sábado, 21 de setembro de 2019

Ontem eu era o Rio Irajá



Eu já fui navegável, fornecia peixe para meus moradores, no meu final existia um pequeno porto onde jesuítas matavam os bois e exportavam a carne.

Pelas minhas águas, chegava-se a zonas inóspitas do Rio, meus peixes eram deliciosos, minha  transparência invejável.

Eu divido dois bairros, corto outros, outros irmãos me encontram pelo caminho para juntos nos misturarmos a grande mãe, a nossa eterna Baía de Guanabara.

Eu era agressivo, em cheia ou em chuva, minhas águas invadiam o solo ontem vazio, hoje cheio, levando tudo que tinha ao meu redor, as mesmas águas que trazem vida, hoje podem trazer tragédias se mexerem comigo!

Durante 500, 800 anos ou mais, eu era imponente, meus irmãos maiores como o Faria Timbó e o Merity tínhamos orgulho de nossa força, mas veio o século XX, veio o pregresso, veio a Belle Époque, veio o descaso. Novos moradores habitariam minhas margens, no começo a relação foi boa, estremecia as vezes com a chuva, mas eu ajudei demais a população local com peixes e águas navegáveis.

Mas o governo não criou infraestrutura para esse povo e seus dejetos foram sendo jogados sobre mim, meus pequenos irmãos foram sendo contaminados aos poucos. Eu, mesmo com meu poder e magnitude, nada pude fazer contra o poder devastador do homem, meus pequenos animais foram me abandonando, minhas águas ficaram escuras e fétidas. Num determinado momento eu me entreguei, não quis mais lutar, perdi a vontade de viver. Hoje respiro por aparelhos, mas estou quase parando e nenhuma massagem cardíaca ou choque elétrico fará eu voltar a minha gloria passada, apenas a união governo - população.

Ontem eu era o Rio Irajá, hoje não passo de um valão.

Texto e foto de Paulo Jorge


Na Rua Itabira, divisa entre os bairros de Cordovil e Brás de Pina. Em frente a passagem da linha do trem.

Originalmente postado em Conheça a História do Rio de Janeiro
 
Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

2 comentários:

Manoel Cunha dos Santos disse...

Sempre é muito bom saber a história dos nossos bairros.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Manoel Cunha dos Santos
Que bom saber que você gostou.
Volte sempre!

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