terça-feira, 28 de julho de 2020

A Baía de Guanabara em 1500


Figura 5.1 Baía de Guanabara em 1500 (AMADOR, 1997)

O período compreendido entre 1400 e 1850 foi conhecido como pequena idade do gelo, que correspondeu a uma fase de frio intenso e grandes nevascas que assolaram a Europa e a Ásia. Esse evento climático teria impulsionado portugueses e espanhóis a empreenderam a aventura das grandes navegações em direção às Índias e outros horizontes à procura de especiarias, novas fontes de alimentos e mercados, a fim de impulsionar o mercantilismo, que culminou com o (des) cobrimento da América (1492) e do Brasil (1500).

Esse período mais frio teria correspondência com uma provável redução do nível relativo do mar na ordem de 10 a 30 cm. Em decorrência desse evento climático de escala global, provavelmente a Baía de Guanabara em 1500 apresentasse uma posição de nível do mar ligeiramente mais baixo que a atual, da ordem de 10 a 20 cm.

A superfície total da baía, incluindo as ilhas, com seus 60 km2, era de 528 km2 e, sem incluí-las, era de 468 km2.

Em 1500, o mar batia diretamente em áreas como o Outeiro da Igreja da Glória, a base do Morro da Viúva, os Arcos da Lapa, o Teatro Municipal, o Campo de Santana, o túnel do Pasmado, a base do Outeiro da Penha e a Rodoviária Novo Río.

Com base na taxa de assoreamento geológico ou natural determinada para a baía, que era de 13,4 cm/século, a sua profundidade média em 1500 seria de 9,35 metros. Sendo de 17,60 metros na área externa da baía, de 9,38 m na sua porção intermediária e de 4,16 m na área do fundo da baía.

A Baía de  Guanabara dos povos tupis-guaranis possuia uma nítida subdivisão. O termo niterói (água escondida) se aplicava para as enseadas da porção de entrada da baía, enquanto guanabara (seio do mar) representava a parte interior da baía, ou a baía propriamente dita, na concepção moderna de ambientes costeiros. Por outro lado, paranapuan era o canal largo, situado entre a Ilha de Paranapuan (Governador) e o continente.

A paisagem era majestosa, o mar batia diretamente nós pontões e costões que emolduram a Guanabara. Os manguezais estendiam-se por quase todo o litoral, orlando enseadas e estuários, assegurando a produtividade biológica da baía. Dezenas de lagunas e brejos alinhavam-se na retaguarda de restingas tangenciadas por praias de areias alvas. Pitangueiras, guriris, clúsias, cajueiros, bromélias, orquídeas e cactos enfeitavam os cômoros de restingas e dunas.

Os rios de águas transparentes descreviam meandros, antes de atingirem amplos estuários e enseadas. As ilhas paradisíacas, os morros e as serras eram cobertos por uma exuberante floresta tropical, habitat de uma abundante e variada fauna.

Dezenas de aldeias indígenas orlavam a baía, utilizando de forma harmoniosa a sua riqueza biológica. Os índios, organizados num socialismo primitivo, não acumulavam riquezas e tiravam da natureza apenas o necessário para o sustento. Assim já faziam seus ancestrais que, desde a formação da baía, há cerca de 6000 anos, acompanharam e se adaptaram às transformações ambientais que a natureza sofria.

Com uma grande diversidade de ecossistemas periféricos bastante produtivos, como manguezais, lagunas, brejos e pântanos com elevada produtividade primária e secundária; possuindo no seu entorno acidentado inúmeras reentrâncias e saliências, como estuários, enseadas, sacos, gamboas, pontões e costões rochosos, restingas, praias e ilhas, e ainda sendo fertilizada pela constante troca de água doce (de origem fluvial) e marinha, a produtividade e a diversidade biológica da baía eram elevadíssimas, permitindo a proliferação de uma extensa cadeia de organismos, desde os minúsculos fito e zooplânctons, algas, crustáceos, moluscos e peixes, até os grandes os grandes mamíferos aquáticos, como os golfinhos e as baleias.

Em suas águas e nos ecossistemas periféricos proliferavam imensos cardumes de sardinhas, tainhas, xereletes, cocorocas, corvinas e robalos; enormes colônias de moluscos, como mexilhões, ostras, samanguais, berbigões e sernambis; muitos camarões; e diversos tipos de caranguejos e siris, que lotavam os manguezais e as praias.

Os golfinhos em grandes grupos percorriam a baía até as proximidades da Ilha de Paquetá, atraídos pelos imensos cardumes, principalmente de sardinhas.

Nos meses de inverno, entravam nas águas da baía grupos de 40 a 50 baleias, que utilizavam as águas costeiras mais quentes para parirem seus filhotes. As baleias que visitavam a baía eram principalmente jubarte, espadarte, rorqual e cachalote.

Essa diversidade e riqueza de fontes de proteínas atraiu desde a formação da baía, há mais de 6000 anos, populações de povos coletores, pescadores e caçadores.

Como decorrência da lenta e complexa modelagem da paisagem que se processou durante os tempos geológicos, combinada com mudanças ambientais de clima e nível do mar, foi produzido na Baía da Bacia da Guanabara um diversificado complexo de ecossistemas que incluía a Mata Atlântica, campos de altitude, manguezais, brejos, alagados, pântanos, lagunas, restingas, dunas, praias, rios, estuários, enseadas, sacos, gamboas, ilhas, lajes, coroas, costões e pontões rochosos, falésias e feições ruiniformes.

Em 1500, poucos anos antes do desastre da invasão e da colonização européia, era este o quadro ambiental e humano da Guanabara.

Fonte e crédito de imagem:  Figura 5.1
Amador, Elmo da Silva. Bacia da Baía de Guanabara: características geoambientais, formação e ecossistemas / Elmo da Silva Amador. - Río de Janeiro: Interciência, 2012. páginas 369 a 371.

Pesquisa feita por Adinalzir Pereira Lamego

4 comentários:

Historiador Paulo disse...

Muito bom

Prof. Adinalzir disse...

Valeu Historiador Paulo
Coloquei na lateral direita do Saiba Historia um link do seu blog.
Muita gratidão pela visita e comentário!

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Fico a imaginar como deveria ser bela a paisagem do Rio há 520 anos atrás. Inclusive as altas florestas na Baixada com suas centenárias árvores a exemplo de um enorme jequitibá existente na localidade do Valério, em Cachoeiras de Macacu. Sem esquecermos de como os rios que deságuam na baía deveriam ser limpos. Aliás, o próprio Macacu, com a extinta palmeira que leva o seu nome...

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Rodrigo Phanardzis
Muitas vezes também fico a imaginar. Como seriam nossos bairros e cidades? Como seriam nossos índios? Como seriam nossas florestas e rios? São riquezas que hoje estão sendo dizimadas e extintas. Tudo isso é muito triste.
Gratidão pela visita e comentário!

Maria do Carmo Gerônimo

Maria do Carmo Gerônimo (Carmo de Minas, 5 de março de 1871 — Itajubá, 14 de junho de 2000) foi uma ex-escrava brasileira que teria sido uma...