7.3.12

Expedições do século XXI


Pesquisadores da Fiocruz visitarão regiões desbravadas por sanitaristas entre os anos de 1911 a 1913.

Carlos Chagas (ao centro) na expedição à Amazõnia

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) vão refazer os passos dos médicos Carlos Chagas, Arthur Neiva e Belisário Penna, que, entre os anos de 1911 e 1913, promoveram expedições científicas pelos sertões do Brasil. Se, no início do século passado, os sanitaristas identificaram o total abandono das áreas rurais, a ausência da atuação dos governos e um grave quadro de doenças endêmicas, agora as equipes do IOC, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz, voltarão aos locais para mostrar que a pobreza ainda é um problema persistente.

As expedições acontecerão a partir da metade deste ano, com previsão de término em 2014. A ação piloto foi promovida no fim de janeiro em Paudalho, cidade de Pernambuco com 51 mil habitantes, distante 37 quilômetros de Recife. O município, que recebeu a visita dos sanitaristas há cem anos, ainda luta contra doenças vinculadas à pobreza, como esquistossomose, tuberculose e as provocadas por vermes. As expedições estarão integradas às ações do programa do governo federal Brasil Sem Miséria.

Os registros fotográficos e os documentos produzidos pelo trabalho de Chagas, Neiva e Penna mostraram, na época, um Brasil até então desconhecido para a grande maioria da população urbana, concentrada no litoral. De acordo com o pesquisador da Fiocruz Jaime Benchimol, as expedições dos médicos acabaram com a "fantasia" de que as cidades litorâneas eram insalubres, enquanto o campo oferecia qualidade de vida.

- Até então, as políticas públicas para a Saúde estavam voltadas para as epidemias que aconteciam nas cidades e, com as expedições, descobriram as doenças endêmicas do campo, a maioria relacionada à pobreza. Foi nesse período que surgiram o Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato, que mostrou como vivia o homem do campo, e a defesa do saneamento básico também para o campo.

Na época, foi realizado um mapeamento da fauna e da flora brasileiras e de relatos de como vivia a população. O trabalho dos sanitaristas também forçou a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública. Historiadores afirmam que, com as expedições, ainda foi possível acelerar a ocupação do interior brasileiro. Os sanitaristas percorreram mais de sete mil quilômetros e visitaram localidades da Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás.

Diretora do IOC e coordenadora das novas expedições, a médica Tânia Araújo Jorge explica que as viagens serão feitas em três etapas. Na primeira, prevista para a metade deste ano, as equipes da Fiocruz passarão pelas regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Segundo a médica, os estados nordestinos reúnem 59% do público alvo do Brasil Sem Miséria. Durante essa fase, as pesquisas e o trabalho com a população vão se concentrar em cidades de Pernambuco.

Já no Sudeste, os grupos promoverão idas ao Vale do Jequitinhonha, região de Minas Gerais com bolsões de pobreza, e ao complexo de favelas de Manguinhos, no Rio de Janeiro. No Centro-Oeste, serão visitadas áreas do Distrito Federal. Bahia, Ceará, Piauí e estados que integram a Amazônia farão parte das segunda e terceira etapas.

- Começamos o trabalho piloto em Paudalho por ter sido a primeira cidade a protocolar propostas ao programa Brasil Sem Miséria. Por outro lado, identificamos problemas crônicos, como falta de saneamento e doenças negligenciadas. Nossa equipe é multidisciplinar, e a ideia é promover atividades integradas e parcerias com os gestores e governos locais - explica a pesquisadora fluminense.

Com 51,6% das famílias vivendo com até dois salários mínimos, Paudalho pretende erradicar doenças ligadas à pobreza até 2015. A cidade é conhecida em Pernambuco pela forte atuação de movimentos que defendem a reforma agrária.

Ao ser indagada se muita coisa mudou 100 anos após as expedições científicas de Chagas, Neiva e Penna, Tânia Araújo Jorge diz que o trabalho de erradicação da pobreza avançou, mas ainda existem 16,2 milhões de pessoas nessa situação.

- Um mapeamento foi realizado no início do século passado. Hoje, o diagnóstico já está feito, mas as expedições têm como meta acelerar ações de combate à pobreza, que devem ser integradas a questões como renda e educação - detalha.

As expedições reunirão pesquisadores da Fiocruz das unidades do Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e Distrito Federal, e outros que atuam em parceria com universidades federais e estaduais. 


Texto de Marcelo Remígio 
Fonte: O Globo, 19 de fevereiro de 2012.
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6 comentários:

José Mendes Pereira disse...

Parabém pelo retorno às publicações, professor Adinalzir.Sempre acesso o seu excelente blog.

José Lima Dias Júnior disse...

A Fiocruz ao longo dos anos tem contribuído de forma decisiva para a história sanitarista do país.

Saudações históricas,
Prof. Lima Júnior

lucidreira disse...

Admiro muito essa Fundação, e será uma boa se caso vierem a fazer a mesma rota da época que os Sanitaristas que participaram da expedição.
Muito boa a matéria.
Abraço

Prof. Adinalzir disse...

Prezado José Mendes Pereira
Fico grato pela visita. Muito em breve estarei postando outros temas por lá. Abraços!

Prof. Adinalzir disse...

Prezado José Lima Dias Júnior
Seus comentários sempre precisos ajudam e muito a contribuir para o sucesso do Saiba História. Muito obrigado pela visita!

Prof. Adinalzir disse...

Prezado amigo Lucidreira
Desde de sua criação, a Fiocruz vem oferecendo importantes contribuições para o desenvolvimento científico brasileiro e mundial. Entre elas, destaca-se a descoberta da doença de Chagas, em 1909. Um grande abraço e valeu pela visita!

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