29.5.17

Pedalando pela História de Santa Cruz, RJ

Divulgando mais um evento sobre Santa Cruz nos seus 450 anos. Um bairro com muita história! Apoio Claudinho do Som e Reinaldo Azevedo.  

28.5.17

A Lenda da Pedra da Cruz

Este documento foi um dos primeiros a mostrar a expansão do povoamento da cidade às margens da Baía de Guanabara. E foi nessa orla que aconteceu a nossa história de hoje, resgatando a origem de um local que está quase esquecido dos cariocas.
 
Você já ouvir falar do Engenho da Pedra? Era uma enorme fazenda que abrangia os atuais bairros de Olaria, Ramos, Bonsucesso e parte de Manguinhos, ocupando a maior faixa do Mar de Inhaúma, entre o porto de Maria Angu (Ramos) e a Ponta do Caju. O engenho era favorecido pelos rios Faria e Timbó para navegação e irrigação das lavouras.

O nome "da Pedra" refere-se a uma certa rocha no mar (uma laje), indicada por João Teixeira Albernaz no mapa acima e que era utilizada como referência à localização do engenho. Essa pedra existe ainda hoje, no canal entre o litoral de Ramos e a Ilha do Governador.

Geração após geração, desde meados do século 18, os pescadores da região vêm repassando a lenda da laje, que também ficou conhecida como "Pedra da Cruz". Eles contam que nela havia uma cruz de ferro de um metro de altura, colocada pelos pescadores como marco de um naufrágio que aconteceu no regresso de um casamento realizado na Igreja da Penha.

Um temporal surpreendeu os navegantes nesse terrível canal marítimo. A preamar havia ocultado algumas pedras, submergindo-as, e o barco foi de encontro a elas, afundando. Morreram os noivos e os convidados, salvando-se somente um remador, que narrou a tragédia.

Em 1638, as terras do Engenho da Pedra foram designadas como fazenda e abrigavam também uma capela dedicada a Santo Antônio. Da antiga casa-sede restam algumas ruínas, que foram ocupadas pela Favela da Igrejinha, na elevação onde está a Igreja de N. Sr.ª da Conceição de Ramos.

Notas

1) O círculo vermelho no mapa acima indica a Pedra da Cruz.
2) Mapa aquarelado, com toques a ouro, sobre papel encorpado - 25x37 cm - in Livro de Toda a Costa da Província de Santa Cruz, 1666.

Texto de Celso Serqueira.

7.5.17

Contribuição à história do subúrbio carioca

Bonde Madureira - Irajá. Ano 1937 Foto de Augusto Malta
Dentre os inúmeros viajantes que contribuíram para o conhecimento da região Sudeste do Brasil no início do século XIX, destaca-se o botânico Auguste de Saint-Hilaire, publicando na Europa o resultado de suas pesquisas. Permanecendo nesse país durante os anos de 1816 a 1822, iniciou sua viagem partindo do Rio de Janeiro visitando várias Províncias, colhendo material botânico e zoológico, registrando observações de interesse histórico, geográfico e etnográfico.

Acompanhado do cônsul geral da Rússia no Brasil Sr. George Von  Langsdorff, que em setembro de 1916 havia comprado a fazenda Mandioca em Inhomirim, na Baixada Fluminense, iniciaram a viagem no dia 7 de dezembro do mesmo ano, seguindo numa pequena tropa de muares, “um negro e um mulato que pertenciam ao Sr. Ildefonso”, responsável pela expedição.
 
Prosseguindo pelo “Caminho de Terra” passaram diante do palácio São Cristóvão, cuja visão à direita era a Baia de Guanabara e à esquerda “um vale semeado de colinas e casas de campo”, tendo ao fundo as montanhas da Tijuca cobertas de matas virgens. “Talvez cousa alguma no mundo se compare em beleza aos arredores do Rio de Janeiro” diz Saint-Hilaire, elogiando as florestas “tão velhas como o mundo”, e “que todos os meses do ano estão ornadas de flores vistosas”.
 
Descrevendo a estrada que saía da Capital, o botânico afirma que durante duas léguas “não deixamos de encontrar homens a pé e a cavalo, e negros que conduziam descarregados os cargueiros que pela manhã haviam levado à cidade com provisões”. Em meio à poeira “rebanhos de bois e varas de porcos tocados por mineiros avançavam lentamente”. Nas tabernas o ruído dos escravos era ensurdecedor, misturado aos “homens livres de classe inferior.”
 
INHAÚMA

Depois de caminharem duas léguas os viajantes avistaram a paróquia de São Tiago de Inhaúma, cujo edifício “construído isoladamente sobre uma plataforma, de onde se descortina um panorama muito agradável”. Comentando sobre essa denominação, Saint-Hilaire explica que: “Inhaúma, não passa provavelmente, duma corrupção de inhuma que se dá no Brasil, à ave curiosa que os naturalistas chamam de “palamedea cornuta”... é provável que tal ave, hoje em dia extremamente rara fosse outrora muito comum; mas foi dizimada com o fito de obter-se essa saliência córnea que traz à cabeça e à  qual se atribuem virtudes imaginarias.”
 
Surpreso com a densidade populacional da região, o viajante comenta que a “paróquia de Inhaúma, cujo raio não é maior que meia légua, conta com duzentos fogos (casas) e mil e seiscentos habitantes adultos”, revelando que ninguém ficava bastante afastado da Igreja, incluindo as tabernas às margens do caminho. “Artífices, mercadores, botequineiros, tratam também de se aproximar do local em que se reúnem os proprietários, e é assim que se formam, na maioria, as povoações do interior”.              

Ao se afastarem de Inhaúma, as habitações e as tabernas na beira da estrada iam rareando, encontrando-se menos terrenos cultivados. “Os bosques tornam-se mais comuns, e como uma vez mais nos aproximamos das montanhas, o aspecto da região toma caráter mais grave”.
 
IRAJÁ

Continuando a viagem os caminhantes foram dormir em Irajá, “outra paróquia mais importante”. Ali chegando admiraram-se de ver uma casa toda iluminada por numerosas lanternas de papel, cujo dono era devoto de N. S. da Conceição sua padroeira, antecipando-se à festa que haveria em sua homenagem no dia seguinte. 

No outro dia, ao acordarem pela manhã, foram surpreendidos à porta da casa, com um grupo de “doze ou quinze” índios Coroados, homens e mulheres, que estavam de passagem em direção ao Rio de Janeiro, “para reclamar do Rei uma légua quadrada de terras em que desejavam se estabelecer e da qual pretendiam expulsá-los. Não sei o que foi feito deles, mas é provável que ninguém tenha ligado a menor consideração às suas queixas”.    
 
Após arrumarem a bagagem nos animais, a pequena tropa continuou sua marcha para atravessar o leito do rio Meriti, em busca de Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga (Nova Iguaçu) novamente despertando admiração de Saint Hilaire a flora que compunha as matas à margem do caminho: “depois de Irajá o caminho torna-se menos igual e em alguns lugares corta-se terrenos pantanosos em que florescem várias “Ponteiderias”, belas “Sagittarias” e “Rhexias’ ornadas de lindas flores”. Nas capoeiras um pouco mais úmidas, observei a espécie de “Bignoneácea” que chamam vulgarmente ipê, ... estava então coberta com uma intensidade de belas flores amarelas que a faziam notar de longe”. Ao sair do Rio de Janeiro, o botânico registra o fim das chácaras em volta das casas e o início dos canaviais circulando os engenhos de açúcar, que fumegavam tocados pelo braço escravo, “em número de cinco na paróquia de Inhaúma, e já em Irajá atingem a doze, e onze na de Santo Antônio de Jacutinga, paróquia que vem depois de Irajá, e cujas terras baixas e úmidas convém perfeitamente à cultura da cana-de-açúcar”.
 
UM POUCO DA HISTÓRIA DE INHAÚMA

Segundo Monsenhor Pizarro registrou ainda no período colonial, em Inhaúma se acha a Paroquial Igreja de São Tiago, cujo templo foi fundado por Custódio Coelho e doado em 1684, por Agostinho Pimenta de Morais ao Vigário Geral, Clemente Martins de Matos, para ser Capela Curada do território de Inhaúma. Se desunindo da Freguesia de N. S. da Apresentação de Irajá, seu primeiro pároco foi o padre Francisco Galvão Taborda, desde que essa Igreja entrou na categoria de perpétua em 27 de janeiro de 1743. Reconstruída com paredes de pedra e cal em 1780, pelo vigário Padre Antônio da Fonseca Pinto, seu interior era composto de três altares sendo o maior, ao centro, dedicado ao Santíssimo Seus limites assinalavam a Freguesia de N. S. da Apresentação de Irajá e S. Francisco Xavier do Engenho Velho, havendo duas Capelas filiadas: A 1ª. de Santo Antônio, fundada na fazenda da Pedra antes do ano de 1638. A 2ª. de Santa Ana, nas proximidades da Matriz.
 
“Cinco fábricas de açúcar e algumas olarias subsistem nesse território”, diz monsenhor Pizarro, “cultivado com cana doce, mandioca, milho, feijão, vários legumes, arroz, café, cacau, hortaliça e arvores de espinho frutíferas”. A produção “mais pesada” era conduzida através dos portos da Olaria e das Mangueiras, ou as praias de Maria Angu e de Inhaúma, sendo os gêneros de fácil condução transportados pelo “caminho de terra firme”. Fertilizado por  “dois pequenos riachos” que atravessavam a região, denominados por Farinha e Gombitimbó, ambos mansos em tempo seco mas “temíveis e soberbos em estações chuvosas, em que negam passagem aos viandantes”.
 
Segundo Theodoro Sampaio em uma versão mais consistente, Inhaúma é uma corruptela de “nhan-um”, ave preta (palmidia cornuta), habitante de lugares pantanosos. Vieira Fazenda registra que esta região figura nas cartas de sesmarias cedida aos jesuítas em 1555 por Estácio de Sá: “cem braças ao largo do mar, e mil pela a terra adentro da tapera de Inhaúma. É de concluir-se, pois que Inhaúma teria sido uma aldeia de tupinambás, pelo que se chamara antes “Tapera”.
 
Brasil Gerson nos dá outra versão dizendo que Inhaúma era o mesmo que barro de olaria, afirmando que “durante algum tempo na sua vasta Freguesia predominaram a cana de açúcar e outras lavouras”, dedicando-se também ao fabrico de tijolos e telhas, nas inúmeras cerâmicas que se espalhavam em seu território. As cartas do século XVIII assinalam no litoral dessa região, o nome da grande Freguesia várias vezes repetidas: “Porto de Inhaúma; Saco de Inhaúma; Bonsucesso de Inhaúma; etc.” Onde seis anos depois os jesuítas abriram caminho afastando-se para o interior em busca das regiões secas, e estabelecer lavouras e engenho. 

CRISTÃOS NOVOS

Antes de prosseguirmos contando um pouco da história de Inhaúma, queremos chamar atenção para a ocupação de “cristãos novos” (Judeus convertidos ao catolicismo) nessa região, desde o século XVII. 

Divididas em freguesias por seu caráter religioso, o recôncavo fazia-se presente na economia da capitania, criando na parte ocidental da Baia, as freguesias de Irajá, São João Baptista de Meriti, Jacutinga, Campo Grande e Jacarepaguá. As roças de mandioca para atender os engenhos de farinha, o milho, as hortaliças e as frutas também faziam parte desse celeiro, beneficiado pelo solo humoso, fertilizado pelo leque de rios, que serviam de escoamento da colheita abundante em direção ao Rio de Janeiro. Criação de gado, engenhos de aguardente, olarias e extração de lenha, completavam a atividade dessa gente  que se instalavam na cidade, e tinham como fonte de renda, o campo.

Segundo o padre José de Anchieta, no final do século XVI, 3.850 almas faziam parte dessa população" sendo três mil de índios, setecentos portugueses e uma centena de negros africanos". Durante o século seguinte, a riqueza que se acumulava com uma economia essencialmente agrária, criou a figura do senhor de engenho, "lavradores de partido, e homens brancos que exerciam funções técnicas nos engenhos, como mestre de açúcar, e nas cidades eram artesãos, intermediários na exportação, importadores de bens de consumo e escravos, pertencente aos quadros da burocracia colonial, e os profissionais liberais, como advogados e médicos”, compunham o alvorecer dessa burguesia fluminense. 

Constituindo essa pequena população branca, "os Lucena, os Cardoso e os Barros, tinham seu lugar como proprietários de terras" fazendo parte, durante o século XVIII "do grupo dos "homens bons" e participantes da burocracia colonial", diz Lina Gorenstein. Combinando atividade agrária no campo com a burocrática na cidade, os cristão s novos valiam-se dos familiares para administrar o engenho. Era impossível "dissociar esse grupo urbano, daquele ligado a produção do açúcar: assim, essa incipiente burguesia cristã nova fluminense do início do século, tinha raízes na grande propriedade agrícola monocultora e escravista do açúcar, com o qual se encontrava profundamente relacionada".

A propriedade da terra no recôncavo, foi desde cedo, cedida a cristãos novos, Antonio de Lucena recebeu do governador Salvador Correia de Sá, "uns chãos devolutos", segundo as "cartas de sesmarias do Rio de Janeiro (1595-1606) também a Diogo de Montarroio, Manoel Gomes, Miguel Cardoso e Antonio de Barros, casado com Dona Brites Lucena". O mais antigo engenho de cristãos novos no Rio de Janeiro, do qual existe descrição, segundo Gorenstein, "pertencia a Sebastião de Lucena Montarroio e sua esposa Beatriz de Paredes, em meados do século XVII. Era um engenho de três paus em Maragoí, sob a invocação de N. Sra. do Rosário, coberto de telhas e com moenda".
 
Com a construção de uma capela dedicada a N. Sra. da Apresentação, nos arredores do Rio de Janeiro, era criada em 1647 a freguesia do Irajá, pelo padre Gaspar da Costa, tornando-se paróquia independente no mesmo ano. Ocupada por vários engenhos de açúcar, "Irajá parece ter sido preferida por muitos dos cristãos novos que no Rio de Janeiro se dedicaram a atividades agrícolas, tais como os Paredes e os Ximenes”, diz Vivaldo Coraci.
 
Em São João de Meriti, paróquia também criada em 1647 com a denominação de Trairaponga, tinha por limites ao norte, a freguesia de Jacutinga ao sul a de Irajá, a oeste com Campo Grande e a leste com a baia de Guanabara. A presença  de  cristãos  novos  nessa região, foi  bastante  intensa  durante todo o  século XVII, "Alexandre Soares pereira era dono de um engenho no sitio da Pavuna, em São João de Meriti, engenho herdado de seu pai João Soares Pereira. José Gomes Silva, homem de negócios, contratador, era também senhor de engenho em Meriti, tendo como sócio o Capitão Pereira Galvão". João Correia Ximenes, casado com Brites de Paredes, filha do senhor de engenho Agostinho de Paredes, "era senhor de engenho em Meriti, com escravos, boa fábrica, e sem gados". 

Nesta freguesia João Correia Ximenes ergueu uma capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, antes de 1708, no porto da freguesia. Cerca de 30 senhores de engenhos foram denunciados ou presos nesta paróquia, diz Lina Gorenstein, "vários desses senhores eram aparentados" com proprietários de outros engenhos que se aninhavam nos vales do Meriti, Irajá, Sarapuí, Iguaçu e em Jacarepaguá, aliados com os lavradores "de partido", membros da família, ou "da nação".  Esses lavradores arrendavam terras para o plantio de cana ou mandioca e usavam o engenho do proprietário para moagem, deixando como pagamento parte de sua colheita.
 
O PÁROCO DE INHAÚMA

Vieira Fazenda informa que embora os engenhos de farinha e açúcar já produzissem no início do século XVII, “a fazenda de Inhaúma só se tornou paróquia em 1687,” graças a construção da capela feita por Agostinho Pimenta de Morais, “templo esse levantado nas terras de Custódio Coelho, em louvor a Nossa Senhora da Conceição”. Em seu altar, recebeu a imagem de São Thiago Mayor, vinda da Espanha, cujo primeiro vigário foi o padre Clemente Martins de Matos. Esse sacerdote era judeu.  Formado em Direito Canônico, teve que fugir de Portugal para não cair nas garras do “Santo Ofício” no final do seiscentos, quando eram mais terríveis a caça às comunidades judaicas para serem “julgados” e sacrificados no fogo da Inquisição. “Peregrinou por vários países da Europa até chegar em Roma. Homem de talento, inteligente, dinâmico” e, apesar de não ter “sangue limpo”, padre Clemente soube penitenciar-se diante do poder papal e receber seu aval para exercer o sacerdócio numa colônia bem distante da Europa. Viajando para o Rio de Janeiro foi designado para a Paróquia de Inhaúma “à qual deu muitos benefícios de sua piedade e de sua bolsa”, onde permaneceu por alguns anos sem ser “incomodado”.

ENGENHO DA RAINHA

A moradia do Engenho da Rainha já existia quando D. Carlota Joaquina, esposa de D. João VI a comprou depois de sua chegada em 1808. Segundo Brasil Gerson em sua “História das Ruas do Rio de Janeiro”, essa grande casa pertencia a Freguesia de Inhaúma e apesar de composta de um só pavimento, “dispunha de 15 quartos, e diante delas via-se 2 fileiras de esguias palmeiras, numa pequena elevação até onde chegaria à Rua D. Luísa. O engenho era embaixo, na planície”.

Descendentes do Coronel Joaquim de Souza Pereira Botafogo, último de seus proprietários já no final do Segundo Império, quando Inhaúma havia perdido “fazia muito, a sua velha riqueza agrícola, da qual havia participado também os jesuítas à partir do século XVIII, lembravam-se do resto do fausto Real deixado sob seu teto. Coisa assim como a cama da Rainha, de grossos pés de madeira esculpida; uma carruagem que a trazia do porto de Inhaúma;  fardas de seus soldados e cocheiros, e as iniciais da Casa Real num marco de pedra à sua porta”.

RIOS, CAMINHOS E POVOADOS.

No Dicionário Histórico e Geográfico de Moreira Pinto publicado no final do Império, encontramos detalhes do Rio Inhaúma, que nascia nas vertentes das serras que se formam a Oeste da cidade recebendo o pequeno rio Faria, e despejava suas águas na baia de Guanabara atrás da ponta do Caju chamada de baia de Inhaúma. “Apesar de pouco importante, este rio deve orgulhar-se de ter o seu nome ligado ao herói da guerra do Paraguai, nas batalhas Curupaity e Humaytá, o almirante Joaquim José Ignácio, que possuía uma modesta propriedade junto a sua embocadura”.
       
No mesmo dicionário vemos os limites dessa freguesia: ao Norte limita-se com as Freguesias de São Cristóvão e Engenho Novo; ao Sul com a de Irajá; a Este com a de Jacarepaguá e a Oeste com o mar. “Conta com sete centros populosos: Cascadura, Cupertino, Encantado, Engenho de Dentro, Pilares e Praia Pequena. Possui uma linha de bondes (tração animal), um hospital e duas capelas. A Igreja Matriz conta com a invocação de São Thiago; ao lado dela fica o cemitério em péssimas condições tanto em tamanho como em asseio”.

O livro assinala os “prédios nobres da Freguesia”: As oficinas da Est. de Ferro Central do Brasil; a fábrica de fósforo; a olaria José dos Reis; a fábrica São Lázaro; a Sociedade Particular de Música Progresso do Engenho de Dentro; a Escola Pública dos Operários; o palacete D. Silvana no Encantado; o Hospício de N. Sra. das Dores, em Cascadura.

Faziam parte os seguintes povoados e lugarejos: Apicú, Amparo, Amorim, Arraial dos Bíblias, Amazonas, Braz de Pina, Barreiros, Bomsucesso, Cascadura, Coqueiros, Capão do Bispo, Caneleira, Cardoso, Cupertino, Catete, Engenho de Dentro, Engenho da Pedra, Engenho do Mato,  Engenho da Rainha, Freguesia, Frecheiras, Itaguati, Juramento, Maria Angú, Manguinhos, Madalena, Olaria, Oficinas, Piedade, Pilares, Praia Pequena, Pedra do Juramento, Pedreiras, Ramos, Tabôa, Serra do Urubú, Tererê, Terra Nova, Vendinha, Viana, Venda Grande e Zumbá.
             
Os caminhos mais importantes eram: Estrada da Penha, Estrada da Freguesia, Estrada de Santa Cruz, Estrada das Oficinas, Estrada da Pavuna, Estrada de Todos os Santos. Alguns portos também faziam parte dessa Freguesia: Porto da Pedra, Porto de Inhaúma, Porto do Mocanguê e Porto de Maria Angú. 

Estabelecendo pequenos portos fluviais e nas praias urbanas da baia de Guanabara, durante os primeiros séculos de ocupação intensificou-se o curso de cabotagem com barcos e faluas que transportavam a produção dos engenhos periféricos do “sertão carioca”. À foz e ao longo dos rios Meriti, Irajá e Inhaúma, o intenso movimento de mercadorias e passageiros, misturavam-se com pescadores que iam vender sua mercadoria a população mais afastada do litoral.

Os caminhos de penetração em direção ao Norte deve-se a expansão dos engenhos e roças que se estabeleceram entre São Cristóvão, Inhaúma, Irajá, Pavuna e Santa Cruz. “O caminho de Itaoca que no Bonsucesso de hoje se prolongava até as praias de Inhaúma, Apicú e Maria Angu”, era a continuação dos caminhos de Manguinhos, Inhaúma e Engenho da Pedra, alcançando o Porto Velho de Irajá através da estrada do Quitungo.        

ESTRADA  REAL

Em 1725, o coronel Rodrigo César de Meneses recebeu da Coroa, autorização para abrir um caminho terrestre que ligasse o Rio de Janeiro à São Paulo, aproveitando a trilha já aberta pelos jesuítas desde São Cristóvão ate a fazenda de Santa Cruz, o que suscitou protestos dos Inacianos alegando prejuízos. Entretanto o trabalho continuou e a estrada foi concluída em 1754. Anteriormente também conhecida como estrada das Minas, devido a crença dos primeiros habitantes, que haviam encontrado ouro nas nascentes do rio Guandu, pertencentes aos jesuítas. Com uma extensão de mais de 60 quilômetros, esse caminho longo e sinuoso começava no atual largo da Cancela em São Cristóvão, e terminava nos campos alagados de Santa Cruz. Passando por vários engenhos pertencentes a freguesia de Irajá, era usada para o transporte de produtos da lavoura, e cerca de 500 cabeças  de gado anuais, que os jesuítas enviavam para venda e destinados a manutenção do Colégio no Rio de Janeiro, pertencente à Ordem.
 
Na Carta Topográfica do Rio de Janeiro ”Feita por ordem do Conde da Cunha, por Manoel Vieira Leão” em 1767, vê-se o trecho fluminense dessa estrada que, partindo do centro urbano seguia por Campinho, Engenho dos Afonsos e inúmeros outro engenhos. Passando pela freguesia de Santa Cruz, (assinalado no mapa por eng. D’el Rei, pois os inacianos haviam sido expulsos em 1759), Guarda, sobre o rio Guandú, e Itaguaí, deixando o litoral em busca da Guarda do Pouso Frio, Ribeirão das Lages, Pouso do Vigário (rio Piraí) e a Guarda do Coutinho, entrando no sertão paulista através de  florestas.
 
No mapa de João Jorge Lobo, datado de 1778, essa estrada saía do centro da cidade com o nome de Caminho de Inhaúma, passava pelo engenho do Fr. Miguel em Campo Grande, Santa Cruz, Guarda da Ponte no rio Taquarí, Pouso Frio, Caveiras, São João Marcos, Passa-Vinte, Passa Três e Guarda do Coutinho entrando na Capitania de São Paulo pela região registrada no mapa como sertão. Em outro mapa datado de 1801 “da Capitania do Rio de Janeiro oferecido a D. Antônio Roiz de Aguiar”, a estrada de Santa Cruz inicia-se no Caminho de Terra Firme entre as terras do Eng. Novo e os “Campos de Irajá”, até atravessar a fazenda, assinalado no mapa com o nome de Santa Cruz D’el Rei. 
 
Por essas terras transitou com suas tropas em 1710 o Capitão-de-Fragata francês Jean François du Clerc, comandando todo o corpo de uma esquadra composta de cinco navios de guerra e 1500 homens para atacar o Rio de Janeiro, desembarcados em Guaratiba. Segundo um manuscrito da biblioteca da Ajuda em Portugal referindo-se a essa invasão: “Guaratiba era um porto que fica perto da Vila da Ilha Grande 4 léguas por terra à cidade, a qual não tinha muita resistência por ser pouco capaz de desembarque, e só os moradores que ali se achavam com os seus negros lhe deram algumas cargas de mosquetaria e se retiraram”. 

O Governador do Rio de Janeiro, Coronel Francisco de Castro Morais assinala em seu relatório, que os franceses continuaram por terra “vencendo os embaraços do caminho até alcançarem o engenho dos padres da Companhia”. Em outra versão, os franceses seguiram para a cidade “guiados por negros fugitivos das casas de seus senhores...vindas da Ilha Grande pela Guaratiba, submeteram a ruínas e destruições os Engenhos da Vargem Grande e do Camori”.
 
O CASO DA FREGUESIA

Ainda no período do Império havia um colégio no Caminho dos Pilares (hoje rua Álvaro Miranda), do Prof. Cintra Vidal, que segundo Brasil Gerson, no largo, perto da escola, ficava a Venda dos Pilares, dizendo-se na versão popular que essa “era uma denominação inspirada nuns adornos de pedra que enfeitavam a casa do vendeiro e muito se destacavam”.
   
Os rios assoreados e os portos já desnecessários com a abertura dos caminhos perderam sua importância também com a extinção da produção de farinha, açúcar e aguardente. As engenhocas abandonadas eram presas fáceis do matagal, que invadia seus terreiros num abraço mortal. Em lugar das lavouras apareceram algumas pequenas indústrias como a cerâmica de José Moutinho dos Reis no lugar que ficou conhecido como Olaria.

Em Terra Nova e Pilares onde o trem passava, o casario se agrupava desmembrando-se da grande paróquia, perdendo aos poucos várias localidades de sua jurisdição que alcançava Benfica e São Cristóvão. Partindo daí, “o Caminho de Inhaúma se alarga. A estrada da Freguesia melhora”. Surge a Av. Automóvel Club no início do século XX. “Valorizam-se as terras à beira da tradicional Estrada Velha da Pavuna. A igreja ganha uma bonita praça antes chamada Adolpho Bergamine, depois: 24 de Outubro. Na Rua Padre Januário, em sede própria, funcionou durante muitos anos, o Grêmio Dramático de Inhaúma, animando as tardes domingueiras com espetáculos teatrais que atraíam grande parte da população.”

“Os bondes puxados por uma parelha de burros e dois vagões que faziam o trajeto Madureira-Inhaúma, também alcançavam a Penha através de Irajá”, diz em depoimento oral dona Maria Perez, que durante a década de vinte, fez esse trajeto muitas vezes com sua família para acompanhar enterros no cemitério de Inhaúma, ou participar das festas de outubro na igreja da Penha. No final da década de trinta, esses veículos foram substituídos por tração elétrica, deixando na saudade das pessoas mais velhas da região, a visão bucólica das pequenas cidades do interior, que no passado abrangiam a enorme região de Inhaúma, hoje limitado a um pequeno conjunto de casas aninhadas em torno de sua matriz.     

BIBLIOGRAFIA:

GERSON, Brasil – “O Ouro, o Café e o Rio”. Editora Brasiliana, 1970 – Rio.
SAINT-HILAIRE, Auguste de – “Viagem pela Província do Rio de Janeiro e Minas Gerais” – Ed. Itatiaia1975 - SP. 
GERSON, Brasil – “Histórias das Ruas do Rio” - 5ª. Edição. Lacerda Editores – 2000 - RJ 
VIEIRA FAZENDA, José - “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro”. Rev. do I.H.G.B.- V. 142 – 1940 – RJ.
SILVA, Moacir    - “Kilometro Zero” - 1934 – RJ.
PIZARRO e Araújo, José de Souza Azevedo – “Memórias Históricas do Rio de Janeiro” – I.N.L. – Imprensa Nacional, 1945 – RJ.
COARACY, Vivaldo  - “O Rio de Janeiro  no Século Dezessete”. José Olympio Editora – 1965 – RJ.
FERREIRA da Silva, Lina Gorenstein – “Heréticos e Impuros”. Col. Biblioteca Carioca – 1995 - RJ.
FRAGOSO, Augusto Tasso – “Os Franceses no Rio de Janeiro”. Biblioteca do Exército – 1965 - RJ.
Depoimento oral: D. Maria Perez, moradora em Duque de Caxias.

6.5.17

Serra da Misericórdia: Uma obra prima da natureza no meio do subúrbio


A Serra da Misericórdia, uma verdadeira obra magnífica da natureza, abrange cerca de 43,9 km2 no município do Rio de Janeiro, e está localizada após uma faixa de baixada de aproximadamente 6 km a norte do Maciço da Tijuca e 3 km da costa oeste da Baia de Guanabara no ponto mais próximo de seu relevo: o bairro da Maré. É uma região geográfica enorme. Você não acha?

O maciço da Misericórdia chega a aproximadamente 260 metros de altitude em seu ponto culminante, a Serra do Juramento (onde fica a comunidade do Juramento). Estende-se por 27 bairros do subúrbio carioca. Entre eles: Abolição, Bonsucesso, Brás de Pina, Cavalcante, Cascadura, Complexo do Alemão, Del Castilho, Engenho da Rainha, Higienópolis, Honório Gurgel, Inhaúma, Irajá, Madureira, Olaria, Penha, Penha Circular, Piedade, Pilares, Ramos, Rocha Miranda, Tomás Coelho, Turiaçu, Vaz Lobo, Vicente de Carvalho, Vila Kosmos e Vista Alegre.

Antes da conquista da Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana (APARU), estabelecida pelo Decreto nº 19.144, de 14 de novembro de 2000, não havia nenhum controle sobre a poluição dos bairros circundantes ao maciço da Misericórdia. As comunidades ao redor do morro estavam invadindo o terreno rumo ao topo e destruindo o pouco que ainda restava da natureza nativa. Havia a presença de três pedreiras com suas jazidas de granito na região, com emissão de esgoto industrial na água dos rios da Serra da Misericórdia que transportavam metais pesados e detritos orgânicos para a Baia de Guanabara. Com a perda da vegetação original, houve a destruição da estrutura do solo que era necessário à sua agregação e firmeza, causando a impermeabilização, o ressecamento dos rios que dependiam dessa vegetação. Tal fato provocou a  aceleração da erosão e o assoreamento, o que pôs  em risco muitas comunidades que viviam nessas encostas.

A Serra da Misericórdia é considerada parque e área de preservação ambiental desde 16 de dezembro de 2010, a partir do Decreto nº 33280, que nomeou o Parque Municipal da Serra da Misericórdia como Parque Municipal Urbano da Serra da Misericórdia ou Parque ecológico da Vila Kosmos, e estabeleceu seus limites. Na prática, o reconhecimento significa que o local será destinado ao lazer, à prática esportiva, à recreação em meio à natureza, à promoção da educação ambiental e à valorização das manifestações culturais e tradições locais, e a ações de proteção às áreas de reflorestamento, à fauna, às nascentes e mananciais de água existentes no local. Mas até onde sabemos, mesmo depois do decreto, a serra não vem sendo fiscalizada como deveria e seu terreno foi perdendo metros a cada ano. Existe um projeto do governo do estado para revitalizar a região e criar um grande parque ecológico, com 25,5 mil metros quadrados. Mas infelizmente isso jamais saiu do papel, ficando apenas obras de contenção de encostas. Existe uma lei que protege as áreas naturais, a fim de preservar o que ainda resta de bens naturais. É a  lei número 19.144 de 16/11/2000. Além das Pedreiras e mananciais de rios (hoje todos mortos). A serra abriga ainda o famoso reservatório da Penha, que abastecia de água praticamente toda zona da Leopoldina e Ilha do governador.

No começo dos anos 30 e 40 existiam expedições pela serra, onde as pessoas faziam trilhas e descobriam suas belezas naturais. Isso só foi possível saber devido a pesquisas feitas em jornais antigos e um desses periódicos mostra uma reportagem sobre o assunto (Jornal do Brasil, 30 de Janeiro de 1941).

Alguém sabe por que se chama Serra da Misericórdia?

Como a história do Brasil nos mostra, nosso país foi uma colônia portuguesa e sabemos que a monarquia era ligada a religião católica, que teve um papel importante nas primeiras construções do local pesquisado. O nome Serra da Misericórdia foi dado pela Santa Casa de Misericórdia, pois no início da exploração das terras da região da Penha, acabou adquirindo terras no local, assim dando o nome a serra. Com o passar dos anos as comunidades foram crescendo ao seu redor por causa da especulação imobiliária. O que contribuiu para que o Rio das décadas de 40 e 50 se tornasse um local caro para se morar. Por isso quando uma família de baixa renda não tem condições de pagar aluguel. Ela vai para onde? Para os morros e foi assim que a Serra da Misericórdia começou a ser ocupada pelas comunidades.

Autor da pesquisa: Historiador Paulo Silva
https://paulosilvahistory.blogspot.com.br/

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