11.10.14

A idade do ouro e do contrabando


Infestado de aventureiros, o Brasil respondia pela metade da produção mundial do minério no século 18.

Trezentos anos atrás, quem estivesse em busca de aventura e fortuna tinha o Brasil como destino certo. No fim do século 17, a descoberta de ouro e diamante nos aluviões e contrafortes de Minas Gerais sacudiu o marasmo da colônia portuguesa, até então imersa por quase 200 anos na sonolência dos trópicos, e a transformou de repente numa serra Pelada de dimensões continentais. Poucos lugares no mundo foram tão agitados e perigosos nesse período quanto o interior brasileiro.

A data e o local da descoberta do primeiro filão de ouro no Brasil são desconhecidos. O mais provável é que tenha ocorrido entre 1693 e 1695, por aventureiros paulistas que andavam à procura de índios para escravizar na região onde hoje estão as cidades de São João Del Rei e Tiradentes. Pouco tempo depois, em 1697, a notícia já tinha corrido o mundo e aparecia nos relatórios que o governador do Rio de Janeiro enviava à coroa, em Lisboa, nos quais dizia que os garimpos “se estendem de tal modo ao longo do sopé de uma cadeia montanhosa que os mineiros são levados a crer que o ouro nessa região dure uma grande quantidade de tempo”.

O governador tinha razão. A região compreendida por Minas Gerais e as províncias vizinhas de Goiás e Mato Grosso, exploradas alguns anos mais tarde, era tão rica em ouro que, de 1700 a 1750, respondeu por metade da produção mundial desse minério. O primeiro carregamento de ouro do Brasil chegou a Lisboa em 1699. Levava meia tonelada. A quantidade foi aumentando até chegar a 25 toneladas em 1720. No total, estima-se que entre mil e 3 mil toneladas de ouro foram levadas à capital do império.

O historiador Tobias Monteiro (1866-1952) estimou que só de Minas Gerais foram despachadas para Portugal cerca de 535 toneladas de ouro entre 1695 e 1817, no valor de 54 milhões de libras esterlinas da época, ou cerca de 12 bilhões de reais corrigidos em 2008. Outros 150 mil quilos de ouro teriam sido contrabandeados no mesmo período, no cálculo de Monteiro. Em 1729, o fluxo de riquezas para a metrópole aumentou ainda mais com a descoberta das jazidas de diamante na colônia. O historiador Pandiá Calógeras (1870-1934) avaliou em 3 milhões de quilates, ou 615 quilos, o total de diamantes extraído no Brasil de meados do século 18 ao começo do século 19.

Como resultado da descoberta de ouro e pedras preciosas, a população da colônia passou de 300 mil para 3 milhões de habitantes em menos de um século. Foi a primeira grande onda migratória para o interior brasileiro. Só de Portugal, entre meio milhão e 800 mil pessoas mudaram-se para o Brasil de 1700 a 1800. Vinha gente de todo lado, “vagabundos e desordeiros, sendo a maioria deles da classe baixa e imorais”, afirmou o governador da Bahia em 1701. Outra testemunha, um padre jesuíta, relatou: “Todos os anos, multidões de portugueses e estrangeiros chegam nas frotas para partir para as minas. Das cidades, vilas, plantações e interior do Brasil vêm brancos, mestiços e negros juntamente com muitos ameríndios contratados pelos paulistas”.

Num cenário como esse, as confusões eram inevitáveis. A primeira, e mais importante, ficou conhecida como a Guerra dos Emboadas, na qual um grupo de paulistas foi massacrado, em 1709, por portugueses que vinham da Bahia e do interior de Minas Gerais. Em 1720, uma revolta contra o governador de Vila Rica teve de ser duramente reprimida pela coroa. A tensão continuaria até bem depois de esgotada a capacidade de produção das minas e resultaria na Inconfidência Mineira, de 1792.

No auge da prosperidade, Vila Rica chegou a ser a maior cidade do Brasil, com 100 mil habitantes. O geólogo alemão Von Eschwege (1777-1855) contabilizou que no começo do século 19 ainda havia na colônia 555 minas de ouro e diamantes, que empregavam 6662 trabalhadores, dos quais 6493 eram escravos. A terra foi devastada pela atividade mineradora. “Por todos os lados, tínhamos sob os olhos os vestígios aflitivos das lavagens, vastas extensões de terra revolvida e montes de cascalho”, descreveu o botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) ao percorrer o interior de Minas Gerais. “Tanto quanto a vista alcança, está a terra toda revirada por mãos humanas, de tanto que o sonhado lucro excitou o desejo de trabalhar.”

O controle sobre a mineração era rigoroso. Uma lei de 1733 proibia a abertura de estradas como forma de combater o contrabando, facilitando a fiscalização por parte dos funcionários portugueses. O ouro devia ser entregue às casas autorizadas de fundição de cada distrito, onde se cobravam os direitos da coroa. Um quinto, ou seja, 20% do minério em pó era reservado ao rei. Outros 18% eram pagos às casas de cunhagem. O restante ficava com os garimpeiros na forma de barras marcadas com seu peso, quilate, número e as armas do rei, além de um certificado que lhe permitia entrar em circulação.

Para facilitar o comércio, autorizava-se também a circulação de ouro em pó, em pequenas quantidades, usadas em pagamentos nas compras do dia-a-dia. Além do controle feito nas casas de fundições, havia postos de vigilância nas estradas, especialmente entre as minas e o litoral, onde uma guarnição militar tinha autorização para revistar qualquer pessoa. A punição para os contrabandistas era drástica: prisão, confisco de todos os bens e deportação para a África.

O contrabando dominava boa parte do comércio da colônia, apesar das tentativas de combatê-lo. O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) calculou em 40% o total do ouro desviado de forma ilegal. Metais e pedras preciosas escoavam pelo rio da Prata rumo a Buenos Aires. Curiosamente, a mesma região, na fronteira com o Paraguai, ainda convive com o contrabando. A diferença é que agora por ali circulam clandestinamente pacotes de cigarros, artigos eletrônicos e bugigangas chinesas.

Texto de Laurentino Gomes

Saiba mais  nos livros:

Formação Histórica do Brasil, João Pandiá Calógeras, Companhia Editora Nacional, 1957. Livro que analisa a trajetória brasileira desde os tempos do Brasil Colônia.

A Idade de Ouro do Brasil, Charles R. Boxer, Companhia Editora Nacional. Livro onde um militar e erudito britânico descreve a época da mineração.

O Império Marítimo Português (1415-1825), Charles R. Boxer, Lisboa: Edições 70, 1969. Obra clássica que explica a formação do império português.

16.9.14

A Sabinada e o revolucionário “fanchono”

Igreja do Hospício de Nossa Senhora da Piedade da Bahia, litogravura de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) que mostra parte do cenário da Sabinada.
Passada a empolgação resultante da proclamação da Independência, em 1822, as turbulências políticas tomaram conta do jovem Império. A década de 30 foi muito agitada e a Bahia foi palco de diversos movimentos importantes. Em 1835, por exemplo, houve a Revolta dos Malês que reuniu cerca de 1.000 escravos muçulmanos no Terreiro de Jesus. Discutia-se por toda a parte o regime republicano, o federalismo a descentralização do poder imperial como alternativa para os primeiros sinais de fraqueza da economia açucareira. Na Bahia circulavam, então, perto de 60 jornais. E seus assuntos? A frustração causada pelo 7 de setembro que não trouxe mudanças. A Independência do Brasil não aumentou o prestígio da província e acumulavam-se queixas que diziam respeito aos impostos, ao mau abastecimento, à fome ou aos baixos salários da milícia.

Entre 1837 e 1838, ocorreu o movimento que ficaria conhecido como Sabinada, que buscava maior autonomia política à província. O líder desta revolta chama a atenção: Francisco Sabino Vieira era mulato de olhos claros, bonito, eloquente, médico e jornalista. Possuía uma grande biblioteca e mania de “francesias”. Era culto e letrado. Mas também “servia-se de homem como se fora mulher” e foi acusado de matar a esposa. Com uma tal ficha, qual senhor de engenho gostaria de ser governado pelo fanchono (como eram chamados os homossexuais) do Doutor Sabino?

Nenhum, mas ele bem que tentou fundar uma República baianense. Em seu Novo Diário da Bahia, Sabino não cessava de repetir que “vão assim os negócios do Brasil em tão grande desmantelação pela falta de ingerência do povo nas coisas públicas”. Não queria mais sustentar a Corte, no Rio de Janeiro. A Bahia tinha que se desligar do governo central e organizar uma assembleia constituinte. O ponto de partida foi à revolta do corpo de artilharia lotado no Forte São Pedro. O pior é que as tropas do governo encarregadas de suprimir o levante aderiram ao mesmo, na Praça da Piedade. A Câmara Municipal foi invadida e ocupada por populares. As famílias tradicionais, os barões de cana, e até o chefe de polícia, fugiram da cidade.

O temor era de que ocorresse aqui, o que houve no Haiti: “Encontramos uma circular pedindo aos negros que se revoltem pela São Tomé. Os negros que copiaram não sei quantas vezes a carta de Abadamolu foram colocados na prisão”. Interrogatório de um negro e de negras de Abadamolu”- diziam os jornais. Mistério e medo cercavam o nome. Salvador se paralisara e tinha cerca de cinco mil pessoas envolvidas no movimento. Bandoleiros proclamavam, pelas ruas, as determinações da nova administração. E, durante os quatro meses subsequentes, a capital da província ficou desligada da sede do império. O belo Sabino sabia, contudo, que a reação legalista viria mais cedo ou mais tarde. E ele veio do mesmo lugar de sempre: o Recôncavo. De engenho em engenho, o chefe de polícia ia recolhendo adesões e apoio, armas e homens. Ainda em novembro, um barco de guerra começou a patrulhar a Baía de Todos os Santos, desviando de Salvador os gêneros de primeira necessidade. Os reforços do império, dinheiro, armas e soldados, seguiam direto para Cachoeira, próxima a Santo Amaro.

Com todo este movimento na cidade, o cotidiano dos engenhos não foi abalado. Os escravos mourejavam e junto com seus senhores festejaram o Natal e dançaram os pastorinhos na festa dos Reis Magos. Não faltaram alimentos e tudo correu normalmente até fins de fevereiro. Ouvia-se, então, falar em deserções em massa, enquanto dezenas de pessoas fugiam da capital. Em Pirajá, o exército legalista somava 4.000 homens, enquanto Sabino via da janela do palácio do governo, dezesseis navios cercando a capital. A batalha final não tardaria.

Durante dois dias, 13 e 14 de março, o exército legalista esmagou as posições rebeldes. O confronto, ficou se sabendo depois, foi cruel. Vencedores e vencidos ateavam fogo às casas. Para dentro delas, se lançavam os perdedores. Rebeldes foram caçados e fuzilados, mesmo tendo depositado as armas. No dia 15, o Forte São Pedro foi cercado. Às seis da tarde, a bandeira branca da rendição tremulava ao vento. A batalha terminava com 1.258 mortos, 160 casas queimadas e 2.298 presos políticos.

Sabino é condenado à morte, mas D. Pedro II sobe ao trono, recém coroado, anistiou os presos políticos, mandando-os para regiões distantes. Sabino Viera ficaria exilado em Cuiabá, tornando-se amigo do Coronel João Carlos Pereira Leite, seu protetor. Praticou a medicina até morrer em 1846.

Texto de Márcia Pinna Raspanti (baseado em “Barral – a Paixão do Imperador”, de Mary del Priore).

27.8.14

Na hora do parto: rezas, ervas e dor


Duzentos e setenta dias: desde sempre, hora do parto. Sinais? Pingos de sangue e as primeiras dores – nos livros de médicos do século XVI ao XX, chamadas de “puxos”. No interior, até bem pouco tempo atrás, era a “perrengada”, o “despacho” ou o “rodiadô”, quando as mulheres davam à luz em casa. Era comum a gestante fechar-se no quarto, portas e janelas cerradas, somente avós, tias e vizinhas no recinto. Daí a pouco um choro anunciava a chegada de mais um membro da família. Atualmente, as cesarianas deram lugar aos partos normais. O número aumentou tanto que, no final dos anos 1990, o governo federal destinou a elas apenas 40% das verbas totais para partos em hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

E em casa? Pesquisas revelam que, até o final da década de 1990, técnicas, posições, rezas e beberagens usadas para facilitar o parto em domicílio não sofreram grandes mudanças. Banquinhos baixos, gamelas, o colo do marido ou de uma mulher forte, cordas passadas por portas e traves em que as gestantes se penduravam, parto de cócoras, de joelhos, de pé com as pernas abertas e fletidas – enfim, desde a noite dos tempos, não houve variações nas posições em que se dá à luz.

Em áreas rurais, no lugar de remédios de farmácia, partes untadas com azeite de mamona ou gordura de animais e beberagens e banhos para diminuir a dor são ministrados tal como no passado. A erva-de-são-joão faz parte da receita analgésica desde tempos imemoriais. Arruda e picão, também. O chá de cordão-de-frade e agripalma, ainda hoje ingeridos, são analgésicos registrados desde o século XVIII. Patuás sob os colchões e orações a santa Margarida e a Nossa Senhora do Parto também existem desde o século XVI: “Minha Santa Margarida, não estou prenhe nem parida, bote-me no rol de sua escolhida”! Vestir roupa masculina, para “despachar mais rápido”, é tradição portuguesa que vigora desde o século XVIII: “vestir a ceroula do marido e ao mesmo tempo o chapéu na cabeça da mulher às avessas” – a autoridade masculina se faz presente para atenuar as dores da mulher; do homem depende o bem-estar dela.

Para expulsar a placenta? Ingerir três grãos de feijão. Depois, é preciso juntar a “mãe do corpo”, ou seja, “os ovários, o útero, tudo o que a mulher usa para reproduzir”, explica uma parteira. Parteiras no interior falam com a “mãe do corpo”: “Eu coloco o dedo no umbigo e aperto, quando ela não bate ou bate fraquinho é porque a mulher está doente”. O remédio é a massagem com óleo de andiroba, cânfora ou azeite.

Retrato fiel dos partos em casa, em pleno século XX, deixou-nos o grande escritor Autran Dourado. Em Ópera dos mortos, assim ele descreveu o de Rosalina, seu personagem principal:

“Ôi, agora veio forte demais da conta. Morde o pano, minha filha que você corta os beiços, a língua, se machuca. Isto, segura na cama, faz força. É bom já ir fazendo força para ver se ele sai. Passou, ainda não está na vez. Ela agora está fungando que nem um cachorrinho, aprendeu. De todo o jeito sai. Bem que ajuda. A pele esticadinha que nem um tambor. Rataplã. A gente pode ver ele se mexendo lá dentro. Ali, os pés estufados que nem um ovo na barriga, dando cutucão. Ele se vira e revira. Igual um bacorinho num saco [...] oi, agora a coisa vem vindo. Isto, força! Agarra na cama! Força! Lá vem ele apontando só falta um tiquinho, aguenta. Um tiquinho só e pronto. Veio! Amarelo, da mesma cor do barro tabatinga”. 

Os saberes tradicionais ainda interessam à parturientes e aos médicos, e, hoje, especialistas reconhecem a contribuição das parteiras na defesa do parto normal, que arregimenta cada vez mais defensores.

Texto de Mary del Priore

14.8.14

Tristeza: morre Nicolau Sevcenko


A notícia da morte de Nicolau Sevcenko, aos 61 anos, foi um choque para nós. Fui aluna dele na USP e tive a oportunidade de assistir à defesa de sua livre-docência, em 1992, sob o título “Orfeu Extático na Metrópole: os frementes anos 20″. Além de um grande historiador, Nicolau era um excelente professor, sempre disposto ouvir seus alunos. Um de meus livros preferidos de História do Brasil é “Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República”. Segue um pequeno texto meu, baseado nesta obra, em que o historiador nos dá um panorama da sociedade do Rio de Janeiro, pós-Império. É apenas uma pincelada de suas ideias, vale a pena conhecer suas obras. 

A República era identificada com um projeto de modernização do País: rejeitava-se tudo que era relacionado ao regime anterior como sendo arcaico e retrógrado. 

O Rio de Janeiro era o centro da nova ordem econômica e política: a capital era o maior núcleo da rede ferroviária nacional, ligando-se ao centro produtor de café do Oeste Paulista e outros importantes estados fornecedores de produtos agropecuários, além de manter o comércio de cabotagem com os estados do Norte e Nordeste.

Em “Literatura como Missão”, Nicolau Sevcenko descreve o ambiente efervescente da capital, que passava por um processo de remodelagem urbana e social. Era preciso varrer para longe das vistas tudo o que fosse feio, velho, sujo e pobre. Grandes avenidas, edificações e monumentos foram erguidos. Os moradores dos cortiços eram escorraçados para a periferia. O Rio de Janeiro deveria se modernizar a qualquer custo, seguindo o modelo de Paris. A Campanha da Regeneração da cidade, levada à frente pelo prefeito Pereira Passos, e a campanha de vacinação de Oswaldo Cruz, que resultou na Revolta da Vacina (1904), mostram bem a essência deste novo projeto civilizador.

Os novos donos do poder queriam deixar suas marcas na cidade, destruindo tudo que lembrasse a cultura popular e os hábitos considerados antiquados. A campanha para tornar a cidade mais civilizada chegou a excessos que beiram o absurdo, como a criação de uma lei que obrigava os cidadãos a usar paletó e a vestir sapatos para circular pela região central da cidade. Quem fosse pego descalço ou “em mangas-de-camisa” poderia ser preso, o que, de fato, chegou a ocorrer, já que o projeto passou em segunda discussão no Conselho Municipal.

O consumismo, segundo o historiador, tornou-se parte do cotidiano das camadas mais abastadas, para as quais era fundamental adquirir as últimas novidades vindas da Europa. No início do século XX, a moda era uma obsessão entre a elite carioca. Todos sonhavam em ser chic ou smart, ou seja, desfilar com as vestimentas e os acessórios da última moda. As colunas sociais começavam a ditar as normas de vestuário e de comportamento para a mais fina sociedade. A Rua do Ouvidor era o maior centro do comércio sofisticado, oferecendo os artigos importados mais cobiçados. Logo, as tradicionais sobrecasaca e cartola pretas, símbolos da sociedade patriarcal e aristocrática do Império, foram substituídas pelo paletó de casimira clara e o chapéu de palha.

A mentalidade que dominava certas parcelas da população na época caracterizava-se pelo “desejo de ser estrangeiro”.  O gosto do brasileiro deveria ser melhorado tendo como modelo a Europa, portanto, tudo o que fosse tipicamente brasileiro e popular era considerado de mau gosto. Até o Carnaval deveria deixar de lado as fantasias de índio e de cobra viva, para ser povoado por pierrôs, colombinas e arlequins. De acordo com Sevcenko, a moda foi a única tentativa de aprimoramento dos hábitos sociais do brasileiro que realmente foi consolidada com sucesso. Para o historiador, isto é explicado pela formação de um mercado de tecidos, roupas e acessórios na Belle Époque, que se baseava no aproveitamento dos estoques europeus no fim das estações para os consumidores do hemisfério sul. – Márcia Pinna Raspanti.

Obras de Nicolau Sevcenko:

“A Revolta da Vacina” (1983, ed. Brasiliense)
“Orfeu Extático na Metrópole” (1992, ed. Companhia das Letras)
“Literatura como Missão: Tensões Sociais e Criação Cultural na 1ª República” (1995, ed. Brasiliense)
“História da Vida Privada no Brasil (Volume 3)” (1998, ed. Companhia das Letras, organizador)
“A Corrida para o Século 21″ (2001, ed. Companhia das Letras)

16.6.14

Globalização gastronômica


As grandes navegações mexeram no cardápio da humanidade

Nos séculos 15 e 16, os aventureiros europeus tinham um ótimo motivo para arriscar a vida no mar: muito dinheiro. As novas rotas comerciais, abertas com as viagens de descobrimento em direção ao Sudeste Asiático e às Américas, garantiam fortunas com a venda de especiarias, condimentos que melhoravam o gosto da comida e garantiam sua preservação. O que os exploradores e comerciantes não sabiam é que, além de cravo, noz-moscada, pimenta e gengibre, eles encontrariam uma série de outros sabores. Por sua vez, os moradores dos lugares ocupados não conheciam muitas das comidas trazidas nas embarcações. Começava assim uma verdadeira revolução gastronômica. "Pela primeira vez, todos os povos da Terra entravam em contato, abrindo um intercâmbio generalizado dos gêneros de todos os continentes", afirma o professor de história da Universidade de São Paulo, Henrique Carneiro, no livro Comida e Sociedade – Uma História da Alimentação. 

VAIVÉM DE SABORES
A origem e o destino dos principais alimentos

PIMENTÃO
Originário da América, foi levado para a Espanha. Dali chegou à Hungria, onde passou a ser usado como matéria-prima para a páprica. Também fez sucesso na Tailândia, na Coréia, na Índia e em vários países africanos.

BATATA
Era consumida nos Andes, onde hoje ficam o Equador e o Peru. Descoberta pelos espanhóis, foi plantada na Galícia, na península Ibérica e na Itália. Só depois se difundiu no resto da Europa e na Ásia. 

MILHO
Veio da América Central e foi cultivado em Portugal. Logo estava nas mesas do sul da França e do norte da Itália, onde foi usado para fazer fubá. Depois de chegar à Ásia, tornou-se comum na culinária oriental.

TOMATE
Assim como a mandioca, o abacaxi e o mamão, partiu das Américas e acabou na Ásia, após passar pela Europa. Esses alimentos faziam tanto sucesso no Oriente que acabaram usados como moeda. 

ABACATE
Ao lado do cacau e do feijão, é um alimento típico da América Central que conquistou o gosto europeu. O cacau, que entre os astecas era consumido salgado e com pimenta, passou a ser cozinhado com açúcar. 

LARANJA
Muitas frutas de sabor e aroma exóticos para o paladar dos europeus foram descobertas na Ásia. É o caso da laranja e da manga, que, da península Ibérica, acabaram introduzidas no resto do continente e nas Américas.

UVA
Como o trigo e o azeite, tinham grande valor na região do Mediterrâneo. Tornaram-se os alimentos simbólicos para o cristianismo e se alastraram pelo mundo. Hoje, vinhos e pães são consumidos em todo lugar.

ESPECIARIAS
A noz-moscada, o cravo e o gengibre eram comprados na Indonésia. A primenta-do-reino vinha do sul da Índia e a canela, do Ceilão, atual Sri Lanka. Os produtos eram reunidos em Goa, de onde partiam rumo a Lisboa.

Texto de Rafael Tonon
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