16.10.11

Angelo Agostini, 101 anos sem o grande chargista da Abolição

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Num tórrido e claro 23 de janeiro, há exatos 101 anos, morria no Rio de Janeiro o mais notável artista gráfico do período imperial e um dos mais destacados militantes da causa abolicionista. Seu nome era Angelo Agostini (1843-1910), um italiano que chegara aqui ainda adolescente e que ao longo de 43 anos fizera uma das mais longas carreiras da imprensa nacional.

Chamá-lo genericamente de artista gráfico - designação que não existia na época - é uma tentativa de enquadrar sinteticamente um talento que se destacava em atividades tão diversas como as de caricaturista, pintor, fotógrafo, repórter, crítico de costumes, editor, empresário e agitador político. Introdutor das histórias em quadrinhos entre nós, o artista deixou como legado uma obra vasta, diferenciada e, sobretudo, irregular. Seus traços estão fixados em pelo menos 3,2 mil páginas de jornais e revistas.

Agostini era sobretudo um cronista visual dos últimos anos da Corte imperial e das aceleradas transformações pelas quais passou o Rio nos primórdios da República. A combinação dessa sensibilidade com a de cidadão indignado geraria a parte mais importante de seu trabalho, as denúncias de torturas, mutilações e assassinatos cometidos por senhores contra seus escravos. A força de seus traços como documentarista é comparável à dos desenhos de Rugendas e de Debret, nos primórdios do século 19.

Ele começou sua carreira lançando e organizando jornais e revistas de circulação restrita, num tempo em que a imprensa era produzida de forma quase artesanal. Na virada do século, o panorama se altera. A chegada da máquina rotativa, de novas formas de reprodução e a ampliação do público leitor a transformam em empreendimento capitalista de porte. O artista deixa de ser dono de pequenas publicações e torna-se colaborador de grandes empresas editoriais. Mais do que uma mudança funcional, Agostini vivenciou duas fases decisivas da consolidação da imprensa brasileira.

Nos últimos anos de sua vida profissional, o artista mostrou-se intolerante com manifestações populares. Reclamava, em suas páginas, dos gritos dos vendedores ambulantes, exibia um surpreendente racismo em suas opiniões e clamava por reformas urbanas no Rio. O que poderia representar uma trajetória incoerente com sua militância antiescravocrata, expressa o comportamento de uma vertente importante do movimento abolicionista entre a elite intelectual e política do império. A libertação não se fez apenas por motivos humanitários, mas como parte de um difuso projeto de desenvolvimento, que pressupunha trabalho assalariado, imigração europeia e mercado interno.

Sob tal ponto de vista, a escravidão era cara, ineficiente e pouco produtiva. Não havia, assim, uma identidade maior com a população negra. Angelo Agostini morreu uma semana depois de um parceiro de atos e de ideias no movimento que desembocou no 13 de maio, o grande Joaquim Nabuco (1849-1910).

Adaptação do texto de Gilberto Maringoni, doutor em História Social, professor da Faculdade Cásper Líbero e pesquisador do IPEA

Consulte aqui outros links importantes sobre a obra de Angelo Agostini:
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16 comentários:

Roseane Freitas disse...

Valeu Professor!
Adorei o texto e as imagens do Angelo Agostini. Me ajudou bastante na minha pesquisa. Bjos.

Marcela Diniz disse...

Oi Professor
Parabéns pelo blog e pelos textos excelentes! :D

LEANDRO CHH disse...

Prezado Professor Adinalzir,
Angelo Agostini era o que chamamos hoje de autodidata. Para abranger em uma única pessoa tantas qualidades: caricaturista, pintor, fotógrafo, repórter, crítico de costumes, editor, empresário e agitador político. Introdutor das histórias em quadrinhos. E ainda lutar pela causa abolicionista!!!Bah precisamos de novos "Angelos" na atualidade, pois fazem a diferença.
Um grande abraço,
Leandro CHH

Prof. Adinalzir disse...

Prezada Roseane Freitas
Fico muito grato com a sua presença por aqui. Volte sempre que precisar.
Abraços!

Prof. Adinalzir disse...

Prezada Marcela Diniz
Agradeço sua visita e comentário.
Abraços e volte sempre! :-)

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Prof. Leandro CHH
O grande Angelo Agostini tinha de sobra aquilo que hoje falta na maioria das pessoas... garra e espírito de luta.
Um cordial abraço!

José Lima Dias Júnior disse...

No Braisl de hoje, seria necessário muitos Angelo Agostini... Valeu professor pelo Post!!!

Abraços,
Lima Júnior

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Prof. José Lima Dias Júnior
Concordo plenamente com você. Muito obrigado pela visita. Abraços!

Valdeir Almeida disse...

Professor,

É bom conhecer as personalidades históricas que contribuíram para formar a identidade do Brasil. Só agora estou conhecendo Angelo Agostini.

Abraços e ótimo final de semana.

Prof. Fabiano Reis disse...

Votado para o top blog professor, abraços e aproveito para votar no meu rsrsrs att eu

Argentino Neto disse...

Prof. Adnalzir, toda vez retorno a este espaço, volto pra casa feliz! Está cada vez melhor o Saiba História e saiba que tenho pelo senhor grande apreço e admiração! Grato por visitar o Ideias em Arte-Educação

Leonardo Oliveira disse...

Angelo Agostini me parece mais um exemplo, e isso era bastante comum, de um abolicionista que via o negro como elemento ameaçador ao discurso moderno e civilizador do Brasil. Portanto, a escravidão deveria acabar não por uma preocupação humanitária da exploração do negro, mas porque a presença desse elemento dificultaria o crescimento do país. Parabéns pelo post, SAIBA HISTÓRIA.

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Valdeir Almeida
Fico muito grato pela visita. Realmente, conhecer biografias de personalidades históricas brasileiras nos ajudam a conhecer melhor o nosso país. Abraços! :-)

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Prof. Fabiano Reis
Agradeço pelo voto. Estarei lá também votando no seu blog. Abraços!

Prof. Adinalzir disse...

Caro Prof. Argentino Neto
Fico muito grato pela consideração e apreço. Conte sempre com o amigo.
Um cordial abraço!

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Leonardo Oliveira
Realmente, as mazelas da escravidão ameaçavam o desenvolvimento do país. Por isso era preciso cada vez mais combatê-la. Valeu pela visita e não esqueça de votar novamente no Saiba História. Abraços!

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