12.5.14

A sujeira é nossa


Vista do Rio de Janeiro, de Nicolas-Antoine Taunay. 
O Rio de Janeiro é lindo. Sua baía, o mar, os morros, a orla, já foram cantados em prosa e verso. Mas é difícil não achá-lo sujo. Um passeio pelo belo jardim de Burle Marx, no parque do Flamengo, revela o descaso do carioca com essa que é uma das mais belas paisagens do mundo. Sacos de lixo, latas, garrafas, plásticos de todas as cores, restos de comida, casca de frutas e excrementos de cachorros compõem um insuportável patchwork de formas e odores. Mas seria a sujeira um privilégio de cariocas? Não. O problema é antigo.

Em um livro delicioso, o historiador Emanuel Araújo já revelou que, no Brasil, “a sujeira é um hábito”. Na época colonial, as Câmaras ordenavam que os moradores calçassem a testada de suas casas numa largura de cinco palmos para atenuar o efeito das chuvas tropicais que corriam dos beirais dos telhados. Os cuidados contra as copiosas ”águas” esbarravam, entretanto, no fato de que o lixo já era atirado, sem cerimônia, à rua por onde andavam, pachorrentamente, os animais domésticos.

Alexandre Ferreira, naturalista e viajante do século XVIII, chegou a registrar que, em algumas cidades da Colônia as ruas não eram capinadas para “não privar o gado da erva de que se sustentavam”. Uma série de determinações aplicadas, então, pelos vereadores, tentava dar conta da relação pouco respeitosa que os moradores tinham com sua cidade.

Em 1625 ordenava-se, em Salvador, que toda a pessoa que tivesse casa nesta cidade, onde se fizessem esterqueiras, as mandasse limpar com pena de 16 mil réis e de se lhe taparem às suas custas; e que toda a pessoa que tivesse casa que botasse cano na rua pública, o tivesse sempre limpo, com a mesma pena; e assim mais varresse suas ruas e as tivesse limpas, com pena de 2 mil réis.

As determinações, segundo Araújo, eram pouco obedecidas ou em definitivo não o eram, pois, em julho de 1692, os vereadores voltavam a reiterar as mesmas ordens de 1625. Chegava-se a pensar que “a malignidade dos ares corruptos” de Salvador devia-se ”às imundícies que de noite e de dia” se lançavam nas ruas. Padre Manoel da Nóbrega queixava-se do desprezo dos habitantes, anotando, sisudo: “Não querem bem à terra”.

Já o marquês de Lavradio notava em relatório, alguns anos depois, que os pobres escravos desembarcados no Rio de Janeiro andavam pelas ruas “cheios de moléstias e nus [...] e ali mesmo faziam tudo que a natureza lhes lembrava, não só causando o maior fétido [...] mas até sendo o espetáculo mais horroroso que se podia apresentar aos olhos”.

Andando pelas ruas de Salvador, entre 1802 e 1803, Thomas Lindley registrava em seu diário que “as ruas são apertadas, estreitas, miseravelmente pavimentadas, nunca estão limpas, apresentando-se sempre repugnantemente imundas”. Dez anos depois, outro inglês queixava-se, fleumático, “do aroma penetrante que emana de todas as fendas das ruas” ironizando que, ali, a cloaca se transformara em divindade “e seus devotos mostram-se tão sinceramente seus admiradores que as oferendas nunca são retiradas, exceto sob a influência combinada do sol, do vento e da chuva”.

Diferentemente da colonização portuguesa, os holandeses enquanto estiveram em Pernambuco exigiram um comportamento bem diferente dos cidadãos: proibiram desde que se jogasse lixo nas ruas, que os animais circulassem à solta, obrigando a varredura das ruas e o aterro destas em caso de alagamento. Algumas ruas de Recife foram pavimentadas com tijolos holandeses e, para não estragar a pavimentação, proibiu-se o tráfego de carros de boi.

Vistas pelo olhar desses argutos observadores, as cidades brasileiras pareciam não ter aprendido as lições que, segundo Gilberto Freyre, teriam sido transmitidas por nossos ancestrais indígenas: o banho frequente que escandalizava o mal-asseado europeu e toda uma liturgia sanitária e profilática que ia do uso higiênico da folha de bananeira à lavagem da rede de algodão no rio.

Limpeza do corpo não tem nada a ver com a limpeza da cidade, dirão alguns. Com razão. Portas a dentro, somos limpos. Portas afora, empurramos o lixo indesejado. No privado, asseados. No público, porcalhões. O comportamento certamente tem a ver com dissociação profunda, o quase antagonismo entre governo e povo brasileiro, que prevaleceu até bem recentemente. Um não se importando com o outro.

Texto de Mary del Priore

3 comentários:

Prof. de História disse...

Me lembrei de uma nota que li no jornal Folha Sabarense, do final do século XIX, onde alguém pedia providência da Câmara para que as pessoas limpassem os quintais...

darkzenkk disse...

Nós, de hoje em dia, sequer temos NOÇÃO das dificuldades que enfrentou Anchieta. Hoje, estamos vivendo aqui no Brasil e se não fosse por pessoas como ele não haveria nem história brasileira. A essa tendência de querer voltar a roda da história e condenar tudo por ter se defrontado com povos nativos eu chamo ESQUIZOFRENIA. O confronto de povos está registrado nos anais da História como presente em toda a existência humana. Se não fosse por pessoas como Anchieta certamente não estaríamos falando sobre esse assunto.

darkzenkk disse...

Nós, de hoje em dia, sequer temos NOÇÃO das dificuldades que enfrentou Anchieta. Hoje estamos vivendo aqui no Brasil e não temos o devido respeito pelas pessoas que se dispuseram a enfrentar as enormes dificuldades aqui encontradas para iniciar a construção do nosso país. Parece óbvio que se não fosse por pessoas como Anchieta e outros não haveria nem história brasileira. A essa tendência de querer voltar a roda da história e condenar tudo por ter se defrontado com povos nativos eu chamo ESQUIZOFRENIA. O confronto de povos está registrado nos anais da História como presente em toda a existência humana. Se não fosse por pessoas como Anchieta certamente não estaríamos falando sobre esse assunto pois nem existiria um país chamado Brasil.

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