30.4.18

Trilhos da Saudade - Por André Mansur


Bonde próximo da estação ferroviária de Campo Grande, setembro de 1963. Foto Earl Clark

A última viagem do bonde de Campo Grande, no fatídico 30 de outubro de 1967, foi registrada em foto por Oswaldo Machado, profundo conhecedor da história da região e que sempre morou no bairro. Naquele dia, um sábado, lembra bem Oswaldo, ele bebia no tradicional bar do Almir Charuteiro, na Estrada do Monteiro, quando circulou a informação de que iria passar por ali o último bonde, pois, embora a linha que ainda circulasse fosse a do Rio da Prata, o bonde seria recolhido para a citada oficina, na Estrada do Monteiro. Oswaldo, então, reuniu os frequentadores do bar, botou o carro na frente da linha e sacou a máquina fotográfica. Quando o bonde chegou e começou a buzinar insistentemente, Oswaldo e os demais participantes da aventura explicaram a situação. Logo, todos desceram do bonde, passageiros e funcionários, beberam umas e outras no bar e posaram para uma animada foto, símbolo de um período que deixou saudades em muita gente, e que permanece, obviamente, emoldurada na parede do Chopp da Villa.

O Guia Rex do Rio de Janeiro de 1949 traz os percursos das linhas de bonde de Campo Grande:

– MONTEIRO – Estação de Campo Grande, Rua Ferreira Borges, Rua Coronel Agostinho, Avenida Cesário de Melo e Estrada do Monteiro.

– SANTA CLARA – Estação de Campo Grande, Rua Ferreira Borges, Rua Coronel Agostinho, Avenida Cesário de Melo, Estrada do Monteiro e Estrada do Magarça.

– RIO DA PRATA – Estação de Campo Grande, Rua Ferreira Borges, Rua Aurélio de Figueiredo, Estrada do Cabuçu e Praça Mário Valadares (atual Praça Elza Pinho Osborne).

– PEDRA DE GUARATIBA – Estação de Campo Grande, Rua Ferreira Borges, Rua Coronel Agostinho, Avenida Cesário de Melo, Estrada da Pedra, Rua Belchior da Fonseca e Praça Raul Barroso.

Mapa do trajeto de bondes de Sepetiba e Campo Grande.
Fonte-http://www.tramz.com/ttob4/114.htm

Há muitas outras histórias curiosas e agradáveis ouvidas por quem cansou de pegar o bonde nessa região. Os veículos geralmente trafegavam sobre apenas um trilho e os que vinham em sentido contrário precisavam esperar a vez para passar no desvio, o que alongava muito o tempo das viagens. Algumas vezes, descarrilavam e os passageiros precisavam descer para colocar o veículo novamente nos trilhos. Havia também o bonde que transportava os defuntos até o cemitério. O casal Celso e Josefina Soares lembra com precisão desses tempos, quando o velório ainda era feito em casa, uma verdadeira festa, com comida e bebida. Josefina diz que quando alguém morria, a notícia corria rápido e todos se preparavam para a ocasião. Após o velório, o caixão era levado de bonde até o cemitério da Ilha de Guaratiba.

Eram outros tempos, mais calmos, em que as pessoas ainda se cumprimentavam na rua. Ninguém tinha tanta pressa para chegar a nenhum lugar e a paisagem era belíssima, com muito verde e poucos carros e construções, como se pode verificar num raríssimo vídeo sobre os bondes na América do Sul, produzido pela companhia inglesa que os fabricava e que dedica cerca de quinze minutos aos bondes de Campo Grande. É lógico que Ernesto possui uma cópia desse documentário e o exibe de vez em quando no bar.

A Rua Coronel Agostinho, hoje a principal do centro do bairro, onde existe um “calçadão” que reúne várias lojas, era o caminho do bonde que vinha da Avenida Cesário de Melo e virava a esquina em frente à tradicional Sorveteria Campo Grande, que tinha sabores variadíssimos. Ao lado, paralela a esta, fica a Rua Augusto Vasconcelos, com nome de senador e também bastante tradicional, com algumas casas bem antigas e um dos bares mais tradicionais do bairro, o Bar do Amândio, um dos poucos que ainda permanece de portas abertas no centro. O comércio da região ainda seguia a forte influência dos mascates, principalmente turcos e libaneses, que hoje formam uma influente comunidade, com reuniões e festas periódicas para manter viva a tradição.

A última viagem de bonde em Campo Grande não foi a última da cidade e, sim, a da linha Usina – Alto da Boa Vista, na Zona Norte, em 21 de dezembro de 1967, com exceção, é claro, dos bondes de Santa Teresa. Numa época em que se fala tanto em aquecimento global e efeito estufa, os bondes, que não poluíam o ar, já eram um transporte “limpo” há quase um século, como bem ressaltou a imortal Raquel de Queiroz.

André Mansur é Jornalista, escritor e um grande colaborador da Página Santa Paciência- Escreve às segundas-feiras.

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