25.11.12

Revolta da Cachaça: primeiro exercício de democracia no Brasil


Para os que curtem História Colonial do Brasil. Aqui vai um excelente artigo de Pedro Dória:

"No anoitecer do dia 6 de abril, em 1661, Jerônimo Barbalho Bezerra foi decapitado no Largo da Polé, hoje Praça XV, perante a população. Sua cabeça, escreveu dias depois o governador Salvador Corrêa de Sá e Benevides, foi posta "no pelourinho para se conseguir a quietação" do povo. Terminou assim o período de cinco meses em que os cariocas governaram-se a si mesmos, no primeiro exercício de democracia da História do Brasil. Faz mais de 350 anos.

A Revolta da Cachaça, que Bezerra liderou, é pouco documentada e por isso mesmo objeto de polêmica. Ele era, nos dizeres do tempo, "nobre da terra". Senhor de engenho, filho de herói da batalha que expulsou os holandeses da Bahia em 1625, um homem que tinha ao seu lado vereadores e outros donos de terra na região. É o que sugere ter sido uma briga interna da elite.

Não era a impressão do importante historiador britânico Charles Boxer, corroborada recentemente pelo geógrafo Maurício de Almeida Abreu, autor de "Geografia Histórica do Rio de Janeiro". Ao lado de Jerônimo, entre os 131 listados como revoltosos, tinha gente da elite, mas aparentemente também despossuídos de terras. Foi um levante amplo, de todas as classes, contra um ditador.

Salvador Corrêa de Sá e Benevides tinha 58 anos. Pertencia à terceira geração da família Sá no comando do Rio, desde Estácio. Com quase um século de idade, a pequena cidade era pobre, como todo o Brasil sul, e domínio absoluto de sua família. Salvador era também uma lenda viva no Brasil e em Portugal. Místico, passou a juventude seguindo os conselhos do padre jesuíta João d'Almeida, um sujeito que diziam flutuar em transes longos. Todos os Sás eram ligados aos jesuítas.

Salvador era também bandeirante e, como todo bandeirante, mais tupi do que europeu em batalha. Lutava com os pés descalços, acompanhado em mar de longas canoas de índios flecheiros. Venceu assim Piet Heyn, o maior corsário holandês de seu tempo. Heyn quebrou a Espanha ao saquear, no Caribe, o navio que levava o ouro das Américas. E Salvador o venceu com índios, expulsando-o do Espírito Santo, quando ainda tinha 23 anos. Assim como, também acompanhado de índios, conquistou Angola dos holandeses e venceu em seu próprio território a mítica rainha N'Zinga, uma das mais ferozes líderes guerreiras da África. (Vem de seu nome o termo ginga, da capoeira).

Se tupi em batalha, a corte em Lisboa não o intimidava. Tinha assento no Conselho Ultramarino, a mais alta instância de comando do império. Ainda antes de sua morte, esteve entre os líderes de uma tentativa de depor o rei português. Na Ilha do Governador, sua ilha posto que era Sá, o governador, e dono das terras ali, construiu o galeão d'El Rey, maior navio do mundo de então. Construiu-o na Ponta do Galeão. Salvador Corrêa de Sá e Benevides era muito maior do que o Rio e fazia do Rio o que bem quisesse. Como, por exemplo, aumentar impostos.

No fim de 1660, decidido a aumentar o número de soldados no Rio, Salvador liberou a produção de cachaça e instituiu sobre ela um pesado tributo. Daí criou um imposto predial. A população, ricos e pobres, já enfrentava sérias dificuldades. A cidade vivia uma crise. Os conjurados reuniram-se por várias madrugadas em São Gonçalo, onde ficava a fazenda de Jerônimo. No dia 7 de novembro, cruzaram de madrugada a Guanabara. O sol ainda não havia raiado quando uma turba invadiu a Câmara, no alto do Morro do Castelo, e derrubou o interino Thomé Corrêa de Alvarenga, primo de Salvador. O governador estava em São Paulo.

Os cariocas instituíram governo, mandaram cartas ao rei português garantindo fidelidade e pedindo só que pudessem governar com um nível tolerável de impostos. Pediram também aos paulistas que prendessem Salvador - mas, em São Paulo, os de lá decidiram que era boa política não aderir.

Tão espetacular quanto o golpe foi o contragolpe. Salvador tinha o comando da frota da Companhia Geral de Comércio, que anualmente navegava para o Brasil para recolher os produtos que voltariam à Europa. Ele esperou que os navios chegassem ao Rio. Naquele 6 de abril, de madrugada - era sempre madrugada nos ataques de surpresa de antanho - Salvador, seu filho João e um exército de índios tupis invadiram o Rio e tomaram o paiol onde ficava a munição. Os soldados da frota desceram a terra e enfileiraram-se na Praça XV, um bocado o centro da cidade do tempo. Quando o dia amanheceu, o Rio independente já havia caído sem que um tiro fosse disparado. O próprio Salvador decidiu pela execução de Jerônimo, naquela noite.

Se venceu militarmente, perdeu na política. Em menos de um ano, Lisboa deu ordens para que ele deixasse o cargo de governador. Convocado para a Europa em 1663, nunca mais pôs os pés do Brasil. Assim como, nunca mais, um Sá governou o Rio. O filho primogênito de Salvador foi feito Visconde de Asseca, um título de nobreza alto. Mas não ele. Era o equivalente real a uma punição na alta esfera.

O primeiro experimento com democracia no Brasil, de certa forma, deu mais liberdade à cidade que ainda demoraria algumas décadas para se tornar capital. Não há qualquer monumento a Jerônimo Barbalho, mas não custa nada lembrar que ele morreu há mais de 350 anos."


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17.11.12

17 de novembro - Aniversário do Bairro de Campo Grande, RJ - 409 anos de História


Parabéns a todos os moradores do nosso querido bairro!

Campo Grande é um bairro da cidade do Rio de Janeiro, localizado na zona oeste. Hoje possui uma infra-estrutura completa de uma cidade grande com seu comércio, área de lazer, escolas, Shopping, hospitais, clínicas e serviços dos mais variados possíveis. Mais nem sempre foi assim, vamos conhecer um pedacinho desta história.

Campo Grande nos primeiros anos da década de 40 era considerado como o Império da Laranja, surgiu junto a colonização do Brasil. O vale que começava no Rio da Prata e terminava no Cabuçu, era habitado pelos índios picinguaba, foi doado pela Coroa a Manuel Barcelos Domingos. Este em 1673 construiu a capela de Nossa Senhora do Desterro, que foi transformada na Matriz de Campo Grande. Junto a igreja achava-se o poço Nossa Senhora do Desterro, de onde a população abastecia-se.

A região começou a progredir em 1878, quando da inauguração da estação  ferroviária de Campo Grande, da Estrada de Ferro Central do Brasil. A partir de então a comunicação tornou-se mais rápida para o centro da cidade e a região começou então sua marcha rumo ao vertiginoso desenvolvimento que a transformaria numa verdadeira cidade.

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16.11.12

Site explora a história do Rio e mostra sua evolução


Site reúne a história da cidade e mostra a evolução dos serviços públicos.

Lançado no dia 06/11/2012, com patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, o site Casa do Rio de Janeiro resgata a memória da cidade desde a o período colonial até os dias atuais. Mostrando as mudanças na geografia e arquitetura da cidade e a evolução dos serviços públicos, como abastecimento de água, luz e transportes públicos, suas páginas são um prato cheio para estudantes e amantes da história do Rio.

O site é rico em imagens e mapas, com as informações divididas nos períodos que representam os momentos históricos em que o Rio desempenhou papéis políticos e administrativos distintos. Fundada em 1565, a cidade tinha apenas 40 mil habitantes quando se tornou capital do Brasil Colônia, em 1763. Hoje, com mais de 6,3 milhões de habitantes, integra uma Região Metropolitana com uma população aproximada de 12 milhões.

Texto de Thaís Meinicke
Fonte: http://vejario.abril.com.br/especial/

10.11.12

A democracia é difícil


Por sugestão do Prof. Victor Hugo Abril, do curso de pós-graduação da  FEUC, coloco aqui essa entrevista, de autoria de João Marcos Coelho, publicada em 24 de setembro de 2003, que faz parte da edição de aniversário dos 35 anos da Revista Veja. Nela o autor procura explicar as observações e as conclusões de Sérgio Buarque de Holanda, nascido em São Paulo em 11 de julho de 1902 e falecido em 1982, através de uma análise histórica. Autor de uma obra colossal, que procura dar conta da tradição colonial brasileira, a partir do surgimento da ideia de nação durante o Império e da modernização do país a partir da República. Sérgio Buarque de Holanda é considerado até hoje um dos mais eminentes intelectuais brasileiros do século XX e  juntamente com Gilberto Freire e Caio Prado Júnior, foi um dos "grandes explicadores do Brasil", isto é, conseguiu criar uma obra tão importante, que tornou o país mais inteligível aos próprios brasileiros. 

Segundo o Prof. Victor, essa entrevista é fundamental para se discutir as questões do Primeiro Reinado nas suas aulas. Já que é muito importante se fazer essa análise.

Entrevista: Sérgio Buarque de Holanda  

A caminho dos 74 anos, que completará em julho, Sérgio Buarque de Holanda é, ao mesmo tempo, um impecável historiador e um fascinante contador de histórias. Grande viajante, entremeia reflexões sobre o exercício da História com finas observações do tipo: "Me diverti muito quando estive na Grécia. Lá, os carregadores de bagagens são chamados metaphoras, e os que esperam na fila do ônibus estão em ekstasis. É agradável, mas também chocante, você se deparar de repente com as palavras sendo utilizadas em seu sentido rigoroso, não é?

Seu primeiro livro, "Raízes do Brasil" (1936), forma, junto com "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, e "Formação do Brasil Contemporâneo", de Caio Prado Jr., o grande tripé básico da cultura brasileira no século XX. Começou a lecionar na Universidade do Distrito Federal, transferindo-se em 1938 para o Instituto Nacional do Livro. Dez anos depois passou a ocupar a cadeira de História Econômica do Brasil na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A partir de 1956, assumiu o posto de catedrático de História da Civilização na Universidade de São Paulo. Pronunciou conferências e deu cursos nos Estados Unidos, França, Itália, Suíça e Chile. Entre as universidades americanas, lecionou em Colúmbia, Harvard, Califórnia, Indiana, Yale e na New York State University.

Desde 1960 dirige a "História Geral da Civilização Brasileira", já em seu sétimo volume publicado: "Do Império à República". Embora negue predileção pelo período do Segundo Reinado, Sérgio diz que "basicamente a coleção é um trabalho de equipe, mas este volume é apenas meu. Eu ia fazer apenas uma resenha do aspecto político do Império, mas ela acabou virando um livro, publicado como último tomo do século XIX. Um pouco cansado com o trabalho de coordenar uma coleção desse porte, pedi um sucessor para a parte da República. E Bóris Fausto foi o escolhido". Contudo, ainda este ano Sérgio pretende publicar uma nova versão de "Do Império à República", consideravelmente ampliada.

Confortavelmente sentado em uma poltrona, numa das salas - todas literalmente atulhadas de livros - de sua casa normanda no bairro do Pacaembu, em São Paulo, Sérgio (ou o "pai do Chico Buarque", como adora ser chamado) falou sobre a História. E também contou muitas outras.

VEJA - O que o senhor modificaria, hoje, em seu livro "Raízes do Brasil", escrito na década de 30?
SÉRGIO BUARQUE - Muita coisa. Eu escrevi dois de seus capítulos na Alemanha, quando lá morei, entre 1928 e 1931. A idéia básica era a de que nunca houve democracia no Brasil, e de que necessitávamos de uma revolução vertical, que realmente implicasse a participação das camadas populares. Nunca uma revolução de superfície, como foram todas na História do Brasil, mas uma que mexesse mesmo com toda a estrutura social e política vigente.

VEJA - E a ideologia brasileira do homem cordial, que vem da passagem do século e o senhor de certa forma adota, ainda valeria?
SÉRGIO BUARQUE - Critica-se muito, mas poucos entenderam o verdadeiro sentido da expressão homem cordial. Quando falo cordial, não é no sentido de "cordiais saudações", como Cassiano Ricardo o fez. A cordialidade com que caracterizei o brasileiro pode ocorrer mesmo em situações de confronto, fatos comuns em nossa história. Nesse sentido, ela tem sido incruenta. Tem havido muita discussão, recentemente, a respeito da História do Brasil, se ela é cruenta ou incruenta. Considero esse debate bizantino. É inegável, porém, que a independência, a proclamação da República e mesmo as revoluções de 1930 e 1964 se fizeram sem derramamento de sangue. Portanto, a cordialidade continua valendo para a nossa História.

VEJA - O que o levou a tentar explicar globalmente o caráter nacional brasileiro?
SÉRGIO BUARQUE - Hoje, eu não me aventuraria mais a tentar uma empreitada dessa espécie. Simplesmente porque os tempos são outros. Eu estava muito influenciado pelo sociólogo alemão Max Weber. Aliás, foi naquela mesma década de 30 que surgiram outras obras brasileiras cuja característica também era a de tentar a grande síntese: "Casa Grande & Senzala", "Formação do Brasil Contemporâneo". Há pouco tempo uma editora francesa, a Gallimard, me propôs a tradução de "Raízes do Brasil". Pediram-me também um ensaio, que seria publicado na edição francesa, atualizando minhas idéias. Tentei, mas acabei desistindo. O livro está superado e plenamente datado. Minhas preocupações eram outras. Não tem sentido reescrever eternamente uma mesma obra.

VEJA - Quando o senhor afirma que no Brasil nunca houve democracia, isso talvez signifique que, num certo sentido, as massas populares jamais participaram do jogo político nacional?
SÉRGIO BUARQUE - Claro. No Brasil, sempre foi uma camada miúda e muito exígua que decidiu. O povo sempre está inteiramente fora disso. As lutas, ou mudanças, são executadas por essa elite e em benefício dela, é óbvio. A grande massa navega adormecida, num estado letárgico, mas em certos momentos, de repente, pode irromper brutalmente.

VEJA - Em quais momentos esse despertar teria ocorrido?
SÉRGIO BUARQUE - Até agora, todas as revoluções dentro da História do Brasil foram de elites, civis ou militares, mas sempre elites. E, quando a questão se restringe a querelas elitistas, o processo caminha como numa briga de família: aparece um primo, um tio, ou um amigo da família com bom relacionamento com ambas as partes capaz de contornar diplomaticamente o confronto direto. E é exatamente no conchavo que pode surgir a figura do homem cordial. Por isso a democracia, que nasceu aqui num mal-entendido, percorreu em nossa História um caminho inusitado. Ou seja, foi murchando aos poucos.

VEJA - Como se deu esse esvaziamento?
SÉRGIO BUARQUE - Pela Constituição de 1824, somente os escravos (porque dependiam do senhor), os religiosos em regime claustral, as mulheres e os menores não votavam. Ela permitia o voto dos analfabetos, dos libertos. O censo pecuniário (mínimo de renda mensal para poder votar) era de 100 mil-réis - esta quantia, só os indigentes não conseguiam obter. Era uma Constituição relativamente democrática. Em 1846, houve uma reforma, mas só para aumentar a renda mínima, devido à desvalorização da moeda, de 100 para 200 mil-réis. Havia duas espécies de participantes do processo eleitoral: os votantes, que tinham o direito de escolher os eleitores; e estes, que, por sua vez, elegiam os deputados e senadores. Os primeiros constituíam toda a massa ativa da população, mal ou bem participando realmente do jogo político. Na década de 70, em pleno Segundo Reinado, os partidos Liberal e Conservador se uniram para lutar por eleições totalmente diretas. Com a passagem dos votantes, grande maioria da população, para a condição de eleitores, entretanto, a democracia sofreu um golpe, pois a renda mínima foi muito aumentada (400 mil-réis, sujeitos a comprovação), que por sua vez era discutível. Isso alijou os antigos votantes e restringiu o número de eleitores de 1,5 milhão para pouco menos de 300 000. Tanto é que um estudo, coordenado por Santana Nery, publicado em Paris, em 1889, afirmava: "O Brasil é o país que tem menor número de votantes: apenas 1,5% da população tem esse direito". Computando-se as habituais abstenções, não se chegava a 1 %. Somente em 1930, quando a massa popular votava, subiu-se para 5%. Então, veio o freio da revolução, que sustou o processo eleitoral por algum tempo.

VEJA - Seria correto afirmar que no Brasil sempre se confundiram as palavras democracia e liberalismo?
SÉRGIO BUARQUE - Evidente. O liberalismo pode perfeitamente sobreviver sem a prática da democracia, e isso é o que sempre aconteceu no Brasil. O substantivo liberal surgiu nas Cortes de Madrid, entendido como oposto ao servil, ou iliberal. Dicionarizado em 1803, no Brasil ainda significava pessoa generosa, dadivosa. Em toda a História do Brasil, porém, a palavra é freqüentemente usada como sinônimo de concessão por parte das elites dominantes. O próprio dom Pedro I, quando dissolveu a Assembléia Constituinte de 1823, afirmou que a Constituição que outorgaria era duplicadamente mais liberal do que a elaborada pelos constituintes. "Quero uma Constituição para o povo, não pelo povo", chegou a dizer, deixando claro que apenas com sua permissão se podia praticar a liberdade. Isso pairou idealmente em todo o Segundo Reinado, embora jamais tenha existido na prática.

VEJA - Quer dizer que a democracia sobreviveu no Brasil apenas quando era bom o humor das elites dominantes?
SÉRGIO BUARQUE - Sim. E alguns políticos mais lúcidos perceberam isso já no século passado. Nabuco de Araújo, em 1869, dizia que nós tínhamos liberdade, ou liberalismo, mas só nas capitais. No interior, quem resolvia era o capanga, o prefeito ou o chefe de polícia. Em um discurso particularmente inflamado, chegou a afirmar que "a liberdade existe para nós, homens de gravata lavada, e não para o povo". Na época, usava-se uma gravata de seda ou linho, com colarinho alto, com um nó triplo bastante saliente, colorindo o peito e forçando a pessoa a uma posição sempre altiva. E a cor, obrigatoriamente branca. Com o calor do Rio de Janeiro e sua situação urbanística (para chegar ao Senado, na antiga rua do Areal, era preciso passar pelo Campo de Santana, onde haviam capim, brejos e burro soltos), o consumo de gravatas diárias chegava a cinco ou seis. E naturalmente era preciso ter dinheiro para manter esse enorme estoque. Outro político contemporâneo de Nabuco de Araújo, Teófilo Otôni, cognominado o "Tribuno Liberal", numa circular para seus eleitores mineiros, usou expressão semelhante: "O que eu quero é a democracia de classe média, a democracia de gravata lavada".

VEJA - Ao que parece, eles só pensavam numa democracia higienicamente asseptizada.
SÉRGIO BUARQUE - Na verdade, a palavra democracia era mal vista pelos liberais brasileiros no começo do Império. Talvez devido a uma identificação com os ideais de Robespierre, o que, os levava a associar democracia com anarquia. Quando ganhou status, em meados do Império, a palavra já tinha perdido seu sentido original. E passou a significar liberalismo. Aliás, outro bom exemplo é o de frei Caneca, que em um de seus escritos afirmou: "É impossível viver com esta gentalha composta de mulatos e mestiços", deixando entrever um nítido desprezo pelas classes populares.

VEJA - E a partir da República? Continuou o processo de esvaziamento da democracia?
SÉRGIO BUARQUE - Sim. O período republicano se iniciou entre nós com uma vitória de Rui Barbosa: o chamado censo literário, com que, finalmente, se barrou o acesso dos analfabetos ao voto. Um dos argumentos constantes do grupo vitorioso era o de que uma parte da população ainda não estava preparada para participar do jogo democrático. Era preciso esperar o progresso, que naturalmente elevaria a massa à condição de 'alfabetizada e, portanto, apta a votar. Esta, no fundo, é uma idéia reacionária: não é preciso lutar, o progresso há de vir, independentemente de nossa vontade. Mais de oitenta anos se passaram e nem com o Mobral o problema foi resolvido. Aliás, José Bonifácio, "o Moço", que adotou posição contrária à de Rui Barbosa (um seu ex-aluno a quem muito respeitava) usava argumentos bastante convincentes: "Por que os analfabetos não podem votar? Amanhã vão dizer que os surdos também não podem, depois os mudos, e depois ainda só votarão as pessoas formadas em universidades: depois os epilépticos, conhecidos ou desconhecidos". Em seguida, dirigiu-se ao governo: "Eu sou a Democracia... fostes para as alturas e eu fiquei. Não vos acuso.., neste país há lugar para todos. Pois bem, deixai também lugar para mim".

VEJA - Como encarar a história brasileira, de 1930 em diante?
SÉRGIO BUARQUE - Certamente como uma nova versão, modernizada, da democracia de gravata lavada. Falar em democracia, hoje, todo o mundo fala. Inclusive os países comunistas. Até durante o nazismo mais de 90% da população alemã votava. Claro que pressionada e num jogo de cartas marcadas. Mas votava. A fachada da democracia sempre está presente, inclusive nos regimes autoritários e totalitários.

VEJA - Parecem coexistir hoje dois grandes grupos de historiadores preocupados com o Brasil. De um lado, os brasileiros, que, numa posição extremamente critica, procuram, grosso modo, reconstituir o que chamam de história da dependência. E, de outro, os chamados brazilianists, estrangeiros que têm dado preferência a certos temas da nossa História, como por exemplo, a escravidão, o Estado Novo e os governos da Revolução de 1964. Eles se completam, de alguma maneira?
SÉRGIO BUARQUE - Primeiro, é preciso esclarecer que o interesse pelo Brasil não é novo. Na década de 40, quando o presidente Roosevelt pôs em prática o que chamou de política de boa vizinhança, houve muitas teses sobre o Brasil. Até eu fui convidado a visitar os Estados Unidos para participar de um congresso sobre estudos brasileiros, durante três meses. Em 1965, em nova ida aos EUA para dar cursos, vivi como um nababo: me hospedei no Waldorf Astoria, um carro do ano com motorista à disposição, tudo por conta do governo americano. Agora, porém, essa nova vaga parece ter raízes mais profundas e duradouras. Os historiadores Richard Morse, Thomas Skidmore (autor de "De Getúlio a Castello"), Stanley Stein e Richard Graham me parecem os melhores. A explicação para a escolha de determinados temas é relativamente fácil: a escravidão, por exemplo, é um dos temas americanos permanentes. Quando ouviram comentários de que tinha havido no Brasil o bom senhor, e escravos unidos - graças a um livro de Frank Tannembaum, "Slave and Citizen", e a edição inglesa de "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre -, rapidamente o assunto virou moda. Já quanto aos temas contemporâneos, de Getúlio para cá, tive uma boa resposta quando, na Universidade de Berkeley, Califórnia, fiz esta pergunta a um brazilianist. Sua resposta: "Cuba". A posição do Brasil como país estratégico, política e militarmente, tem se reforçado cada vez mais nos últimos tempos e por isso é preciso, do ponto de vista americano, conhecê-lo muito bem.

VEJA - Em que consistiu a contribuição dos brazilianists para a historiografia brasileira?
SÉRGIO BUARQUE - Existe um preconceito com relação aos historiadores americanos de que são ingênuos e pouco teóricos. Isso não é muito correto mas tem um fundo de verdade. Um amigo me contou que um dia encontrou um rapaz numa biblioteca americana preparando uma tese sobre o Renascimento. Perguntou-lhe se ele já tinha lido o celebérrimo livro de Jacob Burckhardt a respeito e obteve esta resposta: "Ainda não cheguei lá. Estou nos autores cujos nomes começam por A". Isso ilustra a capacidade de coleta de material deles, espantosa em seu rigor e meticulosidade.

VEJA - Uma das críticas que se fazem, não somente ao historiador mas ao intelectual brasileiro em geral, é a de que ele tem a obsessão de ultrapassar rapidamente a realidade empírica e partir para a ensaística, ou interpretação teórica, sem bases sólidas.
SÉRGIO BUARQUE - Concordo integralmente, e é por isso que eu jamais escreveria de novo "Raízes do Brasil". Principalmente porque o livro ficou no nível do ensaio. Não sou contra a ensaística ou a interpretação, mesmo hoje. Mas a pesquisa deve ser rigorosa e exaustiva. Se não, o resultado são apenas elucubrações, às vezes brilhantes, mas desvinculadas da realidade.

VEJA - De qualquer modo, não há jeito de escapar da ideologia?
SÉRGIO BUARQUE - Não. E é engraçado observar como diversas vezes, na História do Brasil, pessoas mascararam suas verdadeiras posições em função do momento político. Quando Dom Pedro I abdicou, devido a inúmeras pressões, no período imediatamente seguinte - a Regência - os grupos dirigentes permaneceram unidos, porque tinham pavor da volta dele ao poder. Somente depois de 1834, quando dom Pedro morreu, é que se revelaram as verdadeiras posições. Tanto que os conservadores fundaram seu partido em 1837, opondo-se aos moderados. O próprio Gilberto Freyre, quando surgiu, era tido como altamente revolucionário apenas porque usava palavrão, falava da vida sexual e era contra os jesuítas e a maçonaria. Grande parte do clero se voltou, decididamente, contra ele e contribuiu para forjar dele uma falsa imagem revolucionária.

VEJA - Os historiadores brasileiros têm tentado detectar as ideologias que determinam os fatos de nossa história e fazer uma revisão de tudo o que já foi dito?
SÉRGIO BUARQUE - A revisão da História não tem que ser absolutamente um momento privilegiado. Ela tem que ser feita a todo instante. A história não é prisão ao passado. Ela é mudança, é movimento, é transformação. E por isso estamos irremediavelmente presos a ideologias que na maioria das vezes são exóticas, pois não nasceram aqui. A atual geração de historiadores considera que a ideologia representa um pensamento falso. Mas eu pergunto: será possível assumir uma idéia que seja válida? Cada um de nós tem, no fundo, uma certa ideologia, um certo conceito de tempo. Para transcender isso, somente um gênio. E não devemos ficar eternamente de braços cruzados à espera desse ser excepcional, devorador de ideologias, que assumiria o ponto de vista da eternidade.

VEJA - Então, fazer história é reescrevê-la perpetuamente?
SÉRGIO BUARQUE - Eu diria, junto com Benedetto Croce, que toda história é história contemporânea. Ou seja, nós sempre privilegiamos um aspecto em função de nossa realidade. Por exemplo, quando Bismarck governava todo-poderoso a Alemanha, a Escola Prussiana de História, ao estudar a Grécia antiga, privilegiou muito as qualidades de Alexandre Magno, o homem forte que dominou toda aquela região por um bom tempo. Tudo isso em função de Bismarck. Nós contamos a história a partir da vivência cotidiana de nossos problemas, de nossa realidade. Os historiadores sempre foram e serão presa fácil de seu tempo.

9.11.12

Guerra pelo Açúcar - Pernambuco, 1645


Mais uma obra prima sobre o Ciclo do Açúcar no Brasil Colonial produzida pela equipe da TV Brasil. Sugestão do Professor Valter Lenine (FEUC - RJ) para seus alunos.

Fonte: TV Brasil

Entradas e Bandeiras



Mais um vídeo interessante sobre o Brasil Colonial produzido pela equipe da TV Brasil. Sugestão do Professor Valter Lenine (FEUC - RJ) para seus alunos.

Fonte: TV Brasil

Ouro e Cobiça - Ouro Preto, 1719



Um vídeo muito interessante que nos dá uma noção perfeita sobre o Ciclo da Mineração no Brasil Colonial. Uma sugestão do Professor Valter Lenine para  seus alunos do Pós-Graduação da FEUC.

Fonte: TV Brasil

2.11.12

O Império das Províncias, sem o implacável saquarema?


Paulino José Soares de Souza, futuro visconde de Uruguai, nasceu em Paris em 1807. Muito jovem ainda, veio para o Brasil em companhia dos seus pais, José Antônio e Antônia Madalena Soares de Sousa, tendo fixado residência na Província do Maranhão. Começou ali a sua formação humanística. Com a idade de quinze anos viajou para Portugal, a fim de iniciar, na Universidade de Coimbra, os estudos de Direito. Nessa Universidade cursou até o quarto ano da carreira jurídica. Em decorrência do fato de ter sido fechada essa Casa de Estudos por causa da revolução favorável a Dom Miguel de Bragança, o nosso autor viu-se obrigado a se transladar ao Brasil, tendo concluído a sua formação superior na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na capital paulista. Após o recebimento do título de bacharel em 1831 ingressou na magistratura, tendo sido nomeado Juiz de Fora na cidade de São Paulo. Oito meses depois foi transladado à Corte, no Rio de Janeiro, onde desempenhou inicialmente o cargo de Juiz criminal e responsável pela Intendência da Polícia. Pouco tempo depois ocupou o cargo de Juiz cível da segunda vara da Corte. Em abril de 1833, o nosso autor casou com Ana de Macedo Álvares de Azevedo.  

A partir de 1837, Paulino Soares ingressou na vida política, tendo sido eleito várias vezes deputado pelo Rio de Janeiro e chegando até o alto cargo de senador do Império em 1849. Já a partir da sua eleição para a Câmara, vinculou-se ao Partido Conservador (que tinha sido criado em 1837) ao lado de Bernardo Pereira de Vasconcelos, marquês de Paraná. Desempenhou em cinco oportunidades as funções de ministro de Estado, à frente das pastas de Justiça e dos Estrangeiros. Foi nomeado membro do Conselho de Estado pelo Imperador D. Pedro II, tendo sido de grande importância sua atuação na formulação da montagem administrativa do Império, bem como no delineamento da política exterior brasileira  na segunda metade do século XIX. 

Em dezembro de 1854 recebeu do Imperador o título de visconde de Uruguai. No ano seguinte, recebeu a missão de representar o Império perante a corte de Luís Napoleão, ao ensejo da negociação em torno da espinhosa questão da demarcação de limites com a Guiana Francesa. A tese sustentada pelo nosso autor (que indicava o rio Oiapoque como marco divisório dos territórios dos dois países) terminou sendo acolhida pelo governo francês. Paulino José Soares, que ostentava a comenda de oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro, foi agraciado em 1850 pelo rei de Nápoles com a Grã Cruz da Ordem de São Genaro. Recebeu, outrossim, do rei da Dinamarca a condecoração da Ordem Real de Danebrog, em 1852. 

Nesse mesmo ano foi condecorado com a Ordem Imperial da Coroa de Ferro pelo Imperador da Áustria e com a da Ordem de Cristo pelo rei de Portugal. Foi membro da Academia Tiberina de Roma, da Academia Arqueológica da Bélgica, da Academia Britânica de Ciências, Artes e Indústria, da Sociedade de Zoologia e Aclimatação de Paris, da Sociedade Animadora das Ciências, Letras e Artes de Dunquerque, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Rio da Prata e da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional do Rio de Janeiro.  Veio a falecer em 15 de Julho de 1866. 

A produção intelectual de Paulino Soares centrou-se na construção dos alicerces administrativos do Império, tendo-se colocado decididamente contra aqueles que propunham uma organização federativa, enfraquecendo o poder central. Paulino foi um dos homens públicos que deram corpo à ideia do regresso, ou seja, de construção das instituições brasileiras ao redor da figura monárquica.

Saiba mais sobre a análise do livro e do capítulo:

Paulino José, um administrador provincial na primeira metade do século XIX.

Análise crítica da obra de Maria de Fátima Silva Gouvêa.

Análise crítica do capítulo 2 do Império das Províncias. 

Conclusão... Maria de Fátima Gouvêa falou sobre os primeiros anos da gestão provincial do Rio de Janeiro sem citar Paulino José Soares de Souza. Como alguém consegue escrever sobre o tema sem falar do ministro?

Pesquisa feita por Adinalzir Pereira Lamego com base nos links citados acima.

Sepetiba em 1827, numa aquarela de Jean-Baptiste Debret

No panorama da imagem, temos uma visão da Baía de Sepetiba, da Serra da Coroa Grande e de Itacuruçá, e também da pequena vila dos pes...