1.3.15

Viva o Rio de Janeiro!


Cuja história não se resume somente a Zona Sul, mas que tem uma Zona Oeste e uma Zona Norte com uma história incrível e que também precisa ser lembrada. Viva Santa Cruz, Campo Grande, Bangu, Sepetiba, Realengo, Cascadura, Marechal Hermes, Grajaú, Vila Isabel e todos os outros bairros cariocas desta cidade que tem problemas, mas que sempre será maravilhosa!

3.2.15

Quando o Império morreu de sede


Em tempos de crise hídrica ... Aqui temos uma bela história que mostra a incompetência de muitos dos nossos administradores e nos traz a realidade dos dias atuais.

Em 1889, uma grave crise hídrica só foi resolvida com a mobilização do povo, uma imprensa combativa e a habilidade de um jovem engenheiro. Pouco mais de seis meses depois o Império brasileiro cairia, efeito de um movimento de militares descontentes e republicanos conspiradores. Mas suas engrenagens ineficazes já haviam sido expostas ao público por um desconhecido engenheiro e 17 milhões de litros de água. Tudo isso aconteceu em apenas seis dias.


31.12.14

Feliz Ano Novo! Mais respeito para todos nós.


Época de correria, o final do ano deixa pouco tempo para balanços. Eles deveriam, contudo, ser obrigatórios. Há poucos momentos de passagem tão simbólicos, quanto este que nos leva de um decimal ao outro. Momento em que, ao som de fogos, separamos o joio do trigo. Em que, pé direito no chão e uvas verdes na boca, fazemos opções, promessas e tomamos decisões. Se tivesse que escolher uma palavra para botar no meu balanço escolheria uma: respeito. É o que quero para mim e para todos. O que desejo para o país. E, por que não, para o mundo.

Muito tem se falado em dignidade, transparência e esperança no próximo ano. Mas, eu gostaria de incluir respeito. Esse conceito discreto, distante que se mistura com estima e deferência. Respeito, uma virtude? Só se seu objeto for digno. Isto, pois existe uma forma de respeito feita de conformismo e submissão às hierarquias que nasce, simplesmente, do adestramento. Quando se trata de justificar uma obediência sem discussão, sem reflexão, o respeito é uma porta aberta para a irresponsabilidade. Não falo disso. Lembro, ao contrário, da noção de respeito como uma tomada de consciência que me faz “reconhecer a humanidade na pessoa do Outro, assim, como a reconheço em mim”, como diria o filósofo Kant. E isto, porque a reciprocidade parece ser uma parte essencial do sentimento de respeito. E este sentimento é retenção, suspensão do ato violento, blasfematório ou destruidor. Ele impõe, silenciosamente e por um gesto tácito, limites.

Neste novo ano, gostaria de dizer basta à desvalorização do respeito dentro de nossa vida cotidiana. Voltar a respeitar o outro, a palavra dada, o silêncio dos celulares, a vaga na garagem e as pessoas em fila para respeitar-se a si mesmo. Para respeitar os direitos e a dignidade de cada um. Para respeitar a diferença, a verdade, a lei. O respeito tem a ver com direito, mas, também, com gente, animais, coisas, natureza, arte, o que é bom, o que é santo, o que é sagrado.

Colocar esta palavra no balanço é tão mais importante quanto vivemos, mais e mais, em sociedades que reduziram pessoas à funções, substituídas quando não servem mais. É preciso, pois, redescobrir este sentimento indispensável para que possamos viver juntos. Lembrar sua necessidade existencial e sua fragilidade. Vamos entrar este ano com respeito.

Texto de Mary del Priore.

11.10.14

A idade do ouro e do contrabando


Infestado de aventureiros, o Brasil respondia pela metade da produção mundial do minério no século 18.

Trezentos anos atrás, quem estivesse em busca de aventura e fortuna tinha o Brasil como destino certo. No fim do século 17, a descoberta de ouro e diamante nos aluviões e contrafortes de Minas Gerais sacudiu o marasmo da colônia portuguesa, até então imersa por quase 200 anos na sonolência dos trópicos, e a transformou de repente numa serra Pelada de dimensões continentais. Poucos lugares no mundo foram tão agitados e perigosos nesse período quanto o interior brasileiro.

A data e o local da descoberta do primeiro filão de ouro no Brasil são desconhecidos. O mais provável é que tenha ocorrido entre 1693 e 1695, por aventureiros paulistas que andavam à procura de índios para escravizar na região onde hoje estão as cidades de São João Del Rei e Tiradentes. Pouco tempo depois, em 1697, a notícia já tinha corrido o mundo e aparecia nos relatórios que o governador do Rio de Janeiro enviava à coroa, em Lisboa, nos quais dizia que os garimpos “se estendem de tal modo ao longo do sopé de uma cadeia montanhosa que os mineiros são levados a crer que o ouro nessa região dure uma grande quantidade de tempo”.

O governador tinha razão. A região compreendida por Minas Gerais e as províncias vizinhas de Goiás e Mato Grosso, exploradas alguns anos mais tarde, era tão rica em ouro que, de 1700 a 1750, respondeu por metade da produção mundial desse minério. O primeiro carregamento de ouro do Brasil chegou a Lisboa em 1699. Levava meia tonelada. A quantidade foi aumentando até chegar a 25 toneladas em 1720. No total, estima-se que entre mil e 3 mil toneladas de ouro foram levadas à capital do império.

O historiador Tobias Monteiro (1866-1952) estimou que só de Minas Gerais foram despachadas para Portugal cerca de 535 toneladas de ouro entre 1695 e 1817, no valor de 54 milhões de libras esterlinas da época, ou cerca de 12 bilhões de reais corrigidos em 2008. Outros 150 mil quilos de ouro teriam sido contrabandeados no mesmo período, no cálculo de Monteiro. Em 1729, o fluxo de riquezas para a metrópole aumentou ainda mais com a descoberta das jazidas de diamante na colônia. O historiador Pandiá Calógeras (1870-1934) avaliou em 3 milhões de quilates, ou 615 quilos, o total de diamantes extraído no Brasil de meados do século 18 ao começo do século 19.

Como resultado da descoberta de ouro e pedras preciosas, a população da colônia passou de 300 mil para 3 milhões de habitantes em menos de um século. Foi a primeira grande onda migratória para o interior brasileiro. Só de Portugal, entre meio milhão e 800 mil pessoas mudaram-se para o Brasil de 1700 a 1800. Vinha gente de todo lado, “vagabundos e desordeiros, sendo a maioria deles da classe baixa e imorais”, afirmou o governador da Bahia em 1701. Outra testemunha, um padre jesuíta, relatou: “Todos os anos, multidões de portugueses e estrangeiros chegam nas frotas para partir para as minas. Das cidades, vilas, plantações e interior do Brasil vêm brancos, mestiços e negros juntamente com muitos ameríndios contratados pelos paulistas”.

Num cenário como esse, as confusões eram inevitáveis. A primeira, e mais importante, ficou conhecida como a Guerra dos Emboadas, na qual um grupo de paulistas foi massacrado, em 1709, por portugueses que vinham da Bahia e do interior de Minas Gerais. Em 1720, uma revolta contra o governador de Vila Rica teve de ser duramente reprimida pela coroa. A tensão continuaria até bem depois de esgotada a capacidade de produção das minas e resultaria na Inconfidência Mineira, de 1792.

No auge da prosperidade, Vila Rica chegou a ser a maior cidade do Brasil, com 100 mil habitantes. O geólogo alemão Von Eschwege (1777-1855) contabilizou que no começo do século 19 ainda havia na colônia 555 minas de ouro e diamantes, que empregavam 6662 trabalhadores, dos quais 6493 eram escravos. A terra foi devastada pela atividade mineradora. “Por todos os lados, tínhamos sob os olhos os vestígios aflitivos das lavagens, vastas extensões de terra revolvida e montes de cascalho”, descreveu o botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) ao percorrer o interior de Minas Gerais. “Tanto quanto a vista alcança, está a terra toda revirada por mãos humanas, de tanto que o sonhado lucro excitou o desejo de trabalhar.”

O controle sobre a mineração era rigoroso. Uma lei de 1733 proibia a abertura de estradas como forma de combater o contrabando, facilitando a fiscalização por parte dos funcionários portugueses. O ouro devia ser entregue às casas autorizadas de fundição de cada distrito, onde se cobravam os direitos da coroa. Um quinto, ou seja, 20% do minério em pó era reservado ao rei. Outros 18% eram pagos às casas de cunhagem. O restante ficava com os garimpeiros na forma de barras marcadas com seu peso, quilate, número e as armas do rei, além de um certificado que lhe permitia entrar em circulação.

Para facilitar o comércio, autorizava-se também a circulação de ouro em pó, em pequenas quantidades, usadas em pagamentos nas compras do dia-a-dia. Além do controle feito nas casas de fundições, havia postos de vigilância nas estradas, especialmente entre as minas e o litoral, onde uma guarnição militar tinha autorização para revistar qualquer pessoa. A punição para os contrabandistas era drástica: prisão, confisco de todos os bens e deportação para a África.

O contrabando dominava boa parte do comércio da colônia, apesar das tentativas de combatê-lo. O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) calculou em 40% o total do ouro desviado de forma ilegal. Metais e pedras preciosas escoavam pelo rio da Prata rumo a Buenos Aires. Curiosamente, a mesma região, na fronteira com o Paraguai, ainda convive com o contrabando. A diferença é que agora por ali circulam clandestinamente pacotes de cigarros, artigos eletrônicos e bugigangas chinesas.

Texto de Laurentino Gomes

Saiba mais  nos livros:

Formação Histórica do Brasil, João Pandiá Calógeras, Companhia Editora Nacional, 1957. Livro que analisa a trajetória brasileira desde os tempos do Brasil Colônia.

A Idade de Ouro do Brasil, Charles R. Boxer, Companhia Editora Nacional. Livro onde um militar e erudito britânico descreve a época da mineração.

O Império Marítimo Português (1415-1825), Charles R. Boxer, Lisboa: Edições 70, 1969. Obra clássica que explica a formação do império português.

16.9.14

A Sabinada e o revolucionário “fanchono”

Igreja do Hospício de Nossa Senhora da Piedade da Bahia, litogravura de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) que mostra parte do cenário da Sabinada.
Passada a empolgação resultante da proclamação da Independência, em 1822, as turbulências políticas tomaram conta do jovem Império. A década de 30 foi muito agitada e a Bahia foi palco de diversos movimentos importantes. Em 1835, por exemplo, houve a Revolta dos Malês que reuniu cerca de 1.000 escravos muçulmanos no Terreiro de Jesus. Discutia-se por toda a parte o regime republicano, o federalismo a descentralização do poder imperial como alternativa para os primeiros sinais de fraqueza da economia açucareira. Na Bahia circulavam, então, perto de 60 jornais. E seus assuntos? A frustração causada pelo 7 de setembro que não trouxe mudanças. A Independência do Brasil não aumentou o prestígio da província e acumulavam-se queixas que diziam respeito aos impostos, ao mau abastecimento, à fome ou aos baixos salários da milícia.

Entre 1837 e 1838, ocorreu o movimento que ficaria conhecido como Sabinada, que buscava maior autonomia política à província. O líder desta revolta chama a atenção: Francisco Sabino Vieira era mulato de olhos claros, bonito, eloquente, médico e jornalista. Possuía uma grande biblioteca e mania de “francesias”. Era culto e letrado. Mas também “servia-se de homem como se fora mulher” e foi acusado de matar a esposa. Com uma tal ficha, qual senhor de engenho gostaria de ser governado pelo fanchono (como eram chamados os homossexuais) do Doutor Sabino?

Nenhum, mas ele bem que tentou fundar uma República baianense. Em seu Novo Diário da Bahia, Sabino não cessava de repetir que “vão assim os negócios do Brasil em tão grande desmantelação pela falta de ingerência do povo nas coisas públicas”. Não queria mais sustentar a Corte, no Rio de Janeiro. A Bahia tinha que se desligar do governo central e organizar uma assembleia constituinte. O ponto de partida foi à revolta do corpo de artilharia lotado no Forte São Pedro. O pior é que as tropas do governo encarregadas de suprimir o levante aderiram ao mesmo, na Praça da Piedade. A Câmara Municipal foi invadida e ocupada por populares. As famílias tradicionais, os barões de cana, e até o chefe de polícia, fugiram da cidade.

O temor era de que ocorresse aqui, o que houve no Haiti: “Encontramos uma circular pedindo aos negros que se revoltem pela São Tomé. Os negros que copiaram não sei quantas vezes a carta de Abadamolu foram colocados na prisão”. Interrogatório de um negro e de negras de Abadamolu”- diziam os jornais. Mistério e medo cercavam o nome. Salvador se paralisara e tinha cerca de cinco mil pessoas envolvidas no movimento. Bandoleiros proclamavam, pelas ruas, as determinações da nova administração. E, durante os quatro meses subsequentes, a capital da província ficou desligada da sede do império. O belo Sabino sabia, contudo, que a reação legalista viria mais cedo ou mais tarde. E ele veio do mesmo lugar de sempre: o Recôncavo. De engenho em engenho, o chefe de polícia ia recolhendo adesões e apoio, armas e homens. Ainda em novembro, um barco de guerra começou a patrulhar a Baía de Todos os Santos, desviando de Salvador os gêneros de primeira necessidade. Os reforços do império, dinheiro, armas e soldados, seguiam direto para Cachoeira, próxima a Santo Amaro.

Com todo este movimento na cidade, o cotidiano dos engenhos não foi abalado. Os escravos mourejavam e junto com seus senhores festejaram o Natal e dançaram os pastorinhos na festa dos Reis Magos. Não faltaram alimentos e tudo correu normalmente até fins de fevereiro. Ouvia-se, então, falar em deserções em massa, enquanto dezenas de pessoas fugiam da capital. Em Pirajá, o exército legalista somava 4.000 homens, enquanto Sabino via da janela do palácio do governo, dezesseis navios cercando a capital. A batalha final não tardaria.

Durante dois dias, 13 e 14 de março, o exército legalista esmagou as posições rebeldes. O confronto, ficou se sabendo depois, foi cruel. Vencedores e vencidos ateavam fogo às casas. Para dentro delas, se lançavam os perdedores. Rebeldes foram caçados e fuzilados, mesmo tendo depositado as armas. No dia 15, o Forte São Pedro foi cercado. Às seis da tarde, a bandeira branca da rendição tremulava ao vento. A batalha terminava com 1.258 mortos, 160 casas queimadas e 2.298 presos políticos.

Sabino é condenado à morte, mas D. Pedro II sobe ao trono, recém coroado, anistiou os presos políticos, mandando-os para regiões distantes. Sabino Viera ficaria exilado em Cuiabá, tornando-se amigo do Coronel João Carlos Pereira Leite, seu protetor. Praticou a medicina até morrer em 1846.

Texto de Márcia Pinna Raspanti (baseado em “Barral – a Paixão do Imperador”, de Mary del Priore).
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