3.4.15

Cemitérios: Patrimônio Histórico, Espaço de Memórias


Até o século XIX, em muitas partes do Brasil, os velórios aconteciam nas residências dos mortos, e havia a convivência do vivo com o morto no ambiente religioso. Mas na cidade de Salvador, uma lei garantiu a uma empresa privada o monopólio dos sepultamentos por um período de 30 anos. A população reagiu destruindo o cemitério, revoltada porque os enterros não seriam mais realizados nas igrejas.

Este episódio ficou conhecido como a Revolta da Cemiterada, que foi abordada no livro “A morte é uma festa”, de João José Reis.  O autor, um dos historiadores brasileiros mais prestigiados, estuda como o homem percebe a morte e suas atitudes em relação ao término da vida. Em “Imagens e Imaginário na História” o historiador francês Michel Vovelle também fala da morte e do além-mundo, utilizado, inclusive, histórias em quadrinhos

Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. O Vale dos Reis, um dos lugares mais visitados do mundo, nada mais é do que um grande cemitério. Para muitos povos pré-colombianos, morrer significava estar mais próximo dos deuses ou mesmo se igualar a eles. Deixar seus feitos registrados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga para alcançarem a imortalidade.

Os cemitérios ou necrópoles guardam pedaços da História. Eles são muito mais do que um lugar de descanso para entes queridos. Ele ultrapassa suas funções ritualísticas e religiosas para se tornar, também, um patrimônio arqueológico, histórico e cultural. Andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que o sentimento de tristeza. Eles nos oferecem uma viagem no tempo. São também espaços de manifestações artísticas. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Alguns cemitérios possuem jardins tão perfeitos, que mais parecem fruto projetos paisagísticos (se não o forem).

Alguns cemitérios podem ser considerados como museus ao ar livre, com coleções de túmulos únicas, que contam e registram histórias.  Os cemitério, em alguns países, tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo.

Alguns dos cemitérios mais visitados do mundo ficam nos Estados Unidos, como o cemitério Nacional de Arlington, o Trinity Churchyard, o Cemitério Boot Hill e o Hollywood Forever. No Brasil o Cemitério da Consolação, inaugurado em 1858, é o mais famoso. E, da mesma forma que existem formas de se visitar virtualmente museus famosos, alguns cemitérios também ganharam espaço na internet, como por exemplo, o Cemitério de Père Lachaise, na França.

Eu, particularmente, tenho um interesse especial por estes espaços. Gosto, em especial, dos cemitérios de cidades pequenas. Muitos encantam pela sua simplicidade. Acredito que os cemitérios têm potencial didático, podem ser utilizados tanto para se estudar a história local quanto para se desenvolver projetos de educação patrimonial.

Quando vou ao cemitério da minha cidade não consigo evitar. Passo a maior parte de tempo imaginando histórias que passam pela escravidão, pela religiosidade e pelo apego aos ritos. Faça uma experiência, visite um cemitério neste feriado. Busque lançar seu olhar para além da representação da morte, para além do macabro. Você vai encontrar história, vai encontrar beleza e vai estar se conectando com a memória local.

Texto de Natania Nogueira.

Projeto original do Palácio de Santa Cruz. Rio de Janeiro - RJ.

Assim como publicado na página no dia 05 de Setembro, projeto de autoria do arquiteto inglês John Johnson, contratado no governo do Rei ...