31.7.10

O vampiro que descobriu o Brasil

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Recomendo para alunos e professores esse excelente livro de Ivan Jaf. Conta a história de Antônio Brás, um comerciante português, proprietário de uma taberna que funcionava no porto da praça principal de Restelo, perto de Lisboa. Numa noite fria de inverno, quando encerrava mais um longo dia de trabalho, Antônio foi atacado por um comandante. O mesmo cravou-lhe os dentes no pescoço deixando-o caído ao chão e com o sangue escorrendo pelo corpo.

Após o incidente sentia-se, disposto, e cheio de energia, mas estranhava o fato de não conseguir comer e nem beber nada. A partir do terceiro dia, o sol afetava estranhamente sua pele, o corpo doía e começava a enfraquecer.


Ao devorar uma ratazana, Brás retoma sua força e com ela a consciência do que acabara de fazer, e em meio ao pavor da situação, conhece Domingos, o qual lhe dá a notícia de que, assim como ele, Antônio agora era um vampiro. Domingos explica que Antônio fora atacado pelo Velho, o mais poderoso dos vampiros, o único capaz de entrar num corpo humano.

E o Velho estava no corpo do comandante, pois ele tinha a intenção de fazer parte da caravela rumo a conquista portuguesa do monopólio do comércio com as Índias.
Só havia uma maneira de reverter a situação de Antônio, era preciso espetar uma estaca de carvalho no coração do vampiro que lhe atacou e aspirar as cinzas em que o corpo se transformaria. Seria difícil encontrar o Velho no meio daquela multidão, ainda mais sem saber em que corpo se escondera, mas sabia que estaria no corpo de alguém importante, nos momentos históricos decisivos.

Naquele momento, todas as atenções da Europa estavam voltadas ao evento de despedida da armada de Cabral rumo as Índias. E era ali, naquela embarcação que poderia estar o vampiro. Assim, Antônio dá início à caçada ao Velho e embarca junto com a armada de Cabral.


Em 22 de abril de 1500 chegaram a uma terra estranha, com pessoas de pele marron, limpos e felizes, cobertos por penas coloridas, pintados, andando nus e conversando com as aves. A armada de Cabral levantou âncora e agora Antônio estava preso ali, mas com certeza, o Velho também estava. Passou então, a viver isolado numa caverna, aprendendo a ser vampiro.

Durante os próximos 500 anos aprenderia a viver entre a sociedade, estudando os disfarces de um vampiro e de como reconhecê-lo dentro de outros corpos. Antônio vivia em busca do encontro com o vampiro responsável por sua indesejada imortalidade e seu único objetivo era voltar a sua velha situação. Queria voltar a sua vida normal, beber seu vinho tinto rascante e deliciar-se com as lascas de bacalhau frito no azeite.

Logo que desembarcou em terra, Antônio teve seu primeiro encontro com o Velho, que estava no corpo de um frei também vindo na esquadra de Cabral. Não obteve sucesso, mas existiriam outros encontros e ele não desanimava facilmente. Os anos passavam e ao mesmo tempo, aconteciam fatos históricos importantes, nos quais o tão procurado vampiro deveria estar presente.

Depois de Cabral, Brás acompanha toda a história do Brasil. Mas não entendia e nem se importava com tudo o que ocorria em sua volta. Mas foi durante a Invasão Holandesa ao país que teve seu segundo encontro com o vampiro, novamente em vão, o qual estava no corpo de Calabar, um revoltoso que traiu o Brasil para ficar ao lado dos holandeses.


Antônio circula por várias regiões brasileiras, vai de Salvador a Recife, passa por Vila Rica, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Durante sua incessante caçada, nas quais encontra vestigios do Velho e por algumas vezes, quase consegue pegá-lo, o país passa por um longo processo político e econômico e Brás presencia os acontecimentos que marcaram a história das relações políticas e externas do Brasil. Desde a exploração do pau-brasil, o início da colonização e escravidão, exploração de minérios, abolição da escravatura, o golpe militar de 1964 e todo o processo em que passa o país com o progresso e decadência da ditadura militar até a abertura política, inclusive o movimento das Diretas Já.


Durante 500 anos o imortal Antônio Brás, cada vez mais habituado a condição de vampiro, vive em meio as questões econômicas e sociais ocorridas ao longo de todo o processo histórico brasileiro. Em janeiro de 1999, Antônio planeja uma armadilha e marca um encontro com o vice-presidente do país, o qual fora reeleito e tomara posse há poucas semanas. Depois de cinco séculos de perseguição chegava a hora de acabar com o vampiro que havia lhe mordido e recuperar sua mortalidade. Finalmente o ritual foi concluído e, depois de aspirar as cinzas do Velho, Antônio Brás pode voltar a comer lascas de bacalhau frito no azeite e beber suas taças de vinho tinto rascante.


Somente um imortal para acompanhar toda a história do Brasil, desde o seu descobrimento até os dias atuais. Durante 500 anos, Antônio teve oportunidade de conhecer várias culturas e comportamentos que foram mudando com as diferentes etapas da história do país. Presenciou a evolução, o crescimento e todo o processo político e econômico da nação, bem como as diferenças sociais existentes até hoje.

Achei a idéia de usar um vampiro fantástica, porque só assim tivemos um personagem principal que atravessasse tantos séculos.
Particularmente, gostei bastante do livro e da figura do personagem principal, que conseguiu se preservar não se alimentando de outras pessoas. O humor foi utilizado de forma sutil, o que deu ao livro um ar mais leve. O desfecho final foi muito bom, provando que o autor sabe usar muito bem o mistério.

O texto é bem agradável, e traz uma História do Brasil bem diferente daquela que estamos acostumados nos livros "oficiais". Vale a pena ler um livro onde o vampiro não é apaixonado por humanos, como tantos que estão na moda, e sim apaixonado pela humanidade, e também por um bom vinho e bacalhau.

É mais uma grande contribuição para a historia do nosso país.

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26.7.10

A morte de João Pessoa e a Revolução de 30

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Por sugestão do amigo Cláudio Roberto de Souza do blog Almanaque de História. Coloco aqui um post que relembra um episódio muito importante e ainda pouco conhecido na história brasileira.

Nesta segunda-feira há exatos 80 anos, morria assassinado o político
João Pessoa ex-governador da Paraíba (que na época era chamado de presidente) e por cujo nome é hoje conhecida a capital do Estado.

No dia 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado por João Dantas na Confeitaria Glória, na cidade de Recife (PE). Segundo historiadores, por questões de ordem pessoal e também por questões políticas, sua morte foi o estopim para um movimento armado que mudou a estrutura política nacional, gerando o episódio que ficou conhecido como Revolução de 30.

Com o assassinato de João Pessoa iniciou-se um movimento armado no país contra a posse do presidente eleito, que terminou com a deposição em 24 de outubro de 1930, do presidente Washington Luís e a subida ao poder de Getúlio Vargas. Terminava assim a República Velha e iniciava-se a chamada Era Vargas.

Coloco aqui também alguns fatos ocorridos no Rio de Janeiro, logo após a morte de João Pessoa:

Rio - Praça Mauá - 1930

Nesta foto, vemos o "empastelamento" do jornal A Noite, durante a Revolução de 1930. Os populares em sua fúria destruidora, invadiam, quebravam máquinas e equipamentos e ao final incendiavam todos os periódicos que apoiavam o então presidente deposto, Washington Luis.

Veja o texto do jornal com a grafia da época, relatando os fatos:

"Quando os aggressores se aproximaram suppondo-os revolucionarios, recebemo-los como amigos, janellas e portas abertas. Um delles, porém, destacando-se exigiu que arriassemos a bandeira nacional, hasteada no terceiro pavimento, gritando-nos: - Arrie a bandeira burgueza! Outro exigiu: - Levanta a bandeira vermelha!


Fizemos então baixar as portas exteriores de aço. Uma dellas foi arrebentada com auxilio de um caminhão. Arrancada de nosso fachada a bandeira do Brasil, foi pisada pelos communistas, que a rasgaram, levando um de seus pedaços como um trophéo, a redacção do "Diario da Noite", como noticiou esse vespertino.

Assistimos depois á invasão do nosso edificio e á depredação do nosso material. Pensamos no primeiro momento que soffriamos, apenas, a "revanche" do communismo e só mais tarde viemos a saber que outros elementos por despeito e inveja tinham-se reunido aos subversores da sociedade".

A Noite, 4 de novembro de 1930.


Você sabe o que significa empastelar? O verbo caiu em desuso, mas antigamente, o empastelamento de jornais era uma coisa muito comum. Quando alguém queria calar um jornal, convocava um bando de desocupados para invadir as oficinas e espalhar as caixas de tipos pelo chão. O jornal ficava dias, semanas e às vezes meses, fora de circulação.

Fotos de 8 de dezembro de 1930.

O povo saudando soldados rebeldes nas ruas da Capital Federal. Tentei identificar a rua, mas não tive informação segura. Me parece ser a Rua Frei Caneca ou talvez a Rua do Catete.

Revolucionários chegando ao Rio e amarrando os cavalos no obelisco da Av. Central.

Foto provavelmente tirada na porta do Palácio do Catete. Onde podemos ver: Miguel Costa, Góis Monteiro e Getúlio Vargas. Era a chegada dos gaúchos ao poder.
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19.7.10

A História fazendo sucesso


Falar de História não é mais coisa só de acadêmicos. A disciplina é cada vez mais tema de conversas e leitura para todas as horas, através de várias revistas especializadas que tratam do assunto e ganham cada vez mais espaço em bancas de jornais, livrarias e até mesmo na internet.

Esse interesse histórico já ocorre há muito tempo em outros países. Na França, a primeira publicação sobre o tema surgiu em 1909, criada por Jules Tallandier e com o nome de História e a partir daí muitas outras revistas foram surgindo na Europa. No Brasil, uma publicação parecida foi a "Revista Nossa História" publicada pela Editora Vera Cruz e que deixou de circular em janeiro de 2007.


Acredito que a divulgação de temas históricos na TV tenha sido um dos motivos para esse grande interesse. Desde a minissérie Anos Dourados, a História virou estrela na mídia brasileira, fazendo com que versões romanceadas do que realmente aconteceu, levassem as pessoas a buscar mais informações para poder analisar melhor os fatos.


Para os professores, essas publicações vieram ampliar o espaço de discussão, auxiliar nas pesquisas, enriquecer o trabalho na sala de aula e tornar o assunto mais interessante para os alunos. Contribuindo também para apagar aquela idéia errada de que História é só decoreba.


Relacionar o passado com o presente é outra grande qualidade dessas revistas. A ligação entre os fatos históricos e contemporâneos despertam interesse dos leitores e enriquecem o conteúdo, fazendo com que sejam uma importante ferramenta que complementam o livro didático e formam cidadãos mais críticos.


No Brasil surgem cada vez mais, ótimas publicações, cada uma com seu estilo próprio e muito úteis para estudantes e professores. Seleciono abaixo na minha opinião, as melhores delas:


Revista de História da Biblioteca Nacional
Aventuras na História
História Viva
Revista de História - USP

Obs: Poderia citar aqui outros links, mais irei colocá-los aos poucos.

15.7.10

A primeira polícia brasileira e o Major Vidigal

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Aquarela de Augustus Earle, 1822.

Criada a partir de um modelo autoritário desde os tempos de
D. João VI, a primeira polícia brasileira sempre foi muito violenta. O que contribuiu para despertar o medo e a desconfiança na nossa população até os dias atuais.

Por isso sempre é bom lembrar, do temível chefe de polícia do Rio de Janeiro na época da Corte, o famoso Major Vidigal.

Segundo o amigo André Mansur do blog Emendas e Sonetos "Vidigal escolhia seus comandados pelo tamanho e truculência e gostava de usar nas suas rondas um chicote de haste longa e pesada, com tiras de couro cru na extremidade. Os vagos procedimentos legais não eram nem de longe seguidos pelas guarnições do major, que quando chegavam numa batucada também batiam, e muito, em quem encontrassem pela frente".

Sobre ele, Mário de Andrade diz em seu livro: "O Major Vidigal, que principia aparecendo em 1809, foi durante muitos anos, mais que o chefe, o dono da Polícia colonial carioca. Habilíssimo nas diligências, perverso e ditatorial nos castigos, era o horror das classes desprotegidas do Rio de Janeiro". Já o escritor Alfredo Pujol lembra uma quadrinha que corria sobre ele no murmúrio do povo:

Avistei o Vidigal.
Fiquei sem sangue;
Se não sou tão ligeiro
O quati me lambe.

Em 10 de julho de 1843, faleceu no Rio, o Marechal Miguel Nunes Vidigal, capoeira exímio e que apareceu, como o Major Vidigal, no livro "Memórias de um Sargento de Milícias", considerado um dos maiores clássicos da nossa literatura.

Quer saber mais?
http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Nunes_Vidigal
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1157
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9.7.10

Alguns ditados populares e seus significados

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Muitas vezes usamos certas expressões, mas não temos idéia do que elas significam.

São ditados ou termos populares que através dos anos permaneceram sempre iguais, significando exemplos morais, filosóficos e religiosos.

Tanto os provérbios quanto os ditados populares constituem uma parte importante de cada cultura.


Historiadores e escritores sempre tentaram descobrir a origem dessa riqueza cultural, mas essa tarefa nunca foi nada fácil.

O grande escritor José da Câmara Cascudo já dizia que: "os ditados populares sempre estiveram presentes ao longo de toda a História da humanidade".
N
o Brasil isso não é nenhuma novidade. Muitas vezes ocorrem expressões tão estranhas e sem sentido, mas que são muito importantes para a nossa cultura popular.

Veja aqui algumas dessas expressões ou ditados populares:

Bicho-de-sete-cabeças

Tem origem na mitologia grega, mais precisamente na lenda da Hidra de Lerna, monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das doze proezas realizadas por Hércules. A expressão ficou popularmente conhecida, no entanto, por representar a atitude exagerada de alguém que, diante de uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa, até mesmo por falta de disposição para enfrentá-la.

Com o rei na barriga

A expressão provém do tempo da monarquia em que as rainhas, quando grávidas do soberano, passavam a ser tratadas com deferência especial, pois iriam aumentar a prole real e, por vezes, dar herdeiros ao trono, mesmo quando bastardos. Em nossos dias refere-se a uma pessoa que dá muita importância a si mesma.

Ver (ou adivinhar) passarinho verde

Significa estar apaixonado. O passarinho em questão é uma espécie de periquito verde. Conta uma lenda que alguns românticos rapazes do século passado adestravam o bichinho para que ele levasse no bico uma carta de amor para a namorada. Assim, o casal de apaixonados tinha grandes chances de burlar a vigilância de um paizão ranzinza.

Com a corda toda

Antigamente, os brinquedos que possuíam movimento eram acionados torcendo um mecanismo em forma de mola ou um elástico, que ao ser distendido, fazia o brinquedo se mexer. Ambos os mecanismos eram chamados de "corda". Logo, quando se dava "corda" totalmente num brinquedo, ele movia-se de forma mais agitada e frenética. Daí a origem da expressão.

Favas contadas

De acordo com o pesquisador Câmara Cascudo, antigamente, votavam-se com as favas brancas e pretas, significando sim ou não. Cada votante colocava o voto, ou seja, a fava, na urna. Depois vinha a apuração pela contagem dos grãos, sendo que quem tivesse o maior número de favas brancas estaria eleito. Atualmente, significa coisa certa, negócio seguro.

Fazer ouvidos de mercador

Orlando Neves, autor do Dicionário das Origens das Frases Feitas, diz que a palavra mercador é uma corruptela de marcador, nome que se dava ao carrasco que marcava os ladrões com ferro em brasa, indiferente aos seus gritos de dor. No caso, fazer ouvidos de mercador é uma alusão a atitude desse algoz, sempre surdo às súplicas de suas vítimas.

Tapar o sol com a peneira

Peneira é um instrumento circular de madeira com o fundo em trama de metal, seda ou crina, por onde passa a farinha ou outra substância moída. Qualquer tentativa de tapar o sol com a peneira é inglória, uma vez que o objecto é permeável à luz. A expressão teria nascido dessa constatação, significando atualmente um esforço mal sucedido para ocultar uma asneira ou negar uma evidência.

O pomo da discórdia

A lendária Guerra de Tróia começou numa festa dos deuses do Olimpo: Éris, a deusa da Discórdia, que naturalmente não tinha sido convidada, resolveu acabar com a alegria reinante e lançou por sobre o muro uma linda maçã, toda de ouro, com a inscrição “à mais bela”.
Como as três deusas mais poderosas: Hera, Afrodite e Atena disputavam o troféu, Zeus passou a espinhosa função de julgar para Páris, filho do rei de Tróia. O príncipe concedeu o título a Afrodite em troca do amor de Helena, casada com o rei de Esparta.
A rainha fugiu com Páris para Tróia, os gregos marcharam contra os troianos e a famosa maçã passou a ser conhecida como "o pomo da discórdia" – que hoje indica qualquer coisa que leve as pessoas a brigar entre si.

Afogar o ganso

No passado, os chineses costumavam satisfazer as suas necessidades sexuais com gansos. Pouco antes de ejacularem, os homens afundavam a cabeça da ave na água, para poderem sentir os espasmos anais da vítima. Daí a origem da expressão, que se refere a um homem que está precisando fazer sexo.

Ave de mau agouro

Diz-se de pessoa portadora de más notícias ou que, com a sua presença, anuncia desgraças. O conhecimento do futuro é uma das preocupações inerentes ao ser humano. Quase tudo servia para, de maneiras diversas, se tentar obter esse conhecimento. As aves eram um dos recursos que se utilizava. Na antiga Roma, a predição dos bons ou maus acontecimentos (Avis spicium, em Latim) era feita através da leitura do vôo ou canto das aves. Os pássaros mais usado para isso eram a águia, a coruja, o corvo e a gralha. Ainda hoje perdura, popularmente, a conotação funesta com qualquer destas aves.

Santinha do pau oco

Expressão que se refere à pessoa que se faz de boazinha, mas não é. Nos século XVIII e XIX os contrabandistas de ouro em pó, moedas e pedras preciosas utilizavam estátuas de santos ocas por dentro. O santo era “recheado” com preciosidades roubadas e enviado para Portugal.

Mais vale um pássaro na mão que dois voando

Significa que é melhor ter pouco que ambicionar muito e perder tudo. É tradição de antigos caçadores. Eles achavam melhor apanhar logo a ave que tinham atingido de raspão, antes que ela fugisse, do que tentar atirar nas que estavam voando e errar o alvo.

Apressado come cru

Quando não existia o forno microondas, era preciso muito tempo para a comida ficar pronta, ou então comê-la crua. Nessa época, a culinária japonesa ainda não estava na moda e comida crua era vista com maus olhos. Assim, a expressão passou a ser usada para significar afobamento, precipitação.

Chorar as pitangas

Pitangas são deliciosas frutinhas cultivadas e apreciadas em todo o país, especialmente nas regiões norte e nordeste do país. A palavra deriva de pyrang, que, em tupi-guarani, significa vermelho. Sendo assim, a provável relação da fruta com lágrimas, vem do fato de os olhos ficarem vermelhos, parecendo duas pitangas, quando se chora muito.

Farinha do mesmo saco

“Homines sunt ejusdem farinae” esta frase em latim (homens da mesma farinha) é a origem dessa expressão, utilizada para generalizar um comportamento reprovável. Como a farinha boa é posta em sacos diferentes da farinha ruim, faz-se essa comparação para insinuar que os bons andam com os bons enquanto os maus preferem os maus.

Aquela que matou o guarda

Tratava-se de uma mulher que trabalhava para D. João VI e se chamava Canjebrina, que, como informam os dicionários, significa pinga, cachaça. Ela teria matado um dos principais guardas da corte do Rei. O fato não foi provado. Mas está no livro “Inconfidências da Real Família no Brasil”, de Alberto Campos de Moraes.

Sangria desatada

Diz-se de qualquer coisa que requer uma solução ou realização imediata. Esta expressão teve origem nas guerras, onde se verificava a necessidade de cuidados especiais com os soldados feridos. É que, se por qualquer motivo, se desprendesse a atadura posta sobre as feridas, o soldado morreria, por perder muito sangue.

Colocar panos quentes

Significa favorecer ou acobertar coisa errada feita por outro. Em termos terapêuticos, colocar panos quentes é uma receita, embora paliativa, prescrita pela medicina popular desde tempos remotos. Recomenda-se sobretudo nos estados febris, pois a temperatura muito elevada pode levar a convulsões e a problemas daí decorrentes. Nesses casos, compressas de panos encharcados com água quente são um santo remédio. A sudorese resultante faz baixar a febre.

Cor de burro quando foge

A frase original era “Corra do burro quando ele foge”. Tem sentido porque, o burro enraivecido, é muito perigoso. A tradição oral foi modificando a frase e “corra” acabou virando “cor”.

Pagar o pato

A expressão deriva de um antigo jogo praticado em Portugal. Amarrava-se um pato a um poste e o jogador (em um cavalo) deveria passar rapidamente e arrancá-lo de uma só vez do poste. Quem perdia era que pagava pelo animal sacrificado. Sendo assim, passou-se a empregar a expressão para representar situações onde se paga por algo sem ter qualquer benefício em troca.

De pequenino é que se torce o pepino

Os agricultores que cultivam os pepinos precisam de dar a melhor forma a estas plantas. Retiram uns “olhinhos” para que os pepinos se desenvolvam. Se não for feita esta pequena poda, os pepinos não crescem da melhor maneira porque criam uma rama sem valor e adquirem um gosto desagradável. Assim como é necessário dar a melhor forma aos pepinos, também é preciso moldar o caráter das crianças o mais cedo possível.

Salvo pelo gongo

O ditado tem origem na na Inglaterra. Lá, antigamente, não havia espaço para enterrar todos os mortos. Então, os caixões eram abertos, os ossos tirados e encaminhados para o ossário e o túmulo era utilizado para outro infeliz. Só que, às vezes, ao abrir os caixões,os coveiros percebiam que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo (catalepsia – muito comum na época).
Assim, surgiu a idéia de, ao fechar os caixões, amarrar uma tira no pulso do defunto, tira essa que passava por um buraco no caixão e ficava amarrada num sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento do braço faria o sino tocar. Desse modo, ele seria salvo pelo gongo. Atualmente, a expressão significa escapar de se meter numa encrenca por uma fração de segundos.

Elefante branco

A expressão vem de um costume do antigo reino de Sião, situado na atual Tailândia, que consistia no gesto do rei de dar um elefante branco aos cortesãos que caíam em desgraça. Sendo um animal sagrado, não podia ser posto a trabalhar. Como presente do próprio rei, não podia ser vendido. Matá-lo, então, nem pensar. Não podendo também ser recusado, restava ao infeliz agraciado alimentá-lo, acomodá-lo e criá-lo com luxo, sem nada obter de todos esses cuidados e despesas. Daí o ditado significar algo que se tem ou que se construiu, mas que não serva para nada.

Comer com os olhos

Soberanos da África Ocidental não consentiam testemunhas às suas refeições. Comiam sozinhos. Na Roma Antiga, uma cerimônia religiosa fúnebre consistia num banquete oferecido aos deuses em que ninguém tocava na comida. Apenas olhavam, “comendo com os olhos”. A propósito, o pesquisador Câmara Cascudo diz que certos olhares absorvem a substância vital dos alimentos. Hoje o ditado significa apreciar de longe, sem tocar.

Amigo da onça

Segundo estudiosos da língua portuguesa, este termo surgiu a partir de uma história curiosa. Conta-se que um caçador mentiroso, ao ser surpreendido, sem armas, por uma onça, deu um grito tão forte que o animal fugiu apavorado. Como quem o ouvia não acreditou, dizendo que , se assim fosse, ele teria sido devorado, o caçador, indignado, perguntou se, afinal, o interlpcutor era seu amigo ou amigo da onça. Atualmente, o ditado significa amigo falso, hipócrita.

Estar com a corda no pescoço

O enforcamento foi, e ainda é em alguns países, um meio de aplicação da pena de morte. A metáfora nasceu de anistias ou comutações de pena chegadas à última hora, quando o condenado já estava prestes a ser executado e o carrasco já lhe tinha posto a corda no pescoço, situação que, de fato, é um sufoco. Hoje, o ditado significa estar ameaçado, sob pressão ou com problemas financeiros.

Como sardinha em lata

A palavra sardinha vem do latim sardina. Designa o peixe abundante na Sardenha, conhecida região da Itália. É um alimento apreciado e nutritivo, de sabor bem peculiar. As sardinhas, quando enlatadas em óleo ou em outro molho, vêm coladas umas às outras. Por analogia, usa-se a expressão popular sardinha em lata para designar a superlotação de veículos de transporte público.

O pior cego é o que não quer ver

Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel.
Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos.
O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver. Atualmente, o ditado se refere a a alguém que se nega a admitir um fato verdadeiro.

Andar à toa

Toa é a corda com que uma embarcação remboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar. Uma mulher à toa, por exemplo, é aquela que é comandada pelos outros. Jorge Ferreira de Vasconcelos já escrevia, em 1619: Cuidou de levar à toa sua dama. Hoje, o ditado significa andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.

Casa de mãe Joana

Este dito popular tem origem na Itália. Joana, rainha de Nápoles e condessa de Provença (1326-1382), liberou os bordéis em Avignon, onde estava refugiada, e mandou escrever nos estatutos: “Que tenha uma porta por onde todos entrarão”.
O lugar ficou conhecido como Paço de Mãe Joana, em Portugal. Ao vir para o Brasil a expressão virou “Casa da Mãe Joana”. A outra expressão envolvendo Mãe Joana, um tanto chula, tem a mesma origem, naturalmente.

Onde judas perdeu as botas

Como todos sabem, depois de trair Jesus e receber 30 dinheiros, Judas caiu em depressão e culpa, vindo a se suicidar enforcando-se numa árvore.
Acontece que ele se matou sem as botas. E os 30 dinheiros não foram encontrados com ele. Logo os soldados partiram em busca as botas de Judas, onde, provavelmente, estaria o dinheiro.
A história é omissa daí pra frente. Nunca saberemos se acharam ou não as botas e o dinheiro. Mas a expressão atravessou vinte séculos. Atualmente, o ditado significa lugar distante, inacessível.

Quem não tem cão caça com gato

Significado: Se você não pode fazer algo de uma maneira, se vira e faz de outra.
Histórico: Na verdade, a expressão, com o passar dos anos, se adulterou. Inicialmente se dizia “quem não tem cão caça como gato”, ou seja, se esgueirando, astutamente, traiçoeiramente, como fazem os gatos.

Da pá virada

Significado: Um sujeito da pá virada pode tanto ser um aventureiro corajoso como um vadio.
Histórico: a origem da palavra é em relação ao instrumento, a pá. Quando ela está virada para baixo, é inútil não serve para nada. Hoje em dia, “pá virada” tem outro sentido. Refere-se a uma pessoa de maus instintos e criadora de casos ou a um aventureiro.

Deixar de Nhenhenhém

Significado: Conversa interminável em tom de lamúria, irritante, monótona. Resmungo, rezinga.
Histórico: Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer “nhen-nhen-nhen”.

Estar de paquete

Significado: Situação das mulheres quando estão menstruadas.
Histórico: Paquete, já nos ensina o Aurélio, é um das denominações de navio. A partir de 1810, chegava um paquete mensalmente, no mesmo dia, no Rio de Janeiro. E a bandeira vermelha da Inglaterra tremulava. Daí logo se vulgarizou a expressão sobre o ciclo menstrual das mulheres. Foi até escrita uma “Convenção Sobre o Estabelecimento dos Paquetes”, referindo-se, é claro, aos navios mensais.

Pensando na morte da bezerra

Significado: Estar distante, pensativo, alheio a tudo.
Histórico: Esta é bíblica. Como vocês sabem, o bezerro era adorado pelos hebreus e sacrificados para Deus num altar. Quando Absalão, por não ter mais bezerros, resolveu sacrificar uma bezerra, seu filho menor, que tinha grande carinho pelo animal, se opôs. Em vão. A bezerra foi oferecida aos céus e o garoto passou o resto da vida sentado do lado do altar “pensando na morte da bezerra”. Consta que meses depois veio a falecer.

Não entender patavina

Significado: Não saber nada sobre determinado assunto. Nada mesmo.
Histórico: Tito Lívio, natural de Patavium (hoje Pádova, na Itália), usava um latim horroroso, originário de sua região. Nem todos entendiam. Daí surgiu o Patavinismo, que originariamente significava não entender Tito Lívio, não entender patavina.

Jurar de pés junto

A expressão surgiu das torturas executadas pela Santa Inquisição, nas quais o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado para confessar seus crimes.

Testa de ferro

O Duque Emanuele Filiberto di Savoia, conhecido como Testa di Ferro, foi rei de Chipre e Jerusalém. Mas tinha somente o título e nenhum poder verdadeiro. Daí a expressão ser atribuída a alguém que aparece como responsável por um por um negócio ou empresa sem que o seja efetivamente.

Erro crasso

Na Roma antiga havia o Triunvirato: o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro destes Triunviratos, tínhamos: Caio Júlio, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar um pequeno povo chamado Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os Partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair. Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um “erro crasso“.

Lágrimas de crocodilo

O crocodilo, quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, ele chora enquanto devora a vítima. Daí a expressão significar choro fingido.

Fila indiana

Tem origem na forma de caminhar dos índios americanos, que, desse modo, encobriam as pegadas dos que iam na frente.

Passar a mão pela cabeça

Significa perdoar, e vem do costume judaico de abençoar cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronuncia a bênção.

Gatos pingados

Esta expressão remonta a uma tortura procedente do Japão que consistia em pingar óleo fervente em cima de pessoas ou animais, especialmente gatos.
Existem várias narrativas ambientais na Ásia que mostram pessoas com os pés mergulhados num caldeirão de óleo quente. Como o suplício tinha uma assistência reduzida, tal era a crueldade, a expressão “gatos pingados” passou a significar pequena assistência sem entusiasmo ou curiosidade para qualquer evento.

Queimar as pestanas

Antes do aparecimento da eletricidade, recorria-se a uma lamparina ou uma vela para iluminação. A luz era fraca e, por isso, era necessário colocá-las muito perto do texto quando se pretendia ler o que podia dar num momento de descuido queimar as pestanas. Por essa razão, aplica-se àqueles que estudam muito.

Sem papas na língua

Significa ser franco, dizer o que sabe, sem rodeios. A expressão vem da frase castelhana “no tener pepitas em la lengua”. Pepitas, diminutivo de papas, são partículas que surgem na língua de algumas galinhas, é uma espécie de tumor que lhes obstrui o cacarejo. Quando não há pepitas (papas), a língua fica livre.

A toque de caixa

A caixa é o corpo oco do tambor que foi levado para a a Europa pelos árabes. Como os exercícios militares eram acompanhados pelo som de tambores, dizia-se que os soldados marchavam a toque de caixa. Atualmente, refere-se a uma tarefa que se tem de fazer rapidamente, eventualmente a mando de alguém ou mesmo à força.

Maria vai com as outras

Dona Maria I, mãe de D. João VI (avó de D. Pedro I e bisavó de D. Pedro II), enlouqueceu de um dia para o outro . Declarada incapaz de governar, foi afastada do trono. Passou a viver recolhida e só era vista quando saía para caminhar a pé, escoltada por numerosas damas de companhia. Quando o povo via a rainha levada pelas damas nesse cortejo, costumava comentar: “Lá vai D. Maria com as outras”. Atualmente aplica-se a expressão a uma pessoa que não tem opinião e se deixa convencer com a maior facilidade.

Fonte: CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções Tradicionais no Brasil. São Paulo, Editora Global/2008. Quer comprar o livro? Clique aqui
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1.7.10

Mini Curso, Escravidão e Sistema de Saúde

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Por solicitação do amigo André Nogueira e contribuindo como ele diz, "para a sempre sedutora ciência da Clio". Coloco aqui para divulgação de todos, um curso bastante interessante a ser realizado no Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos - IPN aqui no Rio de Janeiro.

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Projeto original do Palácio de Santa Cruz. Rio de Janeiro - RJ.

Assim como publicado na página no dia 05 de Setembro, projeto de autoria do arquiteto inglês John Johnson, contratado no governo do Rei ...