A Máquina Selvagem é o sistema. É Wall Street e o complexo militar-industrial. É o lobby das armas e o lobby do petróleo. É a engrenagem que produz presidentes como se produz mercadorias — com branding, com packaging, com garantia de satisfação ou seu voto de volta. E desta máquina, como uma aberração botânica, brota a figura do potentado: singular o suficiente para parecer exceção, sistêmico o suficiente para ser produto.
O filósofo Gilles Deleuze diria que a máquina desejante nunca para de produzir. Ela produz capitalismo, produz guerra, produz heróis e vilões com a mesma indiferença manufatureira. O potentado é seu produto mais refinado: aquele que convence a multidão de que é um outsider enquanto opera como insider perfeito.
E o anjo do impossível? Este é o momento mais cruel e mais irônico da metáfora. O anjo — ser de transcendência, mensageiro do sagrado — planta esta orquídea como se fosse uma bênção, uma nova paisagem. A ironia aqui é lapidar: o impossível não é a paz, não é a justiça. O impossível é a própria figura do líder-messiânico que promete fazer grande aquilo que nunca foi pequeno — apenas desigual.
"Você é a dor do dia a dia / Você é a dor da noite a noite / Você é a flor da agonia". Aqui a letra abandona qualquer ambiguidade e se torna diagnóstico. A dor não é metafórica — é estrutural. O imperialismo norte-americano não se manifesta apenas em guerras declaradas ou em ocupações militares. Ele pulsa no preço do barril de petróleo que determina o custo do pão em Lagos, em Caracas, em Bagdá. Ele sussurra nas taxas de juros fixadas em Washington que decidem se um país do sul global pode ou não rolar sua dívida.
O potentado moderno não precisa empunhar o chicote pessoalmente. Ele assina documentos. Ele impõe tarifas. Ele retira tropas ou as envia, dependendo do que o mercado pede. Mas o efeito sobre o corpo social dos países periféricos é o mesmo: "a dor do dia a dia, a dor da noite a noite".
Todos os direitos reservados ao Professor Lima Junior Dias.
Mossoró, Rio Grande do Norte, 28 de fevereiro de 2026.

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