21.6.19

Atual conjuntura política e os evangélicos

Rede Fale


Entrevista com Lyndon de Araújo

A Rede Fale conversou esta semana com o historiador e pastor Lyndon de Araújo a respeito do atual cenário político brasileiro. Lyndon é bacharel em teologia pelo STCRJ, possui Graduação em História, Licenciatura pela UNESP (1992), Mestrado em Ciências da Religião pela UMESP (1995) e Doutorado em História pela UNESP (2005). Pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF. Professor Associado II do Depto. de História (UFMA), Universidade Federal do Maranhão há 24 anos, e tem 31 anos de caminhada pastoral nas Igrejas Evangélicas Congregacionais, em Ribeirão Preto, SP e em São Luís, MA.

Acompanhe a entrevista:

1. Como você avalia a conjuntura política atual?

Avalio como retrocesso, obscurantismo e subordinação à lógica do ódio como força motriz da (des)governabilidade. Ela reproduz a tendência mais ampla no Ocidente de retorno de pautas identificadas com a extrema direita, esta já vencida – mas não superada – desde o fascismo, o nazismo, o regime do apartheid na África do Sul e as ditaduras militares na América Latina, por exemplo. Seus alvos diretos são a democracia, a chamada esquerda, o marxismo, os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais, as lutas ambientais, a constituição, as universidades, o pensamento crítico, a educação, a diversidade, as camadas de trabalhadores e empobrecidas. Do ponto de vista econômico, acentua e radicaliza um ideário ultra liberal ou ultra neoliberal, de esvaziamento do estado e das políticas públicas, e de reificação do mercado como esfera a ser favorecida em detrimento dos interesses sociais e públicos. Representa, sobretudo, uma força histórica promovedora da morte, da barbárie (Walter Benjamim), da destruição e da extorsão da vida humana e da natureza, em nome do acúmulo do capital (o rentismo, os bancos, os grandes investidores, o agronegócio) que se coloca como infinito, imortal, divinizado. A reforma da previdência, o fim da leis trabalhistas e as privatizações retomam o programa dos governos FHC da década de 1990, mas de modo mais perverso e desumano ainda. O projeto econômico baseia-se na ideologia da “terra arrasada” a fim de erigir uma outra/mesma ordem produtora da desigualdade, com desemprego, fome e exclusão.

2. Como você enxerga a relação entre o atual governo e o conceito de democracia?

Este atual governo é antidemocrático. Pensa (?), fala e age à margem das regras do estado de direito pautado na legalidade, na constitucionalidade, na autonomia dos poderes, na negociação parlamentar e na participação dos partidos e das organizações civis. Assim, esta relação torna-se destruidora do que a sociedade brasileira conseguiu conquistar, com muita luta durante e após o regime militar, de uma frágil democracia num país marcado por heranças malignas oriundas do patriarcado, do latifúndio e do escravismo, legados estruturantes das desigualdades sociais e dos racismos. O atual governo tem medo das liberdades democráticas e do pensamento crítico, e justifica seu conjunto de ações contraditórias e absurdas impondo um medo sobre a totalidade da população por conta da violência sem controle, da corrupção. Ao invés do diálogo, armas. Em lugar da negociação, eliminação. Em lugar de bom senso, insensatez. Em lugar da verdade, fake news. Em lugar da democracia, caos.

3. Há possibilidade de revivermos uma ditadura?

Sim e não. Sim, porque não será preciso colocar os tanques nas ruas como em 1964-1968, para reprimir a sociedade e exterminar os inimigos. Sim, porque as demais esferas política (congresso), jurídica (STF) e midiática (grande mídia de jornais e redes de TV) estão subservientes à lógica e à cultura da morte em curso pelo atual governo. Sim, por conta da tentativa de despolitização e de menosprezo às instituições democráticas, do ataque aos sindicatos, movimentos sociais e aos professores, artistas e intelectuais. No entanto, não! Não, porque certas conquistas sociais e de luta por justiça são irreversíveis, mobilizadas por movimentos sociais, partidos políticos e organizações civis. Não, porque, embora frágil e trôpega em nossa história, a democracia enraizou-se em setores e segmentos sociais como um valor civilizatório que se deve defender e preservar, cultivar e ampliar. Não, porque há uma inquietação por parte das gerações mais novas que não viveram a ditadura militar, mas que começam a questionar um governo baseado em fake news e de uma liderança que lhe priva de sonhos. O acirramento autoritário com suas ambiguidades pode criar uma ditadura de superfície, mais midiatizada do que efetivada, cerceadora e perseguidora de movimentos e instituições sociais, ancorada nos cerca de 9% de apoiadores irrestritos ao atual modelo, oriundos das camadas ricas, brancas, elitizadas e que tem medo de perder seus privilégios.



4. Como você analisa os cortes na educação e o cerceamento da autonomia universitária?

Analiso como parte de um projeto de destruição do ensino público no país, que avançou nas últimas décadas concorrendo com as empresas privadas de educação, incluindo as multinacionais do ensino de olho no mercado brasileiro. Não sem razão seus representantes ocupam lugares no Conselho Nacional de Educação. Este atual ministro da educação, que nada ministra e nada entende de educação, promove ataques e cortes de recursos ao ensino superior que atingem, no fim, todo o sistema de ensino brasileiro, desde o nível fundamental, atingindo pesquisa de alta qualidade em todas as áreas do conhecimento. Com a justificativa ideologizada de ver marxismo em tudo, um delírio quixotesco, na verdade pretende fazer cortes a fim de favorecer os interesses privados e sustar um processo de inclusão das camadas mais pobres na educação superior. Além disso, o modelo educacional visa somente a formação e mão de obra para as condições do mercado de trabalho em agudo processo de desindustrialização. Retoma um antigo projeto de tornar o Brasil um entreposto de conhecimento já produzido lá fora, sendo o seu papel meramente coadjuvante no campo das ciências e das tecnologias. Portanto, não lhes interessa que mais de 90% da produção científica no Brasil situa-se nas universidades públicas!

5. Você acredita que há um pânico moral que assusta os professores, principalmente os de história?

Não há pânico moral! Professores(as) de história, historiadores(as), cientistas sociais estudam, analisam, pesquisam e compreendem o social como o humano em suas contradições e nada lhes surpreende, em se tratando de relações sociais e políticas, sobretudo de governos e governantes autoritários e faltos de sensibilidade, se não de inteligência. A classe dos professores está acostumada à luta e à resistência.

6. "Os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados". Esta foi a afirmação de um integrante do grupo militar que pensa educação no governo Bolsonaro. É possível reescrever a história do Brasil?

A história como narrativa sempre deverá ser reescrita porque a verdade última sobre o passado não há em sua totalidade. A dinâmica do conhecimento histórico é rever suas fontes, seus métodos, suas narrativas e suas interpretações. Entretanto, como reescrever negando o holocausto nazista? Como dizer o oposto sobre o desumano regime escravista no Brasil? Como desdizer o genocídio armênio pelos turcos? Como negar as atrocidades de Pinochet no Chile, de Médici e Geisel no Brasil ou da ditadura militar na Argentina? O que se quer fazer a partir de afirmações como esta é eliminar um legado de produção historiográfica das últimas décadas que é reconhecido internacionalmente pela seriedade, cientificidade e legitimidade de uma escrita denunciadora das torturas e das mortes praticadas pelos militares, com a anuência e conivência de setores da sociedade civil. Ademais, trata-se de um conjunto de profissionais, historiadores(as), departamentos, grupos de pesquisa, programas de pós-graduação e institutos de pesquisa que acumularam e adensaram leituras históricas e historiográficas documentadas e rigorosamente discutidas e socializadas, que denunciam as atrocidades e as violências contra os direitos humanos praticadas pelos militares, mas que não fazem autocrítica e meia culpa do que fizeram. Há uma vasta bibliografia, além de monografias, artigos, dissertações e teses que disseminam versões plurais sobre o regime militar que não serão esquecidas e nem eliminadas pela boca de um militar. A triste memória das torturas e dos desaparecidos, dos processos contra as liberdades individuais e coletivas, dos genocídios indígenas, não está somente nos livros de história, mas nos sobreviventes às torturas, nos familiares com parentes mortos desaparecidos ou psicologicamente destruídos, nas dores silenciosas de lembranças das injustiças cometidas contra inocentes em nome da “democracia” e do anticomunismo. Podem até querer, inutilmente, destruir os relatos históricos, mas a memória se reinventa e se transforma em história de novo.

7. Quais são as consequências da aliança entre Estado e Religião?

Melhor seria dizer algo sobre a relação mais ampla entre a política e a religião, cujas relações históricas e sociais são permanentes na modernidade, atravessadas por exclusões mútuas, tensões e conciliações, desde o simples cotidiano até às esferas “profissionais” dos campos político e religioso. A história mostra, contudo, que eventuais alianças entre um estado e uma dada religião, tem sido um tipo de instrumentalização de interesses recíprocos, nefastos à democracia. Geralmente, a religião/igreja/segmento religioso funciona como cimento ideológico para legitimar as ações de um estado autoritário. Por sua vez, a religião almeja instituir um tipo de teocracia eliminando as concorrências ou o próprio pluralismo religioso, irreversível na atual conjuntura. Assim, torna-se perigoso um tipo de aliança que ignora e não compreende a natureza laica do estado e a natureza política da religião, como esferas em permanente relação, mas distintas e separadas.



8. Como o cristão deve se posicionar em meio à sua fé e o Estado Laico?

Defendendo o estado laico como uma conquista civilizacional, cujas origens estão na Reforma Protestante e nas lutas pela liberdade religiosa, contra a apropriação do estado por uma só religião. Deve-se reler Romanos 13 juntamente com Apocalipse 13, a fim de se fazer uma crítica bíblica e teológica de qualquer divinização do estado.

9. A bancada evangélica ganhou força nas últimas eleições e hoje possui 91 integrantes. Como você classifica esse crescimento ao longo dos anos?

As “bancadas evangélicas” têm oscilado de número desde 1986 na constituinte que inaugurou a nova república. Tornaram-se uma força ou uma frente política paralela aos partidos com pautas comuns na esfera da moral e dos bons costumes, com capacidade de negociação com o executivo e de mediação dos interesses privados dos bancos, do agronegócio e das igrejas. Correspondem ao próprio crescimento do segmento evangélico nestas décadas com a equivalente e necessária representatividade no campo político oficial. Grandes denominações com seus aparelhos burocráticos e impérios midiáticos, patrimônios acumulados e lideranças carismáticas ávidas por prestígio, anelam por projetos mais amplos e defendem seus ideais privados no público ou intentam transformar esses ideais particulares em públicos, sobre e acima da pluralidade religiosa em curso. Esse conjunto cria um volume de interesses que se projetam no campo político travestidos por uma pauta moralista que esconde outras práticas que não são tão coerentes à “moral e aos bons costumes” que advogam. Estes 91 congressistas, no entanto, não representam a totalidade dos evangélicos no país, antes um discurso que se tornou hegemônico neste segmento religioso, que procura aliar poder e dinheiro sob o manto ideológico da teologia da prosperidade. Nisto, a religião se tornou capitalismo e quer se tornar, agora, estado, desde um projeto de teocracia que mistura ingenuidade com sagacidade.


10. Por que a maioria dos evangélicos acreditou e continua acreditando que Bolsonaro é a melhor aposta para o país?

A projeção feita na época da eleição do segundo turno era a de que 69% dos evangélicos votariam no atual presidente da república. Agora, não sei se este percentual continua acreditando da mesma forma que no dia 31 de outubro de 2018. Uma das bases da mensagem evangélica, ainda sobrevivente à assoladora e narcisista teologia da prosperidade, é o arrependimento. Muitos já devem ter se arrependido, do mesmo modo que muitos brasileiros em geral. As atitudes imorais, a defesa do armamento, a ligação com as milícias, os escândalos dos filhos, as frases impensadas e aquém do cargo de um presidente da república, a falta de articulação política aliada à incapacidade de negociação inteligente e estratégica, estão tornando essa figura pública no presidente mais incapaz, despreparado e inculto da história republicana. Se os evangélicos lessem as escrituras, se arrependeriam de terem apoiado esse projeto de (des)governo.


11. Como você vê o crescimento do fundamentalismo cristão e sua influência na igreja em favor da direita conservadora no Brasil?

Vejo com lamento e sem surpresa, pois esse fundamentalismo introduziu-se no protestantismo brasileiro desde o período pós-segunda guerra e se estabeleceu como matriz fundante do pensamento no regime militar, quando as denominações, em sua maioria, acolheram esse tipo macartista de religiosidade norte-americana como seu ideário teológico, hermenêutico e comportamental. O fundamentalismo brasileiro é datado, adotado e reinventado. Infelizmente. E tem sido instrumentalizado para criar e alimentar uma religião de medo, de ameaça, de rancor, de intolerância e de violência, negando a proposta de Jesus de Nazaré. Esses evangélicos estão numa encruzilhada teológica: por um lado, o fundamentalismo e, por outro, a teologia da prosperidade. Uma pena.

12. Como você qualifica um cristão que se diz progressista e de esquerda?

Qualifico como um cristão que assume a integralidade da sua fé e da sua missão, comprometido com o seu contexto de vida e de serviço, seguidor(a) de Jesus de Nazaré mais como um caminho do que como projeto político acabado. Vejo como alguém que está inquieto e inconformado com a injustiça e, por causa de seu apego e esperança no Reino de Deus, lança-se na história como um sujeito consciente, por um lado, dos seus próprios limites e, por outro, da dimensão deste Reino que veio, está vindo e virá. Vejo como um sujeito coletivo que precisa da comunidade da fé, da igreja, ultrapassando os limites da instituição, priorizando as pessoas e a comunhão das dores, dos dramas, das vitórias, das lutas, das conquistas e dos fracassos em prol da justiça social. Enfim, vejo como um sujeito consciente de que seu lado na história é o mesmo de Jesus de Nazaré, à luz de Lucas 4.18. Trata-se de alguém que abre a sua boca a favor do pobre.

13. Como pastor, qual o conselho que tem dado aos cristãos a respeito da polarização política?

“Despolarizem” em nome da comunhão cristã, sem deixarem de se posicionar. Relativizem o olhar e a posição contrária, sendo autocríticos e abertos ao diálogo, andando a segunda milha nas argumentações. Prefiram “perder” o debate do que impor seu ponto de vista e romper relacionamentos. Há tempo de falar, e há tempo de calar. Compreendam o olhar do outro bem como as lógicas por trás de um discurso rancoroso ou preconceituoso, sem ter que concordar com essa atitude. O diálogo é uma construção pedagógica, inacabada, reflexiva e democrática. Amorosa, sobretudo.

Equipe Rede Fale


Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

4 comentários:

Jane Darckê disse...

Eis um homem sensato! Convida à reflexão sem impor, analisa as duas vertentes (esquerda e direita) sem afetação e abre uma nova e terrível perspectiva para o Brasil, caso não analisemos bem os fatos atuais.

Prof. Adinalzir disse...

Prezada Jane Darckê

Uma bem estruturada exposição crítica daquilo que deveria ser o posicionamento de qualquer cristão frente à conjuntura política e social do momento. Adorei essa entrevista. E também agradeço pelo seu comentário!

MAGÍLICA disse...

Um convite à refletir, realmente, o que temos hoje em dia... não só na bancada evangélica, mas toda a classe política. Vou reler a matéria... e compartilhar. Essa vale a pena.

Prof. Adinalzir disse...

Grande MAGÍLICA
Fico muito feliz que você tenha gostado e agradeço pelo apoio.
Um grande abraço!

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