16.3.14

Limpeza e sujeira


"O Banho Turco", de Jean-Auguste Ingres.
Para cada cultura e para cada diferente época, a guerra entre “limpo e sujo” desenvolveu-se de um modo específico. Na Idade Média, por exemplo, cultivavam-se as abluções completas e repetidas. Os cruzados haviam trazido do Oriente o hábito dos banhos de estufa. Esses eram lugares de alegre promiscuidade, onde os corpos eram tratados, depilados e perfumados pelas diligentes mãos do barbeiro, misturando-se à água e ao vapor. Mas o cristianismo nunca incentivou esse uso da água — basta pensar no tradicional encardido monástico —, e passou a desenvolver uma profunda desconfiança em relação aos banhos.

Desde o século XVI, o anátema da Igreja abateu-se sobre as “estufas” e os banhos, sob a alegação de que aí desenvolviam-se atitudes obscenas e condutas licenciosas. Mas os constrangimentos eram também de ordem material. Com o crescimento das cidades, aos fins do século XV, não havia água suficiente ou madeira para aquecer os banhos. Eis porque a sujeira do corpo sedentarizou-se, passando a ser familiar — mesmo entre os mais ricos e poderosos. Era preciso perfumar o corpo, mas desodorizar também a casa, as salas de baile, os salões de espetáculos. Aromas corpulentos, como o âmbar ou o almíscar, tentavam recobrir a terrível pestilência. O perfumista, homem de segredos entre o alquimista e o médico, é o grande general nessa luta olfativa. Mas será que o exagero odorífico mascarava o hálito empesteado de dentes que só de vez em quando eram visitados por palitos? Pouco. Vivia-se num contexto no qual o mau cheiro era banal.

O Castelo de Versalhes — um dos mais belos da Europa — tinha seus corredores e escadas fedendo à urina e a excrementos de seus nobres moradores. Nele, a água só tinha função decorativa na forma de lagos, fontes e repuxos nos belos jardins. Tudo para agradar os olhos, nada para o corpo. A penúria sanitária do palácio evidenciava-se nas anotações do médico de Luís XIV, quando, ao diagnosticar uma dermatite, justificava compenetrado. “O Rei só tomou um único banho em 1665, e por razões de saúde!”. No restante do tempo, aquele que ficou conhecido como o Rei-Sol limpava seu rosto em um algodão embebido em vinho branco — uma vez a cada dois dias.

Versalhes possuía em seu mobiliário um total de 274 ”chaises-percées”, ou seja, lindas poltronas em madeira entalhada e dourada, cujo assento clava passagem a um penico estrategicamente colocado. No rol de roupas haviam os chamados “acessórios de comodidade” (que tinham a função do nosso papel higiênico). O de Madame du Barry eram de renda. Os de Richelieu, de linho; os de Madame de Maintenon, de fina lã. Os pobres faziam como os antigos gregos, servindo-se de plantas e pedras. A burguesia utilizava-se de estopas. Apenas sob o reinado de Luís XVI, na segunda metade do século XVIII, será construído um verdadeiro “gabinete de bem-estar” em mármore, porcelana e mogno. 

Fonte: Mary del Priore - "Histórias do Cotidiano".

2 comentários:

Sylvio Mário Bazote disse...

Na vida muito se deve ao texto ou contexto para definir o significado.
Quem sabe daqui a algum tempo ter cabelos poderá ser considerado anti-higiênico e todos rasparão ou depilarão os mesmos, voluntariamente ou obrigatoriamente.

Prof. de História disse...

Lembrei-me da explicação dos guias lá no Museu Imperial. Dizem que os pobres usavam o sabugo de milho. Se fosse um pobre caprichoso, cozinhava o sabugo para ficar macio.

BlogBlogs.Com.Br