7.4.14

Anchieta: santo ou vilão?


A recente canonização do jesuíta espanhol, José de Anchieta (1534-1597), está envolta em polêmica. Enquanto a Igreja católica enaltece o seu trabalho como missionário que catequizou os indígenas – sempre com amor e compreensão -, outros destacam a violência deste choque cultural entre os europeus e os nativos. Conhecido como o “apóstolo do Brasil”, Anchieta foi também um dos fundadores de São Paulo. Longe de querer entrar no aspecto religioso, acho que cabem algumas reflexões sobre a respeito desta questão.

O jesuíta espanhol rapidamente aprendeu a língua tupi (geral) e escreveu a sua primeira gramática, sempre buscando adentrar no imaginário indígena para catequizá-lo, ensinando as verdades da fé. Conheceu os hábitos dos nativos para se aproximar deles com mais eficiência. Explorando os aspectos exteriores da religião católica, escreveu atos para serem representados pelos índios. Usou a música e o teatro para propagar a sua religião – que ele acreditava ser a verdadeira.

Para alcançar seu objetivo, o trabalho missionário da Companhia de Jesus, muitas vezes, usava de expedientes considerados hoje pouco éticos, inclusive a violência física. Ora, sob o ponto de vista moderno, a catequização dos índios promovida naquela época é inconcebível. Para nós, espectadores do século XXI, impor uma nova religião a um povo, destruir seus traços culturais – seus ritos, crenças e práticas – é realmente inaceitável. O que muitos esquecem, entretanto, é que Anchieta era um homem do século XVI. Um soldado da Contrarreforma, como todo jesuíta de então.

Naqueles tempos, catequizar era sinônimo de “salvar almas”. Alfredo Bosi, em “Dialética da Colonização”, afirma que Anchieta foi nosso primeiro intelectual militante e que era guiado por uma inegável boa-fé de apóstolo. Isto, porém, não diminuiu o lado perverso de sua missão. “Como nas cruzadas e nas guerras santas, (na colonização) a religião e a moral coletiva degradam-se rápida e violentamente a pura ferramenta do poder; e o que se ganha em eficiência tática perde-se em qualidade no processo de humanização”, diz Bosi.

Para explicar aos índios as “verdades da fé”, os jesuítas precisavam destruir seus “maus hábitos”, que eram associados ao demônio.  Os alvos principais eram as práticas ligadas aos rituais mágicos, que eram ricos em beberagens, fumos, transes, danças, cantos e até antropofagia. Para isso, nos conta Bosi, “o método mais eficaz não tardou a ser descoberto: generalizar o medo, o horror, já tão vivo no índio, aos espíritos malignos, e estendê-lo a todas as entidades que se manifestassem nos transes. Enfim, demonizar toda a cerimônia que abrisse caminho para a volta aos mortos”. As cerimônias religiosas indígenas eram classificadas como atos malignos e bruxarias.

Outro aspecto que deveria ser combatido era a moral indígena, muito diferente da cristã. A poligamia e o incesto foram alvo dos ataques dos jesuítas. A raiz de todos os males seria a falta de orientação e hierarquia. Muitas vezes, era preciso usar a força para levá-los ao caminho certo. “Não estão sujeitos (os índios) a nenhum rei ou chefe e só têm alguma estima por aqueles que fizeram algum feito digno de homem forte. Por isso, frequentemente, quando os julgamos ganhos, recalcitram, porque não há quem os obrigue pela força a obedecer”, dizia o próprio Anchieta.

Enfim, nem herói, nem vilão, Anchieta foi um homem de seu tempo, que tinha uma missão e acreditava nela. Lembremos que, naquela época, religião, política e economia formavam um todo indivisível. Os aspectos econômicos da colonização não sobrepujavam os outros, portanto, a propagação da fé era tão importante quanto fortalecimento econômico ou político. Santo? Não creio. Mas, os católicos que julguem este mérito, afinal, trata-se mais de uma questão de fé que de História.

José de Anchieta, canonizado no dia 2 de abril de 2014.

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

16.3.14

Limpeza e sujeira


"O Banho Turco", de Jean-Auguste Ingres.
Para cada cultura e para cada diferente época, a guerra entre “limpo e sujo” desenvolveu-se de um modo específico. Na Idade Média, por exemplo, cultivavam-se as abluções completas e repetidas. Os cruzados haviam trazido do Oriente o hábito dos banhos de estufa. Esses eram lugares de alegre promiscuidade, onde os corpos eram tratados, depilados e perfumados pelas diligentes mãos do barbeiro, misturando-se à água e ao vapor. Mas o cristianismo nunca incentivou esse uso da água — basta pensar no tradicional encardido monástico —, e passou a desenvolver uma profunda desconfiança em relação aos banhos.

Desde o século XVI, o anátema da Igreja abateu-se sobre as “estufas” e os banhos, sob a alegação de que aí desenvolviam-se atitudes obscenas e condutas licenciosas. Mas os constrangimentos eram também de ordem material. Com o crescimento das cidades, aos fins do século XV, não havia água suficiente ou madeira para aquecer os banhos. Eis porque a sujeira do corpo sedentarizou-se, passando a ser familiar — mesmo entre os mais ricos e poderosos. Era preciso perfumar o corpo, mas desodorizar também a casa, as salas de baile, os salões de espetáculos. Aromas corpulentos, como o âmbar ou o almíscar, tentavam recobrir a terrível pestilência. O perfumista, homem de segredos entre o alquimista e o médico, é o grande general nessa luta olfativa. Mas será que o exagero odorífico mascarava o hálito empesteado de dentes que só de vez em quando eram visitados por palitos? Pouco. Vivia-se num contexto no qual o mau cheiro era banal.

O Castelo de Versalhes — um dos mais belos da Europa — tinha seus corredores e escadas fedendo à urina e a excrementos de seus nobres moradores. Nele, a água só tinha função decorativa na forma de lagos, fontes e repuxos nos belos jardins. Tudo para agradar os olhos, nada para o corpo. A penúria sanitária do palácio evidenciava-se nas anotações do médico de Luís XIV, quando, ao diagnosticar uma dermatite, justificava compenetrado. “O Rei só tomou um único banho em 1665, e por razões de saúde!”. No restante do tempo, aquele que ficou conhecido como o Rei-Sol limpava seu rosto em um algodão embebido em vinho branco — uma vez a cada dois dias.

Versalhes possuía em seu mobiliário um total de 274 ”chaises-percées”, ou seja, lindas poltronas em madeira entalhada e dourada, cujo assento clava passagem a um penico estrategicamente colocado. No rol de roupas haviam os chamados “acessórios de comodidade” (que tinham a função do nosso papel higiênico). O de Madame du Barry eram de renda. Os de Richelieu, de linho; os de Madame de Maintenon, de fina lã. Os pobres faziam como os antigos gregos, servindo-se de plantas e pedras. A burguesia utilizava-se de estopas. Apenas sob o reinado de Luís XVI, na segunda metade do século XVIII, será construído um verdadeiro “gabinete de bem-estar” em mármore, porcelana e mogno. 

Fonte: Mary del Priore - "Histórias do Cotidiano".

22.2.14

Os sapatos na mira da Revolução Francesa


A Revolução Francesa (1789) teve efeitos também na moda da Europa: linhas mais simples, vestidos tipo império e inspiração na tradição greco-romana – até os cabelos se tornaram mais curtos com a onda anti-monárquica e anti-nobreza. Ainda mais interessante é o efeito das ideias revolucionárias nos calçados femininos e masculinos.

A proposta era se vestir de maneira mais despojada e sem luxo (já vimos como isto durou pouco) e os saltos altos passaram a ser mal vistos pelos revolucionários. A moda na corte de Maria Antonieta era usar sapatos ricamente ornamentados com bordados e pedrarias, sempre com saltos altíssimos, tanto para mulheres quanto para homens (estes usavam saltos um pouco mais discretos). Com a Revolução, os sapatos se tornaram menos enfeitados, mais sóbrios, e os saltos abaixaram muito. Algumas mulheres usavam um saltinho de poucos centímetros, só para não perder o hábito.

Maria Antonieta, por exemplo, foi decapitada usando um modelo de salto modesto e sem detalhes – muito diferente dos modelos extravagantes que escolhia nos seus tempos de rainha. Como ninguém queria perder a cabeça, as damas e cavalheiros abriram mão dos calçados mais glamorosos. E este modismo não ficou só na França, os ingleses e italianos também aderiram e desceram dos saltos – como dizemos hoje.

Publicado em 22 de fevereiro de 2014 por Márcia Pinna Raspanti


3.11.13

A origem dos bairros cariocas


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