quarta-feira, fevereiro 18, 2026

O silêncio como poder: Mídia, Discurso e Filosofia Política

Durante o Carnaval de 2026, a aparente interrupção dos comentários do carnavalesco Milton Cunha sobre a escola Acadêmicos de Niterói — que homenageou o presidente Lula — gerou indignação em parte do público. O episódio, independentemente das motivações reais da emissora, oferece uma oportunidade filosófica rara: observar ao vivo como o poder sobre o discurso opera na mídia de massa. 


🔸O discurso tem dono -- Foucault

Para Michel Foucault, o discurso nunca é livre: ele é sempre controlado, filtrado e delimitado por relações de poder. Em toda transmissão televisiva existe uma ordem invisível que define o que pode ser dito, por quem e até quando. Cortar um comentarista ao vivo não precisa ser um ato consciente de censura para revelar essa ordem — o gesto já a expõe. 

🔸A esfera pública em risco -- Habermas

Jürgen Habermas defendeu que a democracia depende de uma esfera pública genuinamente plural, onde cidadãos debatem livremente. O problema é que, no Brasil, essa esfera foi em grande parte ocupada por corporações midiáticas cujas escolhas editoriais respondem a interesses econômicos tanto quanto a valores jornalísticos. O que deveria ser fórum virou mercado. 

🔸O poder que não se vê -- Bourdieu 

Pierre Bourdieu chamou de violência simbólica as formas de dominação que se impõem sem aparecer como dominação. Na televisão, essa violência opera pela naturalização do filtro: o espectador assiste a uma transmissão aparentemente espontânea sem perceber as decisões que moldaram cada segundo do que viu. A invisibilidade do mecanismo é parte de sua eficácia. 

🔸Neutralidade é também uma escolha

Stuart Hall lembrou que não existe representação inocente. Toda escolha editorial — o que mostrar, o que cortar, quem fala — já é uma posição política. A pretensão de neutralidade das grandes emissoras muitas vezes cumpre uma função específica: proteger concessões públicas e contratos com anunciantes ao evitar conflitos com qualquer polo do poder. Esse pragmatismo corporativo é, ele mesmo, uma forma de política.

Conclusão

O episódio que motivou este texto — independentemente de qual tenha sido a real motivação da emissora — nos convida a exercitar um olhar filosófico sobre a comunicação de massa. Com Foucault, aprendemos a perguntar: quem controla o discurso e por quê? Com Habermas, a exigir que o espaço público seja genuinamente plural. Com Bourdieu, a desconfiar das violências que se disfarçam de normalidade. E com Stuart Hall, a lembrar que toda representação é uma escolha, e toda escolha é uma forma de poder.

Em uma democracia saudável, a vigilância sobre os meios de comunicação não é paranoia — é dever cívico. Questionar o que vemos na televisão, perguntar o que não foi mostrado e por que, é um exercício de pensamento crítico que a Filosofia nos treina a fazer. E é justamente isso que diferencia o cidadão do mero espectador.

Referências para aprofundamento:

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: UNESP, 2014.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

(Texto de autoria do Professor Lima Dias, 18.02.2026, Mossoró-RN.)

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