domingo, 16 de junho de 2019

Revisitando anúncios de escravos do século XIX

Bárbara Lopes

Os 300 anos de horror e injustiça publicados em formato de anúncios de compra e venda de escravos nos jornais brasileiros.

Anúncio publicado no Correio Paulistano em 5 de julho de 1862. Crédito: reprodução

"O que a escravidão deixou de legado pra gente foi o racismo, além de várias histórias tristes e violentas”, afirma Lívia Monteiro, doutora em história e educadora na Escola de Formação de Professores do Centro Universitário Celso Lisboa, no Rio de Janeiro. Para ela, assim como a Alemanha lida com seu passado nazista, o Brasil precisa aprender a conviver com a terrível memória dos tempos em que aqui seres humanos eram tratados como mercadoria. "Contar essa história faz toda diferença pra que o racismo acabe", diz.

Foram 300 anos de horror e injustiça que nem sempre são retratados pelos livros de história. Mas existem outros registros. A VICE levantou diversos anúncios publicados em jornais do século 19, como um datado de 1857, vendendo “um bonito mulato, alfaiate e bom copeiro de 21 anos”.

Anúncio publicado no Correio Paulistano em 12 de setembro de 1857. Crédito: reprodução

Era julho de 1862 quando Antônio Ribas, proprietário de uma chácara na região da Sé, centro de São Paulo, anunciou seus “bonitos escravos à venda” no jornal Correio Paulistano. “Vende-se a preço razoável”, especifica o comunicado (no topo da matéria), detalhando que havia “moleques” e “duas bonitas mocambas prendadas”.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 12 de novembro de 1842. Crédito: reprodução

Escravos domésticos, geralmente, custavam mais caro, já que precisavam ter uma boa conduta dentro de casa. Muitos deles eram até mesmo alugados.

“Se você tinha um escravo que era alfaiate, você alugava ele pra outros senhores e outras pessoas. Isso era uma distinção dentro dessa sociedade hierárquica. Era como se você pudesse ostentar porque seu escravo era alfaiate”, pontua a historiadora Lívia.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 15 de novembro de 1842. Crédito: reprodução

Crianças e adolescentes também eram explorados. Um anúncio publicado no Diário de Pernambuco em julho de 1866 traz uma lista com os termos “moleca fula [como era chamado um tom de pele negra à época], bonita figura de 12 anos” e “um moleque idem de 9 anos”. Tratava-se de uma família se retirando do “império”, provavelmente, mudando-se para outro país.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em julho de 1866. Crédito: reprodução

Um dos primeiros estudiosos a debater o assunto foi o sociólogo Gilberto Freyre, que em 1963 lançou o livro Os escravos nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. A obra foi resultado de anos de pesquisa e teve como um dos focos os inúmeros anúncios de senhores que buscavam seus escravos fugitivos. Apesar da importância de tal estudo, Freyre foi diversas vezes acusado de romantizar a escravidão, principalmente quando mencionou que haveria um “lado benigno” de a mesma ter acontecido no Brasil.

Anúncio publicado no Correio Paulistano em 1º de novembro de 1863. Crédito: reprodução

No século 19, especificamente, as fugas se intensificam, já que o processo abolicionista começa a se tornar uma constante. “A escravidão sempre foi um grande problema, mas se torna uma questão política-partidária com os grupos abolicionistas”, expõe a historiadora.

Anúncio publicado no Correio Paulistano em 27 de dezembro de 1867. Crédito: reprodução
 
Um anúncio publicado em 1867 no Correio Paulistano procurava pelas escravas Eulália – “crioula da Bahia, bem preta, estatura regular, cara redonda, cabelos cortados, com um filho de nome Bento, de dois anos de idade, preto fula, com sarnas pela cabeça” – e Emília. Quem capturasse as duas, seria gratificado. Os jornais eram a principal forma de comunicação da época.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 12 de novembro de 1842. Crédito: reprodução

Todo ex-escravo precisava andar com sua carta de alforria no bolso, senão, qualquer pessoa poderia considerá-lo escravo novamente – exclusivamente pelo fato de ser negro. “Aí, sim, começa a se criar o que hoje consideramos racismo. Porque essa é uma sociedade excludente. No Brasil, cor e escravidão caminham juntas”, menciona Lívia. "A escravidão é um tema urgente no Brasil. E a sociedade escravista deixa como legado uma sociedade racista."

Originalmente postado em:
https://www.vice.com/pt_br/article/8x53y3/revisitando-anuncios-de-escravos-do-seculo-19

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

9 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

A escravidão foi de fato hedionda. Além dos anúncios que mostram como os cativos eram tratados como mercadorias, vários estudos descrevem horrores ainda maiores a que eram submetidos com o emprego de violência. Além do uso de escravos para fins de prostituição, havia o abuso infantil, castrações no final da infância dos meninos subdesenvolvidos, uso de escravas para satisfação sexual dos senhores (e que as tornava vítimas de maus tratos praticados pela esposa juntamente com seus filhos), a obrigação dos escravos a fazerem orgias com múltiplos pares e terem relações sexuais na frente dos senhores, dentre outras atrocidades mais.

Em março de 2018, quando estive visitando a Fazenda dos Coqueiros, em Bananal (SP), vi ali instrumentos de tortura, histórias de escravos que eram treinados pelos senhores para cometer furtos que depois eram apropriados pelos donos, e, pasme, usavam-nos também para lamber as feridas das pessoas porque achavam que a saliva teria propriedades curativas. Tal passeio, minha esposa registrou no blogue dela como pode ser conferido através do link a seguir:

https://cantinhodanubia.wordpress.com/2018/03/10/centesimo-vigesimo-setimo-dia/

Unknown disse...

Vergonhosa, arrogante e presunçosa a milenar postura humana de inferiorizar outras etnias. A ponto de querer "Precificar" outros pela "Inteligência e/ou aptidões". A mente humana consegue encarar como natural atrocidades assustadoras...

Anônimo disse...

Vergonhosa, arrogante e presunçosa a milenar postura humana de inferiorizar outras etnias. A ponto de querer "Precificar" outros pela "Inteligência e/ou aptidões". A mente humana consegue encarar como natural atrocidades assustadoras...

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Rodrigo Phanardzis
O pior é saber que no século 21 ainda continuam a fazer tráfico de humanos. Utilizando mulheres e crianças, mostrando que ainda estamos no passado. Só que agora estamos sendo escravizados pela tecnologia capitalista moderna e voraz.
Um forte abraço para o amigo!

Prof. Adinalzir disse...

Prezados Unknown e Anônimo
Infelizmente a prática do trabalho escravo ainda é realidade no Brasil. Vivemos essa situação desde o começo da nossa história.

Jonathan Pôrto disse...

A escravidão é tão poderosa que fomentou um golpe de Estado contra o Império do Brasil assim que este abiu a escravidão!! Os escravocratas criaram essa República de Favelas que desgraçam o povo Brasileiro há 130 anos !!Pela Restauração do Império ďo Brasil contra a República dos Escravocratas !!!

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Jonathan Pôrto
Agradeço pela visita e comentário.
Volte sempre que desejar!

Jane Darckê disse...

Falar o que penso, seria repetir o que Rodrigo Phanardzis brilhantemente escreveu. Minha avó tinha 7 anos de idade quando chegou ao Brasil em 1891, vinda do porto de Gênova, e foi direto para uma fazenda de café em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Ela, a irmã de 9 anos e minha bisavó. Elas viram, horrorizadas, a senzala, os cochos para alimentação, os ferros e o temido tronco. Ouviram histórias horrendas dos poucos negros que permaneceram na fazenda, histórias essas que Phanardzis tão bem resumiu. Alguns anos depois, minha bisavó fugiu da dita fazenda com as duas meninas, foram para a Capital, e então, perceberam que essa prática era comum em todo país, e haviam outras formas ainda mais cruéis de tratamento, lugares onde uma rês era mais valiosa que um escravo. Na linguagem de hoje, escravos eram meras "commodities", tão valiosas como tal, mas jamais comparáveis a seres humanos.
Curiosamente, ela se casou com um húngaro racista ao extremo.
- Preto não é gente. É macaco que fala. E olhe lá se macaco não é mais inteligente e leal que um preto.
'Deusulivre' de um negro lhe dirigir a palavra na rua. Levava bengaladas doloridas e ouvia impropérios, sem o menor pudor ou punição. Ao contrário, havia até quem o apoiasse.
E essa mentalidade mesquinha e criminosa se estende até hoje, lamentavelmente, como bem lembrou o Professor Adinalzir, e para falar a verdade, vejo que se não fossem as Leis, a escravidão ainda seria algo comum e desejável, não só no Brasil até hoje.
PRECISAMOS ESTAR ATENTOS E LUTAR CONTRA ESSA ABERRAÇÃO CONSTANTEMENTE. SEM TRÉGUA. NÃO AO RACISMO, À ESCRAVIDÃO. VEEMENTEMENTE.

Prof. Adinalzir disse...

Prezada Jane Darckê
Sua história me fez lembrar do meu pai que era negro. Sempre zeloso com os filhos, mas que não via com bons olhos minhas irmãs namorando com rapazes brancos. Tanto que muitas vezes ele era repreendido por minha própria mãe, que era branca. Assisti muitas vezes ele dizer: "Que preto é tudo igual". Só depois de muitos anos fui percebendo esse tom racista existente no meu próprio pai. Acredito que por ser um homem de poucas letras, ele desconhecia sua própria história. Por isso é sempre muito importante levantar a bandeira da luta contra o racismo.

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