13.9.18

Dos engenhos aos fabricantes de carroças

Por André Luís Mansur


Um documento dos mais importantes do velho oeste carioca é a relação dos engenhos da Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, feita em 1777 pelo Mestre de Campo (alta patente militar da época) Ignácio de Andrade Souto Maior, que tinha uma propriedade na região do Marapicu, entre o atual bairro de Campo Grande e o município de Nova Iguaçu. A relação foi pedida pelo Vice-Rei Luiz Almeida Portugal, o Marquês de Lavradio, e enumera os principais engenhos da região:

- Engenho do Bangu, do Coronel Gregório de Moraes.

- do Viegas, de Manuel Freire Ribeiro.

- do Juari, de Vitorino Rodrigues Rosas.

- do Cabuçu, de Úrsula Martins.

- de Inhoaíba, do Capitão Antônio Nunes.

- do Guandu, de Francisco da Silva Sena.

- do Mendanha, do Capitão Francisco Caetano Braga.

- das Capoeiras, de Anna Maria de Jesus.

- do Lameirão, de Mariana Nunes de Souza e herdeiros.

- dos Coqueiros, de José Antunes Suzano.

Como podemos perceber, todos os nomes dos engenhos relacionados pelo Mestre de Campo há mais de 200 anos permanecem até hoje na zona oeste carioca, seja em nomes de bairros, ruas, praças, rios, escolas etc.

Mais de cem anos depois deste relatório, outra descrição da freguesia mostra também, de forma até mais detalhada, a configuração da região dentro da cidade do Rio de Janeiro. Foi publicada em 1883 pelo Almanaque Laemmert, uma das mais importantes publicações da época.

É um interessante mergulho no passado da região, que fazia parte das oito freguesias suburbanas da cidade do Rio de Janeiro, capital do império e chamada de Município Neutro. Eram elas: Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, São Salvador do Mundo de Guaratiba, Nossa Senhora da Ajuda da Ilha do Governador, São Tiago de Inhaúma, Nossa Senhora do Loreto de Jacarepaguá, Senhor Bom Jesus do Monte da Ilha de Paquetá, Curato de Santa Cruz e Nossa Senhora da Apresentação de Irajá.

As freguesias urbanas eram 13: Candelária, Engenho Novo, Espírito Santo, Gávea, Glória, Sacramento, Santana, Santo Antônio dos Pobres, Santa Rita, São Cristóvão, São Francisco Xavier do Engenho Velho, São João Batista da Lagoa e São José.

Como a escravidão só seria abolida cinco anos mais tarde, a contagem da população era separada entre população livre e escrava. A freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, que é a que nos interessa aqui, tinha 6931 pessoas livres e 2826 escravos. Além da igreja-matriz, existiam as capelas de Nossa Senhora da Conceição, em Realengo (que só iria se tornar independente de Campo Grande em 1926); Nossa Senhora da Lapa, no Viegas; Nossa Senhora do Loreto, no Lameirão; Santo Antônio, na fazenda do Capitão Luis Fernandes Barata, e a de Santana, nas Capoeiras.

Havia a relação de chegadas e partidas das maletas do Correio, que chegavam da Corte às nove horas da manhã e eram enviadas para Guaratiba às nove e meia. Os nomes dos agentes do Correio também eram mencionados, como o de Alfredo Alves Castilho, do Mendanha. Entre os juízes de paz, temos o nome do major Luiz Antunes Suzano, da família que era dona das Fazendas dos Coqueiros, citada no relatório do Marquês de Lavradio, cem anos antes.

No campo da educação, o relatório apresenta nomes de professores públicos e inspetores de distrito, e no terreno da Igreja Católica, temos o nome do padre Belisário dos Santos. Um dado interessante é o dos fabricantes de carroças na região, veículo importantíssimo na era pré-automóvel.

Na listas dos engenhos de rapadura, temos mais um Suzano, Albino Pereira, e entre os engenhos de aguardentes, figuram diversos fazendeiros, como Antônio Alvares Velloso, no Cabuçu, José Clemente Marques, em Sete Riachos, e Leonardo de Moraes e Souza, no Mendanha.

A relação enumera duas hospedarias, uma na Rua da Estação (atual Rua Augusto Vasconcelos), de Antônio Luiz da Silva Júnior, e outra em Realengo, de Luiz Bastos Guimarães. Médicos também são citados três, um em Inhoaíba e os outros dois em Santíssimo e no Rio da Prata. O número maior de citações é o de comerciantes. São dezenas, como Francisco Pereira da Costa, na Água Branca, José Antônio Pimental, em Inhoaíba, e José Ribeiro Guimarães, no Lameirão Pequeno. Temos ainda os nomes de donos de padaria e de farmácias, que na verdade eram boticas. A lista, é claro, não engloba tudo, dá apenas uma pequena amostra de como era a vida, principalmente econômica, nesta região ainda completamente rural.

André Luís Mansur é escritor e Jornalista.

Mapa- www.researchgate.net
Pesquisa de imagem- Guaraci Rosa
Originariamente postado na página do Facebook Santa Paciência

Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

6 comentários:

José Eduardo disse...

Parabéns! O texto da uma boa idéia da região e como vários nomes foram preservados, passa-se a compreender melhor a história da região.

Jonathan Pôrto disse...

As CRE's poderiam coordenar um projeto cultural nas Escolas Públicas e Privadas afim de Esclarecer a população dos respectivos bairros ! Até o momento só temos iniciativas voluntária pro bono e quase não tem Patrocínio de governos ou de Empresas !!

Prof. Adinalzir disse...

Prezado José Eduardo
Fico muito grato pela sua visita e comentário muito esclarecedor.
Grande abraço!

Prof. Adinalzir disse...

Meu caro Jonathan Pôrto
A sugestão é excelente. O maior problema é convencer esses governos e empresas. Infelizmente essa é a nossa triste realidade.
Abraço e volte sempre!

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Caro Prof. Adinalzir,

Bem interessante o relato sobre uma Zona Oeste predominantemente rural no passado, algo que ainda persistiu por décadas na nossa República.

Sendo o Rio de Janeiro um Município bem extenso, creio que muita coisa fugisse ao controle do governo no tempos em que era a capital do Império, de modo que os latifundiários realmente mandavam nas Freguesias. Estas, embora tivessem um pároco, o mesmo dificilmente iria ter mais influência do que um grande fazendeiro.

Acredito que muitas dessas terras ocupadas hoje viraram cidades, condomínios e até reservas ambientais, pois creio que poucas áreas fossem ambientalmente preservadas diante dos avanços das áreas agrícolas.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Rodrigo Phanardzis

Áureos tempos de uma Zona Oeste triste e esquecida. Com muita história a ser desvendada no meio do crescimento desordenado em que ela se encontra. Realmente isso é verdade.
Ter seu comentário por aqui é sempre muito bom.
Volte sempre que puder.

O passado do Brasil já tem um preço!

Após a perda inexorável do Palácio da Quinta, vemos agora a venda dos objetos do Palácio e da Família Imperial. Sem palavras !!! ......