14.8.14

Tristeza: morre Nicolau Sevcenko


A notícia da morte de Nicolau Sevcenko, aos 61 anos, foi um choque para nós. Fui aluna dele na USP e tive a oportunidade de assistir à defesa de sua livre-docência, em 1992, sob o título “Orfeu Extático na Metrópole: os frementes anos 20″. Além de um grande historiador, Nicolau era um excelente professor, sempre disposto ouvir seus alunos. Um de meus livros preferidos de História do Brasil é “Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República”. Segue um pequeno texto meu, baseado nesta obra, em que o historiador nos dá um panorama da sociedade do Rio de Janeiro, pós-Império. É apenas uma pincelada de suas ideias, vale a pena conhecer suas obras. 

A República era identificada com um projeto de modernização do País: rejeitava-se tudo que era relacionado ao regime anterior como sendo arcaico e retrógrado. 

O Rio de Janeiro era o centro da nova ordem econômica e política: a capital era o maior núcleo da rede ferroviária nacional, ligando-se ao centro produtor de café do Oeste Paulista e outros importantes estados fornecedores de produtos agropecuários, além de manter o comércio de cabotagem com os estados do Norte e Nordeste.

Em “Literatura como Missão”, Nicolau Sevcenko descreve o ambiente efervescente da capital, que passava por um processo de remodelagem urbana e social. Era preciso varrer para longe das vistas tudo o que fosse feio, velho, sujo e pobre. Grandes avenidas, edificações e monumentos foram erguidos. Os moradores dos cortiços eram escorraçados para a periferia. O Rio de Janeiro deveria se modernizar a qualquer custo, seguindo o modelo de Paris. A Campanha da Regeneração da cidade, levada à frente pelo prefeito Pereira Passos, e a campanha de vacinação de Oswaldo Cruz, que resultou na Revolta da Vacina (1904), mostram bem a essência deste novo projeto civilizador.

Os novos donos do poder queriam deixar suas marcas na cidade, destruindo tudo que lembrasse a cultura popular e os hábitos considerados antiquados. A campanha para tornar a cidade mais civilizada chegou a excessos que beiram o absurdo, como a criação de uma lei que obrigava os cidadãos a usar paletó e a vestir sapatos para circular pela região central da cidade. Quem fosse pego descalço ou “em mangas-de-camisa” poderia ser preso, o que, de fato, chegou a ocorrer, já que o projeto passou em segunda discussão no Conselho Municipal.

O consumismo, segundo o historiador, tornou-se parte do cotidiano das camadas mais abastadas, para as quais era fundamental adquirir as últimas novidades vindas da Europa. No início do século XX, a moda era uma obsessão entre a elite carioca. Todos sonhavam em ser chic ou smart, ou seja, desfilar com as vestimentas e os acessórios da última moda. As colunas sociais começavam a ditar as normas de vestuário e de comportamento para a mais fina sociedade. A Rua do Ouvidor era o maior centro do comércio sofisticado, oferecendo os artigos importados mais cobiçados. Logo, as tradicionais sobrecasaca e cartola pretas, símbolos da sociedade patriarcal e aristocrática do Império, foram substituídas pelo paletó de casimira clara e o chapéu de palha.

A mentalidade que dominava certas parcelas da população na época caracterizava-se pelo “desejo de ser estrangeiro”.  O gosto do brasileiro deveria ser melhorado tendo como modelo a Europa, portanto, tudo o que fosse tipicamente brasileiro e popular era considerado de mau gosto. Até o Carnaval deveria deixar de lado as fantasias de índio e de cobra viva, para ser povoado por pierrôs, colombinas e arlequins. De acordo com Sevcenko, a moda foi a única tentativa de aprimoramento dos hábitos sociais do brasileiro que realmente foi consolidada com sucesso. Para o historiador, isto é explicado pela formação de um mercado de tecidos, roupas e acessórios na Belle Époque, que se baseava no aproveitamento dos estoques europeus no fim das estações para os consumidores do hemisfério sul. – Márcia Pinna Raspanti.

Obras de Nicolau Sevcenko:

“A Revolta da Vacina” (1983, ed. Brasiliense)
“Orfeu Extático na Metrópole” (1992, ed. Companhia das Letras)
“Literatura como Missão: Tensões Sociais e Criação Cultural na 1ª República” (1995, ed. Brasiliense)
“História da Vida Privada no Brasil (Volume 3)” (1998, ed. Companhia das Letras, organizador)
“A Corrida para o Século 21″ (2001, ed. Companhia das Letras)

16.6.14

Globalização gastronômica


As grandes navegações mexeram no cardápio da humanidade

Nos séculos 15 e 16, os aventureiros europeus tinham um ótimo motivo para arriscar a vida no mar: muito dinheiro. As novas rotas comerciais, abertas com as viagens de descobrimento em direção ao Sudeste Asiático e às Américas, garantiam fortunas com a venda de especiarias, condimentos que melhoravam o gosto da comida e garantiam sua preservação. O que os exploradores e comerciantes não sabiam é que, além de cravo, noz-moscada, pimenta e gengibre, eles encontrariam uma série de outros sabores. Por sua vez, os moradores dos lugares ocupados não conheciam muitas das comidas trazidas nas embarcações. Começava assim uma verdadeira revolução gastronômica. "Pela primeira vez, todos os povos da Terra entravam em contato, abrindo um intercâmbio generalizado dos gêneros de todos os continentes", afirma o professor de história da Universidade de São Paulo, Henrique Carneiro, no livro Comida e Sociedade – Uma História da Alimentação. 

VAIVÉM DE SABORES
A origem e o destino dos principais alimentos

PIMENTÃO
Originário da América, foi levado para a Espanha. Dali chegou à Hungria, onde passou a ser usado como matéria-prima para a páprica. Também fez sucesso na Tailândia, na Coréia, na Índia e em vários países africanos.

BATATA
Era consumida nos Andes, onde hoje ficam o Equador e o Peru. Descoberta pelos espanhóis, foi plantada na Galícia, na península Ibérica e na Itália. Só depois se difundiu no resto da Europa e na Ásia. 

MILHO
Veio da América Central e foi cultivado em Portugal. Logo estava nas mesas do sul da França e do norte da Itália, onde foi usado para fazer fubá. Depois de chegar à Ásia, tornou-se comum na culinária oriental.

TOMATE
Assim como a mandioca, o abacaxi e o mamão, partiu das Américas e acabou na Ásia, após passar pela Europa. Esses alimentos faziam tanto sucesso no Oriente que acabaram usados como moeda. 

ABACATE
Ao lado do cacau e do feijão, é um alimento típico da América Central que conquistou o gosto europeu. O cacau, que entre os astecas era consumido salgado e com pimenta, passou a ser cozinhado com açúcar. 

LARANJA
Muitas frutas de sabor e aroma exóticos para o paladar dos europeus foram descobertas na Ásia. É o caso da laranja e da manga, que, da península Ibérica, acabaram introduzidas no resto do continente e nas Américas.

UVA
Como o trigo e o azeite, tinham grande valor na região do Mediterrâneo. Tornaram-se os alimentos simbólicos para o cristianismo e se alastraram pelo mundo. Hoje, vinhos e pães são consumidos em todo lugar.

ESPECIARIAS
A noz-moscada, o cravo e o gengibre eram comprados na Indonésia. A primenta-do-reino vinha do sul da Índia e a canela, do Ceilão, atual Sri Lanka. Os produtos eram reunidos em Goa, de onde partiam rumo a Lisboa.

Texto de Rafael Tonon

31.5.14

O escritor "fora de moda"


Euclides da Cunha: desilusão com a República.
Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões, tinha uma característica curiosa: fazia questão de se vestir ostensivamente “fora de moda”. Antes de pensarmos que se tratava de uma tola excentricidade de Euclides, precisarmos entender um pouco do que estava ocorrendo no Brasil àquela época. Proclamada a República (1889), instalou-se um clima de euforia entre as elites brasileiras que decidiram fazer do país uma “nação moderna”. As nossas cidades, principalmente o Rio de Janeiro, deveriam se equiparar às “civilizadas” cidades europeias. Para isso, foram realizadas grandes obras, cortiços foram derrubados, surgiram cafeterias e docerias refinadas.

As pessoas também deveriam estar à altura desse novo Brasil e, portanto, começou uma verdadeira obsessão pela moda – os pobres ficavam proibidos de andar “em mangas de camisa” ou descalços pelo centro. Os mais abastados viviam um período de ostentação, e as colunas sociais ditavam as regras rígidas de comportamento e vestuário. Os dândis e as melindrosas passaram a dominar o cenário – fazia-se de tudo para ser chic ou smart. O lado mais perverso dessa lógica era que a maioria da população não tinha condições de comprar roupas novas, chapéus, luvas e nem mesmo sapatos. A discriminação em relação aos mais pobres – e mal vestidos para os padrões da alta sociedade – era explícita e violenta.

Bom, voltemos a Euclides da Cunha. O escritor, que foi um entusiasta do novo regime, logo se tornou um republicano desiludido com os rumos do País. Ele compreendia bem a crueldade dessa política elitista. Mesmo circulando entre pessoas poderosas – era amigo pessoal do Barão do Rio Branco –  Euclides fazia questão de enfatizar o desprezo que sentia por essa ditadura da moda, vestindo-se sempre com antiquadas roupas dos tempos imperiais. Em meio a essa loucura consumista e ostentatória que o Brasil vivia, o autor queria marcar a sua posição, e a moda foi usada como forma de expressão.

Rejeitando a moda e o chiquismo da época, Euclides da Cunha demonstrou que a maneira de se vestir pode marcar até mesmo uma posição política. 

Texto de Márcia Pinna Raspanti
Fonte: http://historiahoje.com/

12.5.14

A sujeira é nossa


Vista do Rio de Janeiro, de Nicolas-Antoine Taunay. 
O Rio de Janeiro é lindo. Sua baía, o mar, os morros, a orla, já foram cantados em prosa e verso. Mas é difícil não achá-lo sujo. Um passeio pelo belo jardim de Burle Marx, no parque do Flamengo, revela o descaso do carioca com essa que é uma das mais belas paisagens do mundo. Sacos de lixo, latas, garrafas, plásticos de todas as cores, restos de comida, casca de frutas e excrementos de cachorros compõem um insuportável patchwork de formas e odores. Mas seria a sujeira um privilégio de cariocas? Não. O problema é antigo.

Em um livro delicioso, o historiador Emanuel Araújo já revelou que, no Brasil, “a sujeira é um hábito”. Na época colonial, as Câmaras ordenavam que os moradores calçassem a testada de suas casas numa largura de cinco palmos para atenuar o efeito das chuvas tropicais que corriam dos beirais dos telhados. Os cuidados contra as copiosas ”águas” esbarravam, entretanto, no fato de que o lixo já era atirado, sem cerimônia, à rua por onde andavam, pachorrentamente, os animais domésticos.

Alexandre Ferreira, naturalista e viajante do século XVIII, chegou a registrar que, em algumas cidades da Colônia as ruas não eram capinadas para “não privar o gado da erva de que se sustentavam”. Uma série de determinações aplicadas, então, pelos vereadores, tentava dar conta da relação pouco respeitosa que os moradores tinham com sua cidade.

Em 1625 ordenava-se, em Salvador, que toda a pessoa que tivesse casa nesta cidade, onde se fizessem esterqueiras, as mandasse limpar com pena de 16 mil réis e de se lhe taparem às suas custas; e que toda a pessoa que tivesse casa que botasse cano na rua pública, o tivesse sempre limpo, com a mesma pena; e assim mais varresse suas ruas e as tivesse limpas, com pena de 2 mil réis.

As determinações, segundo Araújo, eram pouco obedecidas ou em definitivo não o eram, pois, em julho de 1692, os vereadores voltavam a reiterar as mesmas ordens de 1625. Chegava-se a pensar que “a malignidade dos ares corruptos” de Salvador devia-se ”às imundícies que de noite e de dia” se lançavam nas ruas. Padre Manoel da Nóbrega queixava-se do desprezo dos habitantes, anotando, sisudo: “Não querem bem à terra”.

Já o marquês de Lavradio notava em relatório, alguns anos depois, que os pobres escravos desembarcados no Rio de Janeiro andavam pelas ruas “cheios de moléstias e nus [...] e ali mesmo faziam tudo que a natureza lhes lembrava, não só causando o maior fétido [...] mas até sendo o espetáculo mais horroroso que se podia apresentar aos olhos”.

Andando pelas ruas de Salvador, entre 1802 e 1803, Thomas Lindley registrava em seu diário que “as ruas são apertadas, estreitas, miseravelmente pavimentadas, nunca estão limpas, apresentando-se sempre repugnantemente imundas”. Dez anos depois, outro inglês queixava-se, fleumático, “do aroma penetrante que emana de todas as fendas das ruas” ironizando que, ali, a cloaca se transformara em divindade “e seus devotos mostram-se tão sinceramente seus admiradores que as oferendas nunca são retiradas, exceto sob a influência combinada do sol, do vento e da chuva”.

Diferentemente da colonização portuguesa, os holandeses enquanto estiveram em Pernambuco exigiram um comportamento bem diferente dos cidadãos: proibiram desde que se jogasse lixo nas ruas, que os animais circulassem à solta, obrigando a varredura das ruas e o aterro destas em caso de alagamento. Algumas ruas de Recife foram pavimentadas com tijolos holandeses e, para não estragar a pavimentação, proibiu-se o tráfego de carros de boi.

Vistas pelo olhar desses argutos observadores, as cidades brasileiras pareciam não ter aprendido as lições que, segundo Gilberto Freyre, teriam sido transmitidas por nossos ancestrais indígenas: o banho frequente que escandalizava o mal-asseado europeu e toda uma liturgia sanitária e profilática que ia do uso higiênico da folha de bananeira à lavagem da rede de algodão no rio.

Limpeza do corpo não tem nada a ver com a limpeza da cidade, dirão alguns. Com razão. Portas a dentro, somos limpos. Portas afora, empurramos o lixo indesejado. No privado, asseados. No público, porcalhões. O comportamento certamente tem a ver com dissociação profunda, o quase antagonismo entre governo e povo brasileiro, que prevaleceu até bem recentemente. Um não se importando com o outro.

Texto de Mary del Priore

7.4.14

Anchieta: santo ou vilão?


A recente canonização do jesuíta espanhol, José de Anchieta (1534-1597), está envolta em polêmica. Enquanto a Igreja católica enaltece o seu trabalho como missionário que catequizou os indígenas – sempre com amor e compreensão -, outros destacam a violência deste choque cultural entre os europeus e os nativos. Conhecido como o “apóstolo do Brasil”, Anchieta foi também um dos fundadores de São Paulo. Longe de querer entrar no aspecto religioso, acho que cabem algumas reflexões sobre a respeito desta questão.

O jesuíta espanhol rapidamente aprendeu a língua tupi (geral) e escreveu a sua primeira gramática, sempre buscando adentrar no imaginário indígena para catequizá-lo, ensinando as verdades da fé. Conheceu os hábitos dos nativos para se aproximar deles com mais eficiência. Explorando os aspectos exteriores da religião católica, escreveu atos para serem representados pelos índios. Usou a música e o teatro para propagar a sua religião – que ele acreditava ser a verdadeira.

Para alcançar seu objetivo, o trabalho missionário da Companhia de Jesus, muitas vezes, usava de expedientes considerados hoje pouco éticos, inclusive a violência física. Ora, sob o ponto de vista moderno, a catequização dos índios promovida naquela época é inconcebível. Para nós, espectadores do século XXI, impor uma nova religião a um povo, destruir seus traços culturais – seus ritos, crenças e práticas – é realmente inaceitável. O que muitos esquecem, entretanto, é que Anchieta era um homem do século XVI. Um soldado da Contrarreforma, como todo jesuíta de então.

Naqueles tempos, catequizar era sinônimo de “salvar almas”. Alfredo Bosi, em “Dialética da Colonização”, afirma que Anchieta foi nosso primeiro intelectual militante e que era guiado por uma inegável boa-fé de apóstolo. Isto, porém, não diminuiu o lado perverso de sua missão. “Como nas cruzadas e nas guerras santas, (na colonização) a religião e a moral coletiva degradam-se rápida e violentamente a pura ferramenta do poder; e o que se ganha em eficiência tática perde-se em qualidade no processo de humanização”, diz Bosi.

Para explicar aos índios as “verdades da fé”, os jesuítas precisavam destruir seus “maus hábitos”, que eram associados ao demônio.  Os alvos principais eram as práticas ligadas aos rituais mágicos, que eram ricos em beberagens, fumos, transes, danças, cantos e até antropofagia. Para isso, nos conta Bosi, “o método mais eficaz não tardou a ser descoberto: generalizar o medo, o horror, já tão vivo no índio, aos espíritos malignos, e estendê-lo a todas as entidades que se manifestassem nos transes. Enfim, demonizar toda a cerimônia que abrisse caminho para a volta aos mortos”. As cerimônias religiosas indígenas eram classificadas como atos malignos e bruxarias.

Outro aspecto que deveria ser combatido era a moral indígena, muito diferente da cristã. A poligamia e o incesto foram alvo dos ataques dos jesuítas. A raiz de todos os males seria a falta de orientação e hierarquia. Muitas vezes, era preciso usar a força para levá-los ao caminho certo. “Não estão sujeitos (os índios) a nenhum rei ou chefe e só têm alguma estima por aqueles que fizeram algum feito digno de homem forte. Por isso, frequentemente, quando os julgamos ganhos, recalcitram, porque não há quem os obrigue pela força a obedecer”, dizia o próprio Anchieta.

Enfim, nem herói, nem vilão, Anchieta foi um homem de seu tempo, que tinha uma missão e acreditava nela. Lembremos que, naquela época, religião, política e economia formavam um todo indivisível. Os aspectos econômicos da colonização não sobrepujavam os outros, portanto, a propagação da fé era tão importante quanto fortalecimento econômico ou político. Santo? Não creio. Mas, os católicos que julguem este mérito, afinal, trata-se mais de uma questão de fé que de História.

José de Anchieta, canonizado no dia 2 de abril de 2014.

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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