quarta-feira, janeiro 29, 2020

O Beco do Seridó, o Major Manuel de Almeida Costa e o Professor Moacyr Sreder Bastos


Blog, Campo Grande, Zona Oeste

O MAJOR

Filho de José de Almeida Costa e Maria Jacinta de Almeida Costa. Casado em primeira núpcias com Francisca Caldeira de Alvarenga,com quem teve 10 filhos. Dois desses filhos dão nome à ruas de Campo Grande. Ruas Francisco de Almeida Costa (reconhecida oficialmente em 1953) e Nilton de Almeida Costa (reconhecida oficialmente em 1978).

Ruas Rio

O Major Manuel Almeida Costa, nasceu em maio de 1874 e faleceu em maio de 1938, em Campo Grande. Era comerciante e major da Guarda Nacional. Foi a seu pedido que se instituiu a estação telegráfica de Campo Grande. E fundou na região duas bandas de música.

O Patropi 1974

O PROFESSOR

Casado em segunda núpcias com Maria Sreder Bastos, o Major Manuel Almeida Costa , teve mais 2 filhos, sendo um deles, o Prof. Moacyr Sreder Bastos, fundador da Escola Técnica de Comércio Afonso Celso, logo depois, Colégio Afonso Celso e das Faculdades Integradas Moacyr Sreder Bastos, ambos extintos. Em 1999, uma praça recebeu o o nome do professor.

O Globo 1996

O BECO

Um dos locais mais tradicionais de Campo Grande, o cruzamento entre as ruas Coronel Agostinho e Major Almeida Costa é conhecido por um apelido: trata-se do Beco do Seridó. Segundo matéria do jornal o Globo de 1992, a origem do nome parece estar ligada a um cidadão conhecido como João Tecelão, um dos primeiros operários da Fábrica de Tecidos Bangu.

Após comprar alguns terrenos no então Beco da Vala (nome dado por causa do esgoto a céu aberto que corria pelo local), ele começou a alugar casas para outros operários da fábrica. Como a matéria-prima da indústria era o algodão do Seridó (região do interior da Paraíba e do Rio Grande do Norte) o lugar acabou ganhando uma nova denominação.

Outra versão popular conta que o Beco do Seridó é uma referência a uma região chamada Ribeira do Seridó, origem dos primeiros nordestinos que possuíam pequenas bancas para vendas de produtos de gênero alimentício e artesanal no local.

Texto de Deca Serejo
Maranhense, moradora de Campo Grande na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, guia de turismo, apaixonada por história, pela cidade maravilhosa e bairrista.

Originalmente postado no blog riodecoracaotour

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, janeiro 28, 2020

A Escola de Pesca do Abrigo Cristo Redentor do Rio de Janeiro e a formação profissional do pescador brasileiro no Estado Novo, 1937-1945



A Escola de Pesca Darcy Vargas (EPDV) surgiu na ilha da Marambaia, município de Mangaratiba, Rio de Janeiro, em 1939, como um dos departamentos da instituição filantrópica Abrigo do Cristo Redentor (ACR), do Rio de Janeiro, com o objetivo de fornecer ensino técnico e profissional de pesca aos filhos de pescadores locais e de diversas regiões litorâneas do país.

Com a instalação da EPDV, os dirigentes do ACR pretendiam criar não apenas um educandário, onde fosse ensinada a pesca por meio de técnicas modernas, mas também uma vila onde a família do pescador pudesse viver com infraestrutura, em um ambiente higienizado e onde a venda do pescado pudesse ser realizada diretamente ao entreposto, propiciando uma remuneração honesta a esse trabalho (ACR, 1938-1945, relatório 1942, p.16).

As obras em prol desse empreendimento tiveram início provavelmente no segundo semestre de 1939. No ano seguinte, o presidente da República, Getúlio Vargas, o ministro da Marinha, almirante Henrique Aristides Guilhem, o interventor do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto, entre outros, estiveram na ilha da Marambaia, em comitiva, onde foram recebidos pela população local e “desfilaram” num bonde puxado por menores com uniforme de marinheiro (Figura 1 e 2). Na ocasião, o idealizador e “provedor perpétuo” do ACR, Levi Miranda, juntamente com Romero Estelita Cavalcanti Pessoa, membro do Conselho Fiscal daquela entidade filantrópica, e Rodolpho Fuchs, funcionário do Ministério da Educação e Saúde (MES) cedido pelo governo para colaborar na área de ensino do ACR, os conduziram para conhecer as obras em andamento da EPDV.

Texto de Mônica Cruz Caminha

Que ler o artigo completo e ver todas as imagens? Acesse o link abaixo:
Texto publicado originalmente na Revista História, Ciência, Saúde - Manguinhos.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

domingo, janeiro 26, 2020

Crise da água e a ferrovia



Estação de tratamento do Guandu
Fonte: site da CEDAE

Por Eduardo P.Moreira (‘Dado’)
Arquivista em formação

Ano de 2020. O Rio de Janeiro e municípios limítrofes sofrem com uma contaminação da água fornecida pela CEDAE, vinda da estação de tratamento do Guandu, uma das maiores do mundo. As causas apuradas apontam a presença de uma substância produzida por algas, mas certamente a falta de investimentos em saneamento básico regional e infraestrutura técnica e equipamentos colaboraram para que o caos hídrico se instalasse e prejudicasse milhões de habitantes. 

O que tem a ferrovia e os trilhos a ver com isso ?

Poderíamos relacionar o assunto “ferrovia” e “águas” ao lembrar que a atual estação de tratamento do Guandu, no município de Nova Iguaçu, foi construída sobre um trecho do antigo leito ferroviário da ligação ferroviária Carlos Sampaio x Austin x Santa Cruz, nas proximidades da antiga Estrada Rio x São Paulo. Esta ferrovia foi criada com a intenção de transportar gado que vinha principalmente do estado de Minas Gerais e do interior do Rio de Janeiro, em direção ao antigo Matadouro de Santa Cruz.


Mapa em uma parede de uma escola do Engenho Novo, mostrando a linha Carlos Sampaio – Austin – Santa Cruz.
Foto: Carlos Alberto Ramos (Melekh) em 2011

Os trens transportando gado chegavam pela Estrada de Ferro Melhoramentos do Brazil (posteriormente nomeada Linha Auxiliar da EF Central do Brasil) e entravam nesta ferrovia na estação de Carlos Sampaio. Entretanto o principal modo era vindo do interior pela linha do Centro da própria Estrada de Ferro Central do Brasil e acessando a ligação Carlos Sampaio x Austin x Santa Cruz na estação de Austin.


A saída à direita seguia em direção a Santa Cruz e ao antigo matadouro, passando por Cabuçu.
Foto: Carlos Alberto Ramos (Melekh) em 2011

A AFTR foi a pioneira em pesquisas nessa linha ao realizar duas caminhadas com extensão de mais de 30 kms, percorrendo o caminho por onde essa ferrovia passava e, surpreendentemente ainda encontrando todas as estações do trecho, vários vestígios, e a saída da linha do Centro em Austin, por um desvio saindo da mesma estação. Em breve postaremos uma matéria sobre essa iniciativa inédita e praticamente exclusiva, devido às dificuldades impostas pela violência urbana atualmente.

Mas voltemos às águas: no limiar dos anos de 1888 e 1889 o Rio de Janeiro e municípios próximos passavam por uma grave crise hídrica. O fornecimento obtido apenas através de mananciais locais, chafarizes e outras fontes não eram suficientes para suprir a demanda necessária para uma população urbana que crescia rapidamente. Com termômetros marcando frequentemente temperaturas médias de 42 graus, a pressão da imprensa e a realização de várias manifestações e protestos (em um deles a população ocupou as ruas desde o Largo da Lapa até a Rua do Ouvidor) levaram o imperador Dom Pedro II a tomar várias providências. Uma delas foi a abertura de um concurso público para a escolha de um escritório de engenharia que elaborasse um projeto de novas obras de canalização e abastecimento de água. Nesse momento a ferrovia “entrou na história”.


Aqueduto na represa de Rio d’Ouro
Fonte: Arquivo Nacional

Desde 1876 a Estrada de Ferro Rio d’Ouro vinha sendo implantada visando a construção e manutenção da rede adutora de água, pura e oriunda dos mananciais da Serra do Couto e do Tinguá, trechos da Serra do Mar em território fluminense. Esta ferrovia é uma das mais instigantes e intrigantes estradas de ferro que foram estudadas e pesquisadas pela equipe da AFTR, tendo alguns poucos dados, registros e detalhes ainda bastante obscuros, apesar de intensa pesquisa empreendida.


Cais no bairro do Caju, que recebia o material para as adutoras de água

Fonte: Arquivo Nacional


Instalações, equipamentos e materiais de construção das adutoras na Quinta do Caju
Fonte: Arquivo Nacional

Partindo do bairro do Caju, onde existia um pequeno porto e cais por onde o material de construção e tubulações chegavam por via marítima, as linhas da ferrovia se ramificavam em diversos ramais pela zona norte do município do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense, alcançando os Rios Santo Antônio, Rio d’Ouro e Rio São Pedro em Nova Iguaçu. Muitas pessoas não sabem, mas os trilhos desta ferrovia passavam por bairros como Cachambi, Abolição, Pilares (paralelamente à antiga Avenida Suburbana), Inhaúma, Bemfica (com “m” mesmo) e vários outros junto à antiga Avenida Automóvel Clube, onde hoje correm os trilhos da linha 2 do Metrô. Na Baixada Fluminense bairros como Miguel Couto, Vila de Cava, Adrianópolis, Xerém, Areia Branca, Parque Estoril, Amapá e outros eram atendidos pela ferrovia, que passou a transportar passageiros em 1883.


Ponte ferroviária e adutora de água na Baixada Fluminense
Fonte: Arquivo Nacional

Nessa época essa era a principal solução buscada para resolver o problema de abastecimento de água. Vários engenheiros apresentavam propostas e prazos variados, normalmente extensos, para a execução e conclusão das obras. Até que o futuro patrono da engenharia nacional (André Gustavo) Paulo de Frontin junto com o também engenheiro (Raimundo Teixeira) Belford Roxo apresentaram a proposta que parecia impossível: em apenas seis dias a cidade do Rio de Janeiro estaria livre da crise de falta de água. O que parecia uma piada perante às demais autoridades e mesmo aos colegas engenheiros, tornou-se realidade e dentro do prazo. Paulo de Frontin, na época com apenas 29 anos de idade, fez apenas algumas exigências: que lhe fossem entregues dois trens da Estrada de Ferro Rio D´Ouro, um contingente de aproximadamente 5 mil trabalhadores e um volume duplicado ou triplicado de enxadas e machados, mais a possibilidade de poder usar à vontade o telégrafo para se comunicar com as autoridades. Em menos de uma semana, a tubulação colocada ao lado da Estrada de Ferro Rio d’Ouro resolveu a questão: 16 milhões de litros por dia foram fornecidos e ajudaram a minimizar a falta d’água que assolava a população.

Esse episódio nos leva a algumas reflexões:

Como antigamente, sem tantos recursos tecnológicos, conseguia-se resolver problemas de grande magnitude gastando pouco e em pouco tempo ?
Por qual motivo as ferrovias tinham mais valor e importância naquela época, e hoje são negligenciadas e extintas sem critérios que justifique, na maioria das vezes ?
Como, com qual merecimento e com quais competências os ocupantes de cargos públicos na política atual conseguem essas vagas ?
Porque a população em sua maioria, antes lutadora de seus direitos e cumpridora de seus deveres, não se esforça em buscar soluções para que a situação melhore ?
Infelizmente a maioria de nós já sabe a(s) resposta(s) … mas o certo é que precisamos muito de um Paulo de Frontin e sua equipe nos dias de hoje.



Tubulação da rede de abastecimento de água paralela à extinta Estrada de Ferro Rio d’Ouro


Instalações da Represa em Rio d’Ouro


Parada ferroviária Represa, em Rio d’Ouro
Fotos: Eduardo P.Moreira (‘Dado’) em 2009

REFERÊNCIAS

COSTA, Heloísa Raquel Inácio, “Bastam seis dias: a domesticação da água e a plataforma republicana na Revista Ilustrada”, acesso em 20 de janeiro de 2020, http://bdm.unb.br/handle/10483/17950

“Paulo de Frontin”, Wikipedia, acesso em 21 de janeiro de 2020, https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_de_Frontin

“Episódio da água em seis dias,” Wikipedia, acesso em 19 de janeiro de 2020, https://pt.wikipedia.org/wiki/Epis%C3%B3dio_da_%C3%A1gua_em_seis_dias

OLIVEIRA, Nildo Carlos, “Os seis dias da história e da glória de Paulo de Frontin, acesso em 22 de janeiro de 2020, https://revistaoe.com.br/os-seis-dias-da-historia-e-da-gloria-de-paulo-de-frontin/

Originariamente postado na página Trilhos do Rio

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sábado, janeiro 25, 2020

Campo Grande antes de Campo Grande



"Curumim chama cunhatã que eu vou contar "

O atual bairro de Campo Grande já fez parte de uma região muito mais extensa, denominada de "O Campo Grande", parte do que chamavam sertão, que ia da Serra de Gericinó e as serras da Tijuca, Pedra Branca, Bangu e Cabuçu.

A conquista dessas terras e povoamento da região podem ser creditados em 06 de junho de 1569, quando João de Bastos e Gonçalo d'Aguiar solicitaram ao Capitão e Governador, Salvador de Sá, o outeiro de Jerissinonga (Gericinó). Alguns pesquisadores já afirmam que o "início" de povoamento se deu em 17 de novembro de 1603.

Só que essa conquista, início de povoamento só leva em consideração a visão dos colonizadores europeus, os "homens brancos". À época, como ocorria em praticamente todo território brasileiro, a região era ocupada por tribos e etnias indígenas. Por volta da segunda metade do século XVI, a extensão de terras que vai do Rio da Prata até Cabuçu era habitada pelos índios Picinguaba. 

Segundo o professor de História Marco Antonio Duarte Viggiani, acredita -se que Picinguaba era um líder Morubixabã, pertencente a uma das tribos existentes na localidade. Ainda segundo Marcos, Picinguaba poderia ser também o nome de uma tribo.

Como mostra o mapa acima, uma das tabas existentes na localidade era conhecida como Okarantî, descrita como uma "das maiores e mais povoadas do país", segundo o cronista Jean de Léry. 

Conhecida como a taba do Grande Guerreiro Branco, era a maior do Rio de Janeiro no século XVI.

O mesmo cronista Léry declara em sua obra, que esta taba ficava distante cerca de "10 a 12 léguas" do forte dos franceses na atual ilha de Villegagnon (a légua francesa aproximava de 4 quilômetros). Sendo assim, a distância era de aproximadamente 40 a 48 quilômetros entre os dois lugares. 

Esses quilômetros descritos pelo cronista francês indicam para a região atual que abrange os bairros de Bangu, Santíssimo e Campo Grande. Okarantî ficaria em algum lugar dessa localidade, onde se tinha à disposição cursos d'água, partindo do Rio Cabuçu.

Nessa região há um vale entre duas "cadeias montanhosas", onde hoje localiza-se uma importante via, a Estrada da Posse. A taba teria sido a maior da região, mais densamente povoada do recôncavo da Baía de Guanabara, uma área que corresponde ao grande planalto alcançado após o extenso vale entre os maciços do Mendanha e da Pedra Branca. 

Segundo o cronista que esteve presente na região na época, em uma missão que acabou sendo um verdadeiro e precioso "trabalho de campo", a mais ou menos 8 quilômetros (2 léguas) da aldeia de Okarantî, localizava-se uma outra, denominada Kotyuá, ficando onde hoje encontra-se o bairro de Vila Kennedy, próximo da região de Gericinó. Essa aldeia possuía uma característica guerreira, sendo uma "armadilha" para os inimigos que por acaso atrevessem a atacá-la.

Entre Okarantî e Kotyuá, como mostra o mapa, existia Tantimã. A referência à essa taba aparece em 1569, designando terras concedidas a dois sesmeiros já citados, João de Bastos e Gonçalo d'Aguiar. "Diz" a carta que essas terras tinham como referência algum lugar perto de Gericinó. 

É bom ressaltar que Gericinó servia para designar uma região muito vasta na segunda metade do século XVI, diferente do atual bairro, sendo apenas uma parte das terras que herdou o nome originário. A aldeia de Tantimã deslocava-se por essas terras próximas às atuais encostas da Serra do Mendanha. 

Nas primeiras cartas de sesmarias e outros documentos antigos, os tupinambás "chamavam" esse maciço montanhoso de origem vulcânica com outras grafias, como Jorisinom, Jorixininga, Jorisiñonga, entre outras. Hoje, é conhecido como Serra de Madureira, do lado de Nova Iguaçu, e Serra do Mendanha, ou Gericinó, na parte da cidade do Rio de Janeiro. 

Os mesmos tupinambás reverenciavam o local como uma de suas "montanhas" mais sagradas, de onde partiam os rios, com relevante caça na região, e onde se tinha frutos, plantas, mel, animais entre outros.

O nome Gericinó poderia significar para os indígenas presentes na região algo como "mãe que vem fazer", "montanha da mãe geradora", ou algo próximo a isso.

Nas andanças do cronista Jean de Léry, pode-se afirmar que o mesmo visitou Okarantî, próximo do atual bairro de Campo Grande, decidindo voltar por um caminho mais ao norte, em direção a terras férteis e florestas das atuais "montanhas" do Parque Estadual do Mendanha.

E assim, a região do "Campo Grande", como cita a música, já dizia: "Todo dia era dia de índio".

Referências bibliográficas:
Fróes, José Nazareth; Gelabert, Odaléa Ranauro. Rumo ao Campo Grande por trilhas e caminhos. Rio de Janeiro, 2004.
Leŕy, Jean de. Viagem à terra do Brasil. São Paulo: Livraria Martins, 1941.
Silva, Rafael Freitas da. O Rio antes do Rio. Rio de Janeiro: Babilônia, 2017.

Fonte da imagem: livro "O Rio antes do Rio"

Texto e pesquisa de Carlos Eduardo de Souza


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

quarta-feira, janeiro 22, 2020

O Lazareto de São Cristóvão, de 1752, atual Hospital Frei Antônio



A origem do Hospital dos Lázaros deve ser atribuída ao governador-geral do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadella. Em 1741, ele manda recolher 52 leprosos em pequenas casas simadas em São Cristóvão, sustentando-os com suas esmolas. Esses doentes estavam entregues aos cuidados de enfermeiros donatos, frades franciscanos de Santo Antônio, auxiliados por negras detentas de crimes graves.

O bispo dom Antônio do Desterro, membro do triunvirato que passa a governar o Rio de Janeiro em 1763, após a morte do conde de Bobadella, solicita à Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária que assuma a administração dos Lázaros de São Cristóvão, dado o estado de abandono a que agora estavam relegados.

Dom Antônio havia sido inquisidor dos jesuítas, expulsos do Brasil em 1759, e solicita ao novo vice-rei, conde da Cunha, que este requeira a el-rei a transferência dos leprosos para a Casa dos Jesuítas, tornada propriedade real após a expulsão.


A
 Casa dos Jesuítas, provavelmente construída entre 1748 e 1752, era um edifício com planta quadrangular, formado de pátios internos e uma capela central. O projeto da antiga Capela de São Pedro, hoje de São Lázaro, é atribuído aos jesuítas frei Inácio da Silva e irmão Francisco do Rêgo de Caminha. Possuía nave única jesuítica octogonal e, até hoje, ainda estão conservados alguns elementos arquitetônicos originais, tais como cúpula, lanternim e arco cruzeiro.

A imagem mais antiga desse edifício colonial, provavelmente de 1785, é o óleo sobre tela do pintor Leandro Joaquim, intitulado Procissão marítima, exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Em 1766, o prédio passa por ligeiras reformas para abrigar os leprosos. Para sua manutenção cria-se um novo imposto, que a irmandade passa a arrecadar nas freguesias.


D
urante todo o final do século XVIII, a irmandade queixa-se da insuficiência da renda para o sustento do hospital e da interferência dos vice-reis na sua administração. Mas é, também, objeto de queixas pela inconstância com que oferece cuidados médicos aos doentes, ou atende suas necessidades.

Em 1814, em conseqüência das constantes reclamações, o príncipe da Beira, filho de dom João VI, instaura um inquérito para apurar as irregularidades da administração da irmandade, nomeando um juiz privativo para superintender a direção do hospital. Tal situação persiste até o final do século XIX, limitando a ação da irmandade. Em 1817, com a vinda para o Rio de Janeiro dos batalhões de voluntários reais do príncipe, os leprosos são transferidos para a ilha das Enxadas. O prédio é reformado para a acomodação do quartel de tropa.

Em 1819, o edifício ainda conserva seu aspecto externo original. Naquele ano é retratado pelo pintor e militar inglês Henry Chamberlain. No quadro, suas fachadas são brancas, com diversas aberturas. A cobertura é cor de terra, encimada por uma cúpula, tendo como fundo a baía de São Cristóvão. A reprodução do quadro pode ser vista na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, em um exemplar do livro The lazaretto.

Mantendo o nome de Hospital dos Lázaros de São Cristóvão, a instituição permanece na ilha das Enxadas até 1823, quando é transferida para a ilha de Bom Jesus, por ordem do príncipe regente dom Pedro I, onde fica por dez anos, assumindo o título de Imperial Hospital dos Lázaros.

Durante todo o reinado de dom Pedro I, o Hospital dos Lázaros não teve sequer um médico. Os doentes contavam com as visitas inconstantes de um cirurgião e o auxílio de enfermeiros. Por diversas vezes, foi solicitada a restituição do edifício de São Cristóvão para os lázaros. Somente em 1832, durante a Regência Trina Permanente, é sancionada uma resolução que garante reparos e ampliações ao prédio, à custa do Tesouro Público, visando o retorno dos leprosos.

Em 1840, no governo de dom Pedro II, o hospital já tinha casa de banhos, água potável e lavanderia a vapor. No entanto, água encanada para o prédio do hospital é um problema sem solução satisfatória durante todo o Império. Os primeiros melhoramentos 'ornamentais' são feitos em 1881, por ocasião da visita de dom Pedro II, quando o terreno em volta do prédio é ajardinado. A inscrição, no pórtico do hospital, da sentença da Porta do Inferno de Dante (Divina comédia, Canto III, 9): "Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate!" ("Abandonai toda esperança, vós que entrais!"), é desaprovada pelo imperador. Ele registra, no livro de visitas, a sugestão de substituí-la por "Aqui renasce a esperança!", que consta no vitral do átrio do hospital, inaugurado em 1920. Ainda durante o Império, em 1886, a capela mortuária é construída nos fundos do hospital. Com a proclamação da República, a irmandade fica isenta de prestar contas ao governo, em conseqüência da separação da Igreja do Estado, que cessa qualquer intervenção oficial na administração de corporações religiosas e assume exclusivamente a direção do hospital.

Também com a República o hospital perde o 'imperial' do título e se moderniza. É, portanto, na última década do século XIX que tem início uma série de reformas no hospital. A primeira grande obra é realizada em 1892, quando as antigas celas dos jesuítas, que ainda serviam de quartos para os enfermos, são derrubadas e transformadas em salões-enfermarias. A capela também passa por reformas e é aumentada.


Em 1893, é criada a Sala do Banco, consultório isolado onde são examinados os casos em que há suspeita de lepra. No prédio do hospital é instalado um moderníssimo laboratório experimental e uma biblioteca especializada, com quatrocentos volumes. A direção do laboratório é entregue a Wolff Havelburg, discípulo de Koch, que consegue aparelhá-lo com instrumentos importados da Alemanha, próprios para os estudos anatomopatológicos e bacteriológicos relativos à lepra.

Entre os anos de 1896-97 são realizadas obras de melhoria visando a higiene. Sob o encargo de Hilário de Gouveia é construída uma nova lavanderia a vapor, cuja aparelhagem é adquirida na Europa, a mesma que serve ao hospital até hoje. Num prédio anexo, com gradil e portas de ferro, é instalada uma estufa a vapor para a desinfecção das roupas dos doentes. Nos refeitórios, são substituídas as mesas de madeira pelas atuais, em mármore em forma de xis; todas as cômodas são revestidas de mármore e os corredores e passadiços da cozinha de azulejos, desde a entrada dos jardins até a primeira área interna. O edifício é pintado e, em todas as portas, colocam-se venezianas. No portão de entrada, pelo lado da rua de São Cristóvão, colocam-se duas estátuas, a da Fé e a da Esperança. O laboratório anatomopatológico é aumentado; constrói-se um gabinete hidroterápico. Obras de embelezamento também são realizadas: modificam-se as janelas da varanda da frente para o mar e a área que cerca a estátua da Caridade recebe calçamento. Dando continuidade a essas melhorias, em 1899, é construída a escada de cantaria de acesso à entrada pela praça dos Lázaros (hoje Mário Nazareth). Os banheiros, por sua vez, são ladrilhados com mosaicos, as paredes revestidas de azulejos e as banheiras, de mármore. O saguão também é revestido de azulejos, numa extensão de 76m por l,50m de altura. Em 1900, é construído um hospital de isolamento, Hospital Santo Otávio, no mesmo terreno, com duas enfermarias para as doenças infecto-contagiosas intercorrentes.

O Hospital dos Lázaros passou por diversas reestruturações e ampliações, entre meados do século XIX e 1920. Elas contribuíram, também, para a descaracterização da antiga Capela de São Pedro, hoje São Lázaro, o fechamento das arcadas e a alteração dos pátios internos. Essas intervenções deram ao edifício feições ecléticas, com detalhes, ornamentos e elementos arquitetônicos em estilo neoclássico, neogótico e art nouveau.

Naquele mesmo período, o Hospital dos Lázaros de São Cristóvão passa a ser citado como modelo de higiene, modernidade e conforto por todos os técnicos que o visitam. Em 1914, assume a provedoria do hospital o engenheiro Mário da Silva Nazareth, que realiza grandes melhoramentos, no período que se estende de 1917 a 1920. Em sua gestão, são instalados aparelhos sanitários com caixas de descarga nos banheiros, incinerador para queima dos restos de alimentos dos doentes, aquecedor para fornecer água quente a todas as dependências do hospital, elevador elétrico para transportar alimentos para o andar superior, e a iluminação elétrica é completamente reformada. Quanto às obras de embelezamento, o provedor manda revestir de azulejos, com guarnições douradas, os corredores do andar superior e o terraço de recreio das enfermas com belíssimos desenhos florais. As dependências da administração ganham papel de parede finíssimo, e o vitral, com a inscrição de autoria de dom Pedro II, é instalado no andar superior. Além disso, manda construir um prédio anexo para cinema e teatro, que funciona regularmente durante toda sua administração. Constrói novas enfermarias, aumentando o número de leitos do hospital, e remodela a capela mortuária e a sala de autópsias.

Em administração posterior, em 1924, é introduzido no hospital o serviço de enfermagem das irmãs de São Vicente de Paulo, que por mais de sessenta anos cuidaram dos internos.

Em 1941, quando o Hospital dos Lázaros completou duzentos anos, seu nome foi mudado para Hospital Frei Antônio, em homenagem ao bispo dom Antônio do Desterro. Ele foi o responsável pela instalação dos leprosos neste prédio, sob os cuidados da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, que até hoje cuida dos poucos internos que permanecem no hospital.

As sucessivas alterações no entorno do Hospital Frei Antônio, tais como aterros na baía de São Cristóvão, a construção do gasômetro e o fechamento da entrada principal, fizeram com que esse edifício perdesse definitivamente sua importância na paisagem do Rio de Janeiro.

Texto de Ângela Porto e Benedito Tadeu de Oliveira, respectivamente, pesquisadora e arquiteto da Casa de Oswaldo Cruz.

Rua Inhomirim, 37 - bairro de São Cristóvão.

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

terça-feira, janeiro 21, 2020

Ronaldo Carneiro de Morais



Ronaldo Carneiro de Morais, médico, pesquisador de arqueologia, editor e escritor, autor de vários livros na área de história do Rio Antigo, pesquisador e um grande conhecedor do Parque Nacional da Tijuca, trabalhou no Centro Técnico de Arqueologia da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza por dez anos (F.B.C.N) (1980 a 1990), esta era chefiada pelo "Prof. Arqueólogo Carlos Manes Bandeira" e outros assistentes, como o "Prof. Egiptólogo Nilson Jose da Silva Souza" e o "Prof. Biólogo Sérgio Barboza Gonçalves", fez inúmeras pesquisas de campo, sendo ainda membro do conselho deliberativo até 1990. Trabalhou em dezenas de projetos de pesquisa e no restauro de peças, tendo trabalhado em mais de quarenta sítios arqueológicos diferentes.

Aficionado por fotografia organizou um acervo bastante representativo de imagens de várias regiões do Rio de Janeiro, fotografou desde a década de, diversos monumentos históricos do Rio de Janeiro. Fundou em 1984 junto com outros amigos a AEHG-RJ, Associação de Estudos Históricos e Geográficos do Rio de Janeiro. Esta tinha por objetivo levar o conhecimento que tinham sobre a geografia e história do Rio de Janeiro, a pessoas interessadas em conhecer mais profundamente o assunto.

Fez vários cursos de especialização em estudos históricos sobre o Rio Antigo, arqueologia e extensão em arqueologia. Detinha uma grande biblioteca em sua residência, onde cedia as mesmas para amigos que o procuravam em busca de informações sobre arqueologia, espeleologia, Rio Antigo, História do Brasil e História Geral da Humanidade. Nos últimos anos escreveu vários livros, alguns com o escritor André Luis Mansur mostrando os seus trabalhos de pesquisa sobre o Rio Antigo.

Em 2007, lança seu primeiro livro "Os Arquivos da Invasão - O Corsário Du Clerc e a Invasão do Rio de Janeiro em 1710".


“Li muitos livros que citam o tema, o mais completo, no entanto, é "Os Arquivos da Invasão", do pesquisador Ronaldo Morais, que foi a fundo na sua pesquisa sobre a incrível aventura do corsário francês.”
 - Palavras de André Luis Mansur, jornalista e escritor.

Outras informações relevantes:

Graças a suas fotos e seus livros, podemos hoje conhecer um pouco, pelo menos em imagens, do que ainda resta de construções do passado do Rio de Janeiro, vários dos imóveis que ele pesquisou e fotografou já foram demolidos. Seu livro sobre a invasão francesa nos narra com detalhes pouco conhecidos, a expedição do Corsário Du Clerc, no século XVIII. Seu livro sobre as Vítimas da Inquisição no Rio de Janeiro, nos trás os horrores de um período de intolerância religiosa. Não podemos deixar de falar sobre o livro do Tiradentes e sua relação com o Rio de Janeiro.

Um dos últimos trabalhos foi em 2015, quando fez uma viagem junto com Eduardo Lima um vizinho e o amigo arqueólogo Luis Alexandre Franco Gonçales ao Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, essa viagem ao parque acabou originando um livro sobre o mesmo.

Livros publicados:

2007 - Os Arquivos da Invasão - O Corsário Du Clerc e a Invasão do Rio de Janeiro em 1710.
2012 - Imagens do Rio Antigo Hoje - Os Bairros do Grande Méier (co-autor).
2013 - Fragmentos do Rio Antigo (co-autor).
2014 - Fragmentos do Rio Antigo - 2º edição (co-autor).
2014 - Vítimas da Inquisição no Rio de Janeiro.
2014 - A Invasão Francesa do Brasil: O corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba (co-autor).
2015 - A Invasão Francesa do Brasil: O corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba - 2º edição (co-autor).
2015 - Violê̂ncia no Rio Antigo: cárceres, punições e ocorrências diversas, 1503-1940 (co-autor).
2017 - Tiradentes Carioca: As Relações dos Inconfidentes Mineiros com o Rio de Janeiro - In Memoriam (co-autor).


Referências utilizadas:

CREMERJ. www.cremerj.org.br. Consultado em 29 de dezembro de 2019 "Os caçadores da cidade que não se quer ver perdida". www.ademi.org.br. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
Mansur, André Luis (16 de setembro de 2019). "Emendas e Sonetos: Da Vala ao Valão". Blog Emendas e Sonetos. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
Livro revela curiosidades históricas do Rio de Janeiro - Repórter Rio, consultado em 29 de dezembro de 2019.
Livros dos escritores Ronaldo Morais e André Luis Mansur, no Centro do Rio. 10 de julho de 2018. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
sfbarreto (15 de março de 2018). "Jornalista e escritor André Mansur lança obras literárias no Rio de Janeiro". BoaVontade.com. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
Citação no livro "Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos". [S.l.]: Clube de Autores (managed).
"Livro mostra como memória da região do Grande Méier não foi preservada". Extra Online. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
"Fragmentos do Rio antigo fotografados por médico". O Globo. 4 de maio de 2013. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
"Fonte: INEPAC". IHGI. Consultado em 28 de dezembro de 2019.
"Moradores de Campo Grande lançam livro que resgata, em textos e fotos, marcos do Rio de Janeiro". Extra Online. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
"Livro revela curiosidades históricas do Rio de Janeiro". EBC. 23 de abril de 2013. Consultado em 28 de dezembro de 2019.
lisiasmc (19 de março de 2014). "Expedição de Du Clerc ao Brasil é retratada em livro". BoaVontade.com. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
"André Luis Mansur Baptista" > www.facebook.com. Consultado em 29 de dezembro de 2019.
sfbarreto (15 de março de 2018). "Lançamento de obras literárias no Rio de Janeiro". BoaVontade.com. Consultado em 28 de dezembro de 2019.
"Livro revela relação do herói da Inconfidência com o Rio antigo". Veja Rio. Consultado em 28 de dezembro de 2019.
"Literatura no Corsário Carioca com André Luís Mansur - Sambrasil Turismo e Cultura". Consultado em 29 de dezembro de 2019.

Nome completo: Ronaldo Carneiro de Morais.
Nascimento: João Pessoa,  Paraíba - Morte: 2015 -Nacionalidade: brasileira.
Ocupação: médico, historiador, fotógrafo, escritor, editor.
Instituições em que atuou: Hospital Marechal Rondon, Centro Municipal de saúde Milton Fontes, F.B.C.N, Ibama.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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sábado, janeiro 18, 2020

Cantando, dançando e flertando nos chafarizes da Bahia oitocentista


Chafariz do Bonfim, instalado cerca de 1860.

Em matéria de O ALABAMA, é possível termos uma ideia do cotidiano dos chafarizes de Salvador no século XIX, um verdadeiro campo negro urbano, parafraseando Flávio Gomes, que forjou o termo ao se referir a localidade de Iguaçu no século XIX. Os chafarizes se mantinham como espaço de sociabilidade entre a população escrava, liberta e livre, que mesmo em momentos de trabalho árduo fazia desse local um ambiente de resistência e refúgio temporário das amarguras da escravidão. 

A BUSCA D’ÁGUA NOS CHAFARIZES

- Ora, não se dá coisa assim!... forte desaforo! Pois estas negrinhas não deixaram a casa ficar sem água?

Gritava raivosa D. Quitéria, indo ver os potes e achando-os vazios. Contudo, suas duas negras, há boas duas horas, foram ao chafariz, que é bem perto de casa. Que diabo fazem elas no chafariz, há tanto tempo.

A busca d’água nos chafarizes, para negras que vivem empregadas no serviço de casa, é uma felicidade, que elas apreciam em extremo, e por isso, quanto mais ali se demoram, ainda que em chegando em casa levem pelas ventas algum bofetão da senhora.

Os chafarizes são para as pretas cativas os rendez-vous de seus amores, o lugar onde desabafam as raivas dos senhores e senhoras; a sala de visita onde recebem as amigas, o escritório onde pagam suas dívidas de ciúmes e tratam em magna sociedade das ações, que veem praticar em casa. Negros e negras, de bons e maus senhores, ali se encontram, e grandes coisas se decidem, enquanto corre a água da bica com doce e suave murmúrio.

Não é pois raro ver muitas vezes, em um mesmo chafariz, uma negra que se derrete para o seu Adonis cor de carvão, e lhe dá desculpa de não ter vindo na véspera ao chafariz, porque foi com sua senhora passar o dia numa casa; outra que briga, profere palavras e rasga a companheira, porque lhe empurrou o barril para fora da bica; uma que enche o pote chorando e rogando pragas ao senhor, que lhe deu uma esfrega de respeito; outra, finalmente, que, em companhia das amigas, como se ninguém a esperasse em casa, como se ali só tivesse vindo para palestrar, relata os namoros da yayasinha, as cabeleiras de seu senhor e as fugidas que faz o sinhozinho de casa, à noite, sem que ninguém saiba, para ir dormir fora, julgando todos de casa dormir ele e seu quarto bem sossegado. São cenas estas todas próprias de um chafariz, e que fazem, por consequência, com que não voltem as negrinhas de D. Quitéria.

Chafariz do Largo do Accioli, instalado cerca de 1858.

Essas negrinhas tinham ido ao Terreiro, e lá estavam demoradas, querendo dar a sua senhora os privilégios de papagaio, por isso que a deixaram se água em casa.

- Não sabe V., tia Violante, dizia uma delas no chafariz, o que aconteceu em casa?
- Que foi? 
- Sinhazinha tanto andou, até que achou.
- Que foi que ela achou?
- Ora, gentes, V. não sabe o que foi não? Foi na chuva e molhou-se.
- Está bom! Nunca ninguém me disse isto!
- Pois bem! Achou, e meu senhor ainda não sabe de nada. Eu ouvi minha senhora estar dizendo que sinhazinha há de casar. Si yoyô Cazuza não quiser, que ela então conta a meu senhor.
- Que está me dizendo! Germana, V. tome sentido. Olhe, negócio de branco é negócio fino. Toma sentido, negrinha.
- Deixe estar, tia Violante, eu que me importa? Coisa de branco é coisa de branco.
- Tia Nicacia, adeus, dizia a outra, minha senhora está bem zangada. Vm. não leva roupa nem nada. Meu senhor já brigou.
- Negrinha, vá embora, V. não sabe que está dizendo.
Está bom, que me importa!

E ambas, depois de haverem pauteado bem, lá vem com o pote na cabeça, pelas Portas do Carmo, bem a seu gosto, e no caminho se derretendo com os tios, que foram ao chafariz também encherem seus barris, e antes de chegarem à casa ainda fazem meia dúzia de paradas e contam meia dúzia de histórias, até que chegam e se desculpam dizendo que havia muita gente no chafariz; que as bicas estavam ocupadas e que os galés tomaram conta delas; e outras carcavias semelhantes, que uma pobre dona de casa não tem remédio se não aturar.

A busca d’água nos chafarizes é uma coisa agradável para as negrinhas de casa, e dá não poucos cuidados a certos donos de casa, que parecem não dormirem para fazer sair os negros para a fonte, logo as quatro horas da madrugada, o que para os negros é bem duro, porque faz frio; e dizia a velha Monica, velha que podia ser citada como um compendio de ditados, que, se os pretos soubessem que no céu fazia frio, nenhum queria ir pra lá.

É raro também, encontrar uma negra que indo ao chafariz não vá cantando. Parece que buscam nas cantigas de seu país, se não africanas, alívio para as fadigas do trabalho, pois é de supor que sintam este carregar de água todos os dias para os dois e três banhos, que toma sua senhora e a lavagem da roupa de casa. Quem morar em caminho de chafariz ouvirá muita vez, estragadas, estropiadas, e horrivelmente desfiguradas, as belas e sentimentais modinhas, postas na boca das crioulas do país. Escutando-as a sinhá moça, quando as canta no seu piano, dir-se-ia, que buscam o caminho do chafariz, onde ao menos são livres para ensaiá-las e cantá-las, conforme mais ou menos lhes ficou em memória.

Há alguém que muito aprecia a busca d’água, ou necessidade que tem os senhores de beber e lavarem-se, e este alguém, é a turba magna de capadócios, que se ajuntam nas fontes para fazer as suas conquistas. Esses heróis da boa vida, da vida sem cuidados e para que tudo está bem, vão ao chafariz, para se divertirem, como vai um moço de educação ao teatro para ver a sua namora, ou como passa um amável pela rua de seu bem, para rasgar-lhe uma cortejo. No chafariz pauteiam, dão risadas e fazem muita coisa mais que fica em silêncio.
- Oh! O buscar água no chafariz é uma felicidade para as negrinhas de D. Quitéria!

Fonte: O ALABAMA – 12 de setembro de 1868.



Originalmente postado na página uranohistoria.blogspot.com
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sexta-feira, janeiro 17, 2020

Historiando meu Campo Grande



O olhar do poeta vagueia pelo vasto e imenso campo…
Campo Grande…O sol resplandece sob a Serra do Mendanha
O poeta enriquece a memória à sanha na manha da manhã.
Entre versos. Trinta versos, transversos, tantos séculos de história,
De honrosas lembranças em torno da Igreja de Nossa Senhora do Desterro.
Capitanias, Jesuítas, Sesmarias, freguesias, cidadanias.

Campo Grande dos baluartes que hoje dão nome a praças e ruas:
Coronel Agostinho, Cesário de Melo, Barcelos Domingos – Pioneiro morador.
Campo Grande dos cafezais aos laranjais. Do “bordel” mato do Botelho. Do comércio ao progresso: Manoéis, Joaquins, Chaias, Camargo, Del Cima, Wirtz e afins. Dos mascates, das relojoarias, tamancarias e sapatarias; Ao Pintor Rural…

Seus clubes, blocos e coretos em memoráveis carnavais: 10 de Maio, Luso Brasileiro, Aliados, Campo Grande Atlético Clube, Sereno, Sinfonia dos Tamancos, Filhos da Pauta, Curva do Matoso, Cabuçu, Império do Tinguí…

E os bondes? Iam e vinham: Rio da Prata, Guaratiba, Monteiro,
Esquina do pecado, Pau Ferro, Língua da Sogra.

Personalidades, políticos e figuras: Freire Alemão, Moacir S. Bastos, Helton Veloso, Prof. Gomes, Professora Clara Torres, Boaventura, Porto Filho, Miécimo da Silva, Herculano Carneiro, Alcir Pimenta, Capello Barroso, Caldeira de Alvarenga, Ari de Almeida Costa. Do Pardal, Simões, Ariosto, Melhoral: “Já morreu.” Silbene: “Não é melhor nem pior, é diferente.”

Símbolo do galo. Elza Pinho Osborne. Celeiro de músicos, cantores, poetas, atores: Ney Ayala, da Rádio Perereca, Regina Pierini, do Beco dos Crioulos, do Café Lavrador, Oiti, 26 de Abril, Diana, ICC, Taça de Prata, Bar 51, Dineyar Valente Plaza, Grupo Teatral Moa, Teatro Rural dos Estudantes, Silverys Boys, Teatro Artur Azevedo, Cedicun, Maestro Rubens, Adelino Moreira, Marcos Damasceno, Circuito Literário Conversa Com verso…

Desconverso… O tempo acabando, eu aqui suando.

Campo Grande… Um mundo! Meu mundo!
Como falar de ti em apenas um átimo de segundo?

Autoria: Silvia Regina Mesquita da Silva

Originariamente postado na página riodecoracãotour

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terça-feira, janeiro 14, 2020

A Revolta escrava de Manoel Kongo e sua Seita Antoniana



Uma história ainda mal contada de uma das maiores rebeliões escravas do Brasil.

A História

Com o esgotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. O posterior esplendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.

O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.

O Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais essencial do que o café; A força de trabalho do escravo africano.

Ambos negros, escravo e café processado, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas estas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ‘barões do café’, nababesca e prepotente, assentada numa estrutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e escravos.

Sequestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, dos portos próximos a Luanda e Benguela, para serem vendidos no Mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento essencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.

A Trama

Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda Freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravos e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado pelos escravos.

O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto? Teria sido a sua morte, pelo capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?

De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata de Santa Catarina rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Congo, ferreiro da Fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier. 

A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane (moçambicano) Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, embora não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem constando no rol dos presos no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

A despeito destas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus escravos retornaram, espontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram. A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes. 

O peso total destas custas processuais acabou recaindo todo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos escravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.

De um total de cerca de trezentos escravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega). Destes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde estavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).

Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados. A maioria é condenada, com uma única exceção: o escravo Adão Benguela que, apesar de estar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é estranhamente absolvido.

O suposto ‘Rei’ Manoel Congo’, é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.

Os Antecedentes

A observação acurada – e crítica – de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos escravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral. 

Formam também a base de dados da pesquisa, textos esparsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído pelo autor de uma entrevista por ele realizada em 1973, com uma ex-escrava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos pelos autos.

Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região nesta época de grande efervescência social.

Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, escrita por Ignacio Raposo, um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices escravos, como mão de obra especializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até – suprema ousadia – iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos escravos-operários especializados, formados pela SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.

Ferreiros e marceneiros eram as principais especialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI. Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus escravos mais hábeis e inteligentes.

A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro foi, ainda nesta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 10 (segundo alguns relatos, talvez até um pouco antes disto), uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundo e Ovimbundo, grupos étnicos angolanos que, em grande maioria, contribuíram com escravos para as plantações de café do Vale do Paraíba do Sul.

Sabe-se pelas mesmas fontes (Ignacio Raposo) que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros escravos e libertos, com uma elaborada estrutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo. Esta ‘insidiosa’ organização, segundo foi descrito por esta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os escravos da área.

Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada. Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda, Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão traduzida como "xamanismo" ou " curanderismo" a qual, quando acrescida do prefixo “Ki” – Kimbanda – significa o mesmo que "Médico" no idioma de origem, o kimbundo, podendo se traduzir Embanda como “medicina” nesse contexto de seita ou sociedade secreta, nesse caso formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por escravos ferreiros e marceneiros, chamados pelos outros escravos de ‘Tata” (ou ‘pai’ ) Korongo.

Também, curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundo e Mbundo, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida pelos escravos de Vassouras. 

A seita em questão, devotada à Santo Antônio, evocava, fortemente possível inspiração na remota seita existente no Reino do Kongo na virada do século 17 para o 18, criada e liderada por uma jovem sacerdotisa chamada Kimpa Nvita (ou Vita), morta em 1702 numa fogueira da Inquisição. Importante frisar que a seita de Kimpa Nvita pregava uma guerra de libertação do reino do Kongo contra os colonialistas portugueses.

Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de estranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do escravismo brasileiro, estabelecidas entre proprietários e escravos, escravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si. Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo.

Foto de Marc Ferrez numa fazenda do Vale do Paraíba do Sul - 1885.

Pesquisa e texto de Antonio José Do Espirito Santo.
https://www.facebook.com/spiritosolto/posts/10217906583908639

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segunda-feira, janeiro 13, 2020

A presença protestante no Brasil e as igrejas em Campo Grande no Rio de Janeiro



Primeira Igreja Batista de Campo Grande. A história da igreja começa no bairro de Santa Cruz em 1900. Em 1920, a igreja transferiu-se para o bairro de Campo Grande. Em 1922 foi comprada a propriedade da Rua Ferreira Borges.

Os protestantes aportaram aqui no século XVI. Aceitos no país definitivamente apenas na época de D.João VI, os cristãos reformados chegaram em massa ao Brasil no século XIX. O protestantismo se manifestou de diversas formas até o século XX, quando surgiram os movimentos pentecostais.

Os que primeiro chegaram e estabeleceram o protestantismo em terras brasileiras de modo definitivo são chamados de evangélicos “históricos” (anglicanos,1808) e (luteranos,1824). Conhecidos como “protestantes de imigração”.

Distintos destes são os que chegaram logo depois,chamados,por isso,de “protestantes de missão”. Representavam diferentes denominações evangélicas: congregacionais (1855), presbiterianos (1859), metodistas (1867), batistas (1882), episcopais (1890), luteranos (1890), e metodistas livres (1936). Outros grupos,por terem experimentado cisões locais ao longo do século XX, fizeram surgir igrejas nacionais, como a Presbiteriana Independente (1903), a Batista Bíblica (1968) e a Presbiteriana Unida (1978), entre outras.


Outros grupos, por terem experimentado cisões locais ao longo do século XX, fizeram surgir igrejas nacionais, como a Presbiteriana Independente (1903), a Batista Bíblica (1968) e a Presbiteriana Unida (1978), entre outras.

Os evangélicos pentecostais chegaram no início do século XX. Em 1910, o italiano Luigi Francescon organizou a Congregação Cristã,em São Paulo,entre os imigrantes italianos do Brás. Em 1911, os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg fundaram a Assembléia de Deus, no Pará, após provocarem uma divisão na Igreja Batista de Belém.


Nas décadas de 1950 e 1960,o pentecostalismo ganhou um novo fôlego,com a chegada de igrejas como a Igreja do Evangelho Quadrangular (1953) e a Igreja do Nazareno (1958). No mesmo período surgiram igrejas nacionais, como a Igreja do Brasil Para Cristo (1956), a Igreja Deus é Amor (1962) e a Casa da Bênção (1964).

Ventos pentecostais também sopraram sobre as igrejas históricas, dando origem a cismas em todas as denominações. Esta virada ficou conhecida como Movimento de Renovação Espiritual. Entre as mais conhecidas estão a Convenção Batista Nacional (1965), a Congregação Independente (1965), a Metodista Wesleyana (1967), a Cristã Evangélica em Renovação Espiritual (1967) e a Presbiteriana Renovada (1975).

A partir da segunda metade dos anos 70, surgem novas igrejas pentecostais. A representante exemplar do chamado neopentecostalismo, que emerge no final da década de 1970 e se firma na década de 1990, é a Igreja Universal do Reino de Deus. Fundada em 1977 inaugurou um novo modelo eclesial, se comparada às outras igrejas pentecostais.


Fonte do texto: Flávio Conrado, antropólogo, atua na área de movimentos populares do Instituto de Estudos da Religião (ISER), tem desenvolvido pesquisas na área de presença protestante na vida política e cultural brasileira.

Revista Nossa História Ano 4/ nº 38.

Imagens de Deca Serejo.

Originariamente postado na página riodecoracãotour

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