domingo, novembro 03, 2019

Frei Antônio de Arrábida, o Bispo de Anemúria



Frei Antônio de Arrábida nasceu na cidade de Lisboa, em Portugal, a nove de setembro de 1771. Aos 15 anos, após finalizar seus primeiros estudos, entrou para o claustro do convento de S. Pedro de Alcântara e, pouco depois, foi nomeado bibliotecário do convento de Mafra. Este, construído junto à Basílica e ao Palácio Nacional daquele pequeno município português, parte do distrito de Lisboa, foi por muito tempo residência sazonal da família real, que, durante a regência do Príncipe D. João, passou a habitá-lo de forma permanente. É nesse momento que o príncipe começa admirar o trabalho do frade, chamando-o para ser o seu Conselheiro Real.

Passados alguns anos, a fim de assegurar o poder da Casa de Bragança sobre o grandioso Império luso-americano, D. João aventou a possibilidade de enviar ao Brasil seu filho D. Pedro, que passaria a ser seu condestável, título honorífico que o qualificava representante do príncipe regente no novo continente. A partir dessa ideia, nomeia Frei Arrábida para o ofício de preceptor do condestável, tornando-lhe responsável por D. Pedro e por seus estudos no Brasil. Porém, com a notícia da invasão francesa a Portugal, o frade é comunicado sobre a mudança de planos: o número de passageiros rumo ao Brasil havia aumentado, D. João e toda a família real também partiriam para a América. Ainda assim, Frei Arrábida e D. Pedro viajam no mesmo navio, selando uma fiel ligação que se estenderia por muitos anos.

Após a chegada ao Rio de Janeiro, o frade prefere se instalar no Convento de Santo Antônio a morar no Palácio Real. Assim, apesar da pequena propensão aos estudos, D. Pedro passa a subir constantemente as escadarias do convento para estudar piano e receber conselhos de seu preceptor.

Anos depois, com a volta de D. João VI a Portugal, D. Pedro designou Arrábida ao mesmo posto de Conselheiro que este havia ocupado durante o Império Joanino. Além disso, logo após a independência, em 23 de outubro de 1822, o Frei é nomeado ao cargo de Bibliotecário, passando a acumular o antigo posto de Conselheiro a esta nova função. Arrábida torna-se, portanto, o primeiro Bibliotecário da Biblioteca Imperial e Pública da Corte, título que, apesar de inédito, substituía o de Prefeito da Real Biblioteca, destinado aos principais encarregados pela organização e conservação do acervo documental.

Em 12 de novembro deste mesmo ano, em nome de D. Pedro I, o ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros, José Bonifácio, determina a obrigatoriedade do envio à Biblioteca de um exemplar de quaisquer obras, folhas periódicas e volantes que se imprimissem na Tipografia Nacional. Na época, entretanto, ainda em sua primeira sede, aos fundos do Convento de Nossa Senhora do Carmo, a Biblioteca não tinha as condições ideais para abrigar um acervo tão fértil. Na tentativa de minimizar o problema, Frei Arrábida organiza um Índex da livraria, a fim de melhor dimensioná- la, e um Livro Memorial, em que, a partir do ano de 1822, passaria a registrar todos os documentos recebidos.

Em meio a esse trabalho de ordenação, o Bibliotecário encontra os manuscritos botânicos de frei José Mariano da Conceição Veloso, Florae fluminensis, que havia sido doada à D. João pelo Convento de Santo Antônio, em 1811, após a morte do autor, e, pouco depois, teria desaparecido. A preciosa obra trazia a descrição e os desenhos de mais de 1700 espécies de flora e fauna da região do Rio de Janeiro e São Paulo, coletadas entre 1782 e 1790.

Ao reencontrá-la, Frei Arrábida descreveu em carta solene ao Imperador a emoção sentida e, devido à importância atribuída à obra, solicitou a publicação de seu texto aqui no Brasil, oferecendo-se para as devidas correções de impressão. Em resposta, D. Pedro ordenou a aprovação da proposta e, reconhecendo o zelo do Bibliotecário, determinou que o texto da obra fosse aqui impresso na Tipografia Nacional, autorizando-o a remeter os desenhos a Paris para serem litografados na oficina de Lasteyrie. A direção de todos estes trabalhos ficou a cargo do Bibliotecário, “ por lhe serem louváveis, e muito análogos ao seu patriotismo” .

Em 1825, a impressão da obra começou na Tipografia Nacional do Rio de Janeiro. A reprodução das estampas, iniciada em 1827 em Paris, levou quatro anos e quatro meses para ser finalizada. Quando os últimos fascículos já estavam sendo impressos, D. Pedro I abdica do trono, volta a Portugal e o novo governo brasileiro ordena a suspensão da impressão. Após uma briga judicial, a obra foi, enfim, terminada e, segundo o livro Phitographia ou Botânica brasileira, de Alexandre José Mello Moraes, 500 exemplares foram enviados ao Rio de Janeiro, ficando em Paris os outros 1500, “ os quais, não sendo reclamados, foram entregues não sei a quem, e dos quais salvaram- se algumas coleções; e por fim, se reconhecendo que essas estampas não eram mais procuradas, foram vendidas ou dadas ao chapeleiro que fornecia barretinas (chapéu) para o exército francês”.

Ainda em 1826, D. Pedro I havia concedido a frei Antônio outra prova de sua estima, o título junto à Santa Sé de bispo titular de Anemúria, adicionando-lhe a nomeação de coadjutor do capelão-mor. Posteriormente, o Imperador o nomeou também diretor dos estudos de príncipes e princesas imperiais e o condecorou com a Grã-Cruz da Imperial Ordem da Rosa.

Sua evidente proximidade a D. Pedro I, entretanto, também lhe trouxe alguns problemas, fazendo o bispo de Anemúria passar por situações complicadas durante o período compreendido entre a abdicação desse até a coroação de D. Pedro II. Por conta da amizade com o ex-imperador, Frei Arrábida era mal visto pelos governantes regenciais, o que teria acarretado na ameaça de morte recebida em sua cela do covento, no dia 15 de julho de 1831. Temeroso por sua segurança, acabou por mudar-se do convento na tarde seguinte, permanecendo os três anos seguintes escondido na casa de um amigo, e por pedir exoneração do cargo de Bibliotecário, em 16 de agosto de 1831, perdendo o único vencimento que lhe restava dos cofres públicos.

Somente a partir de 1836, quando uma pensão lhe é concedida pelo legislativo, a situação pública e financeira de Arrábida começa a melhorar novamente. A criação do Colégio Pedro II na corte, em 1837, e o convite para ser o seu primeiro reitor, em 5 de fevereiro de 1838, também impulsionaram a sua reinserção social. Entretanto, a sua saúde começava a se mostrar cada vez mais fragilizada e, com apenas um ano de reitoria, Arrábida solicita sua exoneração do cargo a fim de se afastar da cidade para ser submetido a cuidados médicos.

Incansável, anos depois, o bispo de Anemúria volta à Corte para ser um dos assistentes da coroação e sagração de D. Pedro II e, em fevereiro de 1842, é nomeado mais uma vez Conselheiro, porém, não mais Real ou Imperial, mas sim do Estado Extraordinário. Sua retomada à vida pública novamente seria fugaz, afinal, após três anos, frei Arrábida acaba sendo destituído do cargo, passando a viver sob privações financeiras até os seus últimos dias.

Em meio a uma vida de tantos altos e baixos, Frei Antônio de Arrábida veio a falecer no dia 10 de abril de 1850 em sua cela do convento, lugar que sempre o acolheu.

Texto de Rafaella Bettamio.
Técnico em Pesquisa – Biblioteca Nacional.
Mestranda em História, Política e Bens Culturais - CPDOC/FGV


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

Um comentário:

Maria José Malta disse...

Uma história que eu não conhecia.
Muito bom saber!