niterói — que homenageou o presidente Lula — gerou indignação em parte do público. O episódio, independentemente das motivações reais da emissora, oferece uma oportunidade filosófica rara: observar ao vivo como o poder sobre o discurso opera na mídia de massa.
🔸A esfera pública em risco -- Habermas
Jürgen Habermas defendeu que a democracia depende de uma esfera pública genuinamente plural, onde cidadãos debatem livremente. O problema é que, no Brasil, essa esfera foi em grande parte ocupada por corporações midiáticas cujas escolhas editoriais respondem a interesses econômicos tanto quanto a valores jornalísticos. O que deveria ser fórum virou mercado.
🔸O poder que não se vê -- Bourdieu
Pierre Bourdieu chamou de violência simbólica as formas de dominação que se impõem sem aparecer como dominação. Na televisão, essa violência opera pela naturalização do filtro: o espectador assiste a uma transmissão aparentemente espontânea sem perceber as decisões que moldaram cada segundo do que viu. A invisibilidade do mecanismo é parte de sua eficácia.
🔸Neutralidade é também uma escolha
Stuart Hall lembrou que não existe representação inocente. Toda escolha editorial — o que mostrar, o que cortar, quem fala — já é uma posição política. A pretensão de neutralidade das grandes emissoras muitas vezes cumpre uma função específica: proteger concessões públicas e contratos com anunciantes ao evitar conflitos com qualquer polo do poder. Esse pragmatismo corporativo é, ele mesmo, uma forma de política.
Conclusão
O episódio que motivou este texto — independentemente de qual tenha sido a real motivação da emissora — nos convida a exercitar um olhar filosófico sobre a comunicação de massa. Com Foucault, aprendemos a perguntar: quem controla o discurso e por quê? Com Habermas, a exigir que o espaço público seja genuinamente plural. Com Bourdieu, a desconfiar das violências que se disfarçam de normalidade. E com Stuart Hall, a lembrar que toda representação é uma escolha, e toda escolha é uma forma de poder.
Em uma democracia saudável, a vigilância sobre os meios de comunicação não é paranoia — é dever cívico. Questionar o que vemos na televisão, perguntar o que não foi mostrado e por que, é um exercício de pensamento crítico que a Filosofia nos treina a fazer. E é justamente isso que diferencia o cidadão do mero espectador.
Referências para aprofundamento:
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: UNESP, 2014.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
(Texto de autoria do Professor Lima Dias, 18.02.2026, Mossoró-RN.)


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