18.6.17

D. Pedro I em Santa Cruz


Aquarela de Debret sobre a Fazenda de Santa Cruz, pintada em 1817 do Morro do Mirante.
Um pouco da rotina do imperador D. Pedro I na Fazenda de Santa Cruz, que daria origem ao bairro carioca de mesmo nome.

Se o príncipe regente D. João se apaixonou por Santa Cruz, transformando a antiga sede da fazenda dos jesuítas em Palácio Real, seus descendentes também seguiram o antigo Caminho dos Jesuítas para se afastar dos problemas da Corte e viver mais à vontade.

O filho, o futuro D. Pedro I do Brasil, e Pedro IV de Portugal, por exemplo, talvez tenha sido mais assíduo ao palácio que seu pai. Na infância passada no velho oeste carioca, Pedro, revelando a vocação de líder militar, organizava exércitos de brincadeira, com regimentos de escravos, meninos como ele, munidos com “armas” feitas de madeira e folhas-de-flandres. Exército pronto, organizava acirradas batalhas pelos campos de Santa Cruz contra o irmão D. Miguel, antecipando a guerra que travariam em Portugal, entre 1832 e 1834, e que faria de D. Pedro um herói naquele país, após ter abdicado do trono do Brasil, em 1831.

Mais tarde, já adulto e imperador do Brasil, D. Pedro iria muito a Santa Cruz seguido de fiéis escudeiros, como Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, seu secretário particular e, segundo as más línguas, “secretário para os negócios ocultos do Brasil e de Portugal” (D. Pedro I, Isabel Lustosa). Na longa viagem pela Estrada Real, provavelmente o príncipe vislumbrava as possibilidades que se abriam, de romper com Portugal e ser responsável pelos destinos da imensa nação que o acolhera.

Exímio cavaleiro, muitas vezes Pedro partia montado em um dos muitos cavalos que mantinha bem tratados na fazenda, dispensando carruagens luxuosas. Cavalgava rápido, tanto que, em algumas vezes, ia e voltava no mesmo dia a Santa Cruz, como na ocasião em que foi à fazenda apenas para dar uma chicotada no marido de sua amante Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos – uma situação tão absurda que beira o cômico.


Mesmo perdendo a marquesa para D. Pedro I, o marido, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, não apenas se submeteu à nova ordem, como se humilhou pedindo um cargo ao Imperador, que o nomeou, em 1824, administrador da feitoria de Periperi, parte da Fazenda de Santa Cruz, e que ficava em numa área coberta hoje pela estrada Rio-São Paulo, na altura de Itaguaí.

Periperi possuía diversas lavouras e um famoso engenho produtor de aguardente. O motivo da desavença entre o administrador e o Imperador foi uma carta injuriosa sobre a marquesa, enviada por Felício ao irmão de Domitila, que a mostrou ao Imperador. Mal acabou de ler, D. Pedro subiu em seu cavalo e atravessou a Estrada Real de madrugada, em meio a uma forte tormenta. Ao chegar à sede da feitoria, entrou gritando, chamando pelo administrador, para espanto dos escravos, que nunca imaginariam a chegada do Imperador do Brasil àquela hora e naquela situação. Quando deparou com Felício, D. Pedro, sem dizer nada, “desferiu rápida e forte ‘rebencada’ na face do perplexo ‘desafeto’ e, considerado ‘cumprido seu dever’, imediatamente regressou à Quinta da Boa Vista, aonde chegou ao amanhecer”. (Santa Cruz, Jesuítica, Real, Imperial – Vol. III, Benedicto Freitas).

Felício não apenas aguentou calado a humilhação, como ainda permaneceu um bom tempo como administrador da feitoria, mas, desta vez, bem mais comportado, pois D. Pedro o ameaçou com uma contundente surra, se não deixasse de ofender a marquesa, esposa de Felício e amante de Pedro.


Ao chegar a Santa Cruz, pode-se dizer que D. Pedro ficava como “pinto no lixo”, ou seja, sentia-se completamente à vontade: “Aqui chegados, consideravam-se no Paraíso: passeios sem fim: a Sepetiba, Itaguaí, Pedra de Guaratiba, no mar, nos rios, nos decantados canais com iates e veleiros neles deslizando, caçadas e rodeios e, à noite, música na Imperial Capela e nos salões do Palácio, onde também se realizavam animadas partidas de bisca, jogo preferido do monarca” (Santa Cruz, Jesuítica, Real, Imperial – Vol. III, Benedicto Freitas).

Em Santa Cruz, D. Pedro, mesmo já imperador, despia-se das sofisticadas e imponentes vestimentas da nobreza, e usava trajes de homem do campo: calça e camisa de algodão, bota quase sempre enlameada e chapéu de palha, como autêntico caipira. Ocorreu muitas vezes de receber ministros de importantes Cortes europeias de chinelos no Palácio, com a maior sem-cerimônia. “Conta o Marquês de Gabriac – embaixador da França no Brasil entre 1820 e 1829 – que, visitando D. Pedro, em Santa Cruz , em 22 de outubro de 1827, encontrara-o em seu salão de despachos jogando bisca com um camarista e o cirurgião do Paço” (Livro D. Pedro I, de Isabel Lustosa).

Para aproveitar bem a vidinha na roça, repleta de ar puro, água limpa, fartos cozidos (seu prato preferido na fazenda) e muito verde, D. Pedro gostava de acordar bem cedo, “quando o galo cantava”, e seguia irremediavelmente a mesma rotina. Fazia a revista dos escravos, fiscalizava o rebanho, os engenhos, as pontes e as obras de drenagem e contenção das águas, ordenava novos plantios, mandava fazer reparos nos prédios da fazenda e ia caçar com espingarda capivaras e outros animais em abundância às margens do rio Guandu, isso bem antes que o “progresso” expulsasse a fauna e a flora para o pouco que restou da Mata Atlântica naquela região.

Obs: a sede da fazenda que aparece na aquarela acima, hoje é o Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita e está muito bem conservado. Fica perto da Estação de Trem. Para quem vê a novela Novo Mundo da Rede Globo de Televisão esse texto serve como uma boa dica para saber mais sobre alguns dos personagens.


Texto de André Luis Mansur Baptista.
Autor do livro "O Velho Oeste Carioca". Volumes I, II e III.   Editora Ibislibris.

Um livro que reúne excelente material de pesquisadores da Zona Oeste do Rio de Janeiro, e apresenta uma visão global da região que se estende desde o Campo dos Afonsos até Sepetiba, percorrida pela antiga Estrada Real de Santa Cruz, citada nos livros de História do Brasil pela invasão de piratas franceses em Guaratiba, em 1710, e as longas temporadas de D. João na antiga fazenda dos jesuítas, no início do século XIX. André Luis Mansur Baptista nasceu em 1969 e formou-se em jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1993. Tem dois livros publicados: Supéravit, o herói brasileiro e Manual do Serrote, ambos de ficção. Mantém o blog Emendas e Sonetos, onde publica excertos sobre curiosidades do Rio de Janeiro.

Por onde eu passo, todo mundo me conhece


Dotado de um talento artístico que se manifestou desde a infância, Mestre Saul é um destaque da região, na pintura e na escultura, e conta aqui um pouquinho de sua caminhada sofrida e vitoriosa.

Ainda garoto, ali pelos 7 ou 8 anos, Saul da Silva Pinheiro fazia música batucando em latas de graxa, desenhava com lascas de carvão e repetia em pensamento um desejo: “Quando crescer eu quero ser artista. Famoso, de valor”. Corria a década de 40, e a infância difícil do menino criado em meio a quatro irmãs, com mãe costureira e separada de um PM atormentado por problemas mentais, não dava indicativos de que o sonho se realizaria. Hoje ele é o Mestre Saul, artista plástico com quadros e esculturas espalhados por todo canto do Brasil — incluindo um busto de Zumbi dos Palmares numa praça de Brasília — mas mantendo forte vínculo com a Zona Oeste do Rio, onde nasceu e voltou a morar depois de “andar por aí”.

A arte sempre foi um dom. E era com facilidade que ele conseguia tirar som de qualquer objeto, captar novos ritmos ou mesmo inventar instrumentos musicais, assim como desenhar, pintar e esculpir. “Na escola, eu me sentava na última fila, pra ninguém me incomodar. E ficava lá, desenhando…”, conta Mestre Saul. A admiração e o amor que tinha pelo pai quase o fizeram seguir a carreira militar, mas a consciência do quanto a brutalidade da profissão teve parte nos problemas psicológicos do PM bastou para matar a ideia, embora seu alvo fossem as bandas militares.

Nos anos 50, Saul estudou pintura com o professor Daniel Diniz da Fonseca em Campo Grande — na União Rural de Belas Artes (Urba) — e mais tarde aprendeu escultura na Escola Nacional de Belas Artes. Sempre cavando a oportunidade: “Eu passava pela Urba e admirava aquele professor de boina, com suas cartolinas nas mãos. Um dia perdi a timidez, entrei e perguntei se podia estudar lá. Ele disse: traz bloco de desenho e lápis amanhã. Foi assim que eu comecei a estudar arte”, lembra Mestre Saul, que anos mais tarde aplicou a mesma estratégia na Escola Nacional de Belas Artes.

Conseguir viver da arte, porém, não foi fácil. Ele encarou todo tipo de trabalho para se sustentar (vendedor, ourives, gráfico), enquanto continuava pintando, esculpindo e tocando os ritmos cubanos que o seduziam. Integrou a orquestra Ivo Fontes e seus Melódicos, tocou com o saxofonista Booker Pittman, viveu a boemia ao lado de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves… Boemia que hoje lembra com nostalgia, mas também com certa amargura: “Eu bebia demais, e olhando para trás vejo que perdi muito por causa disso”.

Mestre Saul trabalhou na Editora Bloch (primeiro na linha de produção da gráfica, depois restaurando negativos de fotos para a Revista Manchete), transferiu-se para a Abril, em São Paulo, e viveu longo período em Embu das Artes, onde exerceu mais intensamente as atividades de pintor e escultor. Voltou ao Rio nos anos 70, teve ateliê próprio, deu aula de arte em muitas escolas e enveredou por outras carreiras como a de cenógrafo e carnavalesco. Sempre fazendo arte.

Quando pergunto quantos quadros e esculturas assinou, o mestre faz um gesto de “impossível saber”, mas garante que foram centenas. Presenteados ou vendidos por quantias muitas vezes simbólicas: “Nunca fui vendedor de arte, tinha prazer de fazer quando a pessoa pedia. Sou muito mais artista do que comerciante”. Aos 76 anos, o veterano artista vive hoje numa modesta casa em Guaratiba, onde continua pintando: prepara uma série de quadros sobre a história de Campo Grande e Santa Cruz, para uma exposição.

E a fama que tanto buscava? “Fui saber agora que sou famoso. Por onde eu passo, todo mundo me conhece. Acho que só agora vi tudo o que já fiz”, filosofa o artista, admirando um retrato que pintou do botânico Freire Alemão. E revela mais um desejo: quem sabe, um dia, reunir em exposição parte de sua obra que está espalhada por aí, em casas, prédios, coleções particulares?

Texto de Tania Neves
emfoco@feuc.br

Fonte: 

14.6.17

Conheça o Era Virtual, um projeto pioneiro de visita virtual aos museus brasileiros



Conheça o Era Virtual, um projeto pioneiro de visitas pela internet com visualização em 360º dos museus brasileiros e seus acervos. Entre nessa viagem surpreendente e conheça  a beleza do nosso rico patrimônio cultural. Para conhecer navegar é preciso. Clique aqui e veja mais: http://www.eravirtual.org/mo_br/

Nilton Bravo (1937-2005), O Michelangelo dos Botequins

Um dos painéis de Nilton Bravo tombado pela Prefeitura no Bar Sulista, na Praça Coronel Assunção, 357 (Gamboa) Nilton Bravo (1937-2...